Notas iniciais
Texto de Ficção.

Dia 1

Eu nunca escrevi um diário antes, mas considerando tudo o que tem acontecido comigo... Eu acho que é uma boa ideia...
Como o meu máximo foram anotações de aula e listas de coisas pra fazer eu não sei se tenho o que é preciso pra escrever um diário, mas eu acho que é necessário.

Bom, meu nome é Gabriel e eu nunca precisei estudar pra memorizar as cosias que eu precisava. Memória fotográfica é o que dizem que eu tenho, mas na verdade eu sempre fui muito além. Aparentemente eu usava uma técnica de memorização sem nem sequer ter ouvido falar dela. “Mind Mapping” é o termo usado para associar outros sentidos com as suas memórias, como imaginar uma biblioteca.

Uma biblioteca sem etiquetas é muito complicada, então uma mente bagunçada seria o equivalente a uma biblioteca sem etiquetas, muito difícil de localizar algo. No entanto, por causa dessa memória fotográfica, que vinha bem a calhar, e um grande impulso por arrumação, minha cabeça sempre esteve organizada e tudo o que eu precisava era ler algo uma vez, ouvir alguma coisa ou simplesmente absorver qualquer tipo de informação sensorial para criar esse arquivo automaticamente.
Mas simplesmente ter o arquivo não é o suficiente. Com uma imaginação como a minha é fácil imaginar o espaço onde as informações estão armazenadas. Logo fica ainda mais fácil para acessar essas informações.
Resumindo, uma máquina de aprender sem esforço. Todo mundo vivia com algum tipo de inveja de mim, mas eu acho que eu nunca realmente cheguei a aproveitar esses benefícios ao seu máximo. Até então, pelo menos.

Foi em um verão, durante as férias, enquanto eu jogava uma partida de D&D com os meus amigos do colegial, que eu percebi como era fácil ser um mestre quando se decora todas as informações em um piscar de olhos. Sempre gostei disso, criar meus próprios mundos, minha mente sempre tinha algo preparado e ninguém se sentia entediado com a aventura.

Bom, eu digo que foi nesse verão porque... Bem, eu não tenho nenhuma memória depois disso. Eu simplesmente acordei e não era mais eu, mas ainda era eu por dentro, entende? Aparentemente isso é confuso até pra mim.

A primeira coisa que eu me lembro quando eu me dei conta de que eu não era mais eu foi, convenientemente, uma informação muito útil sendo discutida próxima de mim. Quer isso seja verdade ou não, era o que eu estava pensando na hora, é melhor guardar essa informação. A conversa se deu assim:

— Então ela simplesmente desmaiou? – Voz desconhecida, sexo masculino – Eu não acredito que ela desmaiou logo na primeira vez dela pra escolher um novo receptáculo. O ritual foi um sucesso, tudo o que ela precisava escolher era escolher um humano bom o suficiente pra ser o seu novo corpo. Era a primeira vez dela, mas eu nunca imaginei que fosse possível falhar em uma situação dessas.

— Pois é, estava tudo correndo bem, nada fora do normal, o círculo simplesmente desativou como se estivesse pronto, mas ela ainda estava com o corpo dela e estava completamente inconsciente. Nunca ouvi falar disso. – Segunda voz, sexo feminino.

— Vamos esperar que ela se recupere e depois tentamos entender o que aconteceu.

A conversa que aconteceu provavelmente no quarto onde eu estava não parecia ser sobre mim a princípio, a final de contas, eu sou um homem e, bom, eu não tenho ideia de que ritual é esse de que eles estão falando... Mas quando a porta se fechou eu olhei ao redor e não tinha mais ninguém no quarto além de mim. O quarto onde eu estava era completamente diferente de todos os quartos que eu já estive na minha vida, parecia uma caverna luxuosa, como se o quarto inteiro tivesse sido esculpido em uma pedra só.

Me perdi nos detalhes do quarto por um instante até reparar em algumas coisas...

1 – Luz de velas, não havia interruptor de energia elétrica em lugar nenhum e as luzes eram todas de velas, mas mesmo assim a iluminação não era precária... Ou eu estava enxergando melhor?

2 – O estilo da mobília era completamente diferente de qualquer coisa que eu já tivesse visto, eram feitos de metais e pedras preciosas, mas o seu estilo era completamente diferente dos móveis modernos, como se fossem da época do renascimento ou algo assim.

Não era um sonho porque eu me belisquei e senti dor. Aliás, foi nessa hora que eu percebi que a dor que eu senti não era de um beliscão normal, era mais forte, mas ao mesmo tempo mais delicada por causa das unhas compridas.

‘Unhas compridas...’ Eu olhei para o lado direito da cama, do lado do armário tinha um espelho. A luz estava relativamente fraca, mas quando eu me olhei não precisei olhar mais do que um segundo para entender que eu não estava no meu corpo.

A descrição pode assustar se você ler isso com algum tipo de preconceito, mas... Bom, foi o que eu vi, então não vou tentar usar eufemismos.

Eu não era mais um homem. Eu era, provavelmente, uma mulher. Digo provavelmente porque não sei se mulheres tem chifres na testa, mas agora eu tenho. Chifres, tatuagens simétricas que acompanham o contorno do rosto e descem pelos ombros até as mãos.

Eu pareço ter cerca de 16 anos? Provavelmente a mesma idade que eu tinha... Tinha, ou tenho? Agora eu fiquei confuso de novo.

Bom, eu me perdi nisso, mas eu sou um adolescente, já assisti filmes de troca de sexo e sei qual é a primeira coisa que se faz em uma situação dessas. Bom, acho que eu não preciso escrever isso aqui.

Mas é... Além dos chifres eu descobri um rabo liso como de um lagarto saindo do meu cóccix e um par de asas de morcego nas minhas costas.

...

Eu vou pular esse pedaço do meu dia porque foi muito estranho. Eu não estava entendendo nada então eu realmente achei que pudesse ser um daqueles sonhos realistas... Ou talvez porque eu estava jogando D&D demais... Então eu resolvi voltar pra cama e ver se quando eu acordasse eu voltaria a ser eu mesmo.