Diário de mármore: Maravilhoso novo mundo
4 vivos por um fio
Notas iniciais
Minha consciência retorna ao meu corpo de maneira lenta e gradual. O borrão preto que toma a minha visão vai se substituindo por um borrão branco. Os sons vão se tornando distinguíveis e noto que tem uma voz chamando por mim.
— Capitão… capitão… Gamma. Acorda por favor — implora uma voz chorosa enquanto me chacoalha, é a Elipse.
Conforme abro os olhos a vejo. Sua reação ao ver que eu acordei é de profundo alivio.
— Capitão, o senhor está bem?
— Toda essa dor é um sinal que ainda estou vivo. Ainda bem que inventaram a absolvição cinética — respondo soltando o cinto. Aproveito e me movimento um pouco, mas pelo o que aparenta não quebrei nenhum osso. Finto minha visão na Elipse para ver se ela está bem e noto que ela carrega uma arma. Em especifico uma pistola semiautomática, física de trinta e oito milímetros. A arma em sua pequena mão parece um canhão.
— Elipse, como estão os outros?
— A Emcy, o Morgan, Pascal e o Áurea sobreviveram. Não posso afirmar o resto, mas todo mundo está na enfermaria lá embaixo. — O tom da Elipse abaixa e ela desvia o olhar. — A Emcy e eu tivemos que segurar as pontas contra algumas dessas coisas.
— Por quanto tempo fiquei desacordado?
Elipse olha para sua caixa preta, o dispositivo exibe um relógio holográfico. — Trinta e três minutos.
Com a noticia me levanto da cadeira, mas antes de sair eu coloco minha digital sobre um leitor que fica no canto do painel. Um LED verde se acende e um compartimento se abre. Dentro desse compartimento tem uma arma que foi fabricada única especialmente para mim.
Um revólver Magnum ponto cinquenta com cartuchos de alto impacto. Ele é feito em aço inox e tem a coronha emborrachada. Pego a arma e a coloco no coldre que fica em minha perna. Logo depois eu e Elipse descemos para a ala medica da nave.
As luzes estão fracas, provavelmente foi ativado o modo de economia de energia extrema. Abrindo as portas manualmente eu entro na ala medica. Pascal, nosso especialista em medicina e biologia, está de um lado para outro cuidado do Áurea e do Morgam e ambos estão de cama.
— Capitão Gamma, ainda bem que o senhor acordou e está de pé. O senhor se feriu? — Sua voz está abafada por causa de uma máscara de cirurgia que usa. — A situação do Áurea e do Morgam não são boas. O Morgam estava na sala de armas controlando as armas e quando a nave caiu, ele acabou gravemente ferido estou fazendo o possível para tratá-lo. E o Áurea quebrou os dois braços no impacto.
Ouvir a noticia me dói o coração. Dou alguns passos até a cama do Áurea e ele está com os braços imobilizados por talas.
— Esqueceu de soltar o manche na hora do impacto? — pergunto ao meu copiloto.
— É, acabei cometendo o erro por causa do desespero.
— Sinto muito, vou fazer o possível para ajeitar as coisas. Descanse até lá e —
De repente sou interrompido pela porta da ala medica se abrindo e a Emcy entra no recinto. — Capitão Gamma!
Aceno a cabeça rápido e o Áurea copia o gesto. Logo me levanto e vou ver o oque a nossa imediata de comunicações e logística precisa.
Fico surpreso que ela trocou seu uniforme espacial por um macacão de mecânico. Lembro de ela mencionar essa roupa e que não via a hora de poder vesti-la assim que pousássemos. O macacão contém vários bolsos e eles já estão entupidos de ferramentas e sondas.
— Capitão, ainda bem que o senhor acordou. Assim que neutralizamos as criaturas corri para tentar restaurar as comunicações e alguém já tinha quebrado o silencio de rádio com uma mensagem codificada. — Enquanto fala, Emcy estende o braço exibindo a sua caixa preta.
Estendo a minha e elas fazem a sincronia. Um painel é ativado em minha caixa preta e nela aparece o que foi dito.
“Atenção a todas unidades. Com a queda da Mother pedimos que todas as unidades restantes se aloquem para o setor número dois, estaremos reagrupando para uma investida”
— Olha, isso significa que outras tripulações sobreviveram! — comenta Elipse por cima de meu ombro.
Eu por outro lado puxo um mapa geral do planeta pela caixa preta. A área número dois está a pelo menos a cem quilômetros ao norte. Isso saindo da floresta e atravessando o planalto.
— Não vai dar para irmos com a atual situação da nave e de nossos tripulantes. — Corto a boa notícia com a pesada realidade e todos em volta me olham com aflição. — Porém não posso deixar essa oportunidade passar, talvez seja a nossa única chance de conseguir algum suporte. Principalmente com a ausência da Mother.
— O que você pretende fazer? — Pergunta Emcy e Elipse.
— Temos alguma forma de nos comunicar de volta sem entregar a nossa posição?
— Infelizmente não, posso tentar consertar nossos emissores, mas pode demorar. Sinalizadores e feixes de luz estão forra de cogitação. E o rádio sofre fortes interferências graças a zona escura que está sobre nós.
— Já que é assim, vou atravessar o território inimigo e buscar por alguma ajuda.
— Senhor, com todo o respeito, eu e a Elipse só conseguimos eliminar aquelas coisas com eficiência graças as torretas do Morgam. Atravessar isso tudo é loucura!
— Mas necessário, como capitão, minhas prioridades são manter a sobrevivência de vocês e garantir o sucesso dessa expedição, ambas estão por um fio. Pascal, Emcy e Elipse; eu ordeno que vocês cuidem dos sobreviventes até eu voltar.
— Sim senhor! — Responde o Pascal e a Emcy batendo continência. A Elipse até presta o respeito, no entanto fica quieta. Se eu fosse um superior mais rígido exigiria uma resposta clara e em bom tom, mas dada a situação delicada prefiro ser o mais humano possível.
Deixo-os na ala medica e tomo rumo ao armazém armamentista. Preciso me preparar para o grande dia que foi nos prometidos.
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