Se passou mais de meio dia desde a queda da Mother 3. As árvores gigantes vão perdendo espaço para plantas menores e o solo se vai tornando mais pedregoso. Porém essa vegetação de porte “normal” para um padrão terráqueo, não está exatamente normal. A trombeta de guerra fez que todas as árvores mais flexíveis se inclinassem para o lado oposto a Mother.

Nessa parte da floresta também tem uma mudança de clima. Sem as árvores gigantes e com as planícies de pedra logo a frente, os ventos tomam força e assoviam pela vegetação composta de espécies equivalentes as pteridófitas que tínhamos na terra.

— Já finalizou as coisas aí? — Pergunto a Elipse enquanto retiro a minha espada do crânio de uma nova gárgula que abatemos. Essa também é diferente das outras, ela não só voava com turbinas, mas também usava a língua como um chicote. Meu escudo foi posto à prova nesse ultimo combate.

— Sim! Mais uma amostra de D.N.A extraída com sucesso. Não vejo a hora de conseguir analisar isso tudo com mais calma. A biologia dessas criaturas é impressionante!

Após uma dissecação na medula do monstro, a Elipse guarda dois fracos cheios de células tronco da gárgula em sua mochila.

— É... ficaria mais feliz em estudar criaturas que não são um risco para a nossa integridade física — comenta a cientista.

— Eu também — concordo com ela tirando de meu bolso a luneta. — Essa é a quarta variante confirmada, certo? Por onde essas coisas estão vindo.

Sondo a área por onde vamos avançar e noto algo de estranho. Há pontos que o infravermelho não funciona como deveria. A imagem fica estática como se algo estivesse interferindo nas leituras.

Ficar parado sem tentar entender o que essas criaturas estão fazendo é entregar essa guerra para o inimigo. — Em movimento — Ordeno.

Sigo em direção a um dos pontos grandes de interferência e o observo. A olho nu ele não parece ser nada demais, apenas mais uma clareira na floresta.

De repente o comunicador da caixa preta bipa e um ruido indecifrável sai dele.

— Ehh... Capitão —

Desvio minha visão para a Elipse e seus cabelos estão se arrepiando. Um efeito comum de fortes campos magnéticos. Ligo os pontos e arregalo meus olhos, no mesmo instante corro em direção a Elipse.

— Temos que sair daqui agora! — Grito armando meu gancho, mas ele falha por conta da diferença de magnetismo dessa área.

E então um raio explode próximo de nós. Uma luz azul atravessa meu corpo e eu sinto a eletricidade rasgar minhas células. Diante de nós se abre uma fissura que solta relâmpagos e de dentro dessa fissura mais uma gárgula surge.

Uma quadrupede com as garras dianteiras semelhantes a âncoras.

A primeira reação que tenho é a de pegar no cabo de minha arma, mas então eu sinto alguma coisa me puxar, minha lâmina, bolsa, meu revólver e minha caixa preta estão sendo atraídas para a direção da criatura.

Tento soltar o equipamento, no entanto quase arrancando meus braços sou puxado como se fosse um chicote, não pela criatura, mas para o portal que se abriu.

E em um instante sou jogado de cara em um chão. A queda me faz machucar a testa e a dor do choque elétrico que tomei ainda persiste em meu corpo. Pelo menos isso é um indicativo que ainda estou vivo.

— Ahhhhh! — De repente um grito feminino traça o ambiente e a Elipse cai em cima das minhas costas me gerando ainda mais dor.

Ainda com o surto de adrenalina me forço a olhar para onde estamos. Mas tudo que vejo são centenas, não milhares de gárgulas penduradas num teto do que parece ser um templo abandonado.

A estrutura tem um formato circular e no centro de tudo está a mão esquerda gigante. A mesma que derrubou a Mother e que agora parece que está toda ferida.

A iluminação não ajuda muito, o ambiente está escuro e o pouco que vejo é por meio de flashs de luz gerado por portais que se abrem e se fecham em diferentes cantos do ambiente cavernoso.

— Mas onde — Antes que eu termine a frase, Elipse cobre minha boca.

A alguns metros de nós outro portal se abre e sinto minhas ferramentas serem atraídas novamente. A diferença é que estamos longe o suficiente para a atração não ser capaz de nos puxar.

E então caminhando de maneira desapressada uma gárgula quadrupede atravessa um portal e ele se fecha. Descrentes de onde viemos parar, Elipse e eu apenas ficamos imóveis, ao ponto que nenhum de nós dois ousa respirar.