À medida que os dias iam passando, o rapaz costumava tomar mais e mais consciência da passagem do tempo – coisa que não lhe era frequente há alguns anos.

Em dezembro do ano anterior, iniciara um novo regime de acompanhamento nutricional. Somado a ele, o uso de novos medicamentos, bastante popularizados entre a juventude e com ampla atenção da mídia (que os apelidara de “canetinhas emagrecedoras”) e a tentativa de manter uma rotina mais ou menos frequente de atividade física.

Chegávamos, então, ao mês de setembro. Agora, sem sombra de dúvidas, parecíamos estar mais perto sem dúvida alguma do fim do ano mais do que o já aparentemente longínquo início do mesmo ano civil.

Aquele momento do calendário encontrava o rapaz diante de uma perda de 17 kg de massa gorda. Isso, pelo menos, em se levando em conta os dados obtidos com seu médico endócrino e com sua nutricionista nas últimas consultas, ocorridas um mês atrás. Por diversos receios e traumas que já tivera com a balança em ocasiões anteriores e a aparentemente interminável batalha contra o sobrepeso e os riscos da obesidade e das doenças crônicas, não tinha o hábito de se pesar com frequência. Deixava isso a cargo do médico e da nutri, que sempre o faziam em suas consultas. Voltaria ao médico apenas no fim do ano, mas iria para a nutricionista ainda nesse mês. Pelos comentários que ouvia na rua e em outros ambientes, a impressão para o “público externo” era de que sua perda de peso já parecia até um pouco maior. Tomara que seja verdade...

Desde janeiro estava imerso, também, em novos vínculos empregatícios – alguns renovados, outros recém-conquistados. A rotina de lecionar agora se apregoava em seu cotidiano de forma menos parecida com um fardo e mais parecida, no momento, com um prazer – algo de bom era o que sempre sentia ao fim de um dia de labuta, por estar enfim atuando na sua vocação de fato. Depois de anos atuando com graduações diferentes da sua própria, e em áreas de trabalho bem distintas de sua formação inicial, voltar ao seu campo de origem, lecionando sobre a história de eras passadas para os jovens discentes que trilhavam o caminho do ensino básico, trazia uma sensação não apenas de “conforto”, mas de alívio. Parecia que, enfim, o seu esforço, empenho e dedicação estavam lhe trazendo resultado.

Ansiava também pela conclusão da formação de Bacharel em Jornalismo/ Comunicação Social – um desejo antigo que se fortalecera com o passar dos anos. Apesar de vislumbrar as inúmeras possibilidades que o ramo lhe oferecia no horizonte, estava focado em seus labores atuais e em completar certas metas que possuía para aquele ano e para aquele momento singular pelo que estava passando.

Sua situação financeira, que tanto o incomodara nos últimos anos, parecia enfim estar se encaminhando para um desfecho satisfatório, no que se configurava em uma das metas que havia traçado para aquele momento específico que vivenciava. O prazer pelo trabalho e a busca por novas oportunidades vinha sendo justamente o seu motor na busca pela conclusão daquele objetivo. Pensava em tudo que lhe havia acontecido – desde se submeter a vários vínculos empregatícios simultâneos até mesmo aceitar auxílios e doações de “estranhos”, por vezes na forma de Vakinhas virtuais ou de doações espontâneas. (Evitava, até mesmo, utilizar a palavra “empréstimo” quando conversava sobre sua situação com essas pessoas, para ilustrar o quão longe sua situação havia chegado.)

É bem verdade que dentro de si, uma parte dele achava que seria válido ainda aceitar auxílio de “estranhos” para alcançar seu objetivo, seja na forma de doações, seja na forma de outras Vakinhas – tanto novas quanto uma possível retomada das Vakinhas que já haviam acontecido, quando outras pessoas se sensibilizaram e se solidarizaram com sua situação a ponto de enviar-lhe auxílio sem críticas, sem ressalvas ou sem fazer juízo de valor. “Ah... Deus sabe o quanto isso seria bom, o quanto isso ajudaria, mesmo”, era uma espécie de “mantra” que ele pensava consigo mesmo, por vezes, mesmo repetidas vezes, numa tentativa de se confortar. Mesmo não desistindo completamente da ideia, ele mantinha seu foco em objetivos mais palpáveis, que o fariam, provavelmente, também alcançar seu objetivo, mesmo que de uma forma demorada.

Ah, e por falar em demoras...

Era como se cada dia ele ansiasse para que AQUELA demora em específico estivesse cada vez mais próxima de terminar. Cada oração, prece, pedido, era direcionada a esse objetivo... Algo que não dependia só dele. Mas ele acreditava que estava “cumprindo” seu papel de aguardar, ainda que à “sua maneira”, de forma apropriada. Todo dia ele acordava, em seu íntimo, novamente com a esperança “renovada” ou outro nome que estes leitores prefiram usar, desejando e torcendo para que aquela espera finalmente encontrasse sua linha de chegada. Quem sabe...