Nunca me considerei um homem obsessivo. Pelo contrário, até: na minha juventude, era razoavelmente comum abandonar projetos pela metade simplesmente por cansar de dedicar tempo aos mesmos, ou abandonar a leitura de um livro quando comprava um novo em alguma livraria escusa e empoeirada nos incontáveis becos da cativante e misteriosa New Orleans. Odiava dedicar mais tempo que o necessário a qualquer atividade, e raras (mas inteiramente necessárias) foram as vezes que o fiz.

Mas aquele livro pesado diante de mim me dizia que havia algo ali. Algo a ser descoberto. Podia passar de uma simples impressão minha, mas após tudo que passei, infelizmente essa intuição estava correta. O que passei e descobri é de importância vital para que, com este relato, outras pessoas possam reconhecer uma ínfima fração do terror inominável que presenciei. Mas bem, acho que certas divagações são desnecessárias, mas admito que por vezes me perco nelas. Enfim, hora de continuar de onde parei.

Aquele nome não me dizia nada. Necronomicon. Resolvi abrir o livro em busca de alguma resposta, mas antes, dei uma rápida folheada, começando pelas últimas páginas, e passando rapidamente até a primeira. Notei que haviam centenas de notas de rodapé, páginas mais novas anexadas ao livro, certamente com anotações esclarecedoras, e diversas figuras e mapas, tanto originais quanto desenhadas décadas, ou até séculos após a impressão do volume.

Finalmente, abri a primeira página, onde o nome Necronomicon, numa fonte gótica e de cunho oficial. A página parecia bem mais nova que as demais. Um subtítulo, numa fonte serifada me fez ter um pequeno acesso a um tremor frio apenas por passar o olhar naquelas palavras. Lia-se, logo abaixo to título do livro, O Livro dos Nomes Mortos. Confesso que, se não fosse a crescente curiosidade em saber do que se tratava aquele misterioso exemplar, já o teria devolvido à prateleira. Queria que assim o fosse.

Finalmente, comecei a passar as páginas, observando as estranhas figuras, lendo cada anotação sinistra e tentando entender cada misteriosa passagem, aparentemente pobremente traduzida, pois as sentenças eram completamente desconexas entre si. Mas, mais do que cada sentença, uma imagem me prendeu a atenção. Um ser, retratado como um monstro de tamanho titânico, cuja cabeça se assemelhava a um polvo com seus inúmeros tentáculos, e ostentava asas draconianas enormes, desenhado sentado num trono de pedra, que mais se assemelhava a uma montanha, me encarando, solene e assustador. Olhei daquela gravura para a maçaneta dourada da porta, que se encontrava entreaberta, ornada com um rosto abissal, assustador, com tentáculos e olhos terríveis. Eram as duas, sem sombra de dúvida, a mesma criatura. Abaixo da estranha criatura, lembro-me perfeitamente de ler uma anotação, aparentemente uma tradução de um verso numa língua misteriosa que se encontrava na página ao lado. Lia-se:

No trono submerso pelas águas eternas

No templo que se esconde sob a luz de Aldebaran

O sacerdote do terror espera

Palavras enigmáticas. Mas eu, naquela hora sabia, que meu pai tinha alguma relação estranha com aquele tenebroso e vil livro. A maçaneta de seu escritório era ornada com aquela face demoníaca da criatura cuja gravura se encontrava no livro. E aquela letra, curvada e um tanto trêmula, era mais que familiar para mim. Afinal, um filho certamente reconheceria a letra do próprio pai. E, no fim das contas, havia mais do que simples curiosidade nas horas que ele passava a fio naquela penumbra sufocante de seu escritório. Nenhuma curiosidade, por mais mórbida que fosse, permitiria a um ser humano comum trancafiar-se daquela forma. Era certo que havia algum tipo de obsessão.

Continuei a procurar anotações do meu pai nos rodapés ou em folhas anexas, e não demorou muito para uma anotação em especial chamar minha atenção. Num papel amarelado, aparentemente escrito às pressas, a letra do meu pai deitava-se, anormalmente trêmula e distorcida. Mais uma anotação, tão enigmática quanto a anterior, mas que, aparentemente, era mais do que uma simples tradução. Parecia dirigida a quem tivesse o livro em mãos. Quase como um enigma a ser resolvido.

Que caia por terra todo o conhecimento humano

Só assim a busca pela verdade pode ter início

Meu pai era enigmático. Sempre foi. Até quando contava histórias para mim antes de dormir, sentia que não eram histórias de simples entendimento. Ruminava aquelas narrativas estranhas, cheias de simbolismo até pegar no sono. Eu sabia que não eram o tipo de histórias que os pais contavam para os filhos antes de dormir, mas, no fundo, eu gostava de toda aquela complexidade diante do simplismo das histórias comuns e inocentes.

Assim como naqueles contos bizarros que meu pai me contava, ruminei essas palavras enigmáticas enquanto observava sua letra incomumente trêmula. Sei que passei horas pensando no significado daqueles dois versos. Certamente havia um teor diferente naquilo. Era certo que havia algo a ser descoberto entre aquelas linhas.

Quando me dei por mim, observando a esmo os arredores, já com a luz da lua adentrando pelas janelas em vez da intensidade quente do sol. Como um raio, meus olhos dirigiram-se à estante de livros. Conhecimento humano. Sim. Todo o conhecimento humano está registrado nos livros. Naquela hora, eu soube o que fazer. Levantei-me rapidamente, a garganta apertada de curiosidade. Naquele ponto, essa curiosidade já havia suplantado completamente o desconforto que eu sentira quando abrira a porta. Encarei a estante abarrotada de livros de baixo para cima, subi na escada e, comecei a derrubar todos aqueles volumes. Quem quer que tenha puxado aquele livro anteriormente, certamente não conseguira decifrar aquele enigma.

Os livros caíam pesadamente no chão, soltando poeira, pequenos papéis e marcadores e até insetos mortos em seu interior. Finalmente, encontrei uma pequena agenda de capa escura no fundo do armário. Estiquei-me para alcançá-la. Agarrei-a com minha mão direita e puxei-a até mim. Certamente estava lacrada havia anos. Com certa dificuldade, abri o lacre de ferro, e finalmente abri aquelas páginas ainda conservadas pela pouca exposição ao ambiente. Deveria estar à anos naquele mesmo lugar, protegida de qualquer umidade ou inseto. Apenas a primeira página estava inteira, e uma anotação do meu pai podia ser vista no centro da página.

Toda jornada começa com uma porta

Toda porta só pode ser aberta com uma chave

Quando a porta for aberta, não há mais volta

Se você os ver, eles o verão.

Aquela advertência aumentou o aperto na minha garganta. O que quer que meu pai estivesse tentando esconder, parecia perigoso o suficiente para manter escondido. Como eu queria que o medo tomasse conta de mim naquele momento! Como eu queria que a covardia suplantasse minha crescente curiosidade!

Folheei o livro, e encaixada entre as dezenas de folhas recortadas no centro, estava uma chave. A chave que abriu a porta para um pesadelo indescritível. Para uma obsessão quase suicida.