Notas iniciais
Ooi, gente, bom domingo! O primeiro capítulo tá liberado! Vamos descontrair um pouco com uma ceninha dos dois ♥ Boa leitura! ♥

Encino, Califórnia – 09:22 hrs

5 de abril, 1983

— Eu estava pensando em… "Lesson One", o que acha?

— É bom… se você quiser assustar algum estudante do fundamental.

Paul suspirou, já até imagino a cara de tédio que ele fez. Dei um sorriso cínico (que infelizmente ele não pôde ver) e levei o telefone pro outro lado do meu rosto.

— Tem outra ideia, "gênio"?

— Essa música é muito chicletuda, você devia usar isso ao seu favor. Qual é o refrão dela mesmo?

— "Me dê uma chance…"

— Tá aí! Que tal "Take on me"?

— Nem vem, vamos ser zoados aí, cara! Esse termo nem tá escrito do jeito certo, coloquei somente pra manter a estrutura harmônica.

— Ah, não trabalho com esses termos técnicos — confesso que acabei pegando esse costume do Michael. Se ele precisa de um determinado som, ele faz com a boca, ele canta as próprias composições sem necessidade de passá-las pro papel, ele otimiza o tempo de uma maneira criativa e eu queria que o A-ha também fosse mais desapegado dessas formas padronizadas de fazer música. — "Take on me" tem presença, é original! Não parece uma lição de casa açucarada, mas sim algo que desperta curiosidade.

— Okay, okay, vejo isso depois. E como estão as coisas por aí?

— Ah… — segurei um suspiro. Nem eu mesmo sabia responder essa pergunta — bem, tá tudo bem.

— O seu assessor já falou quando vai buscar a gente?

Engoli seco.

— Ele… eu vou fazer um show no mês que vem, com uma composição sua. Se eu conseguir um público bom, que faça os olhos dele brilharem, vamos ficar mais perto desse sonho.

— Então você tem que cantar a melhor. Qual vai ser?

— Eu já tô com tudo sob controle, não esquenta.

— Cara, pensa bem, não canta "Take on me" agora, a gente precisa treinar os seus falsetes.

— Viu? Até você gostou do nome!

Eu ri, e ouvi ele resmungar alguma coisa, já aceitando a derrota.

— Eu vou desligar, daqui a pouco vou dormir.

— Beleza, até depois.

Assim que desliguei, tirei um peso dos meus ombros. Explicar toda a minha situação com o Branca era complicado até mesmo pra mim, e eu não podia desanimar os caras, agora, em reta final. Eu precisava do máximo deles nesse momento, eu estava a pouco de fazer a minha primeira grande apresentação, era a hora de mostrar a esse país por que eu estou aqui e por que nós perseguimos esse sonho.

Estava no estúdio de Hayvenhurst, absorto em pensamentos, quando ouvi o barulho da porta se abrindo. Ajeitei o violão que se encontrava apoiado no banco onde eu estava, olhei para direção do som e vi o Michael se aproximando com um pacote macio nas mãos. Ele sorriu de canto a canto, eu só podia imaginar que ele estava aprontando alguma coisa.

— Está aprontando alguma coisa?

"Você tem que estar aprontando alguma coisa".

— "Eu disse que você está aprontando alguma coisa"...

— "Você tem que estar aprontando alguma coisa!"

Nós gargalhamos em seguida. Eu adorava "Wanna be Startin' Somethin'", tive a oportunidade de ouvi-lo cantar em estúdio, ele quis dar alguns retoques antes do lançamento no mês que vem.

— Eu só queria te dar um presente por você ter aturado as minhas… "peculiaridades"... até aqui.

Arqueei a sobrancelha. Acho que eu estava fazendo alguma cara engraçada, porque ele segurou uma risada e puxou um banco pra se sentar perto de mim.

— Sabe… esses meses foram mais divertidos que o meu ensino médio inteiro, eu que devia agradecer.

— Nesse caso… de nada.

Ele sorriu e me cedeu um pacote vermelho amarrado com um barbante fino e dourado. Assim que eu peguei o presente, desatei o fio e desembrulhei. Normalmente eu não vibro com presentes, é difícil conquistar um cara com essas coisas, mas parecia que ele havia adivinhado meus desejos capitalistas quando fez aquela escolha para mim.

Levantei o item pra observar melhor. Era uma jaqueta preta de couro sintético, bastante preta, bastante brilhosa, na mesma pegada do John Travolta em Grease. Eu lembro quando confessei para a Judy que queria uma… Como ele sabia disso??

Michael juntou as mãos no colo e sorriu como uma criança.

— Gostou?

— Tá brincando?! — me levantei e a vesti sem pensar duas vezes. Ele riu com a minha empolgação — Ei! Tô ou não tô um perigo?!

— Quem tem que dizer isso são os seus brotinhos — ele comentou, mantendo o sorriso no rosto. Ele se contém até mesmo nas minhas brincadeiras, vou tentar ser mais incisivo numa próxima vez.

— Bom, de qualquer forma, obrigado. Como soube que eu queria uma jaqueta preta de couro?

— Eu tenho meus contatos. Mas ainda não terminou…

— Não?

Ele balançou a cabeça negativamente e se levantou.

— Você tem me levado pra sair quando mais ninguém fez isso. Você me leva pra lugares comuns, que eu também adoro, e faz das minhas folgas divertidas. Eu acho que isso merece uma retribuição.

— Opa, espera aí… Também vai me levar pra sair?

Ele sorriu e não respondeu mais. Entendi imediatamente.

— Fica pronto às oito.

Dito isso, ele se retirou da sala, me deixando sozinho. Confesso que não consegui mais ensaiar, passei o dia todo pensando em onde o Michael me levaria.

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Ruas de Encino – 20:10 hrs

Eu sequer sabia pra onde iríamos, então vesti o que há de mais casual: uma calça azul marinho, coturnos escuros, camisa branca sem mangas, pulseiras de cordões, minha nova jaqueta preta e estava pronto pra noite!

Ele parecia calmo, como se tivesse planejado tudo durante a semana. Vestia um casaco azul fechado, calças da mesma cor e all stars vermelhos (meu tipo de tênis preferido).

— Pra onde a gente vai? Um clube? Jogar boliche? Cassino?

— Você não é o cara dos desafios? Pensei em nos arriscarmos um pouco hoje…

Arqueei a sobrancelha e olhei pra ele imediatamente.

— Você? Querendo arriscar?

Michael gargalhou e levou as mãos aos bolsos, caminhava tranquilamente, como se apenas fôssemos pedir uma pizza… como se ele não fosse um super astro andando por aí.

Não disse mais nada, seguimos em silêncio durante toda a viagem. As ruas de Encino, naquela hora, estavam curiosamente desertas. Michael levantou o capuz, sabia que era arriscado, que poderia ser mais uma vez confundido com um fora-da-lei, mas o fez mesmo assim. De qualquer forma eu nem tinha capuz, então usei a minha “imunidade” idiota pra, quem sabe, evitarmos qualquer tipo de abordagem policial.

— Aqui.

Ele me guiou até um pub pouco movimentado, entre uma viela e outra cheias de camburões de lixo e cachorros de rua. Eu dei uma olhada no exterior do local antes de absorver a ideia: parecia a fachada de um motel, com luzes vermelhas piscando e uma ou outra garota de programa fazendo ponto. O chão cintilava com a água da chuva que havia acabado de cair no fim da tarde daquele dia. Adentramos e o ambiente interno parecia mais confortável que o de fora: sem palcos de striptease, sem cafetões, apenas pessoas que acabaram de sair do trabalho e alguns adolescentes fujões. A iluminação era baixa como nas casas noturnas, mas as cores tinham tons quentes e padronizados, me fazendo entender que aquilo definitivamente não era uma boate. A música também era legal e agradável, algo que você gostaria de ouvir pra relaxar um pouco. Tinha um bar, um palco não muito extravagante, penduricalhos brilhantes, plantas falsas nos cantos, algumas mesas e jogos de azar. Era a mistura perfeita do lícito e do ilícito.

— Onde a gente tá exatamente…?

— Eu tive que me abrigar aqui, uma vez. A chuva me pegou desprevenido.

Michael abaixou o capuz, como se estivesse em casa. Eu quase morri do coração naquela hora; corri e fiquei diante dele.

— Ei, ei! Tem certeza de que quer se arriscar aqui? Acho que não tem nenhuma irmã sua esperando pela gente lá fora.

— Ninguém acreditaria que eu estaria num lugar desses a essa hora, fica calmo — ele sussurrou e sorriu como se estivesse com tudo sob controle.

Decidi confiar nele.

— Pra onde vamos?

— Quando a gente se conheceu, você me disse que gostava dos Beatles, não é?

— Hurum.

Fomos até uma jukebox no canto do salão. Michael tirou uma moeda do bolso e escolheu uma música do álbum Abbey Road. Quando a melodia começou, a reconheci naquele mesmo instante. Psicodélica... moderna… “Come Together”! Aquele era o tipo de melodia que fazia a gente desacreditar que se tratava de uma banda dos anos 60. Era atemporal! Era o nível que qualquer artista de respeito gostaria de chegar. Não era a minha número 1, mas estava no meu top 5 dos Beatles.

Pelo visto no dele também. Michael se virou pra mim, semicerrou o olhar e lentamente desceu o zíper do casaco enquanto dava alguns passos para trás. Ele sorriu pra mim, um sorriso de canto, de que estava aprontando, eu conhecia bem aquele sorriso malicioso.

“Lá vem o velho mais chato, ele vem…

gingando lentamente, ele tem…

olhos mágicos, ele é…

um rolo sagrado, ele tem…

cabelos até os joelhos

Tem que ser o piadista, ele só faz o que quer!”

As luzes do ambiente enfraqueceram, com exceção de poucas luminárias espalhadas pelo salão. A iluminação apenas seguiu o Michael e a sua voz, naquele momento eu me senti dentro de um clipe musical real. As pessoas ao redor nos assistiam como se fôssemos dois showmen, e eu olhava, tentando entender tudo aquilo.

Eu devia estar muito confuso naquela hora, mas então o próximo refrão começou. Michael subiu numa mesa sem pensar duas vezes e voltou a cantar. Eu parei de tentar entender o meu redor, a voz dele estava começando a inundar os meus pensamentos.

Mal me dei conta e já estava mexendo a cabeça.

"Ele diz: eu te conheço, você me conhece…

Uma coisa que posso te dizer é que você tem que ser livre!"

Nesse momento, ainda com as mãos nos bolsos, eu apoiei o meu pé na cadeira e o acompanhei na música.

"Venha junto! Agora mesmo…

Comigo!"

Michael segurou uma risada e eu enfim entendi que tudo aquilo era somente pra ser divertido. A gente podia ser expulso, ele podia ser reconhecido, mas foda-se, simplesmente foda-se! O que importava era aquilo ali, era aquele momento.

Eu confesso que me arrependi um pouco de não ter levado minha câmera, mas a sensação passou quando ele me puxou pra mesa, novamente meus pensamentos se concentraram em suas atitudes. Michael desapareceu no escuro e eu era agora o centro das atenções. A música corria nas minhas veias, não havia espaço pra timidez ou nervosismo. Eu senti como se o palco, mesmo aquele improvisado, fosse a minha segunda casa.

"Ele desce a montanha-russa, ele tem…

um aviso prévio, ele tem…

água barrenta, ele é…

um filtro de feitiços, ele diz…

um e um e um são três

Tem que ser bonito, pois ele é tão difícil de ver!"

Puxei o Michael pelo braço, agora nós estávamos no centro da mesa. Ele sorriu, não largou minha mão, não desviou do meu olhar, nossas vozes se expressavam pela gente.

"Venha junto! Agora mesmo…

Comigo!"

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21:03 hrs

Estávamos no teto do pub. Eu sei, eu sei… isso podia ser um título de alguma coluna de revista aleatória: "saí pra curtir e acabei no teto do pub". Mas havia uma explicação… aquelas pessoas que nos assistiram eram a equipe do Michael! Ele alugou o pub por algumas horas e chamou alguns dos seus amigos, que faziam parte da sua equipe de apoio, pra me assistir cantando. Não é novidade que eu sempre reclamei pra ele da minha ansiedade em iniciar a carreira do A-ha, e o Michael havia levado mesmo isso a sério. Essa atitude não passou despercebida por mim.

Michael estava sentado ao meu lado, abraçando os próprios joelhos. Eu estava mais largadão, também sentado junto a ele, observando as estrelas.

— Posso dizer que essa foi sua primeira vez se apresentando na américa?

Soltei um riso curto.

— Pode. Fazia um tempo que eu não me sentia bem assim… Senti como se o palco fosse minha segunda casa.

Michael sorriu.

— Se você sentiu isso, você está mesmo destinado à música.

Olhei pra ele e sorri, às vezes Michael inflava muito o meu ego, eu tinha receio de me iludir demais, mas eu também não podia permitir que os meus medos me botassem pra baixo. Se eu estava ali, eu era merecedor.

Acho que me perdi nos olhos dele, pois o moreno desviou o olhar de forma acanhada. Aquilo me fez perceber que era um bom momento pra tentar outra investida. Eu era muito porra louca mesmo… eu não fazia ideia o que é que eu iria ganhar com isso, mas eu queria arriscar.

— Ei… — eu disse, Michael olhou pra mim — obrigado. Você fez por mim o que quem devia fazer não fez.

— Uma indireta pro Branca? Toma cuidado quando estiver diante dele.

Rimos no mesmo instante.

— Eu vou tomar…

Mordi os lábios. Naquele momento vi que ele olhava para o céu. Me aproximei, nossas mãos se tocaram mais uma vez, ele não fez nada para repelir, vi aquilo como um sinal verde. Dei mais um passo e levei os lábios à sua bochecha. Ele não recuou e aquilo me deu segurança.

— Obrigado…

— Você já disse isso… — Michael olhou pra mim, segurando um sorriso bobo. Eu tentei segurar uma risada, nem sei se tava dando certo.

— Ah, qual é… Você disse que não tinha mais nenhuma atitude estranha ou constrangedora entre a gente.

— Estou começando a pensar que você levou a frase longe demais — ele riu, em seguida se aproximou, segurou o meu queixo e beijou minha bochecha, me deixando com um nó na garganta. — Não tem de quê.

Não falei mais nada naquela noite, nem quis perder aquele momento, avancei mais uma vez e beijei o seu rosto novamente. Ele retribuiu com um beijo no meu queixo. Eu revidei na sua orelha direita, depois no canto do seu maxilar. Ele beijou o meu pescoço. Naquela euforia, não consegui chegar na sua boca, ouvimos algumas vozes nos andares abaixo e acho que nós dois ficamos com medo de arriscar mais.

Ele suspirou.

— É coisa de amigo…

Eu sorri de canto e concordei em silêncio. Sim… de amigo…

Notas finais
Próximo capítulo: — Me deixa te beijar de novo… — Morten, não… — Por favor… sério, me deixa beijar sua boca — confessei, e ele me olhou com surpresa, como se pudesse me enganar com aquele olhar. — Michael, não finja que não sabia… — Você tá maluco?! A gente não pode! — ele fez o impossível pra falar aquilo o mais baixo que conseguia, porém eu vi a sua indignação com as minhas palavras. Imaginei que ele reagiria assim, mas me surpreendeu saber que não era raiva por eu ter cogitado algo entre a gente, era frustração por se sentir impedido. Ele não podia, e eu sei bem o motivo — Se alguém pega a gente... se o meu pai descobre, se a mídia fica sabendo disso…! — Você gosta de mim, não gosta?