Diário de 83

30 Caçando Insaciavelmente Uma Aprovação


Los Angeles, Califórnia – 22:30 hrs

18 de setembro, 1983

Depois de passar a noite em Los Olivos, retornamos à Los Angeles a tempo pro show.

Descansamos como pudemos, treinei a voz, passamos o som, todo aquele dia foi extremamente cansativo, física e mentalmente. Eu estava esgotado, mas não ia fraquejar agora… uma linha tênue me separava dos meus objetivos e eu só precisava atravessá-la.

Faltavam alguns minutos para o show começar, mas eu podia adiantá-lo se quisesse, assim disseram os membros de apoio. Vozes no meu ouvido se chocavam umas com as outras; Paul, Magne, outras pessoas que eu não conheço, todas tentando me convencer de alguma coisa, mas eu neguei tudo. Eu não começaria mais cedo, haviam outras coisas que eu queria fazer antes de transformar o palco na minha segunda casa. Todos aceitaram a minha escolha, sabiam que, sem mim, o show não iria pra frente de qualquer forma. Eu peguei meu casaco e tomei a escadaria nos fundos pra ver o público do alto, busquei o Branca com os olhos e o vi conversando com alguns engravatados. Identifiquei na área VIP: John Branca, Steve Barron e Quincy Jones. Michael havia me dito que viria, ele deve estar em um lugar mais reservado.

Suspirei.

— Ei…

Era a voz do Magne. Ele ficou à minha direita, e o Paul à minha esquerda.

— Esse é o show das nossas vidas — comentei.

— E não vai ser o último — Paul complementou.

— É… — eu não conseguia falar mais do que isso. Um turbilhão de pensamentos passavam pela minha mente, um turbilhão de emoções sufocavam o meu coração. E eu não podia contar tudo o que me afligia, eu não tinha coragem, eu não estava pronto — Desde o começo, fomos subestimados. O Branca tem algum respeito por mim, mas não por nós, não pelo A-ha.

— Vamos mostrar que ele está errado — Magne falou.

— Precisamos dar tudo de nós nessa hora. Nossos ensaios estão bons, nossas músicas são excelentes, mas nossa performance precisa chamar a atenção deles. Os americanos são mais calorosos que os europeus.

— Você chegou primeiro que a gente, nós não estamos em sintonia.

— A gente bem que tentou.

— Se soltem. Michael foi um ótimo professor. Ele me ensinou a transformar o palco na minha segunda casa. Pensem que não é um lugar estranho, é um lugar pra se sentirem bem — olhei novamente para as pessoas que iriam nos assistir. — Olhem pra essas pessoas. Elas decidirão o rumo das nossas vidas profissionais. Eu me recuso a voltar pra Kongsberg de mãos vazias.

— Nem pensar, isso não vai rolar — disse Paul, decidido. — A gente custou a chegar até aqui, eu joguei o dinheiro da minha faculdade no lixo com essa viagem! Eu briguei com o meu pai! Eu não vou voltar pra Oslo, nem fodendo que eu volto pra lá de mãos abanando.

Olhei para o Magne, que também parecia impressionado. Essa era a primeira vez que o Paul elevava a voz, e, pra ele fazer isso, o lance precisava ser sério. Mags fez um movimento positivo com a cabeça e consentiu com as palavras do loiro.

— Vamos botar pra foder com tudo.

Eu sorri e assenti. Fizemos um “toca aqui” triplo e seguimos de volta ao palco. As luzes se apagaram, os telões se acenderam, eu disse para iniciarem o show, pois nós entraríamos agora. Um pensamento rápido era o meu aliado naquele momento. Assim que a música iniciou, lentamente abri o casaco preto que usava e o joguei para o lado.

“E seus pensamentos estão cheios de estranhos

E os seus olhos dormentes demais para ver.

E nada que ele conheça

E nenhum lugar onde ele já esteve

Foi alguma vez parecido com este.”

Tomei o microfone em mãos e dei início à minha vida fora das sombras. As letras, de certa forma, contam histórias interessantes, e eu consegui me ver em cada uma delas. Um lugar desconhecido… onde os meus pensamentos, os meus sentimentos, o meu eu estava repleto de estranhos. Um lugar dentro de mim cheio de coisas que eu não conhecia, cheio de amores que eu não controlava…

“Eu procurei dentro de mim mesmo

E não encontrei nada lá para acalmar a pressão

da minha mente sempre aflita…

Ooh…

Todos as minhas forças se foram

Eu temo os olhares solitários e enlouquecidos

que o espelho reflete nestes dias…

Ooh…"

Nos meus momentos de angústia e ansiedade, essa música esteve presente. Eu custei a vencer esses momentos, eu estava perdendo o controle, contudo as pessoas que conheci nessa jornada estavam lá para me ajudar.

Me arrastei até a fileira da frente, um grupo repleto de meninas tentavam se aproximar a todo custo. Se eu tinha um quê de excitante, elas que me diriam, mas usei esse benefício ao meu favor, eu precisava manter a plateia entretida. Provoquei as garotinhas, estendi a mão e deixei que elas me tocassem, era divertido estar do outro lado da brincadeira.

“Me dê uma chance

Me aceite

Eu irei embora

em um dia ou dois"

O nosso carro-chefe. Magne trocou os arranjos de última hora e potencializou os meus vocais para essa canção cujas notas são as mais difíceis de alcançar. A letra falava sobre receber uma chance, tudo o que nós mais pedíamos naquele instante.

“A noite me encontrou bem a tempo de me ajudar a fechar os olhos mais uma vez

Vivendo uma história de aventura para meninos

De tantas maneiras…

Vivendo uma história de aventura para meninos

Por tantos dias…

Eu estou vivendo uma história de aventura para meninos

Não posso escapar, se eu quisesse…

Vivendo uma história de aventura para meninos

Talvez eu esteja sonhando, mas me sinto acordado”

As situações que eu vivi nesse ano, todos aqueles perrengues, todas as lutas… sim, estou vivendo uma aventura. Uma aventura de onde não consigo escapar. Fui atrás de um amor impossível, de um sonho impossível, eu caminhei na contramão. Eu nunca teria passado por todas essas dificuldades se não fosse tão teimoso, porém, francamente, eu faria de novo.

“Confie em mim por quem eu sou

Coloque toda sua fé nessas mãos

Não tenho nada a dizer

Mas vamos ficar amigos para sempre

Para sempre…”

E então eu entro em um lado nebuloso da minha história. Eu conheço ele. O busquei com o olhar, mas não o encontrei. A plateia estava lotada, cheia de garotas na fileira da frente, garotas que gritavam e penetravam a minha alma com o seu barulho, mas ele eu não encontrei. Lembrei do dia em que eu disse para que ele confiasse em mim e me contasse sobre os seus problemas. Numa noite, depois da gravação do clipe Beat It, ele me acalmou e disse o que precisava dizer. A partir daquele dia, tudo ficou estranho, eu já não me conhecia mais.

Quando finalizei a canção, pude sair para descansar por poucos minutos. Mais 5 músicas precisavam ser performadas e eu já estava cansado. Joguei uma água no rosto e fui fazer um exercício vocal rápido antes de retornar.

— Você tá bem? — indagou Mags.

Joguei a toalha sobre os meus ombros e assenti.

— Você viu as garotas? — comentei.

— Vi. Elas estão molhadinhas por você, cara — ele riu e eu o acompanhei.

— Eu tô contando com isso, a gente precisa manter a plateia no fogo alto. Paul parece uma porta, preciso que vocês rebolem mais, porra.

— Tá falando de mim? — Paul chegou logo em seguida.

— Eu juro que eu tô tentando, mas ainda sou meio acanhado.

— Então “desacanha”, Branca não vai aceitar isso como desculpa — me levantei e joguei a toalha pro lado. — Vamos.

Retornamos ao palco, não demorou muito. Tomei o microfone em mãos e brinquei mais um pouco com as fãs antes de iniciar a próxima canção.

“Eu estou tentando lhe fazer ciúmes…

E tentando mais ainda lhe fazer ficar.

Dias são mais longos

Noites são doidas

É tão estranho quando você está longe.”

Pra mim era estranho confessar através das letras que eu deixei esse amor entrar no meu coração, mas era isso que me permitia transformar o palco no meu refúgio. Desisti de buscá-lo com o olhar, talvez fosse melhor assim, talvez eu perderia o foco se eu olhasse em seus olhos e confessasse todos os problemas e virtudes que esse amor me causou.

“Nós estaremos perseguindo nossas caudas loucamente

Vejo dias passarem como o fogo que se expande.

Desde o começo

Eu sabia que este mundo quebraria meu coração.”

Desde o começo eu sabia que esse mundo para onde eu estava indo quebraria o meu coração no final. Esse amor não duraria, teria que ter um fim, mas me esforcei para que fosse eterno o quanto pudesse, e que fossem os melhores momentos das nossas vidas.

Espalhei minha presença pelo palco, perambulando de um lado para o outro, instigando os caras a me seguirem e os espectadores a me acompanharem.

“Desde que você se foi eu tenho assistido

Céus azuis indo e voltando…”

E essa seria as consequências do meu amor proibido. Eu sei que doeria nos primeiros dias… Às vezes me pergunto por que fui cair de cabeça nessa loucura. Mas, então, a próxima melodia vem e me lembra dos meus motivos…

“O amor é a razão

O amor é a razão… suficiente"

A única razão.

Eu não queria cantar essa canção, ela era um presente, mas ele me permitiu, ele disse que queria me ouvir cantá-la nos palcos. Entreguei o meu melhor, já estava nos instantes finais. A última música seria a primeira com a qual iniciei aquela jornada, a que cantamos no pub londrino. Como uma página de um livro aberto, escrevemos nossa história nos Estados Unidos e fechamos aquele capítulo.

“Sempre caçarei por toda parte

Apenas por você!

Me veja me despedaçar.

Caçando para cima e para baixo

Por toda parte

Não há fim para as distâncias que percorrerei.

Oh…

Por você, eu caçarei por toda parte!"

A banda, caçando insaciavelmente uma aprovação, e o meu coração, caçando um amor de verdade. Eu não sei o que seria do nosso futuro hoje, dos resultados desse show e do romance maluco que nasceu nesse ano caótico, mas não importa a distância ou o tempo que eu ficasse longe… eu jamais esqueceria tudo o que vivi nessa viagem, eu jamais o esqueceria. Meu coração o caçaria por toda parte.

Notas finais
Próximo capítulo: — [...] Tem uma gravadora que quer trabalhar com vocês. Eu custei a entender, mas, quando a ficha caiu, o olhei espantado. — Espera… Vamos fechar acordo? Michael aquiesceu em silêncio, seu sorriso evoluiu para um ainda mais alegre, sua palma apertou a minha mão com carinho. Eu suspirei, a adrenalina subiu pelo meu corpo, porém me esforcei para não pirar naquele momento! — Drittsekk, drittsekk… Michael riu. — Parabéns! É melhor você ficar feliz, eu não tentei simular uma expressão séria a toa! Eu me levantei na hora, ainda atordoado. Michael me acompanhou e me cumprimentou com um abraço. [...] Michael segurou minha mão e me puxou lentamente para o pequeno bosque que havia ali perto. As copas das árvores obstruíam a visão do céu, o caminho era limpo, extenso e linear, e de ambos os lados só havia folhas no chão. Eu o segui sem medo, estávamos sozinhos, [...] Michael perambulou por mais alguns instantes até escolher um ponto para parar. Quando ele virou para mim, meu sorriso lentamente se desfez. — O que foi…? Sua expressão era serena, mas havia lágrimas nos olhos. Ainda disfarçando com um sorriso, ele rapidamente tratou de limpá-las, porém eu já havia visto tudo. — “O que foi” o quê? — Não sei… Você está chorando. — Estou bem. Vai passar, só não me acostumei ainda… — Não se acostumou com o quê? — Morten… — ele suspirou, parecia cansado — você vai embora. Você não entendeu? Você vai voltar pra Londres, uma gravadora quer trabalhar contigo. Não tem… não tem mais nada pra fazer aqui. Ouvir aquelas palavras fez a minha ficha cair pela segunda vez. [...]