Diário de 83

7 A Família do Rei


Notas iniciais
Ooi, gente ♥ Um pouco atrasado, mas liberado o próximo capítulo! Espero que gostem ♥

Encino, Califórnia – 08:40 hrs

16 de fevereiro, 1983

Aquele foi o meu primeiro dia realmente atarefado nos Estados Unidos.

Branca me acordou com uma mensagem no telefone do hotel, dizendo para me arrumar depressa. Eu fiz uma mochila sem saber muito o que colocar, já que a única dica dele foi: “você vai passar um dia em outro lugar”. Coloquei tudo o que eu achava importante e segui pra fora do hotel. Ele já estava me esperando no carro.

Adentrei e seguimos para Encino.

— O que vamos fazer lá?

Ele mal olhou pra mim. Parecia eufórico, embora tentasse disfarçar.

— Você vai passar um dia com o Michael.

— Ah, er… só isso?

— Ele me pediu isso. Sabe-se lá para o que é, mas eu, como seu assessor, garanto que você só tem a ganhar.

Assenti, ainda pouco convencido por aquelas palavras. Se ele diz…

O resto da viagem seguiu em profundo silêncio. Nos aproximamos de um vasto território com árvores altas e paisagem agradável. Toda a vegetação estava coberta de neve, mas era possível contemplar alguns pontos já revelando a aproximação da primavera. Atravessamos o primeiro portão, onde fomos recebidos por dois empregados que os abriram rapidamente pra gente, em seguida alcançamos o segundo. John Branca estacionou e me deixou sair.

— E o que eu faço? Ligo pro meu papai vir me buscar? — falei na brincadeira, e deu pra ver o suspiro que ele deu por conta do frio.

— Não se preocupe com isso. Amanhã venho te buscar.

— Ah, fala sério. Eu não posso voltar sozinho? Eu sei voltar. Eu não tenho carro, mas eu pego um coletivo. Até uma moto, se você pudesse me emprestar, não causaria tanto vexame…

— Eu venho, Morton. Você está sob minha responsabilidade e está fora de cogitação que manche o meu nome com o seu corpo jogado em alguma vala por aí. Não se esqueça que a América não é tão segura como nos sonhos dos americanos.

Dado o recado, ele saiu e me deixou com aquela cara de pastel. Eu bufei, dei um chute num punhado de neve e segurei um palavrão (vai pra tispe som fødte deg, Branca!).

— Aquele… aquele imbe…!

Me virei, e travei quando vi o Michael parado na frente do portão da mansão. Ele estava com uma roupa engraçada, coberto por um casacão vermelho que ia até os joelhos, e sua sobrancelha estava arqueada como se estivesse questionando quantos palavrões eu havia aprendido em tão pouco tempo na América.

— Eu…

Nos olhamos por vários instantes, até que eu decidi não dizer nada. Joguei minha mochila nas costas e não deixei o funcionário pegar. Logo após, segui com o moreno pra dentro daquele casarão estiloso e não pude conter um assobio discreto quando vi a imensidão do lugar.

— Uau…

Ele sorriu discretamente, provavelmente já bem acostumado com aquele tipo de reação.

— Isso porque ainda não te mostrei tudo.

Ele me levou para a sala onde faziam as refeições. A casa era tão grande que eu realmente estava me perguntando se aquela sala era a de jantar ou se ele tinha uma específica pro café da manhã (sei lá o gosto dos ricos, talvez um dia eu descubra). Os meus olhos não se cansavam de admirar cada um daqueles detalhes na tapeçaria, na decoração antiquada, e o mais bizarro era que tudo contrastava com um colorido tipo veranil.

Assim que chegamos na sala, no final da mesa estava uma senhora bastante simpática. Ela sorriu pra mim e se levantou.

— Mamãe, esse é o Morten. Ele está aprendendo algumas coisas comigo.

— Bem-vindo — ela sorriu e me estendeu a mão. Eu ia cumprimentar quando vi que ainda estava de luvas e elas estavam encharcadas de neve (que mancada, hein?). Sorri, meio desconcertado, e tirei antes de apertar a mão dela. — O Jim não pegou o seu casaco? Fique à vontade, não seja acanhado!

Ela tinha um tom robusto e animado, embora sua voz fosse delicada como de cristal (já vi a quem ele puxou). Eu tirei o casaco de forma meio desengonçada (nem reparei que Michael havia pegado a minha mochila), enquanto o funcionário vinha e recolhia a peça de roupa.

— Morten, essa é Katherine, minha mãe.

— É um prazer, senhora Jackson.

— Que sotaque adorável. De onde você é?

— Ah, Noruega.

— Mãe, vou mostrar o resto da casa a ele, vamos ficar no estúdio…

— Mas o seu amigo já comeu alguma coisa? Olhe como ele está magrinho…

— Mããe…

Eu tentei segurar uma risada.

— Não se preocupe, senhora Jackson! Eu comi no hotel, pode ficar tranquila.

— Vamos… senão ela vai ficar conversando com você o dia todo.

— Não dê ouvidos a ele, Morten. Depois do almoço, quero saber tudo sobre a sua terra natal!

Nós três rimos em seguida, eu com um pouco mais de timidez, e o Michael me puxou pelo pulso como se a casa fosse vir abaixo e a gente tivesse que sair dali o quanto antes!

Atravessamos um arco de vidro e fomos para o branco e gélido cenário do lado de fora. Michael me levou pra outro ponto da mansão, e eu finalmente olhei para cima e reparei nos telhados fazendo voltas engraçadas, na torre “chapéu de bruxa”, nos adornos de vigas falsas e na fonte absurdamente impressionante no centro do jardim. A água estava congelada, porém ainda conseguia realçar a beleza daquela fonte. Eu não sei se o Michael tem a ver com a decoração desse lugar, mas, pelo pouco que convivi com ele, era bem o seu gosto.

Acho que ele percebeu como eu estava retardando, porque fez um comentário em cima dos meus pensamentos.

— É Tudor. Eu adoro o estilo medieval.

— Legal, menino culto — ele riu com as minhas palavras. — Então… você tem um estúdio particular?

— Tenho. Eu construí depois que tive certeza que iria ficar com a minha mãe. Assim eu não preciso me deslocar pra longe o tempo todo, posso passar mais tempo com ela.

— Ah, sim… Desculpa perguntar, mas por que você escolheu ficar com ela? Com o dinheiro que você tem, poderia comprar outra mansão dessa pra viver sozinho.

E foi então que eu percebi que acabei me respondendo ao terminar de falar. “Sozinho”... Branca já havia me alertado sobre isso.

— Eu acho que ficar sozinho a essa altura do campeonato é perigoso. A fama costuma ser… sufocante às vezes.

— Eu sei, er… que pergunta idiota eu fiz…

Eu deixei um riso de canto escapar, mas ele sorriu em resposta e fez um aceno negativo.

— Eu gosto das suas perguntas. Vamos, espero que a gente tenha tempo pra ver tudo.

Assim que passamos pelo jardim, ele me levou até uma sala de gravação dentro da própria casa dele. Era um pouco menor que a do estúdio, mas tinha tudo que era necessário: uma mesa de som, microfones profissionais (até uma TV pra ver a novelinha), era show! Me sentei na primeira cadeira que vi, arrastei as rodinhas até o painel de controle e mexi em alguns daqueles botões.

— Quer gravar sua voz?

Eu elevei as sobrancelhas.

— Eu? Tipo… gravar uma música?

— Claro!

Me levantei e disfarcei uma concordância.

— Hmm… vamo.

Catei aqueles fones de ouvido grandes e corri pra dentro do quarto de vidro. Michael gargalhou e foi se posicionar de frente pro painel.

— O que você quer cantar?

— Sei lá, cara, eu só quero gravar alguma coisa. O Branca tá me devendo isso.

Ao ouvir as minhas palavras, ele ficou em silêncio. Notei o seu sorriso acentuar, ele estava tendo uma ideia.

— Se ficar muito legal, nós podemos mandar essa gravação pra ele. O que você acha?

Eu assenti em silêncio.

— Não tenho nada a perder…

— Legal! Se prepara…

Eu suspirei e pensei em alguma música cuja letra estava bem clara na minha mente. Eu tentei pensar nas originais do Paul, algo que o Branca fosse gostar, e, mesmo que o Michael não tivesse o pano de fundo, a gente poderia inventar um genérico que ficasse legal. Se o Branca desse uma chance, eu poderia dar a ele motivos de sobra pra unir minha banda de novo… e o Michael poderia me ajudar nisso.

x ----- x

Sala de estar – 14:23 hrs

Paramos pra descansar na sala de estar (que o Michael havia apelidado carinhosamente de "sala da matriarca Jackson"). Depois do estúdio, do almoço e do descanso, iríamos fazer um tour por todos os lugares da mansão, o Michael me falou que me mostraria algumas coisas que eu acharia legal (espero que seja algum videogame ou orquídeas — porque eu gosto de orquídeas, tá?).

Me sentei no sofá e fiquei olhando a TV, estava passando alguma coisa sobre natureza. Suspirei; olhar aquelas paisagens nos alpes lembrava, de certa forma, minha casa. Tudo que eu pensava era nos meus pais, nos meus irmãos, nos meus amigos… no Paul, no Mags, em que situação eu os deixei… e, novamente, aquela pressão voltou a preencher a minha cabeça.

No instante que as preocupações apareciam, um lindo sol se mostrou por trás das montanhas. Era tão lindo, e era uma TV excelente, eu quase conseguia sentir o calor daqueles raios.

Mal percebi quando Michael entrou na sala e se sentou em um sofá diferente.

— E aí…

— Já percebeu… como o sol é mais bonito na TV?

Ele arqueou a sobrancelha e olhou para a mesma imagem que eu.

— Você acha? É só uma cópia da realidade. Acho que as coisas reais são mais bonitas.

— Você consegue admirar o sol na vida real?

Eu o encarei, e ele ficou em silêncio ao ouvir minha pergunta.

— Bem pensado…

Sorri assim que ele entendeu. Suspirei e voltei a olhar as imagens.

“Acredite em mim…

o sol sempre brilha na TV”

Cantarolei. Eu não vou saber explicar bem o porquê, mas essa conversa resumia um pouco a minha situação espiritual naquele momento.

“Eu procurei dentro de mim mesmo

E não encontrei nada lá para acalmar a pressão da minha mente sempre aflita…

Ooh…”

— Morten…

Eu o encarei.

— Você… você precisa cantar essa música. Precisa gravar ela.

Arqueei a sobrancelha.

— Ué, por quê?

— Porque veio do seu coração. E tudo que vem do coração é mágico. Vai por mim… é o meu segredo.

Ele piscou pra mim, e só então eu percebi a tacada de ouro que não podia perder.

— Você acha… que eu deveria mandar essa pro Branca?

— Eu tenho certeza.

A conversa acabou tendo um fim quando algumas pessoas passaram pela porta, desviando a nossa atenção. Eram duas garotas e dois caras. Michael se levantou e eu automaticamente fiz o mesmo; às apresentações novamente.

— Ei, mano, quem é o cara branco?

— Ele é o Morten. Ele é meu aprendiz, John está o assessorando — ele se virou pra mim. — Morten, esse é o Marlon, Randy, La Toya e Janet, meus irmãos.

Meus olhos passaram por cada um à medida que ele ia os apresentando, até cair na menina de nome Janet, que parecia a mais nova de todos. Era baixinha, tinha os mesmos olhos grandes e escuros dele e estava usando vermelho. Eu acenei discretamente, mas, quando a vi me olhar, algo acendeu nas minhas memórias e eu confirmei minhas suspeitas quando ela também me reconheceu.

— Você…

“Não, não” era o que o movimento dos lábios dela dizia, silenciosamente. Michael arqueou a sobrancelha e me encarou.

— Você ia dizer alguma coisa, Morten…?

Ele sussurrou. Eu deixei um sorriso de canto no meu rosto e guardei o segredo daquela tampinha, olhei para a mais alta e outro feixe de memória me acendeu, um menos comprometedor dessa vez.

— Já nos vimos antes, não é?

Disse a tal da La Toya. Eu assenti.

— Era você na confusão do shopping?

— Espera… Você estava na confusão, Toya? — Michael perguntou e ela aquiesceu.

— Eu resolvi sair no dia um porque pensei que as pessoas estariam cansadas da festa de fim de ano. E então, meu irmãozinho resolve fazer a mesma coisa…

Ele moveu os ombros, meio contrariado.

— Ahm… se eu puder dizer algo em favor dele, nenhuma liquidação deve ter rendido tanto cliente como naquele dia.

O tal do Marlon riu do meu comentário.

— Gostei, gostei dele — ele se virou pra mim. — Tu é de onde?

— Sou nórdico.

— Frio pra caralho, né?

— Marlon! — Michael fez um sinal pra que controlasse a boca, e eu somente ri com tudo aquilo. Até que os irmãos dele são bem legais!

— Irmão, a gente veio ver a mãe. Cadê ela? — foi a vez do Randy, que ainda não havia falado.

A partir daí, já não prestei mais atenção na conversa. Michael foi se resolver com os irmãos dele e eu voltei pros meus pensamentos no sofá. Senti a Janet me encarar antes de sair (ô menina desconfiada, viu?), mas não fui atrás dela, não é da minha conta as coisas que ela anda fazendo.

As horas se passaram, passar um tempo com a família Jackson foi muito legal. A matriarca realmente me fez várias perguntas sobre meu país, os caras eram uns engraçadões, a La Toya me olhou de um jeito interessante e o Michael era o mais divertido de todos — ele tinha um tipo de humor diversificado (o de ser engraçado sem intenção nenhuma), eu adorava explodir minha cabeça a cada tirada que ele dava sem perceber.

No fim do dia, eu achei que ficaria num quarto de hóspedes, mas Michael me fez um pedido inusitado.

— Você… pode… bom, eu vou entender se não quiser…

— Fala, cara. Sério… de boa.

Ele suspirou e massageou as próprias mãos em um gesto pacificador.

— Você se importa em dormir num colchão ao lado da minha cama?

Arqueei a sobrancelha.

— Quer fazer tipo uma "noite das garotas"?

Ele gargalhou e fez um aceno negativo.

— Oh, man, a noite dos caras! A gente pode comer alguma besteira, jogar videogame… Eu posso me esforçar e tomar refrigerante, só hoje… talvez… bom, não vou prometer nada, eu prefiro água. A gente pode ouvir música…

— Você já fez isso alguma vez?

— Eu… bom, eu já dormi muito com os meus irmãos, mas, fora eles, não, acho que não… Vai ser minha primeira vez.

— Então tem que ser a melhor, não é?

Assim que falei, vi o sorriso dele acentuar. Eu não sei bem o motivo, mas chuto que ele não estava esperando uma aprovação. Cara… eu dividi a cama, o banheiro e outras coisas mais com 2 caras, isso sem falar que tenho 4 irmãos (sendo 3 deles homens). Sabe quando você manda o foda-se? Pois é…

— Tá, eu deixo você passar o refrigerante, não quero que você tenha um troço aí.

Michael riu e me guiou até o quarto dele, que ainda não tinha me mostrado.

Quando chegamos lá, eu passei a olhar cada detalhe. O quarto era enfeitado com vários daqueles troféus! Tinha de platina, ouro, diamante… além de alguns pôsteres de cantores pregressos (a maioria avassaladora de negros). O quarto dele era bem legal, e tinha uma janela grande que dava pra floresta, mas a coisa mais bizarra que eu vi foi olhar para todos aqueles móveis, e quinquilharias, e não encontrar nenhuma cama por perto.

Apenas um colchão grande no chão, bem arrumado.

— Você… você tá com algum problema financeiro?

— O quê? Ah, não! Não é isso… — ele riu — eu gosto de dormir no chão. Eu gosto desse contato "corpo e terra". Se eu pudesse, acamparia… Quem sabe um dia eu faça isso.

Achei aquilo bem curioso, mas eu já não estava esperando nada típico daquele cara. Ele era diferente e isso era intrigante, mas interessante. Ele definitivamente não me passava a mesma impressão que eu tinha da maioria dos famosos.

Como eu positivei a ideia, ele pediu pra um funcionário conseguir outro colchão para mim. Michael era um cara cheio de energia e ideias, mas era muito frágil pra essas coisas inovadoras, então, 1 hora depois do horário que ele costumava dormir, o cara já estava acabado. Jogamos um pouco de videogame, ele tinha todos os lançamentos! Depois falamos de jazz, rock, brigamos porque eu gosto de synth pop e ele não, depois fizemos as pazes porque gostamos de James Brown.

— Synth pop nem é música, mas até que você tem bom gosto pra nomes consagrados…

Ele comentou, enquanto quebrava a minha pontuação no Atari (que ódio velado é esse?). A máquina fez um barulho louco, a alavanca quase saiu do lugar. Ele finalizou a jogada com o seu nickname acima do meu.

— É tipo pop, não enche…

— Pop é orgânico. Synth pop é o mesmo que suco de caixinha, nem dez por cento daquilo pode ser chamado de suco.

— Você é cruel às vezes, hein?

Fingi me importar com tudo aquilo, mas no fim das contas nenhum de nós ligava pra aquelas coisas. Rimos depois de um tempo em silêncio.

— Quebrei seu coração?

— Meu coração está em pedaços — levei as duas mãos ao peito e fiz uma expressão de pena. Ele gargalhou em seguida, porém sua risada foi interrompida por um bocejo. — Já tá com sono? Não é nem nove horas…

— Dez. Não são nem dez… Estou sim, não dá pra segurar até depois das nove e meia. Eu começo o dia bem cedo.

— Já vi que não dá pra sair contigo à noite.

Ele desligou a máquina e fomos até o seu quarto. Eu fui até o meu canto e comecei a preparar meu travesseiro quando ele saiu novamente.

— Vou buscar água. Você quer?

— Não, valeu.

Michael assentiu e saiu. Eu fiquei lá por alguns minutos, tempo suficiente para minha presença começar a atrair formiguinhas pequenas que gostam de vermelho.

Janet.

— Que foi…?

Ela parou na entrada do quarto e ficou me encarando. Usava um pijama unissex, todo fechado, de cetim.

— Você vai ficar aqui por quanto tempo?

— Só hoje, não esquenta.

— Hum…

Ela ficou em silêncio, então aproveitei pra pegar mais um cobertor na minha mochila. Quando comecei a forrar meu colchão, ela falou novamente.

— Obrigada por… manter aquilo em segredo.

Fiz um aceno com a cabeça.

— Você tem quantos anos? Dezesseis?

— Não é da sua conta… — ela respondeu, como se aquilo fosse realmente me ofender. Dei ombros e voltei a me concentrar no meu trabalho, quando ela percebeu que eu tava cagando pra ela e enfim resolveu falar — é… tenho.

— Na sua idade, eu saí com meu irmão mais velho pra uma dessas festinhas. Depois, a gente levou um couro do pai.

Eu ri de canto, e ouvi um riso curto também sair dela.

— Garanto que o meu pai é bem mais assustador que o seu.

Eu mordi os lábios bem discretamente, realmente não havia visto esse homem em canto algum.

— Ele… não mora com vocês?

— Mora sim… teoricamente. Mas geralmente ele fica fora, à trabalho.

— Saquei…

— Ô dumb, tá fazendo o quê aqui?

— Já disse pra parar de me chamar assim, magrelo!

Michael gargalhou e adentrou ao quarto com um copo d'água na mão.

— Sai, não quero nenhuma garota chata no meu quarto.

Ela deu língua e saiu no mesmo instante. Eu suspirei, lembrei dos meus irmãos, parece que em todo canto do mundo eles nunca mudam. Michael deixou o copo na mesa de cabeceira e girou um botão pra diminuir as luzes, porém não as desligou completamente (já vi que ele não curte muito o escuro).

— Por que você chama ela de dumb? Não é meio… pejorativo?

— Porque ela é fortinha, só por isso. A Janet não se ofende de verdade, é uma velha brincadeira nossa.

Assim que ele se deitou, soltou um suspiro e virou o rosto em minha direção. Eu me deitei e passei a olhar aquele teto diferente — aquela não era minha casa, havia passado por tantos lugares, mas consegui chegar até aqui e iria até o fim.

Esses eram os pensamentos que passavam pela minha cabeça naquele momento, e, quando eu enfim resolvi aposentar aquela noite, Michael sussurrou.

— Você… bem que podia ficar aqui.

— "Aqui" aonde?

— Na Terra do Nunca — ele revirou os olhos e sorriu. — Aqui em casa, cara. Ao invés de ficar naquele hotel…

Aquele pedido era curioso, mas eu não era louco de recusar. Não fazia diferença onde eu ia ficar, porque nenhum daqueles lugares era a minha casa, porém era óbvio como a mansão daquele cara era muito mais confortável que o hotel que o Branca havia me colocado. Eu ia ficar longe da Judy… mas eu não estava realmente planejando um relacionamento sério em outro país. As coisas tinham que ser como eram.

— Por quê?

— Ah, porque você é um cara legal e faz tempo que eu não me divirto assim.

— Sua família não vai ligar?

— A maioria deles não mora aqui, então eles não podem opinar. Minha mãe gostou de você e os empregados te adoraram. Eu acho que está tudo bem.

Ele levou as mãos para trás da cabeça e relaxou. Refleti sobre aquelas palavras.

— Se o Branca me largar, eu topo.

— É disso que você precisa?

Eu virei os meus olhos na direção dele e consegui ver o seu sorriso, apesar da pouca iluminação. Michael virou de costas pra mim e se cobriu logo em seguida.

— Boa noite, Morten. Amanhã eu ligo pra ele.

E não falamos mais nisso.

Notas finais
Curiosidade: — "Dumb" era como Michael havia apelidado sua irmã Janet por causa do porte robusto dela. Anos após a morte do irmão, em seu documentário, Janet revelou que nunca gostou desse apelido e que passou um tempo com dificuldade para aceitar o seu próprio corpo por conta disso, porém Michael nunca soube. x ----- x Próximo capítulo: — Oi, Mort… — L-La Toya… Eu quase engasguei. Eu jurava que era a baixinha invocada, mas aí, da porta, surgiu aquela morena de vestido de seda. — Você vai… sair pra algum lugar legal, pelo visto… — Eu não vou a lugar algum, coloquei esse vestido pra você. Ai, meu pai…