Diário da Vida Real
5 Quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Notas iniciais
Querido Diário,
Como eu estou sem celular, não tenho muita noção do tempo. Não vejo as horas passarem.
Vou contar sobre uma coisa que aconteceu em Abril de 2013.
“Breno te mandou uma mensagem” – Breno = garoto que é um ano mais velho que eu e estuda na mesma escola que eu.
“Ooi, linda.”
Certo, eu entrei em pânico e mandei várias mensagens de uma vez, mais ou menos assim:
“Ooi
QUEM É?
E POR QUE TÁ ME CHAMANDO DE LINDA?
VOCÊ NÃO SABE QUEM EU SOU PRA ME CHAMAR DE LINDA
Mentira, eu sei quem é
Mas você sabe quem eu sou pra me chamar de linda?
Tipo, eu não sou linda.”
E isso confirma que tenho problemas mentais. Breno ainda estuda na mesma escola que eu, e espero que ele não se lembre de mim.
Para falar a verdade, tirei um print dessa conversa e ele ainda está aqui. Mas tomei o cuidado de apagar os nomes, para o caso de alguém encontrar a imagem. É uma coisa a menos para tirarem sarro.
Puxa, isso tudo foi vergonhoso. Talvez explique por que eu não tenho um namorado.
Hoje no laboratório de biologia, nós vimos fetos em conserva de um cão, rato, morcego e gato. ERAM TÃO BONITINHOS!
À tarde, eu estava assistindo televisão e Mogli me chamou para ver uma coisa. Quando cheguei ao banheiro dele, a máquina umidificadora de ar estava ligada e dela saía um vapor branco bastante denso. Nós simulamos que estávamos fumando, sugando a fumaça e deixando-a entrar na boca, e EU CONSEGUI FAZER ANÉIS DE FUMAÇA!
Henry é um garoto legal da minha sala que fuma maconha. Ele me ensinou a fazer anéis de fumaça, mas eu nunca fumei. Foi só uma simulação.
Estou chorando agora porque apanhei.
Não é só porque doeu, mas também porque às vezes eu odeio a minha mãe. Quando nós discutimos e ela me bate, ela bate no meu rosto para que eu me sinta ainda mais humilhada. E eu odeio quando choro porque acho que ela fica ainda mais satisfeita.
Também odeio chorar na frente de Mogli, e hoje foi pior porque ele me viu chorando e apanhando.
Vou contar o que aconteceu. Apesar de ter sido um pouco engraçado, eu fui bem malcriada. Mas não acho que tenha merecido a quantidade de tapas que minha mãe me deu, ou as chineladas. Doeu muito.
Eu estava dentro do banheiro, me preparando para tomar banho. Demorei bastante porque estava inspecionando meu rosto e minhas costas à procura de eventuais espinhas.
Minha mãe gritou várias vezes para que eu tomasse banho logo, e não obedeci. Ela está sempre irritada. Finalmente, ela perguntou o que eu estava fazendo.
Ela odeia quando espremo espinhas, então, aproveitando que eu já estava com raiva por causa dos gritos, respondi:
– Estou contando quantos dentes eu tenho.
Ela gritou e esmurrou a porta (que estava trancada). Também disse que, quando eu saísse do banho, ela “cortaria minhas pernas”.
Dito e feito. Doeu, mas não está doendo mais. Meu pai acabou de chegar, e vai brigar muito comigo quando minha mãe contar o que aconteceu. Ela está contando agora, posso ouvir.
Odeio escrever com a mão molhada, porque o papel fica manchado. Amanhã provavelmente acordarei com os olhos inchados porque vou chorar por boa parte da noite.
Por incrível que pareça, um dos meus maiores problemas aparentemente é a escola. Nada do que faço está bom.
A propósito, tenho 28 dentes.
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