Notas iniciais
Já fazia quase seis meses que estava fora de casa.
Cada acontecimento narrado marcou um pouco a minha trajetória até os meninos.
Acompanhada por Deus e por Lúcifer e no colo uma criança.
Um inocente nos braços de uma pecadora.

Era uma menina tão linda. Olhos azuis profundos e um sorriso que, apesar de ter visto a morte dos pais, não saía de seu rosto. Foi assim que eu adotei um pequeno anjo, fugindo do demônio, em busca de Deus.

Samael me deixou extremamente assustada, era incrivelmente estranho como um anjo pode esboçar uma expressão de ódio e repulsa por quem seria, em todos os casos, irmão. Depois de ter adotado sem querer uma menina comecei a bolar um disfarce, uma mãe jovem, solteira e recém chegada à Brandon.

Uma cidadezinha relativamente residencial, longe alguns quilômetros de Winnipeg, mais exatamente 4 horas e meia de viagem pela Highway Canada.

-Olha anjinho, acho que podemos dar uma paradinha por aqui não é?- Interajo com a bebezinha observando as casas. Era um bairro basicamente residencial com uma ou outra fabriqueta e logicamente um belo restaurante à beira da autoestrada.

Rua 18 ou como eles costumas dizer 18th St, um lugar tão aberto que as vezes me fazia esquecer do porque que eu vim parar aqui, até finalmente encontrar um hotel, uma pousada que tinha uma certa cara de lar.

-Good Morning Mrs, I need a single room, with a cradle- Uau! Como meu inglês evoluiu. Assim subi as escadas e jogo a minha mala na cama forrada de um lençol branco com detalhes dourados.

-Tá na hora da minha anjinha descansar, mas você precisa de um nome, qual é o seu nome?- Enquanto converso com a menina ajoelhada na beira do berço, sinto, como uma lufada de vento, uma voz sussurrar ao meu lado.

-Você se meteu em uma grande encrenca, não confie em quem você pensa que é do bem, eles não ajudam- Levanto de repente, olho em volta e vejo apenas uma inscrição feita de alguma coisa vermelha na parede perto da porta. SALVE-SE.

-Quem está ai?- Que pergunta mais idiota, mas eu precisava fazer. Pego a menina no colo, ela me olhando com olhos tranquilos e fixos sorri, abre levemente a sua boca e dela sai um som como a de cantores líricos.

-Essa é a minha casca, sou um anjo, não como Samael, não confie nele, eu posso te ajudar, ajudar a salvar a sua família- Disse a bebezinha de provavelmente 8 meses, sentada no meu colo, com seu olhar hipnotizante e seu sorriso mais cativante ainda.

-Nossa, além de ser um anjo você ainda fala português, pois bem, já que esta é a sua casca você vai precisar de um nome- Bem que ela podia ter me dito, mas qual será seu nome?

Penso tentando recordar os nomes de anjos que peguei em um site brasileiro, era legal, poderia até ser mentiroso mas acho que iria me auxiliar.

-Pois bem garota, se você é um anjo, seu nome só pode ser Ariel- Tento dizer entre gaguejamento e soluços de emoção. Ao dizer seu nome ela sorri esplendorosamente, era impressionante como uma casca de um anjo poderia ser tão incrível!

A agora batizada Ariel se aproxima mais do meu rosto, sorri novamente, pega a minha face com suas mãos e pronuncia -Leão de Deus, anjo da guarda!

Ok, acho que Deus não deve estar tão displicente à minha causa, afinal estou acompanhada de um anjo da guarda.

Anjo da guarda que mais parece ter saído do meu ventre do que criado por Deus.