Notas iniciais
Eles estavam se aproximando, não tinha tanta certeza do que eles queriam mas os meninos iriam ajudar. Com tanto mistério e ocultismo impetrado naquele programa eu sabia que a ficção e a verdade poderiam coexistir e eles talvez me auxiliassem.

Duas passagens compradas, um Rosário dentro do meu bolso, uma fuga tão inexplicável que apenas eu e meu irmão sabíamos o real motivo. Foi assim, para salvar a vida do meu irmão e da minha família pulei dentro desse avião rumo ao Canadá.

Dentro da minha mochila não cabia lá muita coisa, apenas alguns cartões falsos, dinheiro e passaporte para inúmeros lugares, mas eu vim parar aqui seguindo a minha intuição, se aquela criatura ameaçaria minha família tenho um palpite que eles poderão me ajudar.

-Senhores passageiros, dentro de 20 minutos estaremos em solo canadense, desejamos a todos uma ótima viajem- Disse cordialmente o piloto do 757. Sua voz aveludada me tirara de um devaneio, uma lembrança da promessa que ele fez, prometeu matar minha família e amigos se eu o não desse a ele o que queria. Mas o que?

Retirei do meu bolso meu Rosário, observava as contas, bem trabalhadas em Pau-Brasil e o crucifixo com lindos detalhes dourados, uma boa herança de família, madeira nobre e ouro maciço. Mas hoje ele era meu único escudo.

-Creio em Deus Pai, Todo Poderoso...- Fui sussurrando baixinho, olhando em volta para ter a certeza de que não estava sendo observada, aqueles olhos vermelhos que me encararam à um mês atrás, com a faca encostada no pescoço do meu namorado simplesmente não sai da minha mente. Porque eu? Ainda me pergunto.

Aterrizamos, peguei a minha mochila e desandei a correr pelo corredor de desembarque, observava o jeito que aquela comissária de bordo me olhava durante toda a viajem, seus olhos se ardiam em curiosidade.

Me aproximo do corredor dos banheiros, lá se encontra, esguia, bem uniformizada e com o cabelo preso por um coque clássico. -Com licença moça- Peço com jeito para poder entrar no banheiro, será mais uma possuída?

-Christo- Digo em um tom quase inaudível e ela retribui ao me encarar de volta com os olhos agora enegrecidos.

-O que você está fazendo aqui?- Perguntei firmemente a pobre possuída.

-Sentimos sua falta Mary, queríamos saber o que você veio procurar logo aqui, tão longe do seu pais- Ela respondeu com um sorriso nos lábios.

Com todo aquele clima de amizade ela não adentrava o banheiro totalmente, parecia que algo a impedia de se aproximar de mim, nisso a pia que eu ligara para lavar meu rosto já se enchera.

-O que você quer de mim anda, desembucha.- Gritei tentando distrai-la enquanto meu Rosário me ajudava.

-Omnis Dei, Aqua benedictu est...- Meu latim não me ajudava muito, mas o ritual de benção me auxiliou.

-Saia desse banheiro- Ela berrou entrando vagarosamente pela porta.

-Porque você não vem me tirar- Disse puxando a loura com cara de vadia até afundar sua cabeça dentro da pia com água benta.

-O que você tá fazendo aqui?- Berrei enquanto afundava a cabeça dela dentro da água.

-Você jamais irá encontra-los, eles não conhecem tudo quanto você conhece, não queremos você perto, será melhor quanto menos pessoas saberem nossa existência- Disse a linda loura com o rosto fervilhando, eu ainda não estava satisfeita, queria mais, o que eles queriam tentando me manter longe deles, eles eram apenas atores.

-Está mentindo, eu quero saber mais- Disse afundando novamente a cabeça dela dentro d'água.

-Vai ter que procurar outros de nós- Ela sorriu e como uma nuvem branca espessa ela saiu do corpo da comissária de bordo.

Ela cai nos meus braços e eu a deixo encostada perto da porta, seria apenas uma possessão simples ou eles estariam me seguindo desde o Brasil? Uma chave de carro dentro do bolso da garota, era o que eu precisava, agora eu necessitava de parceria, uma ajuda.

Nessa idéia estava eu dentro de um Mustang 2012 rumo à Vancouver.

Espero mesmo que essa jornada dê certo.

Dois dias correndo sem rumo dentro deste monstro, sentia falta do calor que fazia na minha casa, o sol batendo no final de tarde, as conversas debaixo da arvore, mas nada agora seria possível, precisava de ajuda mas de quem?