Diário 2.0

45 Capítulo XLV - Lean on me


Eu odeio Alice no País das Maravilhas. Quando pequena era colocar o VHS e eu sumia da sala em um piscar de olhos sempre que o maldito gato aparecia. Eu odeio aquele gato drogado. Então quando mais velha eu resolvi ler o livro, continuo não gostando.

Não me leve a mal, eu entendo todas as metáforas do livro, todas os nuances e todo o resto é só que… eu não gosto da porra do gato. E agora você está se perguntando, ok, mas porque você está falando disso?

Quando eu comecei o arco, esse arco… eu sabia que eu faria Quinn enfrentar coisas que ela não queria. Eu sou assim, eu simplesmente passo pelo que me machuca. Eu não tenho o hábito de enfrentar o que me machuca, eu simplesmente deixo ir. Eu sigo em frente. E isso não é saudável. O que impede Quinn de ir em frente é toda a culpa e dor que ela carrega de todos esses machucados que ela nunca enfrentou.

Eu preciso que ela siga. Eu preciso que ela tenha a coragem que eu não tenho, sabe… eu sempre me recusei a fazer terapia. Não tenho a vontade de olhar no espelho e reconhecer de fato todas as minhas falhas e erros, não tenho a coragem de trabalha-los. Mas estou obrigando minha personagem a fazer isso. Hipócrita? Pra caralho. Mas a verdade é que todos nós somos hipócritas, alguns mais… alguns menos. Estou parada no tempo, suspensa em uma toca de coelho… sem poder voltar atrás e com muito medo de seguir em frente. Eu odeio a porra daquele gato.

“Você poderia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui?”

“Depende muito de onde você quer chegar,” disse o Gato.

“Não me importa muito onde…” foi dizendo Alice.

“Nesse caso não faz diferença por qual caminho você vá,” disse o Gato.

“…desde que eu chegue a algum lugar,” acrescentou Alice, explicando.

“Oh, esteja certa de que isso ocorrerá.”

Quinn estava em pé olhando para Puck. Ele estava usando roupas civis e olhava para ela com olhos vazios.

— Não. – A mais nova murmurou se levantando, as pernas trêmulas mal sustentavam seu próprio peso. – Não. Eu não quero fazer isso.

— Quinn…

— Você acabou de dizer que nunca fez, então porque eu tenho que fazer? – A mais nova encarou a mais velha. – Por que eu?

— Porque você é melhor que eu. – A mais velha deu um sorriso triste. – Porque você está pronta para assumir isso.

— E lidar com todas as consequências sozinha?

— Não, nunca sozinha. Eu te disse, Quinn. Eu sou você, eu estou com você… eu acredito em você.

— Eu quero que você pegue o que você acredita e enfie no rabo… — a mais nova agarrou a frente da camisa da mais velha. – Eu não vou fazer isso. Eu não quero fazer isso. Eu não me importo se vou ficar presa nessa merda pelo resto da minha vida.

— Quinn…

— Não.

Empurrou a mais velha contra as sebes altas e deu as costas para Puck. Ao seu lado um caminho surgiu e ela o pegou sem olhar para trás.

— É assim que funciona sempre, não é Quinn? – A mais velha chamou com a voz ofegante. – A gente sempre evita as coisas e segue em frente. Nunca olhando para trás e ignoramos as questões maiores. Todas nós fazemos isso, mas adivinhe… você…

— Cala a boca. – Mandou parando no meio do corredor. – Cale a boca.

A mais nova estava com as mãos fechadas em punhos e os olhos fechados. Quinn respirou fundo e andou sem olhar para trás.

Lá estava o salão, Rachel estava encima de um pequeno palco se olhando no espelho. O vestido tinha uma saia armada e fazia com que a morena parecesse uma criança vestida de noiva.

— E aqui vamos nós… — a Quinn mais velha murmurou. – Por que você brigou com ela naquele dia?

— Ela estava prestes a cometer um erro. – A mais nova se sentou em uma das cadeiras, nenhuma de suas amigas estava lá, mas Quinn reparou que ela usava o vestido rosa de madrinha outra vez. – Como eu disse… ela parecia uma pequena adolescente judia

— Ou era apenas o fato de que ela tinha coragem o suficiente para ser quem ela queria ser? – A mais velha falou enquanto andava pelo pequeno salão. – Por que ela não se escondia atrás da imagem de filha perfeita. Ela tinha a coragem de amar Finn e lutar por ele…

A mais nova ajustou a mandíbula e fechou os olhos.

— Eu lutei por ela. – Retornou irritada.

A mais velha parou e se virou para encarar a mais nova.

— Lutou? Em que momento? Quando jogava raspadinhas no rosto dela? Quando a insultava? Quando dizia que ninguém nunca iria quere-la? – A mais velha balançou a cabeça. – Você diz que fez isso para impedir Rachel de ficar em Lima. Mas a verdade é que você fez tudo isso por Rachel ser exatamente a pessoa que você queria ser e você queria destruí-la.

— Isso não é verdade. – A mais nova sacudiu a cabeça.

— Não? – A mais velha se virou passando a mão pelos vestidos arrumados. – Você quer me dizer que nos teus momentos mais sombrios e amargos… você nunca quis destruir a autoestima de Rachel? Você nunca quis que ela se sentisse como você? Uma pária… um nada. Quinn, você não pode mentir para mim. Esqueceu?

A mais nova lambeu os lábios e respirou fundo tentando controlar a vontade de chorar.

— Mesmo que em lapsos de sanidade você tentasse reverter tudo o que fez… tentasse ajudar… tentasse afasta-la para que ela não se sujasse com a tua dor. Você fez. Você quis que ela se odiasse da mesma forma como você sempre se odiou. – A mais velha continuou olhando para o vestido. – É por isso que você deixa o caminho aberto… porque você está esperando pelo dia em que ela vai tomar consciência disso. Pode até ser porque você acha que ela tem o direito de escolher, mas não tente me fazer de idiota. Você deixa o caminho dela livre porque você tem medo que no momento que ela tenha que escolher… ela não escolha você. Você está certa, Quinnie… ninguém nunca morreu por um coração partido. – A mais velha se virou para olhar a mais nova. – Você passou por tantas coisas que eu não passei, dores que eu não posso nem imaginar, mas você não pode mentir para mim. Não aqui. Não dentro da nossa própria mente.

Quinn virou o rosto sem conseguir sustentar o olhar da mais velha, respirou fundo sentindo o choro escapar.

— Você a odiou quando a viu com o vestido de noiva, você a odiou mais do que a amou… por que ela tinha a coragem de ser o que você não conseguia. – A mais velha olhou para a Rachel adolescente que estava usando o vestido de noiva. – Você a odiou em tantos momentos… você a invejou… então agora… agora… Quinnie, eu sou obrigada a te perguntar. Que amor é esse?

— Você acha que eu não sei? – Quinn falou com a voz fraca. – Você acha que eu não sei disso? Que cada sorriso que ela me da… que cada sussurro dela me cobrindo de amor… eu não me pergunto como diabos eu a mereço? Depois de tudo o que eu fiz?

Se levantou e ficou de costas para Rachel sem conseguir olhar para a adolescente.

— Como ela pode me perdoar? Como ela pode me aceitar depois de tudo isso? – Quinn perguntou fechando os olhos. – Como eu posso permitir isso?

Quinn olhava para a frente respirando em fortes arquejos, sentindo cada mínimo centímetro de músculo arder e doer. Cada milímetro de nervo queimava em agonia. A mulher caiu de joelhos incapaz de ficar em pé.

— O que isso faz de mim? – Quinn sussurrou. – Eu tentei destruir a mulher que amo e agora tento desesperadamente consertar todo o estrago que fiz, mas tem tanto tempo. Como eu não posso… — lambeu os lábios e respirou fundo falando com a voz mais firme. – Como eu não posso odiar a mim mesma? Eu repasso cada mínima memória. Cada frase maldosa, cada insulto e do que eu causei a ela.

— Você era uma criança. Uma criança idiota. Mas ainda assim… uma criança. – A mais velha falou lentamente. – Se você continuar presa a todos esses sentimentos do passado, nunca vai ser capaz de sentir o que realmente é amor. O amor não é bonito, Quinn… Coríntios é… uma idealização de um amor cruel e doentio. Por que é isso o que o amor é… ele é belo e cruel, mas nunca pode ser idealizado. Ela te perdoou e deixou a dor dela para trás, mas a sua dor está te mantendo aqui e isso… isso está a machucando. Então isso faz e você uma idiota covarde.

A mais velha respirou fundo e olhou para a mulher ajoelhada no chão um pouco encolhida, se aproximou até poder se sentar na versão mais nova de si própria. Elas se olharam por um momento.

— Eu não quero… — A mais nova balançou a cabeça. – Eu não posso…

— Respira fundo. – A mais velha pediu engolindo em seco. – Infelizmente eu sei que você pode e eu sei que você quer…

— Vai doer.

— Não vai doer mais do que já está doendo.

A mais nova lambeu os lábios e fechou os olhos por um momento antes de falar em uma voz quase infantil.

— Você vai estar lá, certo?

— Eu não te abandonaria agora, Quinnie.

E mesmo de olhos fechados ela sabia que tudo tinha mudado. Rachel não estava mais lá. Eles não estavam mais na loja de vestido. Ela podia sentir o cheiro fresco de árvores. Ela podia sentir a grama firme embaixo dela. O toque da brisa no rosto deixando o rastro gelado de onde as lágrimas estavam secando.

Ela podia sentir o cheiro dele e aquilo embrulhou o estômago da mulher.

— Quinn. – A voz forte do homem a fez se encolher.

— Você quebrou cada promessa que me fez. – Quinn falou com a voz fraca, mas não abriu os olhos. – Você me quebrou cada maldita promessa e mesmo assim eu confiei em você. Deus, por que eu confiei em você?

A mulher se levantou mantendo os olhos fechados bem apertados.

— Você me culpou. Você fez com que eu me sentisse culpada, pela gravidez. Depois você esfregou sal na minha carne ferida ao me dizer que eu não podia cuidar da minha filha. – A voz de Quinn foi ficando mais forte, ela respirou fundo pelo nariz e soltou pela boca, um sopro curto e forte. – Você fez com que eu acreditasse que eu não valia nada, nem a atenção da porra do malandro da escola. Tudo o que eu tinha a oferecer a você era sexo. Eu acreditei nisso. Eu acreditei em tudo o que você me disse, Puck. – Quinn abriu os olhos e encarou o homem que estava parado na frente dela. Puck estava apenas parado, braços longos e frouxos. Mãos relaxadas e rosto neutro. – Você prometeu a Beth que voltaria vivo para casa, que voltaria para ela. Então agora eu tenho que segurar a minha filha e deixar todos os nossos amigos falarem para ela como você era um homem incrível. Sabe o que eu nunca vou poder contar para Beth? Por que eu nunca vou querer machuca-la desse jeito? Eu nunca vou poder contar para Beth que ela fruto de um estupro.

Quinn respirou fundo sentindo os ombros se erguerem como se tivessem perdido muito peso. Ela respirou fundo inflando o peito.

— Você me estuprou Noah. – Quinn falou com mais firmeza. – E eu acreditei que era minha culpa. Eu acreditei que tudo era minha culpa, por que você disse que tinha camisinha e não tinha. Você me estuprou. – Ela sentiu o queixo tremer e as mãos se fecharam em punhos. A necessidade de se mover e de gritar ficando mais forte. Era como se os músculos queimassem necessitando liberar a energia que se acumulava dentro dela. Ela avançou contra o homem e o socou no peito repetidas vezes. Puck não revirou. Ela começou a gritar e a gritar cada vez mais forte até a voz falhar. – Você me estuprou e eu te odeio por isso. Por mais que eu ame a minha filha. Eu odeio você Noah Puckerman e eu espero que você arda no fogo do inferno por toda a eternidade.

Ele recuou lentamente até ela o ver desaparecer. Caiu de joelhos agarrando a grama em punhados, tentando respirar sem conseguir. O peito simplesmente não inflava. Ela olhava pela grama tentando respirar, mas os lábios começaram a ficar dormentes e a visão a escurecer.

— Está tudo bem. Eu peguei você. – A voz firme e gentil de um homem a fez erguer o rosto.

Agachado na frente dela estava ele. Seu final feliz.

— É só respirar mãe. – A voz de uma mulher a fez olhar para o lado apenas para ver uma versão um pouco mais velha de si mesma. – Está tudo bem agora. É só respirar.

— Se você não respirar a gente não nasce… bem… pelo menos duas de nós não nasce. – Uma mulher morena franziu as sobrancelhas. – Aquela ali já tem alguns anos de vida e aquele ali… bem… não vamos dar spoiler sobre o queridinho de todo mundo.

— Mia, pelo amor de Deus… — Beth repreendeu a irmã mais nova.

Ethan se inclinou para a mãe e apoiou a mão no peito de Quinn.

— Eu vou contar. – Ele falou baixinho. – Você sabe como é… 1, 2, 3, 4 e 5… — ele começou a contar e ela puxou o ar e então ele voltou. – 5, 4, 3, 2 e 1. – Ela esvaziou o peito e assim eles continuaram até Quinn estar mais calma. – Pronto… é melhor assim. – Ele sorriu para a mãe.

Quinn olhou para os quatro que a cercavam. Beth parecia ter um pouco mais de trinta anos, Ethan parecia ter apenas vinte anos e as duas mais novas deveriam ser adolescentes, talvez 15?

— Eu sou Mia e essa é Kathy. – Uma das morenas sorriu. – É bom te ver…

— O que… — Quinn parou e respirou fundo. – O que está acontecendo?

— Bem, você ainda tem muita culpa acumulada, deve ser a tal culpa católica que vovó Judy está sempre falando. – Mia brincou com uma risadinha, viu Beth a repreender com o olhar.

— Mãe. – Ethan se inclinou segurando a mão de Quinn. – Se você continuar presa nos erros do passado, nós quatro vamos sofrer as consequências disso. Está tudo bem. Está tudo bem se você se perdeu quando mais nova. Está tudo bem, se você não sabe qual caminho seguir agora. Está tudo bem, sentir dor. Vai ficar tudo bem, se você se lembrar que toda essa dor te trouxe até aqui. Até a mamãe Rachel. Até a vida que vocês estão vivendo agora. Vai te levar até onde eu estou e talvez até te leve até aquelas duas coisas enjoadas ali. – Ele indicou Mia e Kathy com a cabeça. – A sua dor te deu Beth. Você pode escrever centenas de páginas sobre a sua dor, você pode transformar tudo isso em amor. Está tudo bem.

— Ethan… — Quinn murmurou.

— Você precisa voltar agora, nós vamos nos encontrar em breve. – Ethan pegou a mão da mãe e a beijou.

Quinn olhou para Beth e balançou a cabeça.

— Você ouviu o que eu disse? – Ela perguntou em voz baixa. – Eu nunca quis que você ouvisse isso. Eu enterrei isso tão fundo em mim, eu nunca falei nada disso em voz alta.

— Está tudo bem. – Beth falou firme. – Você tentou me proteger e eu entendo isso. Eu lamento que no meu mundo você tenha que ter convivido com ele. Quando for a hora certa, você tem que me contar, eu não vou aceitar de início. As coisas vão ser bem difíceis entre nós, mas eu vou entender e vou te amar ainda mais. Apenas me dê tempo, okay?

Quinn acenou com a cabeça e olhou para as duas adolescentes.

— É… as coisas vão ser um pouco diferentes para nós. – Kathy falou lentamente. – Ele deveria ser meu pai, mamãe Rachel insistiria nisso… quem vai saber agora? Por favor, não deixe ser o Finn.

Quinn ofereceu um pequeno sorriso e deixou Ethan a levantar.

— Tem uma coisa que você precisa saber sobre os seus filhos. – Ethan passou a mão pelos ombros da mãe e a guiou pelo gramado. – Eles aprenderam com você a não desistir. Não importa quão ruim estejam as coisas, sempre a um fio de luz. As coisas melhoram, mesmo que a gente não perceba.

— Sim, agora conte a ela como você consegue escrever exatamente como ela. – Mia falou lentamente estreitando os olhos azuis quando o irmão se virou para encara-la. Arqueou uma sobrancelha. – O que? Ela sempre teve orgulho disso…

— Eu vou me arrepender tanto de pedir você como presente de natal. – Ethan retrucou com os dentes cerrados.

— Hey, tecnicamente você me pediu de presente de natal. – Kathy entrou na conversa com uma reclamação, apontou para a Mia. – Ela está aqui de intrusa, esse nem é o universo dela.

Beth balançou a cabeça para os irmãos mais novos.

— Crianças, temos algo a fazer… — ela moveu a mão sinalizando para eles continuarem andando.

Quinn sorriu para eles e deixou Ethan continuar lhe conduzindo pelo gramado até a beirada de um precipício.

— Hey… Quinnie. – O chamado rouco a fez se virar dando de frente com a sua versão mais velha, os filhos ficando alguns passos mais longe. – O mundo é uma folha em branco e você precisa preenche-lo com a sua tinta. Mesmo que você tenha que escrever palavras que você não quer, lembre-se que elas são necessárias para o conjunto final, okay?

— Okay…

— Antes que eu me esqueça… eu amo essa música que ela está cantando para você. – A mais velha sorriu inclinando a cabeça. – Consegue ouvir?

Quinn franziu as sobrancelhas e respirou fundo. A força da voz de Rachel reverberando por cada pedaço de seu corpo.

Lean on me, when you’re nor strong and I’ll be your friend…

Sorriu e sentiu a mão em seu peito, abriu os olhos. Lá estava Quinn Fabray a olhando com aqueles espantosos olhos verdes e um sorriso gentil.

— Não se esqueça… quando você não achar que aguenta, eu vou estar aqui para carregar o peso com você.

— Mas…

Quinn piscou para ela.

— Até mais, Quinn… vá viver uma vida cheia de felicidades e tristezas.

A mais velha empurrou a mais nova do penhasco. Quinn sentiu o ar se expulso dos pulmões enquanto o mundo dava cambalhotas.

A mão firme de Rachel na sua foi o que lhe aterrou naquela cama. Respirou fundo e tentou. Rachel parou de cantar e olhou para a autora deitada na cama, sentiu a leve pressão na mão.

— Continua… — Quinn pediu com a voz fraca. – Não… para… de… cantar…

Rachel abriu a boca e então se inclinou vendo os olhos verdes de Quinn piscarem.

— Hey… — Rachel sorriu para ela. – Bem-vinda de volta, babe.

Notas finais
@just_someone13
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.