Diário 2.0
6 Capítulo VI - Insegurança
Notas iniciais
Lembro de falar sobre insegurança… lembro que tinha feito uma analogia com pessoas que tem receio de provar novos sabores de sorvete. Bem, foi uma boa analogia… naquele momento eu achava que eu era o tipo de pessoa que se lambuzava com sorvete. Agora entendi que sou do tipo que gosta da segurança de ter uma taça onde um sabor é conhecido e por cima existe apenas um pouco de um novo sabor. Percebi que ter um pouco de cautela diante de uma decisão é algo necessário para a autopreservação, o problema é quando o medo te impede de tomar uma decisão. Use o medo como trampolim para ir além, mas lembre-se… tudo bem ter uma base conhecida antes de pular.
Tomou um gole da caneca de café olhando pela janela. Ela podia ver a ponte Golden Gates recortada naquela manhã clara, andou até o escritório sentindo a madeira debaixo de seus pés nus. As paredes escuras do quarto lhe receberam quase que com saudades, Quinn olhou para o quadro de cortiça que cobria a parte de trás de sua mesa e caminhou até ela. Deixou a caneca no apoiador que já deixava ali propositalmente, pegou uma caixinha de alfinetes e a lixeira. Começou a retirar os papéis que podia e a descarta-los na lixeira antes de coloca-la no chão e se sentar na cadeira pegando um bloco de notas.
Uma boa caneta tomou lugar entre seus dedos e escreveu os tópicos que havia pensado, o prendeu no quadro e pegou a caneca voltando a se sentar na cadeira e olhar para o papel. Brincava com a caneta a rodando entre os dedos enquanto a mente trabalhava com aqueles três pontos cruciais que ela queria tanto trabalhar.
*Diário*
Rachel estava cortando o que seria a salada que iria ter de almoço, estava quase na hora de sair para o ensaio geral antes da apresentação da noite. Olhou para a caixa de som de onde começou uma melodia desconhecida. Ela gostava de abrir o aplicativo de músicas e colocar em alguma playlist aleatória para descobrir coisas interessantes que fugiriam de seu gosto musical comum. Era a letra que a atraia para aquela que tocava. As vozes dos cantores se mesclavam de forma harmônica, mas a voz feminina tinha uma força que parecia hipnotizar a atriz, eles cantavam sobre alguém que tinha mapas e caminhos traçados onde suas esperanças estavam depositadas. E cada um dos seus planos falhou e a pessoa precisou dar um novo rumo, se reerguer de novo e de novo. Mesmo com hematomas e cicatrizes, a pessoa a quem a música se referia não deixou de tentar, mesmo com medo e sem acreditar na própria força. A música era sobre alguém que tinha tudo para não tentar mais e tinha medo do passado que poderia trazer coisas ruins. A música falava que eram nesses momentos que a pessoa poderia lhe procurar e ela estaria ali, pois mesmo quando tudo estivesse caindo se a pessoa ainda tivesse forças para caminhar ela voltaria para casa. Rachel sentiu a pele arrepiar ao entender que a música poderia ser aplicada a Quinn… e a ela? Apoiou a faca contra a tábua de corte e olhou pela sua cozinha pensando no que aquilo realmente significaria. Ela e Quinn. Ela perdoava a autora e isso era um fato que nunca poderia ser questionado, ela perdoara Quinn ainda na época do colégio. E ela decididamente não seria hipócrita em negar que estava sexualmente atraída pela mulher, algo em Quinn… nessa nova Quinn que se mostrara… era fascinante. Talvez fosse a desenvoltura com a qual falava. A firmeza com a qual se colocava. A surpreendente abertura emocional que a mulher exibiu. Ou o olhar… talvez fosse o olhar que Quinn tinha ao lhe encarar… ela nunca realmente parara para prestar atenção nos olhos de Quinn, eram uma mistura de verdes com castanhos que ela não podia definir. Mas a mulher loira lhe olhava com uma ternura e uma intensidade que para Rachel eram desconhecidos, era uma forma sensual e eletrizante. Rachel fechou os olhos engolindo a saliva que se juntara em sua boca, respirou lentamente soltando o ar pelos lábios entreabertos. E aqui estava ela, uma mulher de 28 anos que ganhara 2 Tony's e 1 Drama Desk, que já fora noiva e conhecia os prazeres de um corpo feminino. Pegou o celular e discou rapidamente.
— Estou com problemas. — Anunciou assim que o ouviu pegar a ligação.
— Estou surpreso que só tenha me ligado agora.— A voz levemente afeminada veio pelos auto-falantes. — Quando Sam me disse o que estava acontecendo eu jurei que você me ligaria em pânico.
— Quando você chega? — Rachel esfregou a sobrancelha ignorando a fala do melhor amigo. — Preciso te ver… você e Tina.
— Meu vôo aterrissa em algumas horas, o Canadá não é tão longe assim caso você queira saber. — O rapaz rebateu soltando uma risada suave. — Apenas vamos nos encontrar essa noite e você me conta tudo o que está se passando nessa sua cabecinha.
— Muitas coisas Kurt, apenas, muitas coisas. — Rachel murmurou mordendo o lábio.
*Diário*
Quinn abriu a porta do apartamento para olhar a mulher rechonchuda e de cabelos loiros dos quais ela claramente herdara seus traços. Ela carregava algumas sacolas de papel em seus braços que a filha tratou de pegar.
— A senhora sabe que não precisa fazer isso, não sabe? — Quinn já ia para a cozinha sabendo que a mãe a seguiria. — Eu ia comprar comida…
— Eu não acredito mais nesse seu discurso. — Judy respondeu com uma voz cantarolada. — Você não pode sobreviver apenas de café e biscoitos, já é uma mulher adulta Quinn. E sabe perfeitamente que precisa de uma alimentação balanceada.
Quinn tentou reprimir a vontade de revirar os olhos e se ocupou em guardar as compras, quando sugerira para a mãe se mudar para San Francisco ela buscava uma maneira de manter a senhora sobre seus cuidados. A mãe já não estava tão nova e por mais que Quinn e a irmã não se falassem, a autora sabia que as duas tinham brigado em algum momento após Quinn ter um problema de saúde. Fora uma surpresa quando Judy não lhe expulsou, a mulher continuou ao seu lado. Não houve gritos, acusações e nada do tipo, mas Quinn sabia que Frannie havia discutido com Judy a respeito.
— Obrigada. — Se esticou dando um beijo na bochecha da mulher. — Como foram as semanas que estive fora?
— Normais. — Judy olhou para a filha com atenção. — Arthur já deve estar chegando, o mandei para o petshop.
Quinn sorriu sentindo falta do cachorro que adotara há um ano, a mãe ficava com ele quando ela precisava viajar. Se virou para guardar o suco na geladeira, assim como o leite de soja e tudo o que precisava de refrigeração.
— Então… — Judy começou lentamente, viu Quinn se endireitar no primeiro som da voz da mãe. — Rachel Berry… eu lembro de algumas apresentações.
Quinn se virou lentamente para olhar a mãe que estava inocentemente lhe encarando de volta. A mais nova suspirou sabendo que teria que dar explicações a mulher.
— Será que esta cedo para bebermos? — Deu um sorriso sem graça vendo Judy negar com a cabeça.
— Tenho certeza que você nem almoçou ainda. — Olhou para o relógio em seu pulso constatando que já passava das 15h, olhou para a filha vendo a cara de culpada. — Vou fazer um sanduíche e começar a preparar o jantar, também vou fazer comida para a semana. Quinn… você já tem 28 anos, meu Deus! O remédio você tomou?
A loira abaixou a cabeça tentando esconder o sorriso, deu a volta na ilha para abraçar a mãe e dar pequenos beijos em sua bochecha até que a mulher soltasse uma risada e desse um tapa em seu braço para que lhe soltasse.
— Sim eu tomei. – Murmurou com um sorriso.
— Vamos me deixe fazer logo e nem pense que vai fugir para o escritório. — Judy ergueu o dedo apontando para a jovem. — Sente-se e me conte exatamente tudo.
— Tudo? — Quinn arqueou as sobrancelhas.
— Me poupe dos detalhes sórdidos. — Judy abanou a mão pegando um embrulho de pão.
Quinn se sentou no banco apoiando o cotovelo no mármore da ilha e por consequência o queixo na mão.
— Não aconteceu nada. — Falou atraindo a atenção da mulher mais velha que arqueou as sobrancelhas em descrença. — Eu juro, o máximo que aconteceu foi um beijo em uma noite.
— Eu vi fotos de vocês duas. — Judy zombou da filha pegando os ingredientes para o sanduíche. — Quinn eu sei que você é uma mulher lésbica com um apetite sexual compatível a sua idade, desde que…
— Mamãe. — Quinn franziu as sobrancelhas não querendo que ela completasse a fala. — Por favor.
A mulher mais velha soltou uma risada alta e concordou com a cabeça.
— Então… apenas um beijo? — Ela perguntou olhando para a filha, recebeu a confirmação. — E foi um bom beijo?
— Foi como se… eu pudesse tocar as nuvens com os meus dedos. — Quinn respondeu com um pequeno sorriso.
— Então porque apenas um beijo? Você ficou uns dois dias em NY. — Judy arqueou as sobrancelhas, empurrou o prato para a filha e se virou para pegar um copo e enche-lo com suco.
— Eu não quero forçar nada. — Quinn respondeu com um suspiro. — Eu sei que Rachel já esteve com outras mulheres, mas… eu ainda sou eu e nós ainda temos um passado.
— Você precisa deixar o passado no passado. — Judy brigou com a filha. — Mostre a Rachel a mulher maravilhosa que você se tornou e se ela não se apaixonar perdidamente por você então…
— Vai realmente usar a linha que toda mãe usa? — Quinn arqueou as sobrancelhas. — Que ela não me merece?
— Não, eu ia dizer que é porque ela é burra mesmo. — Judy piscou um de seus olhos azuis para a filha que soltou uma risada. — Espero que você tenha sido educada com ela.
— Eu fui. – Quinn revirou os olhos tentando esconder o próprio sorriso.
— Ótimo, pois eu quero netos. – Judy sacudiu um dedo em sua direção antes de se ocupar em preparar o jantar.
*Diário*
Rachel olhou para Sam assim que ele abriu a porta, percebeu que ele estava arrumado para sair.
— Kurt me expulsou. – Ele encolheu os ombros a pergunta muda que ela fez. – Disse que é uma noite exclusiva para vocês.
— Desculpa. – A morena pediu permitindo que ele a abraçasse.
— Está tudo bem. – Ele soltou uma risada. – Vou encontrar com Artie para vermos o jogo no bar de sempre.
Rachel o viu sair assobiando uma melodia qualquer e entrou no apartamento do melhor amigo. O ouviu remexer em algo na cozinha e já encontrou Tina tomando uma taça de vinho.
— Não precisava ter expulsado o Sam. – Rachel falou atraindo a atenção dos dois. – E eu sei que você acabou de chegar de viagem e provavelmente quer matar as saudades dele. Eu peço desculpas.
Ele puxou para fora do forno uma travessa de biscoitos assados, o cheiro de chocolate preenchendo a sala.
— Sam e eu teremos a madrugada toda. – Kurt deu de ombros com um sorriso de lábios. – Além do mais eu sabia que ele queria ver esse bendito jogo.
— Artie também queria. – Tina comentou a abraçando. – Além do mais eu fiquei preocupada quando vi as fotos e não vi uma ligação sua no meu celular.
Rachel se sentou e aceitou a taça de vinho que Kurt encheu para ela.
— Obrigada. – Murmurou.
— Então… — Kurt e Tina se olharam antes dos dois se inclinarem para ela e o rapaz falar. – Desembucha, o que te fez ter coragem para ir encontrar Quinn?
— Eu vi a entrevista em que ela assumiu que Beth Stern foi baseada em mim. — Rachel remexeu na bolsa pegando o livro autografado. — Decidi que precisava de algumas respostas e fui até a sessão de autógrafos.
Colocou o livro entre os dois e Tina foi mais rápida o abrindo, a asiática assobiou quando leu a dedicatória e passou para o outro que não esboçou reação, apenas olhou para Rachel.
— Tomamos um café, conversamos um pouco e foi só isso. — Rachel bebericou a taça de vinho. — Ela foi embora no dia seguinte.
— E o que ela disse sobre o livro? — Kurt perguntou curioso.
— Que não sabia exatamente o porquê, ela estava se formando e não sabia o que iria fazer da vida. — Rachel tentava resumir a conversa. — Ela não conseguia dormir, apenas sentou e escreveu.
— E as últimas fotos? — Tina perguntou ciente que algumas fotos foram publicadas das duas há uns dias atrás.
— Ela voltou quando teve uma pausa na turnê. — Rachel explicou sob os olhos atentos dos dois amigos. — Veio ver a peça, saímos…
— E? — Kurt incentivou.
— Conversamos, jantamos e ela me colocou em um táxi de volta pro meu apartamento. – Rachel encolheu os ombros. — No dia seguinte nós almoçamos juntas, conversamos mais um pouco e eu não a vi a noite… disse que ia jantar com Santana e Brittany.
— Espera. — Kurt ergueu as mãos a calando. — Vocês não se beijaram? Transaram? Nada? Pra que tanta conversa?
— Kurt. — Rachel o repreendeu ouvindo Tina rir ao seu lado. — Não tem graça. Estamos…
— Enrolando. — Kurt piscou para Tina enquanto tomava um bom gole do vinho.
— Teve um beijo. — A morena murmurou calando os dois. — Na noite que ela veio ver a peça, nós demos um beijo… um pequeno beijo.
— E como é beijar Quinn Fabray? — Tina perguntou encarando Kurt, a mais nova mantinha um sorriso nos lábios.
Rachel tomou um gole da taça se lembrando da resposta que Finn havia lhe dado quando perguntara o mesmo uma vez, anos atrás.
— É como ver fogos de artifício. — Ela respondeu pensativa.
— 4 de julho? — Kurt perguntou brincando.
— 4 de julho e o maldito Reveillon juntos. — Rachel resmungou abaixando a cabeça para apoia-la na pedra fria.
— Se isso foi um pequeno beijo. — Kurt continuou provocando. — Imagina um orgasmo.
— Rachel vai descobrir se Deus realmente existe. — Tina rebateu soltando uma risada, ouviram Rachel resmungar.
— Vocês são péssimos. — A Berry falou sem erguer a cabeça.
— Péssimos? — Kurt a cutucou para que ela erguesse o rosto. — Desde que Quinn lançou o primeiro livro você não para de falar dela. Do porquê Beth Stern se parece com você. De como seria Quinn agora. E quando ela apareceu confirmando o noivado com aquela… — Ele olhou para Tina.
— Arquiteta. — Ela respondeu.
— Sim, a arquiteta. — Ele estalou os dedos e apontou para a Chang. — Você deu uma surtada leve e revirou a internet atrás de informações sobre a mulher.
— Eu apenas queria saber se ela era uma boa pessoa. — Rachel se defendeu sentindo o rosto esquentar.
— Você sentiu ciúmes. — Tina apontou.
— Sentiu sim. — Kurt afirmou quando viu a morena negar com a cabeça. — Eu cansei de te pegar olhando para a foto da mulher caçando qualquer mínimo defeito. Por um momento eu achei que teria que te dar um choque de realidade, mas você acabou seguindo em frente, pelo menos eu acho que seguiu. Agora Quinn está ao seu alcance, acho que já está bem claro que ela tem algum interesse por você. O que você vai fazer?
— Eu não sei se… — Rachel parou e mordeu o lábio, algo ainda lhe segurava.
Kurt abriu o livro que ainda estava entre os três e o empurrou para Rachel.
— O que você não sabe é o que vocês têm que descobrir. – Ele falou mais carinhosamente com ela. – Juntas.
— E se der tudo errado? – Rachel murmurou insegura. – E se ela descobrir que não quer estar comigo? E se eu me machucar, vamos lá Kurt… eu não tenho exatamente a melhor sorte no amor.
Kurt sorriu para ela. – Para saber isso você vai ter que apostar, Rach…
Ela olhou para as palavras da dedicatória. Quinn estava lhe dando um caminho aberto e isso era claro para a morena, era aberto e era honesto. Rachel mordeu o lábio e respirou fundo. Ela iria pegar o caminho.
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