Dezesseis Anos e Meio
51 Capítulo 50
Notas iniciais
A semana estava passando devagar. Isso sempre acontecia quando Sam queria que o tempo passasse depressa. Agora que decidira mesmo se mudar para Nova York, não via hora de colocar seus planos em prática. O homem juntou todos os seus pertences em três grandes malas. O que sobrou, deu para vizinhos e conhecidos. Seria uma viagem bastante longa, mas Winchester decidira ir dirigindo, pois não queria largar seu Jeep para trás. Teria a companhia de Ben, e podiam ir parando pelo caminho, e dormindo em motéis de beira de estrada.
Seu semblante agora era de um homem decidido e confiante. Não estava mais chorando pelos cantos e se lamentando pelas decisões tomadas e suas consequências desastrosas. Não esperava mais que o destino fizesse todo o trabalho de fazê-lo feliz. Ele seria feliz, com o sem Dean ao seu lado.
Malas prontas. Tudo pronto... E ainda era quarta-feira. Mas na sexta-feira, após a apresentação da peça, ele não esperaria nem mais um minuto para partir.
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Aquela semana era a última com alguma atividade para os alunos do Colégio Saint Peter. Dean escapara de voltar as aulas, pois não faria mais sentido que o fizesse até o ano seguinte. Agora, inclusive, poderia até ir para a mesma escola, já que o professor Winchester estava indo embora. Poderia recuperar as notas, fazendo provas de segunda chamada, e estudar ao lado de seus queridos amigos. Passar toda a semana bem longe de Mackenzie e Saul... Apesar da perspectiva de grandes melhoras em sua vida, o menino não estava feliz. Sentia uma pontada no peito, e não conseguia parar de pensar no professor que tanto amou.
Por que Sam precisava ter inventado desculpas tão absurdas? Talvez se ele tivesse sido mais humilde... Quem sabe se tivesse admitido que se aproximara dele por causa do irmão, mas que, após algum tempo, acabara se apaixonando por ele, pelo seu jeito de ser? Quem sabe assim Dean pudesse tê-lo perdoado. Mas aquela história de reencarnação era tão ridícula...
Sentindo-se carente e triste o garoto só pensava na hora de visitar a velha Francisca novamente. Era o único momento que podia escapar de casa, pois Saul não queria que ele fosse a lugar algum sozinho, temendo que estivesse indo ver Winchester. Não adiantava Dean jurar que não estavam mais juntos. Saul não acreditava. E Mackenzie, para não contrariar o namorado, mantinha o irmão "em cativeiro" mesmo quando Saul não estava.
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– Meu machucado está doendo! Posso ir na casa da Dona Francisca para a tia Nanete dar uma olhada?
– Coitada da Nanete! Você é um estorvo, garoto... – resmungou Mackenzie, se aproximando para olhar o cotovelo do irmão. Tinham passado três dias desde que Dean fora visto pela tia de Saul pela última vez, mas o machucado estava infinitamente melhor. Pelo jeito o moleque estava mesmo de frescura... De qualquer forma, Dean na casa de Francisca significava Dean longe dali. Era sempre uma boa ideia...
Saul estava no trabalho, então Mackenzie mesma levou o menino de carro, pretendendo deixá-lo lá por longas horas, para felicidade de ambos.
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– Nossa... Deixa de ser fresco! Seu cotovelo está muito melhor. Não tem nenhum motivo para estar doendo tanto assim como você fala. – reclamou Nanete. Dean nem se importou. Já estava acostumado a receber patadas em casa.
– Vovó! – ele exclamou com um largo sorriso no rosto ao avistar a velhinha sentada na sala. Era ótimo sentir que teria uma tarde feliz ao lado de alguém amável, que se importava com ele.
Nanete refez o curativo de Dean em poucos minutos, e largou-o com Dona Francisca. Mais tarde, quando Saul saísse do trabalho, passaria por lá para buscá-lo. Só assim para o garoto poder dar uma volta no seu tão amado Impala...
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– William, eu já te disse que te conhecia de algum lugar, não disse?
Dean respondeu que sim.
– Querido, eu já sei quem você me lembra! Você me lembra um garotinho muito querido pra mim! O nome dele era Dean. Eu trabalhei para os pais dele, e cuidava do garoto. Ele era pequeno e muito fofo. Da última vez que o vi, tinha seis ou sete anos...
O menino olhou para Dona Francisca arregalado. Dean era um nome incomum... Será que ela já tinha sido sua babá? O menino não conseguia se lembrar dela direito, a não ser por uma memória muito vaga de já tê-la visto antes. A dúvida do garoto, entretanto, foi logo sanada quando a velhinha continuou seu discurso.
– É impressionante como vocês tem o mesmo jeito, a mesma energia... Mas o Dean hoje seria bem mais velho que você... – Disse ela em seguida, pensativa.
Será então que ela estava falando de seu irmão? Mas como então ele poderia lembrar-se dela? O coração do menino já estava aos pulos quando Francisca lhe perguntou se ele acreditava em reencarnação.
– Não, não acredito! – respondeu Dean um tanto aflito.
A velhinha sorriu.
– Você tem dezesseis anos, não é? É que pelas minhas contas... – continuou ela, ainda pensativa — ele deve ter morrido um pouco antes de você nascer... Pobrezinho... Ainda era muito jovem.
Sim, mas isso era apenas uma coincidência! Não tinha nada a ver com reincarnação... Primeiro vinha Sam com essa história, e agora também a vovó Francisca? Aquilo não era possível! Ele era parecido com o irmão sim, mas graças à genética, e não a explicações exotéricas sem pé nem cabeça.
Dean então disse à velha que teve um irmão chamado Dean, que morrera um pouco antes dele nascer. Todos diziam que eles eram idênticos fisicamente. Então era isso! Francisca vira em William, como ela chamava Dean Ross, uma versão mais velha do garotinho que conheceu no passado.
– Você é irmão do Dean!? — exclamou Dona Francisca entusiasmada. — Mas se são parecidos fisicamente eu não posso saber... Esqueceu que eu nunca pude ver seu rosto, querido? A semelhança entre vocês dois vai além das aparências...
O garoto ficou sem ação. Sim, a vovó era cega! Ficara completamente cega há quase três anos. Pelo jeito a semelhança entre ele e seu irmão ia mesmo além das aparências. Muito além...
Dona Francisca então se lembrou que os pais de William, que haviam morrido recentemente, eram Roger e Sarah, e lamentou-se muito por isso. Ela ficara sabendo que o casal reatara o casamento mais ou menos na mesma época que o filho deles morreu. Depois não soubera mais nenhuma notícia.
– E a sua irmã mais velha? Como está? É a moça que veio te trazer, não é?
Dean assentiu.
– Engraçado... Não me lembrava do nome dela ser Jane... Não era um nome com M? Mackenzie... — lembrou-se Francisca.
– Ela trocou de nome... Não gostava de Mackenzie... — explicou o garoto, gaguejante, na mesma hora que Nanete entrava na sala. A tia de Saul lançou-lhe um olhar dos mais macabros. O que aquela peste estava aprontando? No mínimo exagerando, falando que sofria maus tratos e querendo que a velha entregasse sua irmã e Saul à polícia.
Tia Nanete tratou de ligar para o sobrinho para que este buscasse o garoto imediatamente. Enquanto esperava por ele, não desgrudou de perto dos dois, para se certificar de que Dean não falaria mais nada que comprometesse o casal.
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– Você falou o nome da Mackenzie pra aquela velha? — Saul ficou furioso quando soube.
– É que ela já conhecia a gente... Não deu pra esconder. De qualquer forma, não entendo o porquê de não falarmos nossos nomes verdadeiros... — resmungou Dean.
Saul parou em frente de casa e saiu do carro, fechando a porta com força. O menino estremeceu. Pobre Impala...
– Mackenzie não te explicou? Aquela velha é maluca. Pra inventar que eu abuso de você, não custa. E aí vai dar nosso nome na polícia...
– Ela não me parece nada maluca...
Saul não gostou da resposta. Filho dele, não discutia com o pai. Já foi empurrando o louro pra dentro e lhe dando uns bons tapas.
– E não quero você confabulando com aquela bruxa velha de novo!
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Horas mais tarde, Dean era o mais infeliz dos mortais. Cheio de novos hematomas no corpo, proibido de ir visitar a vovó Francisca, e, ainda por cima, pensando em Sam, que ia embora. Mas, além de triste, ele estava intrigado. Como será que ele podia ter alguma lembrança de Dona Francisca, se jamais a conhecera? O pior de tudo é que forçando bem a memória, lembrava-se de uma versão mais jovem da mulher. Estranho... Muito estranho... Talvez ele estivesse ficando maluco. Mas reencarnação? Nisso ele não acreditava...
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Finalmente a sexta-feira chegara. Sam passara a noite em casa, e, de manhã cedo, entregou as chaves do imóvel ao corretor. Assim que conseguisse vender já teria um bom dinheirinho para pagar parte de um apartamento em Nova York. O homem arrumou suas malas no carro e rumou para o Saint Peter com o coração aos pulos de ansiedade. Ben estava ao seu lado, e ficaria escondido em seu quarto no colégio até o final da peça. O plano era pegar o bichinho e se mandar dali assim que a atividade com seus alunos terminasse.
– Poxa, eu insisti tanto com ele... Mas o Dean é teimoso... Cabeça dura! – lamentava-se Misha para o amigo Justin.
Ambos estavam tristes pelo caso de amor entre o professor Winchester e Dean ter terminado tão mal. Tanto Misha quanto Justin sentiam-se parte daquilo, quase como se eles fossem dois cupidinhos que estavam ali para ajudar – mas falharam miseravelmente em sua tarefa.
– Deixa de conversa fiada! Vamos ensaiar a peça mais uma vez! – ordenou Ruby, esbaforida. – Daqui a pouca horas estaremos em cima daquele palco! – guinchou nervosamente.
Jo também parecia nervosa, correndo de uma lado pro outro. Depois que Dean se afastou da produção, era ela a responsável pelo cenário.
– Preciso de ajuda pra colocar essas coisas todas no lugar! – choramingou a ruiva. Sorte que o professor Winchester chegou para ajudar. Com o mais velho entre eles, os alunos sentiram-se mais tranquilos. A peça seria um sucesso!
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Dean olhou no relógio. Eram duas horas da tarde. Dali a duas horas seus amigos e Sam Winchester estariam encenando a peça. Depois, o professor iria embora pra sempre... O menino tentou assistir televisão, mas não conseguiu se concentrar em nada. Jogar joguinhos eletrônicos, nem pensar... Como ele queria ao menos poder sair dali e ir conversar com a vovó Francisca... Mas o único jeito agora era se fugisse de casa, e isso ele não se atreveria a fazer...
O garoto então, mais uma vez, lembrou-se da velha, intrigado com a imagem dela mais nova, que lhe vinha a cabeça... Reencarnação? Seria possível? Quase sem pensar, pegou a caixa que guardava as recordações do irmão. Desde que vira o desenho de Sam e a declaração de amor, jamais tivera coragem de tocar naquele objeto de novo.
Ahhh sim. Ali estava Dona Francisca. Dean no fundo sentiu-se desapontado ao vê-la ao lado do irmão na fotografia. Era por isso que lembrava-se dela... Já tinha visto a imagem de Miss Hernandez antes. Dona Francisca Hernandez, a doce senhora que, pelo jeito, passara todo tempo ao lado de seu irmão no hospital, quando ele se tratou do câncer pela primeira vez.
Dean viu novamente o desenho, retratando o rosto de Sam. Dessa vez, não parou por aí. Continuou a olhar cada fotografia e cada documento. Começou a se interessar ainda mais quando achou mensagens escritas pelo irmão. Pelo jeito em algum momento ele não conseguia mais falar, e, sendo assim, escrevia para comunicar-se. "Quero água", "estou com frio", "fica comigo", "liga a TV", "muda de canal", e outras frases corriqueiras. É claro que não haviam respostas, nem mesmo quando o doente fazia perguntas. As outras pessoas provavelmente lhe respondiam falando.
"Quem é essa moça de branco?" — perguntou Dean. Dean Ross não sabia o que lhe foi respondido, mas ficou intrigado com a pergunta que se seguiu. "Você não está vendo ela?". Em seguida, outra frase "Acho que estou vendo fantasmas. Ela disse que quer conversar comigo!"
O louro arrepiou-se. Ou seu irmão estava alucinando ou as pessoas ficam mesmo sensitivas perto da hora de sua morte... Leu mais algumas frases sem grande importância, e algumas mencionando Sam: "saudades do Sam", "por que o Sam não pode vir?", "diz pro Sam que eu o amo"... Pelo jeito seu irmão fora tão apaixonado por Winchester quanto ele próprio. De repente, Dean se deparou com outra conversa intrigante:
"Me promete uma coisa". "Quando eu morrer, se você e a mamãe tiverem outro filho, coloquem o nome dele de Dean Ross".
Dean sentiu seu coração acelerar. Então seu irmão havia escolhido seu nome? Depois sentiu uma enorme tristeza ao imaginar seu pai lendo aquelas palavras, escritas pelo filho que tanto amava. Ele quase pôde ouvi-lo falar "Quem disse que você vai morrer?". E Dean, respondeu:
"Se eu morrer. Promete!"
"Não é bobagem! Vocês não estão velhos. Promete, por favor!" — Insistiu o menino.
"É que eu quero que ele me reconheça."
Dean Ross ficou muito confuso. Quer que quem o reconheça? E o que o nome "Dean Ross" tinha a ver com isso? Pelo jeito, Roger também não entendera nada...
"Me disseram que eu vou voltar, como seu filho. Eu quero me chamar Dean Ross. Pro Sam me reconhecer. Ele vai saber que sou eu!"
"Eu posso não reconhecê-lo, mas se ele me reconhecer já ajuda! De qualquer forma, eu sei que irei amá-lo."
"Eu estou bem. Vou descansar, mas só depois que você prometer."
"Obrigado, pai. E nunca se esqueça que você prometeu. Te amo!"
Aquelas foram as últimas frases de seu irmão. Dean sentiu grande emoção ao lê-las, e tinha lágrimas nos olhos quando colocou os papéis de volta à caixa. Ross foi o nome de um dos amantes da gruta, disso ele se lembrava... O garoto que amava pintar, tanto quanto ele próprio. Se reencarnação existia, talvez ele tivesse sido Ross, e depois Dean, e por fim, Dean Ross... Por isso tanta afinidade com a vovó Francisca! Vai ver Sam interpretou a mensagem como deveria... E bastava que Sam o reconhecesse... Bastava que ele, Dean Ross, amasse o Winchester de volta... E meu Deus, como ele o amava! Grossas lágrimas pingavam de seus olhos agora, pois era tarde demais... Seu irmão não previra que fosse reencarnar como um tremendo idiota, cabeça dura, e que deixaria o grande amor de sua vida lhe escapar por entre os dedos...
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