Dezesseis Anos e Meio
49 Capítulo 48
– Au, au, au!
– Fica quieto, Ben! — ralhou Sam baixinho. Não queria que o filhote acordasse Garth que ainda estava dormindo. Era segunda-feira, cedo pela manhã, e o homem que chegara na véspera do Japão havia de estar cansado.
Winchester colocou o paletó e saiu de fininho, torcendo para que Ben se comportasse na sua ausência. Garth prometera cuidar do cachorrinho. Mais tarde, ele voltaria para encontrar o amigo. Era sorte que estivessem em semana de provas e apresentação de trabalhos, pois assim era mais fácil conseguir horário livre e tirar alguma folga. Garth viera de longe para passar uns dias com ele, e Sam precisava lhe dar atenção afinal.
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Assim que chegou ao Saint Peter, Sam avistou Misha e Justin, que foram depressa ao seu encontro. Ambos pareciam um pouco sem jeito, ou talvez até preocupados.
– Professor... O Dean me contou da conversa de vocês... Sinto muito que ele esteja agindo desse jeito... — disse Misha, cabisbaixo.
– Você está bem? — quis saber Justin.
Sam fitou os jovens nos olhos. Era um tanto impressionante que os amigos de Dean se importassem tanto assim com ele... Sempre foram a favor de seu namoro com o louro, e em nenhum momento deixaram de apoiá-lo e ajudá-lo. Winchester estremeceu. Como fora tapado... Como não percebera antes? Aquele par de olhos azuis intensos o fitavam com a mesma expressão preocupada que tanto vira em Castiel, seu ex-mentor. E Justin, tinha o mesmo olhar inquieto de Oliver! Era lógico que estava diante de seus velhos amigos, reencarnados. Só fora capaz de perceber, entretanto, após se lembrar do que dissera Seu Romero. Pela idade que tinham, Misha e Justin reencarnaram pouco depois da morte do primeiro Dean. Vai ver era por esse motivo que nunca mais tivera notícias de seu antigo mentor...
Winchester sentiu seus olhos marejarem e sorriu. Justin e Misha eram ainda tão jovens... Não era certo que passassem tanto tempo se preocupando com ele.
– Eu estou bem, garotos. Muito obrigado por serem sempre tão legais comigo... — Disse ele, colocando os braços por cima dos ombros dos dois, e abraçando um de cada lado. — E vocês, como estão? Estão se saindo bem nas provas? — quis saber o mais velho. Não era justo que todas as conversas fossem sempre sobre ele afinal... Disfarçaria sua tristeza se fosse preciso, mas não iria mais sobrecarregar os meninos com seu choro e seu lamento.
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– Amiga, olha lá o professor Winchester. Sempre tão triste... Coitadinho... — Lamentou-se Ruby ao ver Sam se aproximar da cantina com o olhar perdido, após se afastar de Justin e Misha.
Há dias que as meninas conversavam muito sobre a tristeza aparente de Sam, e o novo comportamento de Brian, que agora parecia mais leve e mais simpático. Talvez Brian tivesse terminado com Sam por causa de Dean... Era provável até que o louro estivesse protelando em voltar ao colégio por causa disso. Aquela teoria explicava os olhos vermelhos e o olhar perdido de Winchester. Mas e Scott?
– Vai ver que no fim das contas ele não gostava tanto do Sam assim... — Sugeriu Jo. — Deve estar se sentindo livre, leve e solto, com o término do relacionamento...
Ruby não concordou. A reação do treinador ao ver a foto que ela lhe mostrara era de alguém muito apaixonado e ciumento. Aqueles dois se amavam, e disso ela tinha certeza...
– Tem algo a mais nessa história... — ponderou a morena. — Se tivessem terminado por causa de traição, Brian estaria zangado com o Winchester... — argumentou. E era claro que Scott não estava nada chateado com o professor de teatro. Muito pelo contrário. Ele parecia fazer questão de cumprimentá-lo e de ser atencioso com o colega.
Outras teorias surgiram, mas nenhuma parecia explicar o comportamento dos dois.
– O problema é que sem saber o que aconteceu, acho que não vou conseguir terminar minha fic... — suspirou Ruby, tristemente.
Jo sugeriu que a amiga inventasse um fim que não tivesse a ver com a realidade, mas a morena não gostou muito da ideia... Segundo ela, "Teachers in Love" era uma obra baseada em fatos reais, e ela não poderia simplesmente terminá-la de qualquer jeito.
– Talvez o Pablo saiba de alguma coisa... Ele é o queridinho do Brian... — suspirou Ruby. Ela deveria ter tentado com mais afinco ter se aproximado do garoto, como planejara. Mas depois disso, Pablo ficou tão esquisito que a menina resolveu deixar pra lá... Bem, mas o que quer que o tenha deixado estranho, pelo jeito já havia passado. O menino estava de volta ao time de basquete e parecia mais animado do que nunca. Era a hora certa de atacar.
– Ele não vai querer te contar nada... — ponderou Jo.
– Claro que vai! Vou lançar todo o meu charme! — explicou a morena, jogando os cabelos pro lado.
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Horas mais tarde, assim que terminou suas atividades do dia, Sam encontrou-se com Garth pra jantar.
– Como foi seu dia hoje? — perguntou Garth Qualls assim que viu o amigo chegando.
– Encontrei com Castiel e Oliver! — respondeu o moreno. Garth arregalou os olhos surpreso. Sam então contou-lhe sobre a conclusão que tirara. Castiel e Oliver eram agora Misha e Justin, seus alunos, e amigos de Dean.
– Isso e sério!? Que maneiro, Sam! — exclamou Qualls entusiasmado. — É uma descoberta a cada dia! — concluiu o homem, sorrindo. Devia ter sido emocionante para o amigo reconhecer, finalmente, que seus velhos companheiros estavam tão próximos dele agora.
Sam suspirou. Queria compartilhar do entusiasmo de Garth, mas para ele, mesmo diante de uma descoberta como aquela, era difícil se deixar contagiar pela alegria. O colégio lhe trazia muitas memórias, e ir até lá deixava-o melancólico. Era impossível não pensar em Dean o tempo todo. Mas, pelo menos, aquela noite ele tinha alguém com quem conversar. Só assim o moreno não passaria horas a fio chorando, sozinho, e sentindo-se o mais miserável dos mortais.
– Acho que o Dean não volta mais pro colégio... Os meninos me contaram... O Justin vai tomar o lugar dele na peça... — desabafou o professor de teatro.
Garth, vendo seu amigo tão cabisbaixo, teve pena. Talvez Sam devesse mesmo seguir o conselho de Seu Romero e seguir sua vida. Se o destino assim quisesse, o uniria novamente ao seu amor. Àquela noite, o homem se conteve a escutar as lamentações do amigo, mas, no momento certo, deixaria clara a sua opinião.
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Segunda e terça-feira passaram sem maiores acontecimentos na residência dos Campbell. Saul deu uma desculpa qualquer para não levar Dean até a casa de sua tia, o que deixou o menino até aliviado. O braço podia estar doendo, mas não era nada que ele não pudesse aguentar... Enquanto isso, ele ia adiando sua volta ao Saint Peter, e logo as aulas deveriam mesmo terminar e o colégio entraria em recesso.
Na quarta-feira, entretanto, o menino amanheceu febril, e só podia mesmo ser culpa daquele machucado que parecia cada vez mais horroroso.
– Vamos hoje, Saul! Se esse moleque piora nas nossas mãos, nem sei... — reclamou Mackenzie.
Sem ter mais como adiar, o rapaz acabou concordando. Ligou para a tal tia, que disse poder vê-los no dia seguinte. Ela trabalhava como acompanhante de uma senhorinha, e os três poderiam ir até a casa de sua patroa para que ela olhasse o braço do garoto.
Dean recolheu-se em seu quarto para mais um dia miserável. Agora, ele vivia confinado em único aposento, pois evitava ficar perto de Mackenzie e de Saul o máximo de tempo possível. O homem, pelo menos, saía para trabalhar, mas Macky, agora com dinheiro na mão, havia largado seu emprego.
Sem nada para fazer o dia todo, Dean tentava distrair-se com joguinhos no computador. É claro que lembranças vinham a sua cabeça o tempo todo: lembranças felizes de seus dias ao lado dos pais, e, também, ao lado de Sam. Mas o louro tentava não se deixar envolver por elas. Não tinha mais lágrimas para chorar.
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O que seu neném haveria de estar fazendo? Será que Mackenzie estava sendo uma boa irmã pra ele? Dean não saía dos pensamentos de Sam.
– Te dou uma moeda pra você guardar esse pensamento pra você! — brincou Garth ao notar o quanto o amigo parecia aéreo. Ele não aguentava mais ouvir Sam falar de Dean... Era hora de virar o disco...
Sam sorriu. Estava feliz de ter a companhia do amigo para mais um jantar no meio da semana. Precisava mesmo se controlar para não parecer um chato.
Garth respirou fundo. Tinha conversado bastante com Clark aquela tarde. Era hora de tentar convencer Winchester...
– Sam... Eu estive pensando... — disse titubeante. — Acho que se você continuar nesse colégio... Nunca vai conseguir pensar em outra coisa. Talvez você nunca consiga ser feliz enquanto trabalhar no Saint Peter.
Sam olhou para o amigo, chocado com o que acabara de ouvir. E então o que Garth sugeria? Que ele ficasse sem emprego? Como se sustentaria? Além de tudo, ele ainda tinha um bebê cachorro para criar!
– E vou trabalhar onde? — perguntou Winchester irritado. — O Saint Peter paga bem. Eu não tenho condição de ficar sem emprego!
A verdade é que jamais passara pela cabeça de Sam afastar-se de lá. Sempre existia a esperança de Dean voltar... E, mesmo que não voltasse, o castelo, bem ou mal, fazia o moreno sentir-se mais próximo de seu lourinho.
– Não te faz bem ficar aqui, Sam! — ponderou Garth — Nem no castelo, nem nesse seu apartamento, onde o Dean já esteve tantas vezes...
– Ahhh, ok, então vou pra debaixo da ponte com o Ben... Agora faz sentido... — ironizou Winchester.
– Deixa de ser bobo. Clark andou conversando com uns amigos em Nova York. Você é um ótimo ator, Sam. E eles gostaram da sua foto. Já tem dois diretores de teatro interessados em te contratar. E Clark disse que até não conseguir um apartamento, você pode ficar com ele...
A princípio, Sam recusou-se a aceitar aquela ideia de mudar sua vida completamente. Mas Garth fez todo o esforço do mundo para tentar convencê-lo. Aquela noite, Sam custou a dormir contemplando a possibilidade de deixar sua antiga vida para trás.
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– Oi Pablo! Faz tempo que a gente não conversa, né? — Ruby aproximou-se do menino, sorridente, na quinta-feira pela manhã, após um o treino de basquete.
– Oi... — respondeu o garoto, sem entender muito bem o interesse da menina.
Ruby começou a jogar charme. Pouco tempo depois, foi interrompida por Christian, que já chegou colocando o braço sobre os ombros do namorado.
– Não demora muito não, amor. Não é bom você ficar assim todo suado nesse vento. Vai tomar um banho!
Pablo corou, mas acenou a cabeça afirmativamente e despediu-se de Ruby. Agora os dois meninos mal tentavam disfarçar que estavam juntos. E Brian, ao invés de atrapalhar como fazia antes, deixava os dois garotos em paz.
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– O que você vai fazer agora? — perguntou Jo, preocupada.
– Vou informar meus leitores... — suspirou Ruby. "Teachers in Love" entraria em hiatos até que ela conseguisse, e se conseguisse, mais alguma informação. Pelo jeito, tentar arrancar algo de Pablo estava fora de questão. Ele jamais se interessaria por ela...
Em seguida, a morena ficou pensativa.
– Jo, você não acha que Pablo e Christian são um casal fofo? — perguntou ela por fim, sorrindo, e pelo jeito cheia de más intenções. Jo estremeceu. A ruiva não sabia se estava preparada para outra obsessão da amiga, assim tão cedo.
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Não muito longe dali, Mackenzie e Saul finalmente levavam Dean para a casa da velhinha, onde a tal tia enfermeira de Saul trabalhava.
– A gente te deixa lá, e voltamos pra te buscar depois. — informou Mackenzie.
Há pouco tempo atrás, Dean teria ficado apavorado. Nunca tinha visto aquela mulher na vida, e teria que ficar sozinho com ela, que faria sabe-se lá o que com seu braço machucado. Naquele momento, entretanto, sentiu-se até aliviado. Por pior que fosse a tia de Saul, haveria de ser mais agradável que aquele casal maldito. Ou talvez não...
– Pode entrar e se sentar, que eu já vou — disse a mulher, secamente, e com cara de poucos amigos. Ela mostrou o caminho da sala para o menino e voltou a porta para trocar algumas palavras com o sobrinho.
O ambiente estava pouco iluminado. Dean entrou, caminhando devagar, e com o coração a mil. Na sala, uma velhinha se balançava em uma cadeira de balanço que rangia.
– Quem está aí? — perguntou ela com a voz trêmula.
Mais trêmula que a voz da velha, estava Dean. O menino engoliu em seco. Talvez a tia de Saul pretendesse cozinhá-lo para aquela velha comer com batatinhas.
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