Dezesseis Anos e Meio
42 Capítulo 41
– O que foi, Sam? — perguntou Megan, vendo o irmão examinar seu aparelho celular com expressão confusa.
– Nada... Eu jurei que tinha ouvido uma mensagem chegar. Mas não... Não tem sinal nenhum...
A mulher riu. Sam era muito bobo. Claro que não tinha sinal nenhum... Estavam no meio do mato.
– Então larga esse celular aí e vem me ajudar a procurar meu chinelo... Onde está o meu chinelo, Ben? — perguntou então a moça, com a intonação carinhosa de quem ralha com um alguém muito pequeno e inocente. O cachorrinho a fitou de volta, balançando o rabinho. Ele queria brincar mais!
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O resto do feriado foi tranquilo para Sam, enquanto Dean sofria com tudo o que havia lhe acontecido. Sábado Mackenzie conseguiu uma liminar para ter a guarda provisória do irmão. No domingo pela manhã, Roger e Sarah seriam enterrados, e Dean receberia alta. O menino ainda sentia dores, mas estava bem e podia caminhar, contanto que não fizesse esforço demais.
Dean acordou muito cedo nesse dia, e, prontinho para sair, esperava por Mackenzie que iria buscá-lo. O menino sentia um nó na garganta em pensar no que lhe aguardava. Ver os corpos sem vida de seus pais seria difícil, mas ele estava determinado a aguentar. Queria estar presente para se despedir dos dois.
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Mackenzie estava demorado tanto... Jesen acabou recostando na cama e adormecendo. Acordou assustado com um travesseiro no rosto, pronto para sufocá-lo.
– Ummmmfffff! — ele tentou gritar.
– Cala a boca, irmãozinho! Estou te matando pra ficar com toda a herança! — explicou a moça, em um tom que parecia gozação.
Dean não sabia se era brincadeira ou se era verdade... De Mackenzie podia esperar qualquer coisa... Já ia usar de toda a sua força pra lhe dar um safanão, mesmo perigando partir suas costelas ao meio, quando a moça afrouxou a pegada, deixando o travesseiro cair, e soltou um gritinho.
– Oh meu Deus... A polícia! — exclamou ela. — Não estava tentando matar meu irmão, eu juro!
Dean então viu, assustado, que um policial de fato havia adentrado o quarto. O que ele estaria fazendo lá? O menino ficou ainda mais surpreso quando o homem foi de encontro a Mackenzie e algemou suas mãos.
– Você está presa por tentativa de assassinato, mocinha... — disse ele, puxando a loura para um beijo em seguida.
Com um misto de alívio e desgosto Dean então reconheceu Saul. Mas o que o maluco estava fazendo com uniforme da polícia? Logo o louro não tardou a descobrir que alguém com muito pouco discernimento havia lhe dado esse emprego. As ruas da cidade com certeza estavam agora mais perigosas...
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Não muito longe dali, Brian terminava de se aprontar para sair, enquanto Patrick, vestido todo de preto, esperava por ele na sala. O rapaz continuava hospedado no apartamento do treinador, e nesse pouco tempo de convívio, tornaram-se bastante próximos. Brian finalmente tivera coragem de contar a Vantouch sobre a culpa que sentia em relação ao acidente.
– Não foi sua culpa! — garantira o rapaz, enfático. Patrick argumentava que quem saiu igual um louco, sem colocar o cinto de segurança, fora Roger... É claro que ele não concordava com que Brian tinha feito, entretanto. — Isso tudo foi por ciúmes? — surpreendera-se ele, assim que Brian mencionou o Winchester. Até então Patrick acreditava que ele e Sam eram namorados. Scott lhe garantiu que não era homossexual, e muito menos namorado do professor de teatro... Estava apenas defendendo seu aluno, um menino inocente, menor de idade...
– Dezesseis anos não é mais criança! Já sabe muito bem o que faz... — argumentara Patrick. E o tal Dean Campbell pelo jeito não era mesmo bobo... Patrick havia visto as fotos do professor Winchester postadas por Ruby. E ele era de fato um homem enorme, lindo e gostoso...
Brian, é claro, discordou do rapaz. Para ele, Dean era apenas uma criança, e Winchester, o marginal que o seduzira... E ele continuava com ódio do moreno. O sentimento de culpa, entretanto, falava mais alto. Era por esse motivo que havia deixado de lado a ideia de entregar Sam para a policia, pelo menos por enquanto. Brian simplesmente não seria capaz de fazer Dean, de quem tanto gostava, sofrer ainda mais... Por isso decidira tentar uma conversa com Winchester na segunda-feira, e esperava que isso fosse o suficiente para dar um fim naquela história.
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Uma hora mais tarde, Dean estava sentado, isolado, com o olhar perdido. Já tinha visto os caixões e o rosto sem vida de seus pais. Já tinha sido abraçado por dezenas de pessoas que mal conhecia e com quem não tinha a menor intimidade. Estava extremamente triste e chocado.
Dean não havia avisado nenhum de seus amigos. Na hora da dor, preferia ficar sozinho. Não era de seu feitio chorar suas mágoas nos ombros dos outros... Se ao menos pudesse ter Sam ao seu lado... Com ele seria diferente. Era sua alma gêmea... Com quem dividia tudo... O menino mal podia esperar para falar com seu amado, e, principalmente, para vê-lo. Sorte que já era domingo, e o moreno em breve deveria estar voltando pra casa.
Enquanto isso, Mackenzie chorava e posava de vítima, deixando os parentes e amigos dos Campbell penalizados. Pobre moça... Ainda tão nova... Largada no mundo com um irmão adolescente para acabar de criar. Algumas tias, com pena, até ofereceram dinheiro, caso ela precisasse. E é claro que a loura aceitou...
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– Dean?
O menino levantou os olhos e viu com surpresa o treinador Scott. O que ele estava fazendo ali? Quem o avisara? Naquele momento, nada disso importava. Ver um rosto amigo, de alguém que realmente se importava com ele, era algo que não esperava.
Brian puxou o aluno para um abraço, e não conseguiu conter as lágrimas quando o ouviu soluçar com o rosto escondido em seus ombros. O treinador sentia tanto... Sentia demais... Mas de certa forma estava aliviado em estar ali ao lado do garoto, mesmo que o sofrimento de Dean partisse seu coração.
Patrick estava feliz por ter conseguido convencer Brian em ir àquele enterro... A distância, via-se a sua silhueta observando aluno e professor de longe. O rapaz estava tocado ao ver Scott, que antes só mostrava seu lado mais durão, sendo tão... Tão fofo... Patrick não conseguia encontrar palavra melhor para descrever o amigo naquele momento...
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Horas mais tarde...
Dean estava sentado no banco de trás do carro, com Mackenzie e Saul a sua frente. O menino ajustou o cinto de segurança, assim como fizera logo antes de sofrer o acidente com os pais, e suspirou. Não fosse a promessa feita a Sam minutos antes do ocorrido, muito provavelmente estaria morto também. Seu amor havia lhe salvo a vida... E era por ele, pensando nele, que Dean ainda tinha algum desejo de viver.
Dean baixou os olhos. Ele não se atrevia a perguntar... Temia expressar seus medos e inseguranças. Mas o que seria feito de sua vida? Mackenzie iria morar com ele? O menino imaginava que sim, apesar de torcer para que isso não acontecesse. Poderiam morar em casas separadas, mesmo que ela controlasse todo o dinheiro... Quem sabe? Era só as autoridades não ficarem sabendo... E o louro sabia que a irmã não se importava em violar as leis que atrapalhassem seus planos.
O menino permaneceu todo o trajeto calado, enquanto Maquenzie e Saul conversavam. Volta e meia examinava seu celular torcendo por uma resposta de Winchester... Afinal o moreno poderia estar de volta a qualquer momento...
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Assim que chegaram em casa, Dean estremeceu. Estava se segurando para ser forte, mas os objetos tão familiares, que lembravam momentos felizes ao lado dos pais, enxeram seus olhos de lágrimas. O paletó do pai, pendurado no cabide... O biscoitos prediletos da mãe, ainda fechados no pacote. O vaso quebrado, que Roger prometera a Sarah que iria colar. Jamais seria consertado... O menino engoliu o choro, vendo Mackenzie e Saul se espalhando pela sala. Queria sumir de perto deles e ir pro quarto dos pais. Queria deitar na cama do casal, de olhos fechados, e fingir que os dois o acolhiam como quando era criança.
Ao abrir a porta, entretanto, o garoto teve uma desagradável surpresa... O quarto já parecia estar sendo habitado por outras pessoas... As roupas no armário, agora eram de Mackenzie e, pelo jeito, do asqueroso namorado. Dean não podia acreditar... Teria não só que aturar a irmã mas também Saul? Era desgraça demais.
No chão, sacolas e mais sacolas com roupas e pertences de Roger e Sarah deixaram o coração de Dean apertado.
– O que você está fazendo no nosso quarto, Dean? Chispa! — o menino então ouviu Mackenzie vociferar, se aproximando do quarto.
– Esse é o quarto dos meus pais! — respondeu o menino, revoltado.
– Era o quarto dos seus pais... — a moça então disse enfaticamente. — E essas coisas aí vão todas pro brechó, ou então pro lixo... — completou ela ao ver que Dean examinava as sacolas.
Antes que Dean pudesse reclamar, Saul apareceu por trás de Mackenzie.
– Pobrezinho, Macky... Ele é só um menino. Está com saudade dos pais... Se tiver pesadelo, neném, pode vir dormir aqui com a gente. Nós tomamos conta de você... — disse o rapaz, fazendo Mackenzie fechar a cara e Dean sentir um frio na espinha. O menino nem soube o que responder. Olhou para a irmã, e foi com ela que falou em seguida.
– Eu quero olhar essas coisas, antes de você jogar fora!
A mulher, provavelmente enfezada pela intervenção de Saul, já estava sem paciência nenhuma com o irmão.
– Como você é chato, Dean! Já estou me arrependendo de aceitar ficar com você, sabia? Olha então se quiser! — esbravejou ela, arrastando as sacolas, e demandando a ajuda de Saul para levá-las ao quarto do garoto. Queria mesmo se ver livre dele e ficar a sós com o namorado. — E vê se não vai arrebentar essas costelas e me obrigar a te levar pro hospital, hein? Deita e fica quieto — completou a loura.
Dean engoliu em seco. Precisava dar um jeito de não aborrecer Mackenzie ou sua vida seria mesmo um inferno. O garoto fez uma carinha meiga e então perguntou com humildade.
– Tudo bem... Macky... Você vai me levar pra escola amanhã, né?
Dean sabia muito bem que o médico o mandara ficar de repouso pelo menos por uma semana. Mas o louro também sabia que seria muito mais feliz no colégio, perto de Sam e longe da irmã, e principalmente de Saul.
– Sim, vou te levar... — respondeu ela, pensativa. Seria muito bom mesmo se livrar daquele pentelho. Em seguida, entretanto, apareceu Saul para acabar com a alegria dos dois...
– Não! O médico disse que é pra ele ficar de repouso, Macky! E além disso, aposto que o seu irmão só quer é encontrar com o tal namorado... — intrometeu-se ele.
A moça deu de ombros. Por ela, Dean poderia namorar com quem quisesse: homem, mulher, criança, adulto, ou velho desdentado. Acabou se envolvendo em uma discussão com o namorado, que era da opinião de que Sam devia ir pra cadeia. No fim das contas o argumento mais convincente de Saul foi que se não cuidasse direito do irmão, Mackenzie jamais conseguiria a guarda definitiva do menino, e os milhares de dólares que vinham com ela. Para desgosto de Dean a conversa estava encerrada. E nada de colégio para ele...
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Enquanto isso, Sam dirigia de volta pra casa, mais vagarosamente que de costume. Dessa vez não porque estivesse chovendo... É que ele tinha uma companhia peluda e muito levada que volta e meia se entediava e pulava de um banco pra outro, e as vezes para o colo do motorista.
– Dorme, Ben... Fica quietinho! — pedia o professor de teatro, olhando de relance para o bichinho. Ele estava tão lindo... O homem sorriu sem perceber. Ben era um cãozinho adorável, e Dean iria com certeza se derreter por ele. Seria um reencontro emocionante!
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Dean recostou-se na cama, examinando o conteúdo de cada sacola. Agora, longe da irmã e de Saul, deixava as lágrimas rolarem livremente. Roupas que a mãe usava... Que o pai usava... Objetos que tinham desde que ele era pequeno.
De repente, surpreso, viu algo do qual não se lembrava... Era uma caixa com vários papéis: cartas, fotos, rabiscos... No meio deles, uma porta lápis antigo, com uma pintura mal feita de um cavalo com cara de cachorro. Abaixo, estava assinado Dean, com a letra torta, e o ano: 1983. Era uma pintura feita por seu irmão mais velho quando criança...
Dean limpou as lágrimas do rosto. Agora estava mais intrigado que triste e começou a examinar os papéis com cuidado.
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– Pi pi — Que barulhinho era aquele? Finalmente parecia que seu celular estava dando algum sinal de vida! Sam ficou feliz. Prometera a Dean que assim que voltasse lhe mandaria notícia. Estava, entretanto, com tantas saudades, e queria tanto saber se seu lourinho estava bem, que não podia esperar mais. Estacionou o carro na primeira parada que encontrou e só então viu a mensagem que o namorado lhe enviara dias atrás.
Pobrezinho... Suspirou o moreno. Mas Dean era um adolescente, e, portanto, dado à dramaticidade... Talvez não fosse nada grave. Mesmo assim, Sam se preocupou. Telefonar, entretanto, assim como Dean pedira, era imprudente. Afinal se Dean estava sozinho quando enviara a mensagem, podia não estar agora. O homem respondeu a mensagem: "O que aconteceu? Você está bem? Tem alguém perto? Posso te ligar?".
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Dean examinava agora as fotografias antigas que encontrara na caixa. Algumas fotos bem velhas de seus pais, e depois deles com o primeiro filho, ainda muito pequeno. Era impressionante mesmo a semelhança de suas fotos de criança com aquelas. Ele e o irmão tinham o mesmo cabelo farto e louro e a mesma carinha de sapeca...
Depois vieram fotos do irmão no hospital, que fizeram Dean estremecer. Estranhamente quem aparecia ao lado do menino parecia ser um empregada... Dean Ross não gostava de olhá-las. Era como se visse uma versão maltratada de si mesmo, dada a semelhança. Era quase como se tivesse vivido aqueles momentos tristes, mas já os tivesse esquecido...
Viu também fotos da mãe com o pai de Mackenzie, a irmã bebê, e o irmão, ainda pequeno. Por fim, fotos de Dean adolescente. Algumas bonitas, alegres... Outras, no hospital, após adoecer novamente. Pelo menos aquelas fotos dele doente não chegavam a ser tão deprimentes quando as de quando era mais novinho... Pelo menos Roger e Sarah pareciam estar sempre presentes.
Depois das fotos, vinham bilhetinhos e cartas. Dean as examinava quando ouviu o barulho de uma mensagem chegando em seu celular. O coração do garoto bateu mais forte quando ele a leu. Finalmente Sam estava de volta! O louro estava prestes a responder quando bateu os olhos em um desenho, que o fez estremecer. Era um desenho pintado com lápis de cor, retratando um garoto de cabelos castanhos. Abaixo, com uma letra caprichada, vinha a descrição "Meu amor Sam Winchester, por Dean Campbell".
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