Faltava menos de uma hora até o início da peça, e menos de duas até o seu final. O colégio ficava distante, e Saul havia confiscado o celular de Dean. Nem ligar ou enviar mensagem para Sam, ou para um de seus amigos, ele podia… O louro se apavorou. Não daria mais tempo de se desculpar com Winchester antes dele partir… Mas e se desse? Dean precisava tentar! Tinha que sair correndo dali... A janela do seu quarto era alta demais, mas era a única saída que tinha, pois não podia ser visto.

Primeiro o colchão da cama foi lançado pela janela. Em seguida, o menino se atirou. Correu o mais depressa que pôde até o ponto de ônibus mais próximo. E ele nem fazia ideia de como chegar até o Saint Peter usando transporte público…

Dean teria perguntado a alguém, mas o local estava deserto. O louro então esperou, aflito, consultando o relógio a todo instante. Será que aquele ponto havia sido desativado? Já ia correr até o ponto seguinte quando viu Saul despontar no horizonte.

– Dean, seu desgraçado! Fugindo pra ver o professorzinho? Volta aqui, seu pervertido! – bradou o homem, que se aproximava em velocidade.

O garoto sentiu seu estômago embrulhar. Agora ele estava perdido! Ou será que não? De repente um ônibus surgiu do nada, como uma bênção. O garoto fez sinal, torcendo para não estar se afastando ainda mais de seu destino. Se Saul o pegasse, aí sim ele não teria a menor chance de chegar ao colégio a tempo.

– Olha, esse ônibus é particular, viu? Esse ponto já não é utilizado pelas rotas usuais há muito tempo... — explicou o motorista.

– Por favor, me dá uma carona... Para qualquer lugar... – Implorou o garoto.

O rapaz que dirigia o veículo assentiu. Assustado, Dean reparou que os outros passageiros pareciam estranhos. Rolava uma conversa animada, mas que o menino não pôde entender. Conversavam em espanhol. Pelo jeito eram mexicanos... Por algum motivo o louro achou que tinha acabado de entrar numa roubada. Vivenciava uma sensação de déjá vu nada agradável…

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Agora já estava tudo pronto. Cenários no lugar, atores vestidos e o público começava a ocupar suas cadeiras na plateia.

– Os meus pais acabaram de chegar! – comemorou Jo, que tudo espiava por detrás da cortina.

– Christian e Pablo também! Olha lá eles! Vieram assistir a gente! – comemorou Ruby entusiasmada. Depois festejou mais ainda quando viu o treinador Brian Scott entrar ao lado de um jovem moreno, que ela logo reconheceu como sendo Patrick Vantouch.

– Será que eles estão namorando? – Perguntou Jo, curiosa.

Ruby estava tão enlouquecida que nem respondeu à amiga. Há muito tempo não trocava mensagens com Patrick. A última notícia que recebera dele dizia que Skye finalmente havia acordado do coma. Mesmo não querendo exibir seu figurino antes da hora, a morena não se conteve e correu até a plateia para perguntar mais notícias a ele.

– Espera Ruby, volta aqui! – berrou Jo – mas Ruby não quis nem saber.

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– Patrick! Finalmente estou te conhecendo pessoalmente! – exclamou a garota. – Me conta do Skye! Você não responde mais minhas mensagens… — queixou-se ela. Eu e Jo estamos loucas pra saber dele!

– Ele está se recuperando aos poucos. – respondeu o rapaz, simpático. – Mas não sabemos se vai ficar com alguma sequela... Por enquanto ainda está com muitas dificuldades motoras … O lado bom é que os pais do Skye não saem mais de perto dele. Com o susto que levaram, finalmente perceberam o quanto o filho é importante pra eles. Agora passam dia e noite ao seu lado, e a irmãzinha também. São uma família de novo!

– E deixaram aquele preconceito idiota de lado? – Ruby estava surpresa.

– Sim! Parecem outras pessoas, e inclusive me tratam muito bem quando vou visitar. As vezes é preciso uma tragédia para que as pessoas mudem suas atitudes, infelizmente…

Ruby concordou. Já ia se despedir e voltar para trás do palco quando uma pergunta de Brian lhe pegou de surpresa.

– Vocês se conhecem? – o treinador parecia confuso. Foi só então que a menina se mancou do furo. Se Brian descobrisse como ela e Patrick se conheceram, ela estava ferrada.

– É… Bem… Sim… Mas tenho que ir… — gaguejou a morena, correndo depressa dali.

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– Está indo pra onde, garoto? – perguntou o motorista.

– Para o colégio Saint Peter… — disse Dean trêmulo, ao mesmo tempo que tirava 30 dólares do bolso para oferecer ao homem. Era o único dinheiro que carregava consigo… Talvez não fosse o suficiente… O menino engoliu em seco.

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– Nossa, tem muita gente na plateia! – choramingou Justin. Ele estava ficando aflito. Sim, era verdade que tinha decorado todas as falas de Alec, o personagem de Dean, e acreditava que poderia fazer um bom trabalho substituindo o amigo… Ele temia era pelo seu substituto, um garoto chamado Dennis, que faria papel de cocheiro agora.

– Acho que vou vomitar! Estou nervoso! – reclamava Dennis, enquanto roía as próprias unhas como se fossem uma grande iguaria. Justin tentava acalmá-lo a todo custo, mas parecia uma tarefa impossível.

– Esses CDs estão uma bagunça! – suspirou Misha, também já ficando nervoso. Quem mexera nas suas coisas? Provavelmente alguma daquelas meninas malucas… O moreno de olhos azuis começou a colocar tudo em ordem, mas era uma corrida contra o tempo. A trilha sonora, escolhida com tanto cuidado, precisava estar impecável.

Winchester andava de um lado para outro tentando controlar a agitação dos alunos.

– Jo! – chamou o professor – Se prepara que nós vamos entrar daqui a cinco minutos! – alertou o homem. A primeira cena era do Sr. Forester (Sam) e sua filha Tish (Jo) na mansão em que moravam. Em seguida eles pegariam a carruagem, conduzida pelo cocheiro (Dennis) e passariam em frente à casa de Alec (Justin) e Rory (Ruby).

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A plateia, entusiasmada, começou a aplaudir quando as cortinas se abriram revelando Sam e Jo. As falas fluíam com naturalidade, e tudo ia bem. Quando o cocheiro chegou, entretanto, professor e aluna se surpreenderam. Onde estava Dennis? O que Justin fazia em seu antigo papel?

Aquela peça seria um grande desastre! Pelo jeito Dennis tinha mesmo desistido, e Justin entrara em seu lugar. Winchester estremeceu... Que grande confusão! Provavelmente os garotos escalaram algum outro amigo no último segundo para fazer papel de Alec. Mas logo Alec, um personagem tão importante?! O professor estaria irritado com a irresponsabilidade de seus alunos se não estivesse agora tão temeroso com o fracasso que estava por vir.

Era difícil esconder o descontentamento que sentia quando Sam finalmente se aproximou por trás do novo ator, vestido de camponês. Quem haveria de ser? Talvez o Roger maluco, ou o Rudolf inconveniente… Ou o… Dean!? O professor sentiu uma escola de samba dentro de seu coração quando finalmente reconheceu o garoto. Ele podia esperar qualquer pessoa, menos ele… Naquele momento Winchester esqueceu-se completamente de que era o Sr. Forester, e que Dean, era Alec. Aquele que estava diante de seus olhos, era o amor da sua vida. Mas por quê? Por quê Dean resolvera ir até lá? Winchester, que não esperava encontrar com seu amado antes de partir para Nova York, ficou baratinado.

– Boa tarde, Sr. Forester! Boa tarde, Tich! – cumprimentou Dean, como mandava o script.

Aquele era o sorriso mais lindo do mundo… Sam teve vontade de chorar. Talvez o menino estivesse ali apenas para lembrá-lo de que ele jamais haveria de tê-lo de novo em seus braços.

– B… Boa tarde… — respondeu o Sr. Forester, quase perdendo a compostura.

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Dean também estava emocionado ao ver seu amor. Acima de tudo, ele estava muito feliz por ter conseguido chegar a tempo. Se arrependia por ter sido tão preconceituoso… Que mexicanos legais aqueles do ônibus! Além de não aceitarem seus 30 dólares, ainda desviaram-se de seu caminho para deixar o garoto bem perto da escola. Parece que estavam felizes, comemorando a legalização no país que tão bem os acolhera. Que bom para eles, e para Dean também! O menino subira a rua correndo, conseguindo chegar no momento certo.

O louro respirou fundo. Agora, tudo o que ele queria era desempenhar bem seu papel e fazer com que o professor de teatro se orgulhasse dele. Dean se concentrou e lembrou-se de cada fala que precisava ser dita. Sam, por sua vez, apesar do turbilhão de confusas emoções que lhe invadiam, também conseguiu se recompor.

Os minutos iam passando, e tudo ia bem com a apresentação. A plateia se divertia a valer, sem perceber a enorme tensão que existia entre os dois protagonistas. Sr. Forester e Alec estavam prestes a começar sua primeira batalha…

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A música era forte, vibrante e ritmada. – própria para uma luta. Dean e Sam se aproximaram, trêmulos. Nenhum dos dois tinha coragem de olhar o oponente nos olhos … Estavam agora tão próximos que era possível ouvir a respiração ofegante um do outro. O professor suava frio, e seu cheiro era embriagante. Quando o mais velho tocou Dean com as mãos, por um momento, o menino sentiu seu coração parar de bater, e o ar faltar em seus pulmões. Ahhh como ele queria poder esquecer aqueles movimentos decorados e apertar o corpo de Winchester contra o seu. A vontade era tanta que os olhos de Dean marejaram.

Era impossível não se lembrar de quando treinaram pela primeira vez... Ou quando, escondendo-se num cantinho do tablado, puderam finalmente matar a vontade que sentiam, beijando-se sob a vigília de Oliver e Castiel. Sam então ergueu Dean do chão, fazendo o que haviam ensaiado. Estava trêmulo e ofegante. Parecia tão mais fácil quando era Oliver quem encarnava Alec... É que Winchester não tinha vontade de soltar aquela deliciosa versão do camponês, de jeito nenhum... Queria poder levá-lo, em seu colo, para bem longe dali.

Segundos depois, Dean caia no colchão. Ele nem acreditava que tinham conseguido fazer tudo com tamanha perfeição…

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– Nem acredito que está tudo saindo tão bem! – comemorou Misha. Justin também estava muito satisfeito. Dean, mesmo tendo estado afastado por tanto tempo, não esquecera nenhuma fala! Os meninos ainda não tinham entendido a súbita mudança de opinião do amigo… Tudo o que sabiam é que, em momento muito oportuno – com Dennis tendo chiliques nervosos – Dean aparecera correndo, esbaforido, dizendo que estava de volta. Nem tiveram tempo de conversar. A peça já havia sido iniciada, e Sam e Jo, já estavam no palco. Então Justin e Dean mudaram de roupa, às pressas, voltando cada um para o seu papel original.

Naquele momento, Misha e Justin já haviam terminado suas participações como atores, e agora ambos conversavam baixinho, tomando conta da aparelhagem de som. Era hora da cena final – momento crucial!

Alec (Dean) chega à mansão do Sr. Forester (Sam), onde ele mantém presa a irmã de Alec (Rory, interpretada por Ruby), e a sua própria filha (Tish, interpretada por Jo), para que esta não vá ao encontro de seu amor.

Alec entra pela janela, surpreendendo o Sr. Forester e as duas moças. O camponês tem uma espada nas mãos, e espera que o nobre senhor empunhe a sua também. Os dois duelam pela sala, enquanto as mulheres soltam gritinhos desesperados. Até que Alec finalmente desarma o seu oponente e aponta a espada para o seu coração.

Dean estava ofegante. Ele olha para Sam, pega sua espada de madeira e aponta para ele.

– Diga adeus, Sr. Forester! — exclamou o jovem, olhando, finalmente, nos olhos do professor. Mas, ao invés do olhar doce que Dean costumava lançar à ele, Winchester deparou-se com um olhar de ódio, que o fez estremecer. O professor jamais vira os olhos de seu amado brilharem de maneira tão fria, cruel e decidida. Naquele momento, Sam teve a certeza que Dean estava ali para dizer-lhe o quanto o desprezava. O quanto o odiava... Winchester engoliu em seco, com o coração palpitando de agonia.

– Por favor, não faça isso! — pediu o homem, suplicante. Se o Sr. Forester suplicava por sua vida, Sam, por sua vez, suplicava a Dean que não partisse seu coração em mil pedaços.

A emoção na voz do professor atingiu o aluno, que, intuindo o desespero genuíno de seu amado, sentiu-se também abalar.

– E por que eu haveria de lhe poupar a vida?! – perguntou então o menino, com a voz trêmula, mas seguindo o script.

– Eu… Eu… — Sam quase se esqueceu da fala, mas conseguiu se lembrar – Eu me arrependo de tudo que fiz a ti... Me envergonho de ter agido como agi… — E, estranhamento, Winchester proferiu aquelas palavras com se, novamente, fossem dele para Dean. Sim, ele se arrependia de ter escondido a verdade de seu amado. Se envergonhava muitíssimo por ter sido covarde e causado tando sofrimento ao menino.

Sam olhava diretamente para Dean. Naquele momento, a plateia havia sumido. Desaparecido como num passe de mágica… O louro tinha os olhos úmidos, assim como o moreno. Ambos estavam emocionados pelo reencontro e pelas palavras que soavam como um real pedido de desculpas.

– Por favor, me perdoa! – Continuou Winchester — Eu amo... Eu amo… — gaguejou ele.

Misha e Justin se entreolharam assustados. Jo e Ruby, idem. Será que o professor Winchester esquecera a sua fala? Logo no finalzinho da peça!? “Eu amo sua irmã” – soprou Ruby, baixinho. Mas Sam não podia ouvi-la.

– Eu amo você… — completou o homem, deixando Dean e a plateia embasbacados.

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Naquele instante, Saul, acompanhado de quarto colegas policiais, adentravam o teatro. Estavam a procura de Dean e do professor pedófilo, que pretendiam levar dali direto para a cadeia.