Dez E Meia

1 Ao som do relógio


“O que você está fazendo?” Se aproximou de mim.

“Pintando.” Como se não fosse óbvio levando em conta a tela, as tintas e os pincéis.

“O que está pintando?” Perguntou.

“O presente.” Respondi, e recebi um olhar perturbado em troca. “No meu ponto de vista.”

“Por que tanto cinza e preto?”

“Porque é o que eu vejo.”

“Entendo.” Foi embora, finalmente.

Essa conversa foi o que marcou minha última aula de pintura, e eu terminei o quadro naquele dia. Mas odeio esse tipo de pessoa, que tenta puxar assunto e logo que sente que não vai conseguir desiste. Foi assim que não consegui nenhum amigo no curso, todos eram assim.

Aí eu saí de lá e fui comprar um sorvete. Estava ruim. Não devia ter pedido de limão, gastei dinheiro à toa e joguei fora a casquinha inteira. Não que isso realmente importasse. Eram mais ou menos seis horas se não me engano, mas já estava quase escuro, e o dia estava nublado, por isso nem o pôr-do-sol chegava a ser bonito. Fui andando pelas ruas da cidade, sem rumo. Tantas pessoas interessantes com vidas provavelmente interessantes iam e voltavam e passavam por mim que minha cabeça chegava a doer de criatividade. Já que tenho essa mania, de inventar as vidas das pessoas. Passou por mim um grupo de góticos e um grupo de freiras ao mesmo tempo, foi divertido, imaginar o que se passava pela mente de cada um naquele momento. Talvez aqueles góticos nem pensavam em nada ao passar por elas, talvez eles só estivessem concentrados em conversar sobre o próximo show que vão assistir e nem se preocuparam com as velinhas vestidas de branco do outro lado da calçada. Enquanto elas os encaravam com um olhar que julgava ponta a ponta. E isso me faz pensar que talvez os góticos fossem melhores pessoas que as freiras. Porque eu vi as freiras olharem eles, mas eles só andavam em direção a uma loja de CDs do outro lado da rua.

Fiquei andando e andando com menos e menos rumo. Já eram oito horas, e a bateria do meu Ipod estava quase no final. Não que isso realmente importasse. Acabei chegando a um parque imenso que não recordo do nome agora. Mas não estava realmente com vontade de entrar nele no momento, então comecei a dar a volta. As ruas estavam completamente vazias, e os bares cheios até a boca. Mas não havia barulho. Pelo menos eu escolhi não ouvir nada. Aquela linha reta que seguia me fez lembrar das minhas primeiras aulas de desenho. “Linha é uma coisa que o ser humano inventou.” Porque nada é realmente separado por uma linha. Tudo é separado por sombras, cores, profundidade, e mais todas essas baboseiras que você aprende em desenho artístico.

Imagino o que aquela pessoa pensou quando viu minha pintura de hoje. Ou o que a professora pensou. Não sei se alguém notou que aquele é meu último trabalho mas é digno de orgulho. Coloquei tudo que sobrava de mim nele, pelo menos é o que eu acho.

Levou mais meia hora. . .não, quarenta minutos para chegar no final do parque. E lá tinha uma outra entrada, e foi por lá que segui. Não que isso realmente importasse. Com aquela lua lá em cima e essas árvores escuras aqui em baixo, tudo me lembrava um jogo de terror antigo muito famoso. Então me lembrei da minha infância e comecei a chorar. Não chorar de tristeza, só. . . saiu lágrimas de meus olhos e não consegui explicar. Voltei a olhar para frente. Imaginei que o parque estava vazio a essa hora. Não, dois homens. E uma arma. Passei por eles enquanto eles me encaravam, mas acabei não demonstrando nada. Porque não sentia nada na hora. (nem há muito tempo.) Já não via mais eles. Agora se aproximava um lago, e lá havia um pato. Um patinho, aliás. A asa dele estava quebrada, mas não tinha notado antes de acariciar ele, porque fez um barulho alto e estranho, de dor, e saiu correndo. Mesmo com dor ele parecia muito bonitinho, e eu admito isso. Já não se via mais o patinho. Voltei a andar o caminho de terra, coberto por neve, e meus pensamentos me levaram novamente ao patinho, mesmo que não se via mais ele. Como aquilo aconteceu? Talvez ele tivesse caído daquele banquinho ao seu lado. Mas quem o colocou no banquinho? Talvez tenha sido aqueles homens das armas que o machucaram. Assim, por maldade mesmo. Ou na verdade eles são boas pessoas e eu estou criando conclusões precipitadas só porque eles tinham armas, é como eu já li em algum lugar “O que é mais mortal, uma arma ou um pensamento? A arma dá a chance, o pensamento puxa o gatilho.”. Seria bom pensar assim.

Já andava por um bom tempo. Acho que por mais meia hora? Não sei, a bateria do meu Ipod acabou, e eu não costumo usar relógio. Não que isso realmente importasse. Aliás o que realmente importa? Eu tenho me perguntado demais esta questão. Por que no momento, nada importa? E por que esse momento demora tanto? Por que é como se eu estivesse me afogando enquanto todos a minha volta respiram? Bem, eu não sei. E não acho que vou saber a resposta. Por razões óbvias. A neve estava até bonita. A única coisa bonita que eu vi naquele dia. Isso era algo que importava, um pouco. E ela me lembrou do coelhinho que eu nunca tive. Na verdade ela não me lembrou, porque não tem como me lembrar de algo que nunca existiu. Mas me fez imaginá-lo.

Agora se passara uns cinquenta minutos, porque ouvi o relógio bater, e eram dez horas. E isso realmente não importava. Mas achei uma cerejeira congelada, e era grande e muito bonita. Então cheguei em seu pé e tirei uma corda da minha mochila. E isso me fez lembrar daquele balanço da praça em frente a minha casa, o que me fez “feliz”, porque eu realmente gostava de me balançar com minha melhor amiga naquela época. Então eu subi na cerejeira e amarrei meu “balanço” lá. E na outra ponta eu “sentei” e fiquei balançando por mais vinte minutos, até que não se via mais os góticos, não se via mais as freiras, não se via mais os bares, não se via mais os homens nem as armas nem o patinho nem nada.

Dez e meia.

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