Dez Desejos

62 Nunca pensei que gostaria tanto de berinjela


Notas iniciais
Boa tarde Galera! Mais uma vez, voltamos com capitulo da fic! Espero que curtam

Capitulo 63 — Nunca pensei que gostaria tanto de berinjela

“Você vai deixar? Vai deixa-los sofrer sua própria dor?” A carcereira enfiou a cabeça entre as grades e sorrindo com seus dentes amarelos. “Seja mulher uma vez em sua própria vida, inútil! Acorde e resista à dor apenas para você! Ou vai deixar que Seth e Jonathan peguem a sua dor para eles?”

A cela se dissolveu em um borrão enquanto eu voltava à consciência, ouvindo ao fundo o som de uma briga acontecendo.

Cravei minhas unhas em meus próprios braços e tranquei os dentes. As lagrimas escorriam pelos meus olhos fechados fortemente. Eu estava decidida a aguentar toda aquela dor apenas para mim.

Não. Seth e Jonathan não irão sentir isso. Não vão sentir como se a parte interna de sua coxa tivesse levado um tiro. Eu aguentaria sozinha.

Eu coloquei a mão em cima da minha calça no exato lugar que doía, como se para ter certeza que aquilo havia mesmo acontecido.

Minha calça estava grudenta e quando eu fiz um esforço para olhar para baixo eu vi o sangue por ali. Meus braços tinham várias escoriações e ainda o roxo mais claro da marca dos cinco dedos de Seth. Minha camiseta estava rasgada até próximo ao umbigo e imunda. Os pés descalços pretos de sujeira.

Eu não queria pensar como meu rosto deveria estar.

Eu ainda me sentia mole pela falta de comida... E minha falta de energia parecia afetar tudo em mim. Meus ouvidos pareciam chiar e escutavam apenas pequenas partes da briga que acontecia pela casa. Não tinha certeza se era o barulho de vidro quebrando ou a chuva caindo fortemente sobre a casa. Não tinha certeza se quem gemia de dor era Renesmee ou Leah. Não tinha certeza se aqueles disparos eram da arma ou apenas uma porta batendo.

Tudo ao redor de mim era apenas um grande borrão. Eu me permitir soltar mais um grito agudo quando tentei me sentar e analisar direito minha situação, odiando o fato de me sentir tão perdida em tudo.

Mais vozes... Vozes diferentes em uma língua desconhecida... Gritos e coisas quebrando... Então o silencio veio apenas para se seguir o som de um barco...

O sangue continuava a brotar em minha perna com rapidez, manchando o chão de madeira. Tudo parece borrado no silencio repentino que se deu.

Passos rápidos e fortes vinham do corredor e quando passaram pela porta — ou o que um dia foi uma porta — eu assisti com alivio quando Leah abaixou-se em minha frente.

Eu fiz um esforço extra, forçando através da secura, para conseguir dizer alguma coisa.

— O que aconteceu? — Perguntei em um sussurro quase inaudível.

Leah olhou para minha perna parecendo em choque por um segundo antes de se arrumar a expressão para séria, como se os sangue fazendo uma poça ao meu redor não fosse nada de mais.

— A monstrenga fugiu com aquela lancha — Ela falou enquanto rasgava a barra da minha camiseta imunda. — E levou duas pessoas, acho que funcionários da limpeza, com ela.

No rosto dela, vi um corte na sua bochecha cicatrizando com rapidez, deixando apenas algumas gotas de sangue que haviam escorrido.

Eu franzi a testa e trinquei os dentes quando ela passou o pedaço da minha camiseta que ela rasgara em minha coxa, fazendo um torniquete. Eu estrangulei um grito em minha garganta, me concentrando na conversa e tentando esquecer como a minha coxa doía.

— E... a arma?

Leah puxou o pano da cortina branca e colocou sobre a minha perna, fazendo logo o pano branco se tingir de vermelho vivo.

— Ela levou. Tenho certeza que ela ainda vai voltar... Olhe, desculpe Anna. Eu não queria que isso... Na minha cabeça tudo daria certo e...

Eu soltei o ar com força quando a perna latejou mais fortemente.

— O que isso Leah... Ao menos estamos vivas... E eu tenho que te agradecer por estar aqui comigo. Se não tivesse, acho que nem viva eu estaria.

A loba revirou os olhos para mim e sorriu sarcástica.

— Vamos fazer assim: Eu não peço desculpas se você não me agradecer por algo que era o meu dever. Vir até você era apenas a coisa certa a se fazer... E eu estava curiosa, é claro. Sabia que a monstra estava armando algo.

Eu olhei para ela confusa, sentindo a dor agonizante na perna.

— Como você a achou?

Ela sorriu de um jeito que parecia que havia feito traquinagem.

— Tenho que te levar daqui... — ela murmurou antes de se inclinar em minha direção e me pegar no colo, mesmo mancando. Eu continuei a encara-la esperando a resposta da minha pergunta inacabada. Como ela viera parar ali?

Ela não olhava para mim enquanto falava, me carregando pela casa que estava praticamente destruída.

— Eu estava perto quando vi Pamela te tirando do quarto pela janela. Depois da briga com Renesmee, eu não simplesmente fui embora, eu fiquei escondida nas arvores, assistindo Pamela te levar até um carro Sport.

— Briga com Renesmee...? O que ela estava fazendo... na casa de Jacob?

Leah sorriu irônica e me olhou por um segundo.

— Colocando seu planinho em pratica. Ela sabia que eu ia atrás dele. Ela sabia de tudo, até mesmo sobre a flor. — Leah me colocou sobre um sofá branco e tentou acender as luzes — Segui Pamela até a casa do Jonathan e esperei... até que Renesmee apareceu novinha em folha e ainda com o vaso na mão. Fiquei de tocaia, seguindo Renesmee quando ela saia da casa e esperando do lado de fora da casa... Depois de algum tempo ela saiu de carro e pegou um jato para o Brasil... Droga, ela cortou a energia.

Eu pisquei por um segundo cansada e quase esqueci de abrir os olhos novamente. Me forcei a ficar acordada e prestar atenção na conversa, mas eu estava me sentindo muito tonta.

— E... E... Como você veio pro Brasil? — minha voz saiu mole e eu ganhei a atenção de Leah por isso.

— Você está com fome. — Ela constatou quando me olhou por alguns segundos. — Espere aqui. Eu já volto.

— Como se eu pudesse sair daqui... — Eu tentei responder com humor, mas saiu tão cansado que não havia como alguém achar graça.

Não demorou muito para Leah voltar com a testa franzida de preocupação e um copo com água.

— Não tem comida... Droga, eu posso odiar ela e ela pode até ser uma mesquinha mimada, mas tenho que admitir que inteligente é. — Leah falou mais para ela mesma do que para mim — Tome a água.

Ela colocou o copo na minha boca e só então percebi como eu estava com cede. Um, dois, três, quatro copos depois eu já não aguentava mais.

— Eu me escondi junto com as bagagens — ela disse quando voltou da cozinha para deixar o copo.

— Que? — perguntei confusa

— Eu vim para o Brasil porque escondi nas bagagens do avião dela, mas ela me pegou quando tentei embarcar na lancha escondida. Eu não podia atacar sem ter certeza do seu estado que, me desculpe, mas é deplorável demais para uma fuga rápida. — Ela sorriu para mim com humor — Achei que a melhor chance seria aqui... Mas fui lenta... Ela conseguiu escapar e...

— E ela voltará... E você poderá acabar com ela por mim — falei positivamente e sorri minimamente, que retribuiu por alguns poucos momentos antes de seu sorriso ir se desmanchando aos poucos.

— Como você está? — pareceu preocupada

— Fraca. E com fome.

— Isso eu sei, eu já irei arranjar algo para comermos, mas eu digo...

— Vou sobreviver — eu respondi e até mesmo eu achei que eram falsas aquelas palavras. Se ela tinha achado que eram ou não, não comento, apenas pediu para que eu tentasse me manter acordada quanto ela caçava alguma na mata para nós comermos.

A casa estava um breu e eu tentava controlar minha respiração que a todo o momento se acelerava pelas pontadas de dor. Eu quase não estava mais aguentando toda aquela dor... Eu sabia que ao deixar que Seth e Jonathan sentissem aquilo, o alivio seria imediato... mas eu não conseguiria pensar que para o meu bem próprio faria eles sentir dor.

Era como se eu mante-se uma barreira dentro de mim, eu percebi isso depois de algum tempo. Como se a minha força de vontade estivesse segurando tudo para não desmoronar... Mas havia algo de errado.

Minha carcereira sorriu em minha mente, mostrando seus dentes podres enquanto minha mente começava a constatar que eu havia esquecido alguém que também estava ligada à mim naquele mundo.

— Droga — bravejei baixinho quando lembrei da garota de cabelos roxos que — por um motivo desconhecido — eu sabia que estava deitada em uma cama, segurando sua coxa no exato local que eu havia machucado.

Fechei os olhos com força quando tentei fechar minha barreira para que ela não sentisse também, mas a imagem de ela me mandando parar de ser idiota passou pelos meus olhos.

Eu não ouvia sua voz quando ela falou que eu não aguentaria sozinha. Ela estava me ajudando com aquela dor insuportável.

Nos momentos seguintes em que eu fiquei naquela casa escura aguardando Leah, de olhos fechados, eu não fiquei sozinha. Não porque Leah logo apareceu com uma bicho morto nas mãos e fez uma fogueira do lado de fora da casa, usando parte da porta quebrada como lenha, mas sim porque a cada vez que eu fechava os olhos, eu tinha uma companheira que estava sempre ali comigo, sentindo a mesma dor que eu e dizendo a cada segundo “Aguente firme”

Não havia como. Eu tinha que admitir que eu tinha sorte por ter Caroline como minha parte dessa dimensão e sem ela, eu não sei o que seria de mim naquela situação.

Um sopro de vento forte passou por mim e uma risada de homem soou em meus ouvidos. Imediatamente minha carcereira, a minha prisão dentro de mim, pareceu se dissolver em pó e não sobrar nada a não ser todas as minhas metades livres de suas celas.

Eu havia sido livre daquelas malditas alucinações.

A minha carcereira encurvada sorriu uma ultima vez com seus dentes amarelos e logo se dissolvendo em minha frente enquanto eu observava a Lua alta no céu, na companhia de Caroline e da dor.