Dez Chamas
8 Capítulo 008 - Kan
Notas iniciais
Estava começando a amanhecer, e Kan se levanta para mais um dia exaustivo. O mesmo não se lembra muito bem da última vez que acordou com um bom sorriso no rosto e disposto. Kan gosta de sair antes de todos acordarem, então se arrumou em silêncio, para não acordar sua pequenina irmã que dormia no mesmo quarto, como sempre. Após estar andando na rua a alguns minutos ainda sonolento em direção à pequena loja do ferreiro da cidade, onde fazia alguns bicos para arrecadar um dinheiro, começou finalmente a pensar direito. Hoje seria só mais um dia comum, iria trabalhar, talvez se encontrar com Tin, Jin e Teno para treinarem um pouco suas chamas que acabaram de adquirir... Falando em chamas, hoje deveria haver um duelo contra aquele garoto irritante que também iria despertar sua chama. Embora tivesse acabado de lembrar disso, não muda muito seus planos, afinal, não gosta de ficar em casa. Geralmente em casa o que acontece é ele receber uma bronca de sua mãe, brigar com seu padrasto, e ser o único a se importar com sua irmã, ver se estava com fome, se precisava tomar banho, e esses tipos de cosias que pais deveriam fazer. Sua irmã, se não fosse por ela, acredita que já teria debandado daquela vila há tempos... Pobre irmã... por mais que ele fosse o único que ligasse pra ela, não suportava ficar em casa com aqueles outros dois. Foi então que notou. Sua irmã, hoje era seu aniversário! Ela está fazendo hoje 10 anos. Ele precisava ir parabenizá-la! Pela primeira vez em meses, com exceção de quando liberou sua chama pela primeira vez, abriu um sorriso ainda cedo, enquanto terminava de comer o pão surrado que pegou da mesa para o café da manhã.
– Cheguei – disse Kan ao velho ferreiro da região.
– Cedo como sempre, acabei de abrir a loja aqui, quase não tem ninguém pelas ruas ainda – respondeu um velho baixo, de pele branca e enrugada, olhos castanho-claros, e cabelo crespo branco. Ele usava uma calça suja marrom já bastante velha, uma camisa que outrora já fora branca, mas agora parece mais amarelada e cheia de sujeira preta, e luvas de couro já bem bastas. Somado a isso haviam óculos de proteção em sua testa. Ele parecia já ter sido forte para sua estatura em sua juventude.
– Gosto de começar cedo, senhor – afirma Kan.
– Não precisa ficar me chamando de senhor rapaz, Tame já está bom, é meu nome sabe?
– Sim senhor Tame, mas eu sou um aprendiz e você o mestre, então...- começa sem terminar, uma vez que Tame assume a fala:
– Mestre? Aprendiz? Sou só um velho tentando trabalhar aqui nos meus últimos dias e precisando de um braço forte para me ajudar. Agradeço você ter começado a trabalhar aqui, não tem muitos interessados em ajudar este velho, mas temo que você não poderá aprender tanto quanto queira aqui, nem arrecadar tanto lucro quanto imagina. A vila está em más condições, todos com problemas econômicos, e eu bem velho.
– Me contento em aprender o que puder enquanto estou nessa vila, Sen... Tame. Um dia eu vou entrar para algum esquadrão do exército, levar minha irmã e deixar essa vila – dizia Kan enquanto colocava suas luvas e óculos.
– Você faz bem, jovens tem que viver, e não fica presos a essa pobreza aqui.
– Por isso agradeço você deixar eu ficar trabalhando aqui enquanto isso senhor – termina Kan.
– Tame – Responde o velho.
– Isso – termina Kan.
Após um tempo trabalhando com a fornalha e atendendo pouquíssimos clientes com pedidos pequenos, Tame se volta para Kan, procurando algum diálogo.
– Aliás, ontem você chegou um pouco mais tarde, aconteceu algo com sua irmã? Sei que só trabalha aqui por ela, como você disse.
– Ah, ontem. Ontem meus amigos me chamaram para avisar que não poderiam treinar de noite a manipulação do fogo, então fomos treinar um pouco de manhã. Eu pedi desculpa pelo atraso.
– A, não se preocupe com isso, enquanto você não chegava não teve nenhum cliente, e para os negócios é bom que você aprenda a controlar essas chamas, elas têm utilidade para nós aqui – diz o velho apontado para as chamas em uma caldeira.
– Realmente.
– Aliás você teve sorte, não é qualquer um por ai que consegue pagar para liberar as chamas. Acredito que aqui na vila só você e seus amigos liberaram e continuam aqui. Todos os outros abandonaram a vila.
– De fato, foi uma sorte, resumindo, meu avô me confiou um dinheiro que ele havia juntado por toda a vida para dar uma vida melhor a minha mãe, para que eu ajudasse a minha irmã, isso há anos, antes dele falecer. Juntando-o com o dinheiro que vim arrecadando, consegui pagar – Se lembra Kan enquanto descansa sentado.
– Sua irmã tem sorte de ter um irmão como você – diz o empregador.
– Será mesmo? Acho que eu não dou a ela a devida atenção que ela merece – desabafa Kan.
– Você é o que faz tudo por ela, não é? Sozinho. Eu não tenho filhos vivos, o que viveu mais tempo chegou a sua idade... Eu estaria orgulhoso de um filho como você, que se importa com sua família.
– Obrigado – agradece Kan – Mas não é bem com a família que me importo, só comigo e minha irmã.
– Entendo...
– Aliás, aquele moleque do senhor Vermillion também estava indo ativar a chama dele ontem – se lembra o jovem.
– Ah, é mesmo? Vermillion hein, ele sempre se gabou da chama vermelha dos antepassados... E pensar que ele juntou dinheiro para pagar o procedimento... Acho que deveria ter sido melhor trabalhar com madeira, é mais fácil arranjar a matéria prima – diz o velho rindo.
Após algum tempo, um cliente conhecido chega, e começa a conversar com Tame enquanto Kan continua trabalhando, mas ouvindo.
– Muito obrigado, senhor Tame. Aliás, ouviu o boato sobre a última noite?
– O que houve na última noite? – Pergunta o velho.
– Dizem que uma grande explosão brilhando em chamas douradas apareceram na casa da Xamã por alguns instantes! – diz o cliente com entusiasmo.
– Na casa da Xamã? Chamas douradas? O que isso significa? – Pergunta Kan, chegando próximo ao cliente.
– Eu não sei, poucas pessoas viram! Mas outras viram fumaça e ouviram um barulho, deve ser verdade – diz o cliente, que se despede dizendo – Muito louco né? Esse pessoal que brinca com essas chamas são muito loucos – enquanto ia embora.
– O filho do Vermillion não estava lá ontem? – indaga o ferreiro.
– Mas ele disse que foi de noite, será que demorou mais tempo que o meu? Que estranho. E o que são chamas douradas? Seriam as Amarelas? Será que tem mesmo a ver com ele? O senhor Vermillion sempre fala das chamas vermelhas – Pergunta Kan.
– Não sei responder nada disso, mas tudo pode ser boato nessa vila. Acho que só uma pessoa que viu de verdade pode dizer o que ocorreu de verdade. Ou pergunta a Xamã ou ao garoto que foi ativar as chamas... – conclui o velho – mas não tenha muitas esperanças, a Xamã sempre foi alvo de boatos desde que se instalou aqui, todos mirabolantes.
– É, pode ser – diz Kan, muito curioso.
Após o dia de trabalho, Kan se despede de Tame e se encontra com Teno, Jin e Tin, onde treinam o básico do fogo que controlam. Todos liberaram suas chamas no período de 2 semanas, então são iniciantes. Kan foi o primeiro.
– Mesmo que todos já tenhamos liberado as chamas há mais de uma semana, não conseguimos controlar a mesma por mais que três segundos nem conseguir chamas maiores que um dedo, por que isso? – Pergunta Jin intrigado.
– Não importa o quanto tentamos nos esforçar, nossos limites não aumentam – Confirma Tin.
– Minha família nunca teve histórico de bons usuários antes, então achava que era problema familiar, mas vocês estão com o mesmo problema – diz Teno.
– Talvez devêssemos perguntar à Xamã como treinar – diz Kan – Aliás, ouviram os boatos da última noite? Sobre as chamas douradas e tal?
– Ouvi dizer que foi só uma pequena explosão e o pessoal exagerou nas histórias, como sempre – diz Jin.
– Chamas douradas não existem – concorda Tin.
– A vila é monótona então qualquer coisa já vira história mirabolante por aqui – confirma Teno.
– Realmente, afinal não existe padrão de chamas douradas – dizia Kan tentando se convencer.
– Você acha que ele realmente vem para o duelo? – Pergunta Tin para Kan.
– Se ele não for um completo covarde, vem. Vamos esperar lá, eu chamei, eu vou aparecer – responde Kan.
– E se ao menos a parte da explosão for verdade e ele for afetado por isso? – questiona Teno.
– Não temos como saber, isso não é problema meu. Vamos logo para lá pois tenho que voltar cedo para casa — diz enquanto começava a escurecer.
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