Dez Anos

4 Capítulo Três


Notas iniciais
Boa leitura ♥

Capítulo Três

Isabella Swan

Eu estava caminhando pelo campus da universidade, sem um rumo certo na sexta-feira, apenas andando de lado para o outro, enquanto bebia um copo de café. Era uma tarde bonita de setembro e, com meu dia de aula finalizado, quis poder contemplar um pouco do lugar por onde fiquei por quatro anos.

Era realmente maravilhoso estar de volta, lembrava de todo meu tempo ali, ou quase todo se eu excluísse as noites de festas que fiquei bêbada, bem bêbada. Estava admirando um grupo de meninas conversando e rindo, enquanto elas admiravam um grupo de garotos, quando avistei a livraria que um dia foi meu lugar preferido no campus.

Jogando o copo vazio de café na lixeira, caminhei até a livraria, esperando encontrar a local e a dona dela lá como tudo era anos antes. Entrei ali, ouvindo o característico som do sino na porta tocar, sorri, enquanto olhava para o caixa, mas não vi Nelly, apenas uma garota que devia ter idade para ser aluna da universidade.

Ela estava concentrada em seu celular, então segui até as prateleiras da livraria, deixando meu pés me levarem até a minha favorita. O local não tinha mudado tanto nos últimos anos, alguma cor nova nas paredes e, coisas do tipo, mas ainda parecia muito com a imagem que eu tinha de onde ia quase todas as tardes caçar por títulos novos.

— Senhorita Swan? — Estava avaliando uma edição de Emma quando ouvi me chamarem, virei para o lado e vi Edward Cullen parado entre as estantes de literatura inglesa, carregando uma pequena pilha de livros em mãos.

— Olá, senhor Cullen! — Sorri para ele, que sorriu de volta. — Já comprou seu despertador? — Ele riu, colocando os livros sobre um banquinho que tinha ali.

— Estou trabalhando nisso — falou, passando a mão pelos cabelos acobreados, seus olhos verdes pareciam ansiosos. — Posso lhe ajudar com algo?

— Ah, você trabalha aqui — conclui, recolocando o livro em minhas mãos na prateleira. — Estou apenas olhando, eu provavelmente tenho todos esses livros em casa, mas livrarias são imãs para mim — contei. — Mas, você pode me dizer onde eu posso encontrar Nelly Taylor.

— Ela saiu mais cedo hoje, tinha algum evento familiar, ou coisa do tipo — explicou confuso. — Você a conhece?

— Sim. — Peguei o primeiro livro da pilha que ele tinha em mãos antes. — Eu estudei na UW também, vinha a essa livraria constantemente — falei. — Deveria ter sido mais esperta e conseguido um emprego aqui, Nelly lhe dá descontos?

— Eu mal vejo meu salário — Edward disse, um sorriso brincalhão tomando conta de seu rosto. Começando a arrumar os livros da pilha na prateleira, eu continuava folheando Laranja Mecânica em minhas mãos, tentada a comprar aquela edição. — Vai levar? — ele perguntou, depois de arrumar tudo.

— Não, não acho que preciso gastar dinheiro com uma terceira edição deste. — Entreguei a ele, que o colocou na prateleira.

— Colecionadora?

— Digamos que sim. — Dei de ombros. — Bom, sim. Eu transformei um quarto da minha casa em uma biblioteca e, as paredes estão cheias, acho que sou mais uma acumuladora do que qualquer outra coisa.

— Você tem uma biblioteca em casa? — Os olhos dele se iluminaram. — Isso é um sonho!

— Era meu sonho quando tinha sua idade também. Ah Deus, isso me fez parecer uma anciã. — Ele riu, recostando-se na estante atrás de si. Mesmo sendo novo, o garoto era absurdamente alto, provavelmente vinte centímetros, ou mais do que eu.

— Qual sua idade, senhorita Swan?

— Não é educado fazer essa pergunta! — Usei meu tom de professora com ele, mas Edward apenas continuou sorrindo. — Trinta — sussurrei, ele assentiu, seu rosto parecia assumir uma expressão de alívio. — Trinta e três dias para ser exata.

— Ei, seu aniversário foi na terça? Meus parabéns!

— Você é bom de conta! — parabenizei ironizando.

— Vamos fazer algo. — Ele tirou o livro que eu via antes da prateleira. — Deixe-me comprar um presente atrasado para você, senhorita Swan.

— O que? Não! — Neguei ao perceber o que ele queria dizer com aquilo. — Senhor Cullen...

— Edward, só Edward, por favor — ele pediu franzindo a testa. — Odeio quando me chamam de Senhor Cullen, parece que sou meu pai e, isso não é nada divertido.

— Okay, mas tire esta ideia de sua cabeça, eu não quero o livro, já o tenho.

— Não tem essa versão. — Ele começou a andar para a frente da loja, fazendo com que eu o seguisse, mas nem apressando meu passo consegui chegar ao caixa antes dele. — Alice, passe isso na minha conta, por favor — ele pediu a garota ali, fazendo com que ela tirasse os olhos do seu celular. Ela tinha cabelos curtos pretos, cortados em várias direções e olhos acinzentados, que me avaliaram dos pés a cabeça, enquanto seus lábios se abriram em um sorriso travesso.

— Olá! — exclamou para mim, tirando os livros da mão de Edward.

— Oi, você não precisa passar isso. — Tentei tirar o livro da mão dela, mas a garota tinha mais força do que eu.

— Não, você precisa sim — Edward teimou. — É um presente, senhorita Swan, basta aceitar. — Sorriu mais uma vez para mim.

O sorriso travesso de Alice se pronunciou ainda mais, enquanto ela passava o livro no sistema.

— Prontinho! — ela estendeu a sacola para Edward. — Eu embrulharia para presente, mas estamos sem material aqui. É seu aniversário, senhorita Swan? — Meu nome saiu em um tom malicioso de sua voz e, a encarei confusa, estreitando meus olhos para ela, que pareceu se encolher.

— Foi na terça — respondi impaciente, voltando minha atenção para Edward. — Eu não posso aceitar um presente de você, senhor Cullen, é meu aluno.

— Primeiro, já disse que pode me chamar só de Edward — ele falou. — Segundo, não acho que presentear uma professora com um clássico da literatura inglesa seja contra as regras. Acredite, não estou esperando que você me dê créditos extras por isso, apesar de que eu não reclamaria se fizesse. — O encarei mais ainda com o final de sua frase. — Isso foi uma brincadeira — salientou. — Agora, por favor, aceite o livro. — Esticou a sacola em minha direção.

— Não posso.

— Ninguém além de nós três ficará sabendo disso, será nosso segredinho perverso — Alice se pronunciou, olhei para ela, que piscou para mim. O que diabos aquela garota tinha comigo? Eu sequer me lembrava dela em alguma de minhas aulas.

— Alice?! — Edward chamou a atenção dela, os olhos verdes dele queimando sobre a garota. — Fique quieta.

— Esse é o propósito, nós três ficaremos quietos sobre o livro, basta colocá-lo em sua bolsa e sair como se não soubesse que está o carregando — falou o final de sua frase diretamente para mim.

A raiva de antes dirigida a Alice, tinha sido varrida dos olhos de Edward, que estavam ansiosos voltados para mim.

— Tudo bem. — Suspirei, pegando a sacola com o livro das mãos dele. — Obrigada pelo presente, senh...Edward.

— De nada. — Ele tinha um olhar e sorriso orgulhoso.

Nós dois nos viramos em direção a porta quando escutamos o sino tocar, uma garota loira e alta, com uma grande mochila em mãos entrou apressadamente. Ela usava óculos de Sol grandes demais, mas eu podia ver o suficiente de seu rosto para me lembrar dela na mesma aula que Edward estava.

— Hey Edward, eu... — Ela parou de falar a me ver. — Olá, senhorita Swan — disse surpresa.

— Olá! — Acenei discretamente para ela. — Desculpe, eu realmente não lembro seu nome.

— Claro, claro. — Ela assentiu, colocou os óculos sobre a cabeça e, pude ver seus olhos azuis avermelhados. — Tanya Martin. — Estendeu a mão para mim, prontamente retribui o gesto, sentindo sua mão trêmula.

— Você precisa de algo? — Edward perguntou preocupado a ela, tocando na base das costas da garota. Ela provavelmente era namorada dele, ou qualquer que fosse o estilo de relacionamento que aquela geração estava seguindo. De qualquer forma, eles formavam um casal bonito aos olhos.

— Sim, você acha que nós podemos sair por um tempo? — perguntou em um tom baixo a ele, mas eu estava perto o suficiente para ouvir. — Preciso conversar com você.

— Claro. — Edward beijou a têmpora dela em um gesto carinhoso. — Alice, você pode cuidar de tudo?

— Eu sou Alice Brandon, eu poderia ser a presidente do país, claro que posso cuidar da livraria por algum tempo só. — Ela parecia muito com Rosalie falando daquele jeito.

— Tudo bem. — Edward estava me olhando de novo. — Mais uma vez, parabéns, senhorita Swan.

— Obrigada, eu preciso ir agora — disse, olhando mais uma vez para Tanya que com certeza estava abatida com algo. — A vejo na aula quinta-feira, senhorita Martin?

— Sim, eu estarei lá. — Ela sorriu por um momento. — Vou garantir que Edward não chegue atrasado.

— Faça isso. — Ouvi Edward rir baixo. — Até quinta-feira, tchau Alice! — Acenei para a garota no caixa.

— Espero vê-la em breve, senhorita Swan! — ela exclamou para mim que já estava perto da porta. — E, eu adorei sua saia, realça seu bumbum muito bem.

Eu pude ouvir Edward mandá-la calar a boca antes da porta fechar. E, eu pude rir da fala dela, enquanto tirava meu livro novo da sacola para poder apreciá-lo enquanto caminhava de volta para meu escritório na faculdade.

***

No fim daquele dia, peguei a estrada para Forks, louca de saudades da minha família e, nem mesmo o longo tempo de viagem me desanimou, eu queria mesmo os ver. Cheguei pouco antes da hora do jantar na casa de papai, sentindo meu coração bater forte ao ver minha antiga casa.

Sai do carro rapidamente, deixando a pequena mala lá. Lady tinha sido entregue aos cuidados de Rosalie aquela manhã, já que ela tinha me dado um bichinho, nada mais justo do que ela arcar com a responsabilidade dos cuidados enquanto eu estivesse fora.

Toquei a campainha, em expectativa para ver papai, mas não foi ele quem abriu a porta, sim a pequena Dakota, minha sobrinha mais velha. Eu abri um grande sorriso para a baixinha de oito anos de idade, pegando ela no colo e, depositando um beijo molhado em sua bochecha.

— Ora, ora, que menina mais linda que é você, qual seu nome?

— Tia Bella, sou eu, Dakota — falou rindo, passando seus bracinhos envolta do meu pescoço.

— É sério? Minha sobrinha Dakota não era tão grande assim da última vez que a vi — brinquei, entrando na casa ainda com ela em meu colo, fechando a porta com um chute de leve.

— Sou eu sim. — Os olhos dela, castanhos como os meus e de Ângela, estavam brilhantes. Ela também tinha os mesmos cabelos negros de Ângela e de Charlie, enquanto eu tinha puxado o meu tom castanho de mamãe.

— Onde está sua mamãe, querida? — perguntei a colocando no chão, já sem condições de mantê-la em meus braços.

— Ela foi buscar o Peter no futebol — Dakota respondeu, enrolando sua mão na minha. — Você voltou para Forks, tia Bella?

— Apenas por hoje e amanhã, meu bem — expliquei. — Papai?

— Na cozinha. — Ouvi a voz de Charlie.

— Ele está fazendo peixe. — Dakota revirou os olhos, fazendo com que eu sorrisse para ela. Era de se esperar, peixe era a única coisa que papai sabia fazer na cozinha.

— Bella! — ele exclamou quando entrei na cozinha.

Soltei da mão de Dakota por um instante, indo até papai e o abraçando com força. Eu não o via desde minha volta para os Estados Unidos durante o verão e, tinha passado um ano fora na Inglaterra antes disso, tempo demais afastada.

— Oi pai, como se sente? — questionei, o afastando para avaliá-lo. Ele parecia bem, pelo menos aparentemente, apenas alguns fios de cabelos brancos novos, mas seu bigode continuava como sempre.

— Muito bem e, você? Como está na Universidade?

— Bem demais — declarei entusiasmada. — É o melhor trabalho de todos.

— Posso trabalhar com você, tia Bella? — Dakota me perguntou empolgada.

— Quem sabe um dia, querida. — Afaguei seu rosto.

— Dakota, por que não vai guardar seus brinquedos lá na sala? Sua mãe não irá gostar de vê-los bagunçados quando voltar — Charlie sugeriu a ela.

— Pode deixar, vovô! — Dakota já voava para a sala.

— O que foi? — perguntei a papai, entendendo que ele tinha tirado Dakota de lá para falar algo.

— Só quero pedir que não pegue muito pesado com Ang, Bella.

Bufei, cruzando os braços.

— O que? Você quer que eu fique quieta enquanto vejo minha irmã continuar casada com o traidor do Erick? Ele aprontou novamente? — Charlie suspirou.

— Isso é assunto deles, Bella — falou sério.

— Ele a trai, papai — sussurrei, mas colocando força em minha voz, para Dakota não ouvir. — É inadmissível que Ângela mantenha um casamento desses.

— Ela tem as crianças, um divórcio não é a solução para tudo — Papai voltou ao seu peixe, mas antes disso as palavras dele me atingiram diretamente.

— Eu sinto falta da mamãe, você e Ângela estão presos no século quinze. E, eu não sei se você se lembra, mas Mike preferiu terminar nosso casamento porque não queria me ver indo para Oxford.

— Eu só estou dizendo que você poderia ter sido mais compreensiva com Mike, Bella. Vocês tinham um bom casamento, a ida a Oxford não era algo que apenas lhe atingia. Mas, não compare sua situação com a de Ang, ela tem filhos, deve pensar neles primeiro.

— E, eu sou apenas uma vadia egoísta?

— Isabella! — Ele me encarou. — Não use esse tom, muito menos esse linguajar comigo, ainda sou seu pai.

— É, mas tudo que vejo de você e Ângela é uma torcida para que eu volte para Mike, enquanto vocês sequer ligam para que eu quero. Estou muito feliz com o trabalho dos meus sonhos e, nunca teria conseguido isso sem a especialização em Oxford.

— E você está feliz com isso? — Charlie precisava controlar a voz para não gritar e acabar assustando Dakota na sala. — Está feliz em ter o trabalho dos seus sonhos, mas ter perdido o marido que amava? Você está realmente feliz só, Isabella?

Eu não pude responder, uma vez que minha sobrinha retornou a cozinha, me chamando para ir desenhar. Ignorei Charlie e seu pensamento antiquado, ao menos por hora, fugindo daquilo.

***

Não demorou muito para Ângela chegar com Peter, então nós cinco pudemos almoçar, comigo fazendo inúmeras perguntas as crianças, evitando a conversa de adultos do meu pai e irmã, que só acabaria me estressando mais ainda. Eu prometi levar as crianças a La Push na manhã seguinte, uma praia próxima, para procurarmos por conchas para a coleção de Dakota.

— Então, seu apartamento novo é bom? — Ângela perguntou enquanto lavávamos a louça depois do jantar.

— Sim, ele é bem espaçoso. Eu tenho um quarto sobrando, talvez eu pudesse levar Dakota e Peter comigo por um fim de semana, eles iriam adorar Seattle.

— Odeio Seattle, não os quero lá. — Ângela bufou, arrumando os óculos de grau no rosto.

Mordi minha língua, contendo a vontade de falar que ela apenas odiava Seattle porque tinha desistido da faculdade lá quando resolveu se casar com Eric logo depois da sua formatura no colegial. Eu não entendia como podíamos ser tão diferentes, Ângela era absurdamente submissa ao marido, enquanto eu, na primeira vez que Mike tentou moldar minhas escolhas, chutei ele e pedi o divorcio.

Isso só me fez perceber que eu não podia sequer cogitar a ideia de um jantar com ele, seria ridículo demais e, Rosalie acabaria chutando minha bunda.

— Você poderia vir também — ignorei o comentário dela. — Contratamos uma babá pela noite inteira e saímos para beber algo. — Sorri para ela em expectativa.

— Desculpe, Bella, mas eu tenho uma família. Não posso ficar saindo para beber e agir como uma garotinha de vinte anos. — Ela secou suas mãos, virando-se para mim, seu olhar era frio como gelo. — E, talvez esteja na hora de você parar de agir como uma, já tem trinta anos, irmã. Devia ligar para Mike e se acertar com ele, antes que seja tarde demais.

— Eu estou cansada, vou dormir.

Sai da cozinha, convencendo-me a não brigar com Ângela. Despedi-me das crianças, reforçando nosso passeio na manhã seguinte, então dei boa noite para papai e fui para meu quarto.

Sendo apenas nove da noite, então eu claramente não estava cansada. Apenas me aconcheguei na minha antiga cama de solteiro, tirando meu novo exemplar de Laranja Mecânica da mala e, começando a ler.

Era um livro excelente, Edward tinha acertado no presente, ainda que fosse completamente errado ter me dado.

Notas finais
Vou responder os comentários do capítulo passado logo, mas não deixem de comentar aqui, por favor. Beijos! Lola Royal. 22.09.16