Dez Anos
9 Capítulo Oito
Notas iniciais
Capítulo Oito
Edward Cullen
O céu tinha um tom de cinza escuro quando deixei a livraria com Alice no fim do nosso expediente no sábado, nós praticamente nos arrastamos até o estacionamento, preguiçosos e cansados demais depois de um dia inteiro trabalhando. Eu dei um pequeno sorriso ao ver meu carro, lembrando do dia anterior e de quando Bella tinha ficado toda empolgada com ele, até mesmo revoltada comigo por sugerir que ela não entendia nada de carros era divertido.
— Arg, parece que o céu irá desabar — Alice reclamou quando comecei a sair do estacionamento. — Que bom que Jasper não tem planos para essa noite, tudo que quero é ficar em casa dormindo. Você vai sair?
— Não, nem pensar — neguei. — Tanya está querendo me arrastar para beber, mas eu fiquei uma merda no fim de semana passado, provavelmente serei outro dormindo a noite inteira. — Estendi minha mão para ela, que prontamente bateu.
— Como Tanya está? — perguntou preocupada.
— Ainda reclamando sobre Leah, mas negando-se a fazer o que é mais sensato.
— Isso é difícil, Edward, não podemos julgá-la.
— Eu sei, mas ela ama Leah e, nunca será cem por cento feliz se esconder a verdade da família dela para sempre. Além do mais, não é como se Tanya fosse a rainha do cuidado quanto a sexualidade dela, alguma hora isso chegará aos ouvidos dos pais dela e, quando acontecer a terceira guerra mundial eclodirá.
Alice concordou com um aceno de cabeça, concordando com meu ponto de vista.
— Então, tenho uma colega na turma de marketing — começou a falar, quase saltando em seu banco. — Amber, ela é muito legal, você gostaria de conhecê-la?
Suspirei, balançando a cabeça.
— A última garota que você me apresentou era uma maluca total, Alice — falei.
— Ela não era maluca, Sam só é diferente — defendeu.
— Ela me pediu para ir conhecer os pais dela, nós tínhamos saído por uma semana, ela me chamava de amor. — Fiz uma careta. — Eu sequer tinha feito algo a mais com ela do que beijar e, a menina já estava querendo que eu fosse apresentado a família.
— Okay, ela era precipitada — Alice concordou rindo. — Mas, Amber é legal, juro. Ela é muito, muito divertida e, gosta de ler tanto quanto você, vão se dar bem.
Não falei nada até entrar no estacionamento do prédio que eu morava com Jasper, onde Alice quase sempre estava alojada.
— Então, quer o número de Amber? Ou melhor, nós duas podemos sair com você e Jazz qualquer dia, assim diminui toda a pressão de primeiro encontro.
— Eu vou pensar — falei, pegando minha mochila, enquanto ela pegava a dela e deixávamos meu carro.
— Vocês definitivamente precisam procurar um apartamento novo — Alice disse, respirando fundo, enquanto íamos em direção a entrada do prédio, então ao primeiro lance de escada de quatro que tínhamos de subir.
Ah, a doce maldição de um prédio antigo sem elevadores.
— Jasper e eu não temos grana para algo a mais, o cara que aluga o apartamento pra gente é muito bacana fazendo manobras para aceitar nossa grana quase sempre com atraso, não encontraríamos outro assim por ai.
— Eu vou ter um enfarte qualquer dia subindo tudo isso, meu corpo não foi feito para atividades físicas.
— Você é extremamente sedentária, deveria ir correr comigo e seu namorado.
— Eca, não, nem pensar — ela negou. — Ficar por ai correndo sem necessidade? E terminar toda suada e com o cabelo fedendo? Você me conhece Edward Cullen, Alice Brandon não foi feita para isso — disse já sem fôlego na terceira escada.
— Alice Brandon irá morrer jovem por não praticar exercícios físicos. — Peguei sua mochila, antes que o peso ali fosse suficiente para fazer a pequena garota cair pelos degraus. Ela apenas me mostrou seu dedo do meio, rastejando pelo resto das escadas.
Jasper ainda não tinha voltado de seu estágio, então Alice foi se refugiar no quarto dele depois de beber quase um litro de água, prometendo hibernar até segunda-feira. Eu me larguei no sofá, deixando a televisão ligada em um filme qualquer, enquanto minha cabeça ia longe.
Eu me questionava se Bella já tinha sequer lido uma página do meu livro, mas obviamente aquilo ainda não devia ter acontecido. Ela era uma pessoa ocupada, não ia passar o sábado presa em casa lendo um livro de seu aluno, algo que só devia ter aceitado para ser simpática.
— Vamos enfrentar uma bela chuva, o céu está negro — Jasper disse quando entrou no apartamento. — Onde está Alice?
— Foi dormir, ela quase enfartou subindo as escadas. — Jasper riu, jogando sua mochila ao meu lado e o notebook na mesa da cozinha.
— Você vai sair hoje? — perguntou, pegando uma garrafa de água na geladeira.
— Não, vou apenas mofar em casa pelo fim de semana, é o plano de Alice também, você irá se juntar a gente? — Mudei de canal, quando o filme se tornou tedioso demais até mesmo para ser usado como segundo plano.
— Yeah, não tem nada que eu mais quero do que dormir, foi a droga de uma semana longa. Você paga a pizza hoje! — Anunciou antes de ir para seu quarto, eu ouvi risadas logo depois e, ele e Alice conversando.
Não pude ignorar a pontada de inveja que senti dos dois, por terem ao outro. Eu estava me sentindo verdadeiramente carente, principalmente em um começo de noite de sábado com ameaça de chuva.
Peguei o celular no bolso, pronto para ligar para Tanya e mandá-la guardar meu posto ao seu lado aquela noite para irmos beber. Ainda parecia melhor do que ficar preso em casa com o casal grudento, Alice e Jasper podiam ser afetuosos demais quando queriam.
Estava discando o número de T, quando um número desconhecido me ligou. Ignorei a ligação rapidamente, números desconhecidos só podiam significar telemarketing e, estava sem disposição para aquilo. Mas, a pessoa do outro lado era insistente e ligou outras duas vezes, na terceira chamada resolvi atender.
— Alô — falei irritado.
— Hum, Edward Cullen?
Minha garganta fechou ao ouvir a voz e, desliguei a televisão imediatamente, sem acreditar que ela estava me ligando. Eu nem sabia como ela tinha meu número, então lembrei das informações de contato em meu livro.
— Senhorita S-Swan? — perguntei gaguejando, o que era vergonhoso. Eu me odiava.
— Sim — ela disse, parecendo aliviada. — Estou atrapalhando?
— Não, claro que não. Eu apenas pensava que era alguém querendo me vender alguma porcaria — expliquei rapidamente minha saudação mal humorada.
— Claro, isso é extremamente irritante. — Ela riu suavemente, fazendo com que eu me pegasse sorrindo para o som. — Bom, eu liguei para falar sobre seu livro, Edward.
— Oh isso, óbvio — lamuriei. — Eu disse, você não precisa lê-lo, pode colocar fogo, não me importo. Apenas diga a Nelly que odiou. — Bella riu mais uma vez.
— Não seja tolo, eu não o odiei.
— Sim, você sequer o leu.
— Não, você está enganado, eu já o li.
— Já? — minha voz saiu mais alta do que o que pretendi. — Mas tinha mais de trezentas páginas e...
— E o livro é incrível! — Bella exclamou empolgada. — Eu mal dormi por conta dele, então você me deve uma boa noite de sono. — Pensar nela deitada em uma cama não foi nada bom para minha imaginação, então limpei a garganta, querendo tirar o nó se formando ali ao imaginá-la dormindo apenas de pijamas, que em minha cabeça seriam roupas intimas e nada mais. — Você está muito ocupado? Eu queria muito conversar sobre o livro.
— Não, você pode falar sobre ele, vá em frente e pise em mim — brinquei.
— Ah não, detesto ligações, essa seria grande demais e nossos celulares explodiriam. — Foi minha vez de rir. — O que acha de nos encontrarmos? — Gelei ao ouvir a proposta. — Eu quero mesmo conversar sobre o livro. Você me entende? Eu não conheço outra pessoa para falar sobre ele e, isso é o que faço, converso sobre livros, vou morrer se não falar sobre.
— E-Eu não sei. — Pensar em sair com ela não parecia seguro de forma nenhuma.
— Eu prometo pegar leve.
Sabia que ela estava se referindo as criticas do livro, mas minha mente seguiu um caminho totalmente sexual e tudo que eu não queria era Bella pegando leve.
Merda, Edward, foco!
— Tudo bem, onde podemos nos encontrar?
— Tem uma cafeteria muito boa aqui perto do meu apartamento, você se importaria?
— Não, por mim tudo bem.
— Ótimo, anote o endereço — instruiu e, revirei a mochila de Jasper a procura de papel e caneta, sem poder conter a careta quando Bella me deu endereço. Era um bairro rico, o que não devia ter me surpreendido, ela era uma professora universitária no fim das contas, devia ter grana para um apartamento muito bom. — Encontro você em meia hora?
— Sim — confirmei. — Estarei lá.
— Até mais, Edward. — Ela desligou depois que murmurei um tchau, ainda desacreditado com tudo aquilo.
Segui rapidamente para meu quarto para trocar de roupa, pois ir com a que eu tinha ficado o dia inteiro na livraria estava fora de questão. Acabei me enfiando em calças jeans pretas e, uma das várias camisetas dos Beatles que eu tinha, dispensei minha jaqueta, já que o tempo pedia por um casaco, principalmente se a chuva que estava prometendo vir, finalmente aparecesse.
— Ei, pensei que íamos ficar hibernando em casa, estávamos indo te chamar para escolher um filme — Alice falou, pendurada no braço de Jasper, enquanto faziam sanduiches na cozinha.
— Mudança de planos, irei me encontrar com alguém. — Comecei a procurar minhas chaves.
— Oh Deus, Edward arranjou uma garota, anunciem isso nos jornais! — Jasper debochou, mostrei o dedo do meio para ele, que apenas riu junto da namorada. — Quem é ela, conhecemos?
— Não — menti, eu não podia ter os dois fazendo suposições completamente erradas sobre minha ida até Bella, não quando era apenas para discutir meu livro.
— Nós iremos conhecê-la? Eu pensei que você ia dar uma chance a Amber.
— Amber Miller? — Jasper perguntou a Alice, que assentiu. — Porra, Edward, ela é quente!
— Jasper Whitlock! — Alice bateu no peito do namorado.
— Ai, Alice, desculpa — ele pediu, massageando o local que tinha sido atacado.
— Vou deixá-los discutindo, até mais. — Sai do apartamento assim que encontrei meu chaveiro, deixando Alice questionando Jasper sobre os motivos que o faziam achar Amber gostosa.
A chuva ainda era apenas uma ameaça quando cheguei a cafeteria indicada por Bella, que como suspeitei não era uma simples cafeteria, não sendo naquele bairro caro, era a rainha mãe das cafeterias. Tentando esconder meu desagrado com aquilo, procurei por Bella, a localizando em uma mesa de canto.
Ela estava distraída, lendo e fazendo anotações no que eu sabia ser meu livro. Em seu rosto seus óculos de grau, usava o cabelo preso em um coque não tão perfeito assim quanto os das aulas e pelo que pude ver de suas roupas, não era nada mais que calça jeans e alguma camiseta, eu podia apostar que era uma dos Beatles, mas preferi me aproximar para ter certeza.
— Ei — chamei a atenção dela quando parei diante sua mesa.
Bella levantou os olhos do livro, abrindo um pequeno sorriso a me ver. Eu estava certo, era a droga de uma camiseta dos Beatles, que agarrava demais ao corpo dela, deixando seus seios em destaque.
— Olá, desculpe te tirar de casa nesse tempo ruim, pelo que o noticiário falou a chuva deve chegar de madrugada — falou, tirando os óculos. — Sente-se, você é alto demais, está acabando com meu pescoço te encarar ai em cima.
Eu ri, sentando diante dela.
— Foi mal, 1,85.
— Suspeitei — ela murmurou. — Eu já pedi algo, Julia deve estar aqui a qualquer momento para anotar seu pedido — indicou sua xícara de café.
— Okay. — Assenti, então olhei para o livro, que ela tinha fechado, impedindo que eu visse as anotações de antes. — O que você realmente achou? — perguntei preocupado, tirando meu casaco e o pendurando na cadeira sobressalente da mesa.
— Você é bem inseguro, em? — ela provocou, pegando sua xícara e tomando um pouco de seu café, seus olhos chocolates nunca se distanciando dos meus no processo. — Eu estava falando a verdade pelo telefone, Edward, adorei seu livro.
— Olá, o que posso servir a você? — Olhei para o lado, onde a garçonete que devia ter minha idade estava. Ela sorriu para mim largamente, enquanto colocava uma mecha de seu cabelo loiro atrás da orelha.
— Ah, apenas um expresso — pedi, suspeitando que aquilo devia ser barato suficiente.
— Bella, mais alguma coisa? — a garçonete perguntou a ela.
— Não — Bella respondeu rapidamente, a garota assentiu e se afastou, depois de me lançar mais um sorriso. — Então — Bella voltou a falar, seus olhos ainda fixos em Julia parando na mesa ao lado para anotar os pedidos de uma mulher. — Seu livro.
— Sim, meu livro.
— Ele me deixou acordada pela noite inteira, coisa que não acontece tem muito tempo por conta de um livro. Mas, eu precisava saber quem tinha matado Ellen. E, você foi um grande...pregador de surpresas com todas as revelações que soltou ao longo do enredo sobre o passado dela. Eu realmente pensei que ela era uma doce mulher vinda de família pobre que tinha vencido na vida por mérito próprio. — Bella passou a mão pelos cabelos, os soltando no processo, as ondas caindo por seus ombros, adorei a forma como eles emolduravam seu rosto. — Eu fiquei em pânico quando descobri que ela tinha matado a própria mãe.
Fiz uma careta, me lembrando de quanto tinha sido agoniante escrever aquela cena.
— Não faça essa cara de autor arrependido — Bella pediu rindo. — Vocês autores sempre acabam destroçando corações. Mas, sim, Ellen era uma grande vadia, só que foi uma das personagens mais bem elaboradas psicologicamente que já li recentemente.
— Aqui, espero que goste — a garçonete retornou com meu pedido, a olhei por tempo suficiente para ver os dois primeiros botões de sua blusa do uniforme abertos. — Se precisar de qualquer outra coisa é só chamar. — Sorriu e piscou para mim.
— Obrigada, Julia — Bella disse com a voz fria, a garota corou e foi embora rápido.
Okay, o que tinha sido aquilo?
— Você tem muitas aulas de psicologia? — Bella perguntou, voltando a beber seu café.
— Eu tive algumas no começo da faculdade, era algo bacana — respondi.
— E todos aqueles termos de direito? Eu tive de sublinhar alguns e, pesquisar, pois realmente não entendia muito bem. É algo que achei negativo, interrupções quebram o ritmo, acrescente notas de rodapé. — Bateu com a ponta da unha comprida e pintada de vermelho vivo na capa do livro.
— Acho que me empolguei demais. — Franzi a testa. — Cresci acostumado a esses termos.
— Seu pai é advogado? Eu nunca perguntei a ele sobre sua formação.
— É. — Desviei meus olhos para o café, odiando ter levado a conversa para meu pai, principalmente com Bella sabendo muito bem quem ele era. — O que mais acha que precisa ser alterado?
— Além de Patrick? — Ela sorriu. — Ele é um ser desprezível, o odeio.
— Ellen é pior do que ele — falei.
— Edward, ele é um porco nojento, eu queria poder matá-lo. — Ri assentindo, lá no fundo entendendo o ódio pelo antagonista principal da história.
— Tenho de ser sincera, não sou a maior fã de romance policial, histórias de épocas no melhor estilo Jane Austen são minha praia. — Bella passava o dedo despreocupadamente pela borda de sua xícara. — Mas sua escrita tem algo diferente, quase lírica eu diria, o modo como você encaixa as palavras. Você escreve ouvindo música clássica, não? — Arregalei os olhos para sua pergunta.
— Como você sabe disso?
— Eu estava ouvindo música clássica durante o final da leitura. — Jogou seu cabelo por cima do ombro. — Pude ver a tensão crescendo junto com o ritmo da música, se encaixou perfeitamente.
— Você é boa nisso — falei ainda impressionado.
— Eu disse, é meu trabalho, eu discuto livros, então os disseco e vou até o fim disso. Sinalizei algumas partes que pareciam ser repetitivas demais, ou que pareciam apenas estar preenchendo papel. Você é tão detalhista quanto Stephen King, é uma das suas referências?
— Sim.
— Percebi isso, ele passou um bocado de páginas descrevendo o hotel em O Iluminado. Marquei algumas descrições exageradas demais. — Empurrou o livro até meu lado da mesa. — Mas, se eu tivesse de avaliar seu livro, poderia dizer que ele está competindo diretamente com os de Sheldon.
— Sheldon, Sidney Sheldon? — perguntei abismado.
— Não banque o surpreso, já falei que você é bom no que faz. Na verdade, sua descrição maior, unida a sua construção psicológica muito boa pode te colocar até mesmo em um patamar a mais de Sheldon, ele tinha páginas inteiras só com diálogos, o que deixava os livros dele parecendo muito roteiros vez ou outra.
— Você está falando mal de Sidney Sheldon? Você não tem limites?
— Nenhum, eu posso falar mal de muitos autores.
— Até de sua preciosa Jane Austen? — provoquei, vendo o sorriso presunçoso em seu rosto morrer.
— Ela é a exceção à regra.
— Falando em Jane...
— Sobre o romance em sua história? — ela me interrompeu. — Não são personagens apaixonantes como Mr. Darcy, mas ele é um alguém de um romance histórico, você está lidando com personagens em um romance policial, então as relações afetivas fluíram como desejado. — Apontou para meu livro. — Eles são inescrupulosos, dúbios e voláteis, adorei isso.
Concordei com um aceno de cabeça, tomando um longo gole do meu café, enquanto ela bebia o restante do seu.
— E quanto as cenas de sexo? — indaguei, vendo o rosto dela assumir um tom vermelho, o que foi adorável.
— O que tem elas? — Limpou a garganta.
— O que achou? — Arqueei uma sobrancelha. — Eu fiquei com medo delas estarem vulgares demais.
— Não, elas estão bem intensas, mas nada vulgar. — Seu rosto continuava corado. — Esse foi o único livro que escreveu? — perguntou mudando de assunto rapidamente.
— Não, é o quinto, sexto se contar um livro de contos de terror que escrevi no último ano do colegial quando estava completamente viciado no King. — Bebi o resto do meu café. — Mas eu não acho que os outros sejam qualquer coisa melhor que este. — Apontei para o livro. — Foi o que mais me empenhei, passei o último verão inteiro trabalhando nele.
— E obteve um bom resultado, devia se orgulhar. — Bella se recostou a cadeira, cruzando os braços na frente do corpo, o que só fez seus seios parecerem maiores contra a camiseta cinza que usava. — Devia revisar o que falei, se você levar em conta o que eu sugeri, claro e enviá-lo a uma editora.
— Os outros livros já foram recusados por várias editoras, não vejo porque continuar insistindo nisso — falei descrente, pensando que eu acabaria tendo de me tornar um professor de inglês quando a faculdade acabasse.
— Você ainda nem tentou! — Bella exclamou, curvando-se sobre a mesa, ficando mais perto de mim do que eu considerava seguro. — Escute, eu pensei por muitas vezes que nunca ia conseguir ser uma professora na UW, principalmente quando acabei a faculdade e tive de voltar para minha cidade natal, pois não conseguia um emprego em Seattle. Mas, eu insisti, estudei mais um monte, liguei para uma dezena de pessoas por dia e, agora consegui o meu maior sonho. — Deu um sorriso orgulhoso no fim do seu discurso, que sendo sincero só ouvi ao longe, perdido demais nos lábios dela.
— Eu vou voltar a trabalhar no livro, em cima das suas criticas — falei por fim.
— Ótimo! Quer dizer, isso soou tão convencido da minha parte, mas eu realmente acho que com uma boa revisão, revendo alguns pontos que sinalizei e tudo mais, o livro estará perfeitamente lapidado como um diamante para as editoras. Retorne-me ele quando acabar, para que eu veja como ficou.
— Isso provavelmente vai demorar, eu tenho a faculdade, trabalho...
— Você ainda é novo, não precisa ter tanta presa.
— Sério, muito obrigado pela ajuda com o livro senhorita...
— Bella, não estamos na universidade — me cortou, seus olhos passeando pelo meu rosto.
— Bella, muito obrigado por toda a ajuda, você não precisava ter se dado ao trabalho de ler meu livro.
— Não foi trabalho algum, foi muito prazeroso. — Ela respirou fundo ao dizer a última palavra, então seus olhos se desviaram de mim para a janela mais próxima. — Ao que parece teremos muita água esta noite. — Suspirou, eu não tive tempo nem de resmungar por ela estar novamente falando sobre o tempo, não quando notei sotaque britânico em sua fala.
— Água? — Imitei o modo que ela falou.
Ela voltou a me olhar, sorrindo timidamente.
— Eu morei por um ano na Inglaterra, não me julgue. — Riu, fazendo com que eu risse também e, antes que pudesse me deter estava inclinado sobre a pequena mesa, mais perto dela ainda.
Nós paramos de rir e, os olhos dela estavam em meus lábios, assim como os meus nos seus. De onde estava era possível ouvir sua respiração baixa e, eu podia jurar estar sentindo o mesmo cheiro de morangos que seu carro tinha no outro dia. Eu queria me aproximar mais um pouco e provar dos seus lábios, apenas o suficiente para confirmar que eles eram tão macios quanto suspeitava.
Um relâmpago do lado de fora iluminou seu rosto, Bella fixou seu olhar no meu e, finalmente pude ver que não era o único perdido ali. Então, um alto trovão soou, a chuva prometida finalmente acontecendo, mas todo o resto do mundo parecia não existir para mim, apenas o sentimento crescente em meu peito por Isabella.
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