Devoção Doentia
7 CAPÍTULO VII - O ultimo suspiro de um anjo
Notas iniciais

Andamos pelo que pareceram horas, eu tentava a todo custo me manter calma, o cano do revolver roçava em minha barriga, enquanto eu sentia um formigamento no corpo, podiam chamar de qualquer coisa, eu chamava aquilo de esperança, ansiedade, um misto de tudo borbulhando dentro de mim.
— Há um posto alguns quilômetros à frente, precisamos de combustível...— Marcus falou com a voz baixa, ele parecia se esforçar para manter a concentração, o encarei com uma expressão neutra, enquanto concordava levemente.— E eu preciso de cafeína.
Continuei a observa-lo, repassando mentalmente tudo o que eu tentaria fazer, ele não arriscaria me tirar daquele carro mais uma vez depois do que aconteceu com aquelas pessoas, ele sabia que minha foto estava em todos os jornais. Então eu teria pouquíssimos segundos, deveria usar sua exaustão a meu favor.
— O que foi?— Ele perguntou, abrindo um sorriso cansado enquanto alternava em olhar para mim e para a estrada. Ajeitei-me melhor no banco e dirigi a ele um meio sorriso.
— Nada, só estou pensando, sabe, como vai ser nesse novo lugar, estaremos mesmo seguros?— Minha voz expressava uma calmaria, completamente em contradição com o meu estado interno. Seus olhos pareceram brilhar com minhas palavras e pude observa-lo relaxar os músculos.
— Sim, minha pequena, estaremos longe o suficiente para sermos apenas eu e você.— Aceno satisfeita com tudo, ao longe uma placa velha, com letras quase apagadas indica o posto de gasolina, me preparo mentalmente, se ele se desse conta de que o revolver sumira eu deveria agir rápido, mas eu pedia com toda minha força para que ele estivesse tão desligado a ponto de não notar.
Ele estacionou o carro perto da única bomba de gasolina, era um posto modesto, quase abandonado, um caminhão guincho com a lataria enferrujada completava o cenário digno daqueles filmes de mistério, o que, ironicamente, eu estava vivendo, era uma realidade misteriosa, sequestrada, vagando para deus sabe onde com um homem obcecado; um plano mirabolante fervilhando em mente, a garota que se encheria de coragem para buscar sua liberdade.
— Sienna.— Ouço sua voz rouca me chamar, atento meus olhos aos dele, sua feição mostrava preocupação, ele leva a mão ate minha coxa e aperta delicadamente enquanto se inclina em minha direção.— Preciso que fique dentro do carro, quieta, não posso correr o risco de te reconhecerem de novo, se tentar qualquer coisa...
Eu ponho uma de minhas mãos sobre a sua, olhando em seus olhos de maneira penetrante, ele me analisa, ele parece tão desconfiado, isso me assusta, procuro boas palavras para conforta-lo.
— Eu vou ficar bem aqui, tudo bem? Prometo que não farei nada, apenas seja rápido, por favor.— Peço enquanto tento manter minha respiração controlada, ele acena, logo após sela seus lábios aos meus de forma rápida e sai do carro depois de soltar um longo suspiro, a porta ficara destrancada, o revolver estava comigo, a adrenalina corria por cada veia de meu corpo, eu estava em chamas.
Mas não sabia se eu estava pronta, era um caminho incerto, e se eu não fosse forte o suficiente para correr, talvez fosse um plano idiota, quase suicida. Para onde eu iria se fugisse?
Assusto-me com duas fracas batidas no vidro do carro, viro minha cabeça e observo um senhor a me encarar, ele levantou um jornal e o colocou contra a janela, minha foto estava lá, respiro fundo enquanto destravo a porta, talvez eu não precisasse estar preparada para fazer aquilo, eu apenas deveria fazer.
— O velho Nick me mandou ficar de olho...— disse ele parecendo um pouco distante. Ele me encarava com uma fascinação estranha, como se não conseguisse acreditar que eu estava ali.— E pensar que ele não é completamente pirado afinal.
Com um medo inexplicável ponho meus pés para fora do carro, encaro o solo de areia avermelhada por alguns segundos antes de voltar minha atenção ao homem a minha frente, ele estende o jornal e eu êxito antes de pega-lo, fazia tanto tempo que eu não me via sorrindo de uma forma tão verdadeira como na foto escolhida para a matéria.
— Diziam que você estava morta, que quem quer que tenha pego você já devia ter se livrado do seu corpo.— O encarei semicerrando os olhos, ele olhava para um além, aquele homem não me parecia a melhor opção de ajuda.— Bobagem.— Terminou ele, cuspindo no chão logo em seguida, desviei o olhar, fazendo uma carreta, eu havia me esquecido como era estar conversando com alguém que não me fizesse sentir medo de sua próxima ação.
— O senhor poderi...
Eu não consegui terminar minha pergunta, Marcus, de alguma forma surgiu atrás do velho homem, as coisas de repente passaram em câmera lenta, o vi agarrar o pobre homem pelos ombros puxando-o para trás com violência, ele se desequilibrou e tropeçou nos próprios pés, Marcus então montou em cima dele como um selvagem e começou a desferir diversos socos por sua face. Aquilo parecia não ter fim, o sangue já cobria todo o rosto do velho e um de seus olhos estava extremamente inchado.
Sou tomada por uma dúvida lacerante, eu queria fazer com que Marcus pareasse com aquilo, queria pular em cima de suas costas e impedi-lo de continuar com aquela desumanidade, mas por outro lado aquela pareceu a minha chance, e se eu não tivesse outra?
A cena parece ter voltado à velocidade normal quando respiro fundo agarrando o revolver no bolso do casaco, ergo meu corpo dolorido pelo enorme tempo em que fiquei sentada, era agora ou nunca. Minhas pernas protestam, mas eu ignoro tudo ao meu redor, olho para todos os lados a procura de um lugar para fugir, tirando a mercearia e a estrada minha única escolha era correr mata adentro, e é isso que eu decido fazer.
Eu corro como nunca antes havia feito em minha vida, eu não queria olhar para trás, meu coração batia tão rapidamente que eu temia que ele saísse para fora de meu peito, eu realmente estava fugindo, pela primeira vez desde que Marcus me sequestrara, eu estava sendo tudo aquilo que sempre quis, a menina que achara uma coragem inexplicável para lutar pela própria liberdade.
Eu corri por minutos sem rumo algum enquanto as arvores começaram a se fechar em torno de mim, eu me sentia sufocada e meu peito implorava por ar, eu não queria parar, eu devia continuar, eu não fazia a menor ideia de onde estava e para onde eu estava indo, apenas corria como se minha vida dependesse daquilo, e bom, para retornar a vida que um dia eu tive eu dependia de correr para tão longe quanto conseguisse.
— SIENNA!— Por entre as arvores ouço a voz penetrante de Marcus, meu peito gela e eu olho para todos os lados, me sentindo perdida, não consegui identificar de onde o som havia vindo, olho para cima, o céu estava cada vez mais escuro, minha respiração ficou entrecortada e eu senti meu corpo me trair. Mas eu deveria continuar.
Eu precisava.
O mundo parecia girar ao meu redor, e uma dor aguda, latejante tomou conta de mim, tanto que tudo que eu queria fazer naquele momento era vomitar, esperando que a dor fosse embora junto. O suor estava escorrendo de minha testa, minhas mãos estavam úmidas e tremendo e meus dentes rangiam a cada nova pontada de dor. Eu parei por um momento e respeitei fundo, sentindo meus pulmões protestarem. Talvez se eu pudesse mudar o foco dá dor seria mais fácil gerencia-la. Minha mente parecia misteriosamente clara, tudo parecia girar ao redor, em um borrão de movimento e minhas pernas mal podiam me levar pra longe dele. Mas depois de alguns momentos do mais puro foco em minha fuga eu consegui bloquear a dor o suficiente para torna-la nada mais que um aborrecimento menor. Iria durar pouco, mas iria me dar o tempo para deixa-lo para trás.
Eu estava completamente ofegante, por mais que meu peito doesse eu corri, e achei que estava longe o suficiente para me dar ao menos alguns segundo de descanso, eu não sabia como não havia desmaiado ainda, o ar parecia não querer entrar em meus pulmões e eu sentia minhas pernas queimarem em dor, pus as mãos sobre os joelhos, tentando respirar fundo.
— Realmente achou que seria fácil assim? Abandonar-me.— Fecho os olhos enquanto ajeito minha postura, as folhas secas a serem pisoteadas deixavam claro, Marcus me alcançara de alguma forma, eu queria que fosse uma peça que minha mente cansada estava me pregando, mas era real. Eu deslizei minha mão para dentro do bolso do casaco enquanto girava nos calcanhares de forma lenta.
— Você não aprendeu, nem um pouco, Sienna, você é minha, minha.— Ele ]avançou em minha direção como um leão avança em sua presa.
— Não se aproxime de mim...— Gritei em completo êxtase, empunhando de modo desajeitado a arma em minhas mãos, apontando diretamente para o peito de Marcus que arregalou os olhos surpreso, balançando a cabeça logo em seguia, parecendo querer lembrar o momento em que fraquejou para que eu conseguia roubar o revolver.
— Achei que não fosse tão esperta a esse ponto, minha pequena.— Ele estava... Sorrindo? Marcos parecia não se intimidar, deu mais alguns passos em minha direção e eu não recuei, apenas ajeitei a mira da arma para sua cabeça, o dedo brincando no gatilho, meus braços queriam tremer, eu não fazia ideia do que estava fazendo, eu não conseguiria apertar o gatilho, nem mesmo se aquele fosse o meu fim.— Ande, atire, mostre toda essa coragem que de uma hora para outra brotou em você. ATIRE!
Meus olhos estavam arregalados e eu podia ouvir as batidas descompassadas do meu coração, mordi os lábios e posicionei mais uma vez o dedo sobre o gatilho segurando a arma tão fortemente que meus dedos doíam. Foram segundos, eu prendi a respiração e fechei os olhos, eu conseguia, eu conseguia...
— Eu não consigo.— sussurrei sentindo meus braços perderem a força assim como minhas pernas, e eu cai de joelhos sobre as folhas e gravetos secos, olhando atentamente para o cano do revolver em minha mão, eu não podia fazer aquilo, eu não era como ele.
Senti meus olhos marejarem e eu me permiti chorar como nas primeiras vezes em que Marcus me machucara, eu me sentia destruída de uma forma que parecia impossível de ser concertada, toda aquela audácia e coragem pareceu me abandonar junto as lágrimas que corriam grossas por meu rosto.
— Por que eu?— Deixei que as palavras escapassem como um sussurro carregado de tristeza.
— Você é como um anjo Sienna.— Marcus se aproximou de mim, encarei seus sapatos embarrados antes de tomar coragem para erguer meu olhar á ele.— Foi uma das coisas que me fascinaram em você, eu sabia que precisava tê-la para mim, eu sabia que tinha que ser minha, para me tirar dessa maldita realidade... Desse mundo de merda.
— Eu sinto m-muito.— Escondi meu rosto em minhas mãos depois de deixar que a arma escorregasse por entre meus dedos, meu peito doía tanto, eu queria poder gritar para tentar desatar o enorme nó que se formara em minha garganta.— Eu não sei o que eu estou fazendo, por favor, eu só quero ir com você...
Marcus continuou ali, parado em frente a mim, me causando uma angustia enorme eu só queria poder sair dali, todas aquelas arvores a me envolver; o céu encoberto por nuvens que pareciam ter surgido de repente, aquela maldita arma, eu não queria nada daquilo, e por um momento de pura loucura eu quis estar de volta naquele quarto imundo, deitada sobre o colchão, contando os inúmeros buracos no teto, observando o vidro embaçado pela sujeira na janela, apenas existindo...
— Venha aqui.— Ele pediu, estendendo uma das mãos para mim, seu tom de voz era seco, e eu não o culpava por isso, obedeci tocando levemente seus dedos, ele agarrou minha mão firmemente e me ergueu me deixando a centímetros de si, meu corpo inteiro fraquejou, mas Marcus passou uma das mãos em volta de minha cintura me apoiando.
— M-me desculpa, por favor...— Engoli em seco quando seu olhar focou no meu, ele era dominador, quase perigoso, mas eu deveria saber que isso aconteceria, ter permitido que a esperança banhasse minha alma e a coragem fluísse em minhas veias foi o maior dos meus erros, depois é claro de ter sido inocente ao ponto de ser gentil com um homem que eu sequer conhecia, no dia em que Marcus me sequestrou, ele usou isso contra mim.
— Tá tudo bem, minha pequena.— Ele me tranquilizou, enquanto acariciava meus cabelos, fechei os olhos para apreciar seu toque e tentar conter as lágrimas que ainda insistiam em correr livre pela minha face.— Você errou, errou demais, Sienna.
Eu afundei meu rosto em seu peito e ali fiquei por um bom tempo, o vento soprava gélido e cortante por entre as arvores atingindo nossos corpos em cheio, eu apenas queria ser levada dali de uma vez, voltar ao banco do velho carro e esquecer tudo o que eu tentei inutilmente fazer, não me importava com a explosão de raiva que consequentemente viria depois de tudo o que fiz.
Conformada. Era isso que eu estava naquele momento.
— Olhe para mim, Sienna.— Sua voz me retirou do fundo de minha mente nebulosa, eu o olhei sem contestar, não consegui decifrar aquele olhar penetrante que suas íris castanhas, ele depositou suas mãos em torno de meu rosto e veio de encontro aos meus lábios.
O contato de seus lábios quentes com os meus que estavam gélidos me causou um arrepio, era um beijo calmo, diferente, como nunca antes eu havia sido beijada, o segui, sentindo meu coração parar por um momento. Os segundos pareciam se estender, e quando ele enfim terminou ainda de olhos fechados desferiu um leve beijo em minha testa, as mãos que antes estavam em torno de minha face escorregaram para meu pescoço e seu aperto se tornou forte.
Arregalei meus olhos completamente apavorada, segurando seus braços na falha tentativa de aliviar o aperto, mas era em vão. Ele me forçou para trás, me fazendo tropeçar e cair no chão, minhas costas doeram horrivelmente, minha visão ficou desfocada enquanto lágrimas enchiam meus olhos, Marcus prendeu meu corpo no chão com suas pernas em torno e me olhou com selvageria. A dor era agonizante como cólicas alucinantes, fazendo parecer que minhas entranhas estavam a ser esmagadas por dentro.
Por um breve momento pensei em apenas ceder à dor, deixando com que ela me consumisse completamente, não parecia haver outra saída. Suas mãos pareciam de aço ao apertar meu pescoço e eu considerei ouvir meu corpo, que estava implorando para que eu parasse; apenas desistir e me deixar partir. Parecia que aquela dor estaria lá para sempre e de certa forma eu estava me acostumando com isso, mas ao mesmo tempo o fato de que isso poderia perdurar por um pouco mais de tempo me aterrorizou. Eu disse a mim mesma que isso teria um fim logo, que esse sofrimento iria acabar, se isso era verdade ou não era irrelevante, pois me deu a coragem necessária para poder aceitar que ele enfim me mataria, a dor, de certa forma iria se tornar uma última grande amiga, levando-me para a sonhada morte, o fim de tudo, por mais que eu jamais pudesse olhar para meus pais, nem sequer para dizer adeus, eu estava feliz de saber que eu iria partir...
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