Devoção Doentia

5 CAPÍTULO V - O fraco fio de Esperança


Notas iniciais
Muito boa noite gente, hoje estou empolgada, e ao mesmo tempo triste, esta short como já disse possuí apenas sete (editando; são oito gente acabei de ver kk) capítulos estamos praticamente na reta final. Não me alongarei mais que o necessário, boa leitura a todos!

Meu corpo doía horrivelmente, o balanço do local onde estava era continuo e meus olhos se incomodaram com uma luz repentina que surgiu do nada, relutante eu os abri, com certa dificuldade eles se acostumaram, eu estava em um carro que havia acabado de entrar em um túnel, as luzes fortes ofuscavam os carros que passavam como borrões.

— Mais que droga?— questionei ao notar que além de estar presa ao banco pelo cinto de segurança minhas mãos estavam amarradas fortemente com uma corda qualquer, ao meu lado ele dirigia concentrado, quase não tirando sua atenção da estrada á frente para fitar-me.

— Eu não podia arriscar, eu sinto muito por isso, minha pequena, mas foi preciso.— O encarei cerrando os olhos, flashes do ultimo acontecimento atingiram minha mente com força, me causando ânsia, eu queria chutar a cara dele ali mesmo, minha intimidade doía muito, e eu me odiei por ter despertado, eu poderia somente adormecer sem nunca mais voltar a abrir os olhos.

— O quão longe estamos?— indaguei, remexendo meu corpo na falha tentativa de arrumar conforto. Ele me olhou por uns segundos, sorrindo de canto.

— Longe o suficiente, digo que longe até demais.— Havia algo diferente em sua voz, suas palavras não me passaram confiança alguma, nada parecido como a maneira que falava antes, ele estava inseguro, e evitava me olhar por mais de dois segundos, e nunca fitando meus olhos diretamente.

O carro continuou a se mover em uma velocidade consideravelmente rápida, enquanto eu, com a cabeça escorada no vidro da janela tentava não imaginar para qual buraco ele estaria me levando, o que era impossível, eu apenas esperava que fosse menos deplorável que aquele maldito apartamento.

— Precisamos parar no próximo posto, o carro precisa de gasolina e você de comida.— A voz dele soou rouca, preocupada e levemente distante, encarei ele por alguns segundos e bufei quando meu estomago reclamou em resposta a menção da palavra comida, eu mal sabia há quanto tempo estava apagada.

Andamos mais uns quilômetros até que as fracas luzes de um posto foram avistadas, ele então parou alguns metros antes, virando-se para mim e desamarrando a corda, meus pulsos estavam doloridos e roxos, mas isso sequer me incomodou, apenas os massageei, sentindo todo meu corpo doer, aquilo tudo estava acabando comigo.

— Precisa vestir isso.— informou me entregando um casaco de capuz, grande demais para meu corpo, mas não discordei apenas o vesti, colocando a porcaria do capuz sobre minha cabeça.— Não posso ariscar deixa-la no carro sozinha, vamos ter que descer juntos, eu peço que coopere, ou as coisas vão ficar muito sérias, não quero machucar seu rostinho.— ameaçou, segurando meu queixo com uma das mãos.

Ele avançou com o carro até o posto, em silencio, eu sentia minhas mãos tremendo, não havia nada ali perto, apenas uma densa vegetação, o que era atrativo demais, correr e me entranhar na escuridão, fugir dele, gritar aos sete ventos que eu ainda estava viva, mas ele tirou do bolso da jaqueta que vestia uma revolver quando finalmente parou o carro, mostrou-me que estava carregado, e não foi preciso dizer nenhuma palavra para que eu entendesse que se tentasse algo logo já seria apenas um cadáver ao relento.

Ao sairmos do carro um forte vento nos encontrou, balançando meus cabelos por entre o capuz, abracei a mim mesma enquanto ele transpassava uma das mãos por minha cintura, enquanto com a outra, por dentro de sua jaqueta, tratou de encostar o cano do revolver em mim, para que estivesse ciente da ameaça.

Ao entrarmos na pequena mercearia eu senti meu peito se apertar um pouco mais, haviam pessoas ali, assim que encarei o homem atrás do balcão eu quis gritar, pedir ajuda e me ver livre dos braços dele, mas eu não o fiz, apenas segui seus passos ainda sendo envolvida por seu aperto, ele olhava desconfiado para todos e eu por algum motivo sorri, estava pela primeira vez na presença de pessoas de verdade, um passo dentro da realidade, se não fosse ele me guiando dentro dela, tudo estaria perfeito.

Ele fez com que eu segurasse alguns pacotes de bolachas e salgados enquanto tentava agir com normalidade, mas qualquer um que resolvesse se intrometer notaria que ele estava no modo de defesa, pronto para atirar, fosse em mim ou nas outras pessoas dali. Enquanto ele pegava mais algumas coisas me permiti observar tudo aquilo, vi uma senhora sussurrar algo no ouvido do homem ao seu lado enquanto me encarava indiscretamente.

Andamos até o caixa e vimos o atendente se demorar ao calcular cada coisa, parecia estar adiando nossa saída, naquele momento meu coração palpitava querendo pular para fora de meu peito, ele me encarava como se sentasse ler meus pensamentos.

— Santo pai! É você!— Ele disse, com um sotaque arranhado, encarei-o, sem saber o que fazer, Marcus segurava agora minha mão, e depositava nela uma força desnecessária.— É a menina desaparecida, da Geórgia.

— É... Não senhor, esta me confundindo.— Por alguma razão as palavras saíram de minha boca como se alguém estivesse falando através de mim, ele cerrou os olhos e olhou-me por inteiro e balançou a cabeça.— Poderia, por favor, continuar?— questionei me referindo as mercadorias, eu queria soar natural, e assustadoramente soei.

Naquele momento, quando ele chamara a atenção dos demais eu pude notar de esguelha um senhor com um jornal em mãos, eu tinha certeza que estava procurando alguma noticia com foto, e eu torcia para que achasse, meu Deus, era a coisa que eu mais queria naquele momento, mas não aconteceu, o preço foi dito e pago, e meus pés seguiram os dele para fora, os olhares nos acompanharam.

Entrei no carro enquanto ele jogava as sacolas no banco de trás, sendo o mais rápido possível em abastecer, eu encarei a mercearia, pensando no que poderiam estar fazendo, poderiam vir me resgatar, ou haviam caído no meu teatrinho podre? Que fossem espertos de não aceitarem minhas palavras, que viessem atrás de mim... Por favor!

Ele voltou um pouco mais rápido do que eu esperava, estava alterado, sendo movido agora por uma completa ansiedade, era visível em seus olhos como estava nervoso, não era de menos, poderia, e se tudo corresse bem, estaria perto de ser descoberto e punido; eu não estava diferente, poderia até sorrir com a esperança que brotara em minha alma naquele momento, como se soubesse que algo aconteceria, no momento em que os olhos daquele atendente me fitaram eu sabia que as coisas mudariam.

— Caipiras de merda!— ralhou, com a voz arrastada enquanto arrancava com o carro, pelo espelho retrovisor pude notar dois homens a observar o carro partir, estávamos indo para longe, e o meu fio de esperança se esticava, eu só rezava para que ele não se partisse...

[...]

A viajem seguiu tão silenciosa quanto ele, e o minutos se estenderam até se tornarem horas, meu corpo já não protestava mais, eu acho que estava começando a me cansar daquilo tudo, do medo fluindo em minha veias, a saudade que me consumia cada instante e a esperança que parecia mais como uma lembrança distante.

Minha cabeça doía horrivelmente e meus pensamentos pareciam baralhados, eu estive tão perto de uma possível liberdade e simplesmente fui incapaz de agarrar a oportunidade que me foi oferecida. Eu apenas precisava de coragem, mas parecia que eu não era como as garotas que se via nos noticiários, eu não corri, eu apenas permaneci ao lado dele, e o ajudei a continuar com aquilo tudo, certas vezes me questiono o quão quebrada posso estar ao ponto de ceder a todo esse medo que ele causa em mim.

Ajeitei meu corpo no desconfortável banco do carro e olhei para ele, o olhar estava vidrado na estrada e as mãos pareciam apertar o volante com muito mais força do que realmente era necessário, ele parecia imerso em pensamentos e eu não ousaria tira-lo disso. Esquadrilhei todo o carro, aquilo estava uma zona; restos de cigarro, garrafas de cerveja e alguns restos de comida nos bancos de trás, logo a frente, no painel empoeirado, jazia o revolver que ele usara mais cedo para me manter sob seu controle.

Uma única bala. Um tiro limpo.

Era tudo o que eu precisava para realmente me ver livre, parecia tão fácil, mas de certa forma eu já poderia ter partido á muito mais tempo, todos aqueles dias em que ele simplesmente me abandonou naquele apartamento imundo, haviam tantas possibilidades de acabar com tudo, o problema era que eu tinha um maldito medo de partir sem antes poder olhar nos olhos dos meus pais por mais uma vez, eu não me importaria de morrer depois de poder dizer uma ultima vez o quanto eu os amava.

— Ainda estamos longe?— Me atrevi a perguntar num tom quase que inaudível enquanto olhava a paisagem passando rapidamente do lado de fora. Ele pareceu despertar de um tranze ao ouvir minha voz, virei em sua direção quando a resposta não veio e o encarei por alguns segundos antes de receber um ligeiro sorriso de seus lábios.

— Sim, minha menina.— Ele respondeu por fim, enquanto retirava uma das mãos do volante e pousava ela sobre minha perna apertando-a de forma gentil. Meu corpo inteiro protestou e as imagens da ultima noite atingiram-me em cheio, prendi a respiração e olhei mais uma vez para seus olhos procurando algum indicio de que ele não faria nada além daquilo. E ele realmente não fez nada mais de continuar afagando minha perna, com seu toque beirando a gentileza, como se quisesse me confortar de algo.

Notas finais
Espero de coração que tenham gostado, queria deixar aqui meu agradecimento a Pat, Bynes e ShCris, meninas vocês são uns amores me deixaram sorrindo por muito tempo com seus comentários ♥ Beijinhos!