Notas iniciais
Oi, gente ;__; Então, eu saí consideravelmente da minha zona de conforto pra escrever essa fic e *shy* achava que não ia conseguir mas deu tudo certo, uhul. Não sei se ficou tão bom, mas dei meu melhor. Dedico a fic e agradeço (novamente) à Lariez u_u (TE AMO DEMAIS AAAA) Daqui alguns dias, vou adicionar a capa da fic, como dito no disclaimer -w- Boa leitura! ♥

Havia uma coisa boa em ser obrigado pelos pais a frequentar a igreja toda semana e, no caso, assistir a missa aos domingos.

Não que se contentasse com a perspectiva de ter de ficar sentado — sem mencionar dos frustrantes horários intermitentes em que era necessário se ajoelhar ou permanecer de pé — enquanto ouvia as apregoações inspiradas do padre por mais de uma hora. Realmente não podia evitar se distrair, então não se sentia tão culpado assim, mas era fato que seu interesse na verdadeira proposta do encontro beirava a nulo.

O mesmo, no entanto, não podia ser dito em relação aos vitrais que o cercavam. Toda estrutura arquitetônica do lugar era no mínimo interessante, desde o teto abobadado às imagens esculpidas nos pilares, mas nada os superava.

Havia vários deles: fileiras contíguas de janelas compridas e de tons anis com desenhos geométricos multicoloridos ao longo das paredes da nave da igreja, além de uma monumental figura de Jesus composta por vitrais no centro da parede do presbitério, acima de uma cruz. Ângelo adoraria passar a mão neles e sentir a textura vítrea sob sua pele, mas como sabia que não devia, limitava-se a observá-los em enlevo.

E, dessa vez, tiraria uma fotografia — uma outra paixão, e estava ansioso para inaugurar a câmera nova.

A missa se estendeu como de praxe, mas, dessa vez, pareceu mais lenta e entediante do que de costume, por mais que a mente de Ângelo continuasse em uma corrida desenfreada consigo mesma o tempo todo, também como de costume. Ele levantou-se quando era necessário, acompanhou os cânticos e as orações e aderiu à hóstia ao chegar a hora, mecanicamente. Após a reza de encerramento, esperou que a igreja se esvaziasse, dizendo aos pais e à irmã que os encontraria lá fora — eles sempre ficavam um tempo confabulando com conhecidos de qualquer forma.

Esperava que apenas os funcionários da igreja ainda estivessem ali quando encaminhou-se até a plataforma do púlpito, mas surpreendeu-se ao notar alguém estirado na primeira fila de bancos, encarando em frente com um olhar distante, como que alheio aos seus arredores. Era familiar — conhecia-o da crisma que era forçado a participar, mas, no momento, não lhe ocorria nenhum nome que pudesse ser dele. Provavelmente começava com C. Ou D.

Tinha um aspecto um tanto indiferente e a última coisa que provavelmente chamaria sua atenção era Ângelo, mas lhe era comum se sentir avaliado e desconfortável no campo de visão de outras pessoas. Entretanto, logo se resignou que ele não sairia dali tão cedo, e retornou ao que pretendera fazer, aproximando-se a passos hesitantes.

Permaneceu vários minutos contemplando o vitral frontal antes de finalmente angular a câmera na perspectiva ideal em frente ao olho. O som do obturador ao pressionar o botão aqueceu seu peito, assim como a foto sendo instantaneamente revelada. Contentou-se com o resultado por um tempo, então guardou-a com cuidado no bolso no peitilho da blusa.

Agora restava fotografar o resto dos vitrais.

Virou-se um tanto abruptamente para seguir seu caminho e quase deu de cara com alguém. O garoto que havia visto antes sentado encontrava-se bem na sua frente, outrora contemplando o vitral, mas agora com um olhar surpreso no rosto por quase ter sido atropelado. Ele recuou.

— Foi mal — Ângelo apressou-se a se desculpar, inquieto.

— Eu que me desculpo — respondeu o menino, o semblante voltando à inexpressão; a voz possuía um timbre afável. — São realmente bonitos. Quero dizer, os vitrais.

Ângelo sorriu e concordou vigorosamente com a cabeça. Seu sorriso não foi retribuído, o que o desapontou ligeiramente — havia algo naquele cara que transbordava descaso, talvez a postura relaxada. Apenas recebeu um repuxar sutil de lábios responsivo. Ele não parecia reconhecê-lo de lugar nenhum.

Por fim, o menino apenas deu um aceno com a mão e virou as costas.

Ângelo queria ter tido tempo para perguntar seu nome.

Na semana seguinte, Ângelo não foi capaz de encontrar nenhum pretexto para faltar à crisma mais uma vez, e provavelmente seu pai não toleraria que o fizesse de qualquer maneira. Dessa forma, às sete horas da noite, foi deixado em frente à porta da igreja por ele, que parecia satisfeito por não ter mostrado tanta resistência.

— Talvez eu demore um pouco pra te buscar, ok? — disse o pai, quando já saía do carro e se direcionava a passos dispendiosos ao pórtico da igreja, de forma que deixasse bem claro sua má-vontade.

— Beleza — respondeu por sobre o ombro, embora parte dele se queixasse por isso. — Até mais, pai.

Provavelmente não teria com o que se entreter se permanecesse ali por muito tempo, mas estava grato por ao menos ter trazido a câmera digital dentro da mochila que pendia no seu ombro direito. Podia tirar proveito dos minutos a mais para enriquecer sua coletânea.

Seguiu seu caminho, sob o som do automóvel distanciando-se completamente.

Depois de atravessar o átrio da igreja, o salão principal com o santuário e os bancos — e ajoelhar-se diante da cruz em sinal de respeito, mais porque outras pessoas olhavam do que tudo —, adentrou o corredor anexado à construção principal com as respectivas salas de aula e parou em frente à da sua turma, fechada, encarando as venezianas da porta de ferro com frustração.

Esperava não ter sido o último a chegar — se fosse o caso, um número ainda maior de pessoas acompanharia com os olhos sua entrada retardatária. E se ele tropeçasse no meio do caminho ou algo do tipo?

Por fim, ergueu a mão à maçaneta e cruzou o limiar da porta.

As pessoas estavam distribuídas em um círculo amplo, o que provavelmente significava que havia chegado durante a oração de iniciação. Por esse motivo, felizmente ninguém deteve sua atenção nele, todos atendo-se a pronunciá-la em conjunto. Depois de quatro vezes ali, ainda não recordava o nome de ninguém.

Varreu o perímetro por uma cadeira vaga e, ao encontrá-la, sorrateiramente deixou seu material nela e uniu-se aos outros, sentindo um formigamento de nervosismo ao segurar a mão da garota à sua direita e do menino à sua esquerda.

Não fez questão de aderir ao coro de vozes, especialmente porque a prece já estava quase no seu fim.

Por fim, a roda de pessoas se desmanchou e cada um acomodou-se em seu assento. Ângelo levou um tempo para se aperceber que a pessoa ao seu lado era o mesmo garoto com quem quase esbarrara na missa de domingo, prestando especial atenção quando ele respondeu à chamada de presença.

Camilo. Nome bonito.

Camilo pareceu notar quem ele era, dirigindo-lhe um aceno discreto de cabeça e um sorriso labial um pouco mais lato que o da última vez.

Ângelo apenas sorriu.

Uma das catequistas, uma moça alta e sorridente de óculos, bateu palmas para atrair os olhares das pessoas. Então, começou a explicar a dinâmica que realizariam: alguma coisa relacionada a reunir-se em quartetos e a procurar passagens bíblicas, lê-las e explicá-las com as próprias palavras.

Ângelo e Camilo soltaram suspiros enfastiados em uníssono; entreolharam-se, surpresos, e o último deu um sorrisinho de canto que Ângelo retribuiu.

Ambos se juntaram a duas garotas que aparentemente já eram íntimas uma da outra e que monopolizaram o dever do grupo — nenhum dos dois as impediu de fazerem as coisas sozinhas, e elas não pareciam ligar.

— E vocês, meninos? Nada a dizer? — a catequista, no entanto, inquiriu quando não se manifestaram em momento algum.

— Uh. — Ângelo torceu as mãos suadas uma na outra, arrependendo-se por não ter escutado a leitura da passagem. — Bem…

— É que elas já explicaram basicamente tudo — Camilo acorreu, surpreendendo-o, já que ele costumava estar sempre omisso durante os encontros, se bem se lembrava.

A funcionária sorriu.

— Ok, mas da próxima vocês vão se pronunciar, viu? — Então volveu-se ao próximo grupo. — É a vez de vocês agora.

Ângelo lançou seu melhor olhar apologético ao colega.

— Obrigado.

Ele deu de ombros.

— Não precisa agradecer.



Ângelo, como qualquer um, não era totalmente desprovido de amizades, e apreciava cada uma delas. No entanto, também não era a pessoa mais sociável do mundo. Distraía-se facilmente demais para sustentar um diálogo muito extenso com quem não conhecia e era inseguro demais para tentar. Seria de se esperar que se isolasse em qualquer lugar no qual não se sentisse confortável o bastante; basicamente, quase todos. Diria o necessário quando necessário, e somente.

Por isso, surpreendia-se sempre que trocava palavras com Camilo ao ir à crisma.

Depois de certo tempo, começou a perceber que a cadeira ao lado dele estava sempre desocupada — não sabia se por uma coincidência afortunada ou se o fazia de propósito — e passou a tratá-la quase ritualmente como seu lugar fixo.

Não era toda vez que se falavam e, quando o faziam, sempre concernia trivialidades; ambos eram quietos demais para tomar uma iniciativa pra algo maior. Às vezes, isso incomodava Ângelo, por mais que socializar-se não fosse exatamente sua maior preocupação.

Só ficava feliz com a perspectiva de talvez fazer mais um amigo, por mais que não soubesse nada do garoto ainda.

Depois da crisma, Camilo geralmente se retirava para um canto da parte a céu aberto da igreja, sentava-se no chão contra o muro coberto de hera e ouvia músicas com o fone de ouvido, quando os pais demoravam para buscá-lo.

Um dia, Ângelo uniu coragem o suficiente para se acercar dele.

— Posso sentar aqui? — perguntou.

Mas ou a música nos ouvidos do garoto era de um volume ensurdecedor, ou havia sido redondamente ignorado.

Então decidiu que seria melhor não perturbá-lo mais, e se afastou.

As esperanças de conhecê-lo melhor minguavam consideravelmente.

Dessa forma, algumas semanas depois, Ângelo tornou a faltar a crisma mais uma vez, sem outro incentivo a não ser as demandas do pai e os conselhos — ainda que transigentes — da mãe. No entanto, não pôde escapar e foi obrigado comparecer à missa do domingo da mesma semana.

Ângelo se acolheu ao banco de madeira em uma das últimas fileiras junto dos pais e da irmã mais velha, Andressa, que tagarelava entusiasmadamente a respeito de algum assunto em que tentara prestar atenção, mas sem obter sucesso.

— Lolô, você me ouviu? — ela indagou por fim, enquanto ele observava desinteressadamente o lugar ao redor. A instituição estava enchendo-se cada vez mais. Será que teria alguma coisa especial hoje? — Lôlo. Lôlo!

Ele voltou-se pra ela.

— Oi?

Ela o encarou nos olhos. Então, suspirou.

— Você fez de novo. Eu adoro conversar com você, mas… — Ela balançou os longos cabelos castanhos encaracolados. — Você tem tomado todos remédios direito? Mamãe tem lembrado de te dar?

Ângelo conteve a irritação.

— Tenho, sim. Desculpa, Andy.

Ela suspirou, mais uma vez.

— Vou falar pra ela mais tarde que acho que não tá fazendo efeito, então.

Estava, sim. Talvez não cem por cento, mas estava. Porém, Ângelo não iria discutir isso agora, então não respondeu nada.

Como não tinha nada para fazer, continuou esquadrinhando a circunscrição da nave central da igreja, cujos bancos estavam quase todos ocupados, e deteu-se ao ver umas das últimas pessoas atravessando o corredor entre os bancos à procura de um lugar — a missa estava prestes a começar. Era Camilo, acompanhado de uma mulher que aparentava ser jovem, mas de aparência debilitada. A julgar por alguns traços em comum, provavelmente tratava-se de sua mãe. Ele estendeu a mão pra ela no meio do caminho, sorrindo-lhe de uma forma que nunca o havia visto fazer antes. Depois, sentaram-se no banco da fileira ao lado — Camilo o localizou e acenou, e Ângelo fez o mesmo.

Durante a missa inteira, um pouco mais longa que o normal, Ângelo permitiu que sua mente vagasse, retornando ao atual espaço-tempo só quando lhe convinha. Admirou os vitrais como de costume, contemplando talvez ir até eles de novo ao final da liturgia — e assim o fez, logo depois que seus pais e irmã e as outras pessoas deixavam a igreja.

Ele estava se adiantando para o vitral do painel frontal quando notou que Camilo tivera a mesma ideia que ele — mas, ao contrário dele, observava as janelas igualmente deslumbrantes, de pé, porém deslocado ao canto inferior do lugar.

Sem nem ter ideia do que exatamente o motivava, Ângelo rumou até lá.

— Oi. — Camilo pareceu notar sua proximidade quase imediatamente, mesmo que nem houvesse enunciado uma palavra sequer. Depois continuou, sorrindo sutilmente, ainda que nem tivesse lhe transferido o olhar. — Parece que você gosta deles tanto quanto eu.

Ângelo levou alguns segundos para compreender que se referia aos vitrais.

— É uma das poucas coisas que gosto daqui, pra falar a verdade — disse. Talvez não devesse sair dizendo essas coisas. Bem, tarde demais. Além disso, não era como se Camilo parecesse muito satisfeito em estar ali, também.

O garoto o olhou de relance, quase como se se simpatizasse com ele, por mais que não mais sorrisse.

— Bem. Igualmente. — Havia estendido a mão, e agora perpassava a textura vítrea com os dedos, delicadamente, quase como se cinzelasse seus desenhos. Por fim, perguntou: — Por que vem aqui, então?

— Meus pais… em especial meu pai, acho. Tenho que obedecer. Não estou aqui por vontade própria, sabe. — Ele respirou fundo, e, antes que pudesse se perguntar se devia de refrear, prosseguiu. — Eu até queria acreditar nisso tudo — gesticulou de modo abrangente —, mas sei lá. Não sei se consigo. — Como Camilo permaneceu em silêncio nos segundos seguintes, emendou: — E… e você?

Ele finalmente fez contato visual; Ângelo não sabia se gratificava-se por isso ou não.

— Minha mãe não me obriga, mas venho aqui por ela. — Ele levou a mão à nuca e bagunçou ainda mais os cabelos escuros e arrepiados. Ângelo queria perguntar por quê, mas não o pressionou. — Só que realmente te entendo. Eu tento, mas… Bom, legal saber que tem alguém em aqui com uma visão parecida com a minha.

Ângelo abriu um sorriso.

— É, sim. A gente devia conversar mais vezes.

Camilo ergueu as sobrancelhas, como que surpreso por sua iniciativa — o fez pensar que estivesse extrapolando por um fugaz momento, por mais que isso não fizesse sentido. Porém, logo seu sorriso foi reciprocado.

— Acho que devíamos, mesmo.

A princípio, Ângelo tinha suas dúvidas de que eles realmente fossem fazer isso.

Ledo engano.

Desde aquele dia, Camilo parecia gradativamente mais estimulado para falar com ele;

primeiro, seus cumprimentos passaram de acenos e sorrisos discretos para falas proeminentes e sorrisos estremes; então, parecia cada vez mais determinado a puxar algum assunto com ele, embora mantivesse seu jeito quieto a maior parte do tempo. Mesmo assim, teve uma vez em que a catequista até os repreendeu por conversarem demais durante seus ensinamentos, ainda que em tom baixo.

Antes que pudesse perceber, começava a voluntariamente frequentar as crismas e as missas, porque poderia vê-lo.

Com o tempo, os dois começaram a adquirir mais proximidade e a descobrir mais um sobre o outro, sobre os interesses e aspirações de cada um. Ângelo não escondeu sua paixão por fotografia e, quando esta foi colocada em pauta, Camilo pareceu se entusiasmar, ainda que à sua própria maneira.

— Posso ver as fotos que você tira? — perguntou, e poderia parecer desinteressado se não tivesse reconhecido o brilho no seu olhar.

— Claro, depois eu trago meu álbum pra você. Já tem uns 2 meses que ganhei minha câmera nova, então não tem tanta coisa assim, mas…

— Eu iria adorar — disse Camilo, os cantos dos lábios se curvando em um sorriso. E, quando Ângelo eventualmente o trouxe e lhe apresentou-o depois da crisma, pareceu apreciá-lo genuinamente.

Por sua vez, Camilo começava a dar pistas de seus gostos; por exemplo, como adorava mixagem de CDs, como era um completo eclético em termos de música e como esperava começar a aprender a tocar algum instrumento aquele ano.

— Depois você podia me mostrar algum remix seu, sabe — sugeriu Ângelo. Camilo pareceu hesitante, como se estivesse pedindo algo muito íntimo, mas acabou por ceder. Na semana seguinte, entregou-lhe um CD dentro de um envelope com os dizeres “Para Ângelo. Espero que goste” numa caligrafia um tanto única, ainda que legível. E bonita. É, bem bonita.

A primeira coisa que fez ao chegar em casa foi ouvi-lo. E adorou cada uma das músicas gravadas.

A periodicidade com que se viam — basicamente todas as quartas, durante a crisma, e alguns domingos, depois das missas — provavelmente foi o catalisador para que Ângelo conseguisse desenvolver uma amizade com ele, ainda que esta estivesse em fase embrionária. Ele não era muito bom em manter contatos por si só, e raramente teria alguma chance de aprofundar qualquer relacionamento com quem não se familiarizasse pelo menos um pouco primeiro.

Camilo aparentemente não era uma pessoa que se abria com facilidade, mas estava contente por estar conhecendo mais sobre ele aos poucos.

Só esperava que não fizesse nada de errado.

Ultimamente, andavam tão unidos na igreja que até sua mãe reparou, quando foi avisá-lo que já estavam indo pra casa, após a missa de domingo. Ângelo se despediu do amigo e, quando ele se afastou, ela voltou-se pra o filho com entusiasmo.

— Quem é seu novo amigo, Angie? — inquiriu, o orgulho maternal e tendencialmente constrangedor por saber que seu anjo estava se enturmando estampado nos olhos amendoados.

— Ah, é só o Camilo — respondeu, envergonhado.

Depois disso, a mãe basicamente formulou um questionário sobre o amigo — ao qual não teve paciência de responder, claro — e sugeriu que um dia o convidasse para que os visitasse. Na vez seguinte que encontrou Camilo, fez questão de comentar a ele que “Ângelo fala muito de você”. Não sabia se Deus existia ou não, mas, naquele momento, orou para que Ele fizesse com que sumisse da face da terra.

Então, as férias de Julho finalmente chegaram.

— Boas férias pra você, Ângelo — despediu, no último dia de crisma antes das férias. Ele sempre estranhava como seu nome parecia formal demais na boca de Camilo, mas nunca pedira pra que chamasse por algum de seus numerosos apelidos (sua irmã sempre fazia questão de aumentar o repertório).

Ficariam sem se ver por um tempo. Estava com vergonha demais pra pedir seu número ou nome em alguma rede social pra manter contato. Mas, bem, tinha outros amigos além dele; talvez não fosse sentir tanta falta assim.

— Boas férias! — retribuiu, e acenou enquanto o amigo dava meia-volta e adentrava o carro do pai.

Bom, um mês passa rápido.

De fato, as férias passaram rápido demais. Na primeira semana subsequente ao fim delas, seu único consolo era que poderia rever o amigo quando fosse à crisma — ou assim imaginava, porque, quando compareceu a ela quarta-feira, sua ausência não passou despercebida. Passou o encontro todo morrendo de tédio e indisposição e imaginando por que ele faltara. Camilo também não esteve presente na missa, e o episódio se repetiu.

Na segunda semana, temia que não fosse vê-lo de novo. No entanto, surpreendeu-se ao chegar aproximadamente trinta minutos mais cedo e ver que Camilo já estava lá, escorado à parede ao lado da porta da sala, aparentemente à sua espera.

Ele desencostou-se da parede e tirou o capuz da cabeça bem no momento em que Ângelo se adiantou, o movimento súbito quase sobressaltando-o.

— Oh, oi. Por que tu faltou semana passada? — perguntou, e Camilo apenas deu de ombros. — Aproveitou bem as férias?

— Mais ou menos, acho. Fiz vários nadas… Ei, escuta. — Camilo olhou ao redor, sondando por possíveis bisbilhoteiros, mas o lugar estava quase desértico naquele horário. Nas quartas em que não havia missa, não era incomum isso acontecer. — Não tô com muita paciência de assistir a crisma hoje, não. Quer fazer alguma outra coisa?

Ergueu as sobrancelhas.

— Tipo, cabular aula? — indagou. Camilo, de alguma forma, parecia diferente hoje. Mais distante que o normal. Mas talvez fosse em virtude das semanas sem se falarem.

Ele exibiu os dentes, mas o sorriso não alcançou os olhos.

— Em outras palavras, é isso aí.

Ponderou por um momento, mas não era como se quisesse estar ali por causa da crisma em questão, então...

— Por mim tudo bem.

Ambos andaram lado a lado em silêncio, atravessando a nave central da igreja vazia e seu vistoso nártex, indo para o lado de fora. Ângelo não entendia o que faziam ali, ainda que continuassem dentro do território da igreja, mas seguiu-o da mesma forma.

Contornaram a construção até que estivessem de frente às numerosas janelas de vitrais nas laterais da igreja, que ficavam dentro de nichos na parede. Seu vão era espaçoso o suficiente para que os dois pudessem se sentar sem que ficassem espremidos um contra o outro.

No entanto, continuavam bem perto um do outro. Possivelmente mais do que estavam acostumados.

Nenhum deles disse algo pelo que pareceu vários minutos. Ângelo permaneceu balançando os pés no ar, um pouco constrangido, apoiando os braços na mochila sobre o colo. Fazia frio; queria estar agasalhado como o amigo. Tentou encantar-se com o fulgor da lua crescente e com o crivado brilhante das estrelas no céu negro como distração, mas continuava dolorosamente senciente da proximidade entre eles. Não costumava gostar mesmo de contato físico ou algo próximo a isso, mas alguma coisa lhe dizia que havia algo mais. Provavelmente o coração acelerante tivesse algo relacionado a isso, também.

Camilo, por sua vez, estava encarando as próprias mãos desde que se acomodaram ali, e não parecia nem um pouco inclinado a dizer alguma coisa.

Ângelo resolveu arriscar. Às vezes, quietudes podem ter grandes significados.

Conhecer a si mesmo já bastava pra saber disso.

— Camilo, tá tudo bem?

Ele ergueu os olhos para ele, e assentiu.

— Tá sim. Aliás, me chama de Cam. — E lhe dirigiu um daqueles seus sorrisos típicos, verdadeiros, em que quase crispava os lábios. Gostava de notar esses pequenos detalhes sobre ele. — Ou Oli.

— Por que Oli? — disse, franzindo o cenho.

O sorriso permaneceu.

— As últimas três letras do meu nome ao contrário — esclareceu ele. Ângelo riu.

— Ok, Oli — disse, divertindo-se com como o apelido soava. — Você pode me chamar de Angie, se quiser. Ou Lô. Ou Lolô. — Camilo também riu, fazendo com que sorrisse. — Mas enfim... tem algo te incomodando? Pode me falar se quiser.

— Bem… — começou ele, aprumando-se e encostando as costas e a cabeça nos vitrais. Ângelo fez o mesmo, como se isso permitisse que o ouvisse melhor, sentindo a textura irregular dos vitrais em suas costas por cima do tecido da camisa. — Tem. É minha mãe.

— O que tem ela?

— A saúde dela. Não tá muito boa. E ela teve uma recaída semana passada — disse Camilo, enquanto divisava o céu. — Mas não sei se quero falar muito disso.

— Entendo. Sinto muito — murmurou. Por mais que tenha sido sincero, queria ter dito algo mais efetivo do que aquilo.

— Também sinto.

O silêncio que se seguiu pareceu sepulcral demais para permitir que se estendesse.

— Então… — Felizmente, Camilo foi o responsável por findá-lo. — Fotografou muitas coisas durante as férias?

— Nem tanto quanto eu gostaria, pra falar a verdade — admitiu. — Mas as férias foram boas, então acho que compensa.

Os dois conversaram sobre mais alguns assuntos prosaicos como normalmente faziam. Mesmo assim, Ângelo continuava estranhando tanto a atmosfera entre eles quanto o próprio nervosismo — mais potente que o normal, mesclando-se com ansiedade. Checou o horário e não soube se deveria se contentar com a perspectiva de permanecer ali pelos quarenta minutos restantes. Se ao menos seu desconforto pudesse desvanecer como mágica…

Sem poder se conter, voltou os olhos pro menino ao seu lado, que continuava a fitar o céu. O brilho do luar e a luz dos postes iluminavam seu rosto e projetava sombras em suas feições, o que parecia salientar sua expressão saudosa e melancólica.

Antes de pensar duas vezes, torcendo pra que Camilo continuasse como estava, retirou a câmera digital e retratou o momento.

Diante do barulho do obturador, o amigo virou o rosto abruptamente, a surpresa transformando-se em um unir de sobrancelhas.

— Por que fez isso?

Entregou-lhe a foto recém-revelada.

— Achei que ficaria legal. E ficou.

Camilo encarou longamente a fotografia. Por um momento achou que estivesse bravo, mas então um sorriso surgiu no canto de seus lábios.

Ele lhe devolveu o pedaço de papel.

— Não costumo gostar que tirem fotos minhas. Mas você eu perdoo.

Ângelo deu um sorriso largo, como se tivesse recebido um elogio. Seu coração também parecia feliz, batendo desenfreado.

— Eu ainda não tinha uma foto sua, também. E é legal fotografar o que e quem eu gosto, então…

Primeiro, mais um erguer de sobrancelhas. Então, o sorriso de Camilo se ampliou como nunca — e ele virou o rosto, como se quisesse escondê-lo.

Ângelo sequer havia prestado atenção ao que tinha dito, mas estava contente por deixá-lo assim — embora sentisse o rubor espalhando-se pelo próprio rosto.

— Sério, eu fico feliz por ter te conhecido. — As palavras jorraram de sua boca sem que pudesse filtrá-las. Era normal dizer aquelas coisas tão espontaneamente?

O garoto fixou os olhos nos seus — dessa vez, tão incisivamente que teria recuado se, bem, não estivesse sentado bem do seu lado. Suprimiu um suspiro, porque ele parecia tão próximo, cada vez mais; ou talvez fosse só impressão dele. Talvez fosse Ângelo que estivesse se inclinando em sua direção. Seu olhos sondantes acabaram por descer até a boca de Camilo, cujos lábios também não pareciam muito longe. Ele mordia o lábio inferior, como de hábito.

— Eu também fico feliz. — Camilo disse, por fim, se afastando um pouco. A ruptura súbita do momento anterior deixou-o meio desorientado, mas a sinceridade que encontrou em seu olhar quase fez com que seu peito inflamasse de júbilo.

E algo mais, porém… Ainda teria como decifrar o que era exatamente.

Afinal, esperava que sua amizade com Camilo ainda durasse muito tempo.

Notas finais
Eu apreciaria muito se vocês comentassem o que acharam porque a insegurança não sai de mim e çwç Também sintam-se à vontade para tirar dúvidas sobre os personagens or smth~ Então, gente, eu tenho pretensões de fazer uma continuação, por isso não me apedrejem por causa desse final HJFSDHJF O plano é ir desenvolvendo a relação do Angie e do Camilo ao longo dos ciclos do Projeto Zine (embora não saiba quantos serão)~ espero que dê para segui-lo 8D Muuuito obrigado por lerem até aqui! Vejo vocês nos reviews ou na próxima, n sei HJHJFD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!