Em cinco minutos, o ensolarado sol de San José se transforma em uma hipnotizante escuridão. A noite suave chega extremamente mais cedo do que de costume, não é raro isso acontecer aqui. Agradeço aos céus quando isso acontece, enquanto a população se preocupa, corre para suas casas pensando ser o fim dos tempos e reza para que o amanhecer chegue logo. Mas ali está todo o meu bálsamo, é como se as sombras conspirassem á meu favor, me acolhendo e me fazendo mais forte de noite.

—Ó, grandioso provável antepassado deus Clisthert, obrigada por essa massa negra de ódio que abraça a cidade tornando este dia em noite, que venham os demônios! –Gritei com um tom sarcástico em quanto rodopiava e me divertia com a expressão de medo de Lucy.

—Céus, por favor, pare com isso Alicia. –Disse Lucy demonstrando preocupação, logo após correu e se ajoelhou em um pequeno santuário com fotos e estátuas de santos que ela mesma construiu na cozinha e começou a rezar.

Não consegui segurar a risada, mas logo parei assim que percebi a expressão de pânico e raiva estampada no rosto de Lucy.

Lucy é minha empregada, na verdade não mais, ela é minha única família. Desde quando eu nasci ela cuidou de mim, mesmo tendo medo assim como os outros.

Quando eu tinha seis anos, minha professora levou um padre na minha casa, alegando que poderia haver espíritos ruins na minha vida e por isso as outras crianças choravam quando eu me aproximava. O padre então pediu meu nome, lembro que ele era um senhor de cabelos brancos, carregava uma enorme cruz no pescoço e não olhava nos meus olhos, nenhuma vez, não gostei dele. Assim que respondi, ele pegou uma bíblia e começou a rezar enquanto Lucy me abraçava e me levava para longe.

— Clisthert você disse? – disse ele se inclinando para chegar perto de Lucy, esperando uma confirmação, Lucy assustada e encolhida fez que sim com a cabeça e então ele continuou. –Clisthert é um demônio! Como pode ser seu sobrenome? Ele foi um dos demônios mais poderosos que existiu, seu poder era transformar o dia em noite, e assim os outros demônios invadiam a terra, já que não podem vagar por ai de dia. –Após dizer isso, o padre chamou Lucy para conversar á sós e depois disso nunca mais o vi. Eu era uma criança e achei a história muito interessante, na verdade ainda acho, quem sabe ele não pode ser um antepassado meu? Mas desde aquele dia Lucy não pronunciou mais meu sobrenome, e teme quando alguém o pronuncia.

Deixei Lucy rezando na cozinha e subi para o meu quarto. Tranquei a porta, corri para meu guarda-roupa e peguei uma roupa qualquer. Um vestido azul marinho que ia até o joelho, pode parecer que não, mas eu adoro vestidos. Por cima coloquei um enorme casaco preto, pois estamos no outono e faz frio á noite. Olhei para a janela, eu poderia facilmente sair escondida e Lucy nunca notaria minha ausência, mas faz algum tempo que parei de fazer isso, eu sempre saia arranhada na melhor das hipóteses. Peguei meu chapéu favorito, um preto com abas enormes que cobriam meu rosto se eu desejasse, o coloquei na cabeça e então desci as escadas. Lucy ainda estava na cozinha, mas ela logo percebeu quando eu passei pelo corredor.

—Alicia...- Antes de Lucy terminar de falar, me virei e olhei nos olhos dela com uma expressão séria, ela se calou. Continuei andando pelos corredores vazios e escuros até chegar à porta, e então sai.

Como eu amo essa sensação, ruas vazias, escuridão total, silêncio absoluto. Fecho meus olhos e começo a perambular pela rua enquanto sinto uma leva brisa passar pelo meu rosto. Não tenho rumo, vou aonde as sombras me levarem, sou uma filha da noite, não, sinto como se eu fosse a própria noite.

—AAARGH! –Abro meus olhos rapidamente e percebo alguém parado na minha frente com as mãos sobre o rosto.

—Que susto! Olha por onde anda! – Disse a pessoa num tom arrogante. Eu estava tão próxima dessa pessoa que consegui sentir sua respiração acelerada. Eu deveria ter me esbarrado com ela e nem percebi, de tão agradável que estava aquele momento.

—Argh. –Falei irritada olhando para o chão.

—É só isso? Não vai pedir desculpa?

—Não. –Assim que direcionei meus olhos para aquela pessoa, vi que seu rosto era família, após alguns segundos me lembrei.

—Ei, você estuda comigo! –exclamei.

—Estudo? –Disse o menino se virando para ir embora.

—Sim, sento do seu lado. –Falei fazendo uma careta. Era aquele menino tolo que ficava rabiscando e não percebia nada que acontecia ao seu redor, após esta noite, o detesto mais ainda, pensei comigo mesma.

—Ta. –Disse ele e então seguiu seu caminho até desaparecer completamente em meio à escuridão. Não sei se ele estava com medo de mim, como todos os outros, ou se estava apenas desinteressado. De qualquer forma, não me importo.

Fiquei mais algum tempo nas ruas, não tenho certeza de quanto foi, pois me esqueço das horas enquanto contemplo as belezas da noite, mas assim que cheguei em casa olhei no relógio, 2:18. Dirigia-me para o meu quarto em quanto caminhava na ponta dos pés para não acordar Lucy, até que passei em frente ao quarto dela e vi que a porta estava aberta. Inclinei-me um pouco para ver se tinha enxergado direito, e nada, Lucy não estava na cama. Entrei no quarto para conferir, estava vazio, a janela estava aberta e entrava um forte vento gelado, corri para fechar. Quando eu estava nas ruas não estava ventando, pensei. Fui então até a cozinha, estava vazia. Decidi então chamá-la.

—LUCY! LUCYYYYY!

E nada. Gritei mais, e nada, Lucy não estava em casa, mas ela nunca saia, ainda mais de noite, o que pode ter acontecido? Sai correndo pelos corredores que pareciam ainda maiores, assim que abri a porta, vi ele, aquele menino dos rabiscos que havia esbarrado em mim mais cedo, estava na minha porta com uma expressão séria. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, de repente tudo começou a embaçar, e num picar de olhos, tudo estava escuro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.