Eu não fazia muito ideia de quanto tempo havia se passado, mas eu sabia que havia ficado a noite inteira com os olhos fixos na porta da sala de espera, desesperada por qualquer ínfima notícia sobre Audrey. Notei pelo reflexo da janelinha de vidro que já era de manhã. Michael sentou do meu lado com um copo de café.

— Você precisa ir pra casa, precisamos ir. Suas roupas estão ensopadas, vai acabar pegando um resfriado.

Respirei fundo e me virei para Michael. Eu nunca conseguiria mensurar com minhas palavras o quanto eu era grata por tê-lo em minha vida e por ser um pai. Mas hoje não. Hoje eu não queria ir pra casa, hoje eu não queria dar a mínima se iria pegar um resfriado ou acabar tendo hipotermia (quem liga?), hoje eu queria simplesmente continuar ali, absorta em meu momento anestésico esperando desesperadamente que Audrey não morra.

— Hoje não, Michael. Eu quero ficar aqui e que se dane resfriado ou hipotermia, já estou no hospital, certo? Eu só saio daqui quando tiver a certeza de que ele vai ficar bem.

Michael ficou me olhando por alguns segundos, riu e pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Você se parece tanto com sua mãe, nem faz ideia do quanto. Vou em casa buscar algumas roupas quentinhas para você... — Ele se afastou e me olhou com cara de desgosto — E um pente, pelo amor de Deus, você tá precisando.

Comecei a rir, mas antes que pudesse falar algo, o médico atendente saiu da sala de cirurgia, todos ficamos em pé, aflitos. Segurei a mão de Michael com tanta firmeza, que posso jurar ter ouvido ele gemer de dor.

— Seu estado está estável por ora. Eu não sei explicar o que aconteceu, mas a vida desse garoto é um milagre. Se ele tivesse ficado mais tempo sem receber os tratamentos adequados, não teria sobrevivido. Ele quebrou o braço esquerdo e teve parte do estômago e fígado perfurados, seus pulmões quase entraram em colapso por conta do vento muito frio e das férias expostas, sua perna esquerda estava esmagada por conta das ferragens do carro e haviam quatro costelas quebradas, mas nós fizemos tudo o que podíamos e ele conseguiu, ele vai sobreviver. Ele ainda está dormindo por conta da cirurgia, mas provavelmente pela tarde já estará acordado, sugiro que todos vocês vão pra casa, tomem um bom banho e descansem e se acontecer qualquer coisa — o que eu duvido — não irei hesitar em ligar.

— Obrigada doutor O'Malley! Você salvou a vida do nosso garoto! — Soluçava a senhora Recknoir abraçada com o marido e Steve, irmão mais novo de Audrey. E de repente ela se virou para mim e Michael e nos beijou. — Vocês salvaram a vida do meu garoto, eu não sei como agradecer!

— O importante é que ele sobreviveu, senhora Recknoir, ele conseguiu.

Eu não consegui conter o riso. Abracei Michael e fomos para casa. Entrei no banheiro e tomei uma boa ducha quente. Meu cérebro ainda estava girando, meu corpo estava exausto e eu não conseguia processar tudo o que havia acontecido em menos de 24 horas. Eu só conseguia respirar aliviada por saber que ele estava vivo e isso já era muita coisa.

**

{AUDREY}

Eu não tenho muita ideia do aconteceu, mas vou tentar explicar. Quando saí da casa de Aurora, já estava chovendo, logo meus óculos ficaram molhados e os tirei assim que entrei no carro (lição número 1: nunca tirei os seus óculos quando for dirigir numa estrada chuvosa) e ao invés de ir para casa, pensei em dar um pulinho na cidade e comprar um presente para Aurora, mas não comuniquei a ninguém minha breve ida à cidade (lição número 2: se for sair numa estrada chuvosa sem óculos para um lugar que não é a sua casa, AVISE ALGUÉM) e enquanto tentava plugar o cabo AUX do meu carro no meu celular, não vi a gigantesca árvore que caía em direção ao meu carro (lição número 3: não tentar plugar o cabo AUX no celular dirigindo um carro em uma estrada chuvosa sem óculos). A pancada foi estrondosa, o tronco atingiu toda a dianteira do carro, quase arrancando minhas pernas, em seguida a árvore foi derrapando pela encosta e os destroços do carro iam voando por todas as partes, até sentir o meu peito e o meu abdômen sendo rasgados. Tentei sair do carro, mas ao tentar abrir a porta, em um solavanco, o carro deslizou e fui atingido por uma parte do tronco no braço, quebrando-o em dois. Eu nunca conseguiria descrever o tamanho da dor que eu sentia naquele momento, o frio juntamente com as feridas expostos, os ossos para fora piorava tudo. Parecia que eu havia sido atingido em cada cm do meu corpo. Mas sabe o que é mais incrível? É que durante todo esse tempo, eu não perdi a calma e não morri. Sabe o porque? Eu havia prometido à Abey que não faria sofrer e eu iria usar cada centímetro de força que havia em mim para que isso jamais acontecesse.

E bem, deu certo, eu sobrevivi.