Devaneios
1 Uma conversa entre dois amigos
Notas iniciais
Esta é uma situação que Hikari jamais imaginou que estaria vivenciando aos 14 anos de idade. Nem nos seus sonhos mais loucos iria pensar que estaria confuso sobre os seus sentimentos em relação ao seu amor de infância, Manaka.
Porém desde que retornou à superfície após um período de 5 anos hibernando, uma outra garota se tornou o foco dos seus olhares e do seu coração, Miuna.
Para ser honesto, Hikari não sabe em que momento descobriu que estava se apaixonando por Miuna.
Talvez tenha sido quando começou a admirar e ansiar pelo seu sorriso ou quando passou a notar cada traço minucioso das suas feições: Como sua personalidade gentil e carinhosa, principalmente quando se referia a ele, seu rosto corado quando estava envergonhada, ou como a achava linda com seus cabelos negros soltos, caindo como cascadas pelos ombros.
Talvez tenha sido a partir do momento em que notou que sua imagem seria a primeira coisa a surgir em sua mente quando acordasse pela manhã e a última de quando estivesse prestes a adormecer.
Não sabia ao certo quando ou o porquê, porém era inteligente o suficiente para identificar o comportamento de alguém apaixonado, mesmo que essa pessoa apaixonada seja ele mesmo. Afinal já havia vivenciado essas mesmas turbulências de emoções antes, justamente com quem imaginava que seria a único amor de sua vida.
E se sentia péssimo por isso.
Sentia como se estivesse traindo seus antigos sentimentos por Manaka. Foram anos e anos ansiando pela ruiva de olhos turquesa, porém não conseguia mais negar que agora seus sonhos eram voltados para uma morena com olhos cinza que brilhavam de alegria quando ele estava por perto.
Estava mergulhado nesses pensamentos até ser forçado a deixá-los de lado quando ouviu uma voz lhe chamando à distância.
— Hikari! – Pelo tom de voz mais agressivo, a pessoa em questão deveria estar a tempos tentando chamar a atenção do ruivo.
— Hum? – Perguntou sonolento. Só agora que tomou conhecimento que estava na sala de aula, dormindo...
De novo.
— Você não acha que já não dormiu demais Hikari? – Finalmente levantando a cabeça, o ruivo se depara com Kaname rindo ironicamente.
Fazem 8 meses desde os eventos do segundo Ofunehiki e ainda assim o loiro não se cansava de usar trocadilhos, relacionando aos tempos em que estiveram em hibernação, sempre que tem uma oportunidade.
— Ok, ok, já chega disso – Sinceramente Hikari já estava ficando irritado com a persistência dessas piadas velhas do amigo.
— Vamos Hikari, todos já foram embora – Falou risonho.
Dando uma olhada em volta percebeu que, de fato, ele e o amigo eram as únicas pessoas no recinto.
Esticou os braços para se despreguiçar e levantou da cadeira, acompanhando o amigo para a saída da escola.
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Para Hikari o caminho de volta para a casa de Akari estava estranhamente silencioso, como se Kaname estivesse esperando a iniciativa do ruivo para iniciar uma conversa.
Cansado de esperar, o loiro se voltou para o amigo:
— Como está a Manaka? – Perguntou sinceramente ansioso.
— Muito bem, você mesmo a viu hoje mais cedo – Respondeu Hikari querendo se esquivar da inevitável pergunta.
— Não se faça de desentendido, sei que você se tornou mais perceptivo. Mesmo assim serei mais claro, o que decidiu fazer em relação aos seus sentimentos pela Manaka?
Essa era a pergunta que Hikari estava receoso de escutar, afinal era essa mesma questão que martelava seus pensamentos em todas as suas noites mal dormidas e que mesmo assim não sabia a reposta.
— Não sei – Falou suspirando.
— Como assim não sabe?
— Somente não sei está certo?! Eu estou muito confuso.
— Confuso? Será que você esqueceu que se confessou pra ela, na frente de todos nós naquele dia?
De repente imagens de tempos atrás, quando ele se confessou para Manaka e foi rejeitado pela mesma na frente dos seus amigos, Kaname e Chiaki, surgiram na sua mente.
— Eu sei o que fiz. Mas agora é diferente. – essa última frase saiu como um sussurro.
Infelizmente para Hikari, Kaname escutou.
— O que está diferente? – O tom de sua voz era de confusão.
— Se passaram 5 anos desde então, Kaname. – respondeu Hikari.
— Não para nós.
— Não estou me referindo a nós... – respondeu olhando para o outro lado da rua, onde se podia ver o oceano ao longe.
— Mas então o qu... – A voz de Kaname foi cortada e em seus olhos surgiu um brilho de realização. – Miuna? – perguntou incerto.
... – O silêncio e o rosto corado do amigo foi mais do que uma confirmação para Kaname.
Claro, sendo seu melhor amigo, Hikari não hesitou em contar tudo para Kaname. Pelo menos falou aquilo que achava necessário, como a súbita declaração que Miuna fez ao ruivo em uma noite estrelada muito meses atrás.
Na época Kaname lhe aconselhou a ser sincero com Miuna em relação aos seus sentimentos pela Manaka e dar-lhe espaço para que a morena se conformasse com a rejeição.
Porém a situação era ainda mais complicada, levando-se em conta que Hikari e Miuna viviam na mesma casa e se viam todos os dias.
Pior do que isso. Os que antes eram sentimentos sólidos de afeição fraternal em relação à Miuna, agora eles estavam gradativamente se tornando algo diferente.
E isso assustava muito Hikari.
Afinal ele ainda ama Manaka, certo?
O simples fato de duvidar dessa afirmação assustava ainda mais Hikari.
— Devo dizer que não me surpreende muito. – Fala Kaname, tirando Hikari dos seus devaneios internos.
— O que você quer dizer? – Pergunta Hikari claramente confuso.
— Sabe, não há nada de errado em se apaixonar pela Miuna.
— O que? Pare de dizer bobagens. Eu amo a Manaka! – O ruivo tenta contornar.
— Por que você continua negando aquilo que está claro na sua frente? – Pergunta o loiro pacientemente.
— Você não sabe o que está falando.
— É bem claro para quem observa. Você fica diferente perto dela, seus olhos brilham quando estão voltados para ela. E sua expressão de bobo apaixonado que você sempre faz quando acha que ninguém está te olhando continua sendo idiota.
— Eii!
Ignorando os protestos de Hikari, Kaname continuou falando:
— Era como você costumava olhar a Manaka do passado.
Essa afirmação pareceu deixar o ruivo sem palavras.
— ...
— Do passado? – Perguntou Hikari depois de alguns momentos para recuperar sua compostura.
— Há algum tempo em que você não pensa na Manaka, não é?
— ...
— Seu olhar mudou em torno dela. Não é mais o mesmo. – Continuou Kaname em um tom compassivo.
Após dizer isso, os dois amigos caíram em silêncio. Hikari com um olhar culpado e Kaname com uma expressão compreensiva.
— Eu amei a Manaka. – Finalmente fala Hikari, sentindo uma súbita necessidade de se justificar, demorando um pouco para se dar conta que falou o verbo no passado. Sua cabeça estava abaixada e Kaname poderia dizer que seu semblante era triste.
— Eu sei que sim. Era perceptível para todos que vissem o seu zelo para com ela.
— Eu ainda me importo com ela. Ainda gosto dela. – Falou Hikari olhando nos olhos de Kaname.
— É claro que sim. E sei ainda que isso nunca vai mudar. Afinal todos nós somos amigos desde que éramos crianças e vocês dois sempre se importavam e cuidava muito um do outro. Mas...
— Mas não é a mesma coisa – Finalmente Hikari confessa.
— Não é a mesma coisa. – repetiu Kaname como se estivesse confirmando.
Houve uma pausa e Hikari usou esse tempo para pensar em tudo aquilo que foi falado. Sim, ele sabia que há tempos não mais olhos azuis da cor do oceano surgiam nos seus sonhos e sim olhos cinza meigos e profundos, não mais ansiava por um abraço entusiasmado e hiperativo da sua amiga de infância, mas sim de um abraço calmo, confortável e contemplativo da morena com quem apreciava estar perto.
Era com Miuna que ele queria ter um futuro. Era a imagem dela que ele gostaria de ver todas as manhãs, como se todo o seu dia ganhasse cores com um simples sorriso seu.
Sorriso esse que Hikari queria ser o responsável.
Com essa realização, um sorriso surgiu no rosto do ruivo.
— Pelo que eu posso ver com esse sorriso bobo, parece que você enfim tomou uma decisão – Sorri Kaname.
Hikari se envergonhou um pouco por ter se esquecido da presença do amigo por um momento.
— Eu gosto da Miuna – Como se um grande peso caísse dos ombros de Hikari com essa aceitação, ele sorri ainda mais.
— Fico feliz por você meu amigo – Kaname fala feliz pelo amigo de longa data – agora vá falar com ela.
Como se um choque de realidade percorresse pelo seu corpo, Hikari desfez seu sorriso.
— O que houve? – Pergunta Kaname, preocupado quando percebeu a mudança de expressão do ruivo.
— Não podemos ficar juntos Kaname – fala com a voz desesperada – ela é minha sobrinha, esqueceu?!
Como se estivesse esperando por esse argumento, Kaname não perdeu tempo na resposta:
— Ela não é sua sobrinha de verdade. Ela é filha de Itaru, certo? – O loiro analisa calmamente.
— Que por acaso se casou com minha irmã! – Falou Hikari ainda perturbado.
— Mas Miuna é somente filha dele. Vocês não têm nenhuma ligação sanguínea. E ela tem a mesma idade que você agora, Hikari. Não há nada que impeçam vocês.
— Não sei... – Hikari estava receoso.
Olhando para baixo, Hikari não percebeu a aproximação do amigo. Somente se deu conta quando sentiu Kaname segurando seu ombro fortemente. O que antes era um semblante calmo, o ruivo passou a enxergar uma expressão raivosa no amigo.
— Não seja covarde! – Kaname berrou para ele.
Se sentindo indignado, hikari tentou se desprender do amigo. Em resposta recebeu um aperto ainda mais forte.
— Você tem uma oportunidade de ser feliz ao lado da pessoa que gosta, não desperdice! – Falou com um olhar raivoso em seu rosto.
— Kaname... – Falou impactado.
— Nem todos nós temos a sorte de amar e receber uma resposta positiva em troca, então não deixe que seus medos impeçam você de ser feliz! – Fala o loiro olhando diretamente nos olhos do amigo e Hikari enxergou um semblante doloroso no seu olhar.
Imediatamente seus pensamentos se dirigiram para Kaname e seus sentimentos platônicos pela Chisaki. Por ter ficado na superfície enquanto todos os outros amigos estavam hibernando, a menina de cabelos azuis estava agora cinco anos à frente deles, sendo agora uma mulher de 19 anos de idade. Tudo isso ligado ao fato de que todos esses anos juntos fizeram com que Tsugumu e Chiaki se aproximassem, indicava que o destino da azulada já estivesse traçado.
E ele não seria entrelaçado ao do seu amigo de cabelos dourados.
— Kaname eu sinto mui... – Kaname não deixou seu amigo completar sua frase.
— Não precisa se preocupar, eu sabia que isso viria a acontecer mesmo antes de despencar daquele barco – A expressão do loiro se tornou vazia e melancólica. – mas isso não vem ao caso agora, irei seguir em frente e você deverá fazer o mesmo – dessa vez Kanami aliviou o aperto e segurou o ombro de Hikari como apoio, sorrindo para ele.
Kaname estava certo. Sua felicidade estava ao seu alcance, ele não deveria deixá-la passar por nada nesse mundo. Sabia que se arrependeria pelo resto da vida se o fizesse.
— Obrigado amigo – Hikari soltou um grande sorriso para Kaname.
— É pra isso que os amigos servem – falou sorrindo – seja feliz Hikari, você merece, irmão.
Em troca Hikari apertou as mãos de Kaname, como sempre fizeram nos seus muitos anos de amizade. Era assim que se consistia o relacionamento deles. Enquanto um precisasse, o outro estaria lá para socorrê-lo, mesmo que seja de si mesmo.
— Nós seremos, amigo. Sua felicidade ainda está por vir. Apenas siga em frente e dê uma chance a ela – falou com o mesmo olhar conhecedor que o amigo lhe deu momentos atrás.
De repende um relance de uma garota com cabelos loiros passou pelos pensamentos de Kaname.
— Isso é assunto para outra hora – Kaname fala rindo, entendendo onde as implicações do amigo estavam os levando. – Agora vá atrás dela. Não a deixe escapar.
Rindo Hikari falou – Não vou, de jeito nenhum!
Como última resposta Hikari saiu em disparada em direção à sua casa, deixando o amigo para trás. Quando estava prestes a virar à esquina, ele se virou e gritou para o amigo que estava bem atrás, caminhando calmamente pela rua, olhando-o com um sorriso no rosto:
— KANAME, IREI PERGUNTAR PRA ELA SE TENHO ESSE OLHAR DE BOBO APAIXONADO QUE VOCÊ MENCIONOU!
— BAKA! – Nesse momento Kaname estava rindo do seu melhor amigo, satisfeito por ter sido de grande ajuda para ele. E quando Hikari já estava longe de ser avistado, pensou nos últimos momentos de sua conversa com ele.
— Sayu, hum?! – Sussurrou com um sorriso sereno nos lábios.
Parece que em breve os papéis serão invertidos nessa conversa.
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