Devaneios
1 Devaneios
Hoje pela manhã eu acordei. Em todos os sentidos possíveis. Afinal, uma hora isso ia ter que acontecer. Foi diferente desta vez, porém. Nada de despertadores tocando, bocejos, mãos ao alto esperando pela preguiça matinal. Nem mesmo os pássaros se pronunciaram. Eu simplesmente abri os olhos, olhei para o teto empoeirado e chorei. Chorei até que todos os nós da corrente que desatava de meu peito se desfizessem; chorei até que a nascente que originava minhas lágrimas secasse e finalmente pensei: qual o propósito daquilo tudo? Por que ainda vivemos nos importando com "por quês", com as pessoas, com a imagem, beleza e pensamentos alheios? Para que serve toda essa nossa atenção se, do jeito em que andamos ninguém enxugará minhas lágrimas, a não sei que eu mesmo o faça? Por que ainda nos desgastamos pelo amor se os seres humanos não amam como antigamente? Com que motivo nos entregamos de tal forma ao desconhecido e ainda esperamos algum retorno se eles não se importam como antes? Nos machucamos e erramos tanto, que o nosso próprio equívoco nos leva a errar de novo. Convivemos e fingimos diante da hipocrisia, falsidade e egoísmo das pessoas de tal forma, que já virou usual, normal. Nos contentamos com um "você não pode!" tão facilmente, que não nos resta razão suficiente para questionamentos. Do mesmo jeito que aceitamos, de súbito, somos influenciados por pura marketing. Não existe mais opinião própria? A ganância nos seduz tão irresistivelmente que acabamos por abrir mão de tantos outros recursos por uma confortável situação financeira. O egoísmo do mundo transforma nossa honestidade, bondade, dignidade, ética... Nossa sanidade. Sanidade esta que já se tornou insana, enroscada em meio a tantas cobranças, contas e impostos a pagar... À nossos problemas. Problemas de um cidadão, de um povo, de uma nação. Nação oprimida, desregulada, fruto de tanta calúnia, promessas, corrupção e defeitos. Defeitos que tomaram proporções absurdas com tamanha sujeira, fundida em meio à bola de neve, cujo monopólio pertence às autoridades representantes.
Quantas pessoas estariam sendo atendidas em hospitais particulares, neste exato momento? Quantas estariam morrendo e clamando por atendimento nos hospitais públicos? E as crianças? Estariam na escola, ou dependendo da nobreza do próximo por esmola no trânsito? Quantas adolescentes estariam buscando dinheiro pelas calçadas? E no resto do mundo, quantos estariam morrendo de fome? Morrendo pela falta de carinho e preocupação do homem? Estes tantos eu não sei quem são, não os conheço, porém sei que precisam imediatamente de ajuda.
O nó no meu peito voltava a apertar. Meus olhos voltavam a arder. Minha mente oscilava diante aos devaneios e doía. Meu cérebro me dizia que eu não seria capaz de resolver tudo aquilo sozinha. Diante de tal percepção, meu corpo desejava me afundar novamente naquele sonho. Sonho que, antes de despertar em meio às lágrimas, me levava a participar de um mundo robô, cujos problemas não existiam e tudo era desconhecidamente... Perfeito.
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