Devaneio de outono

1 Capítulo único


Sombras criando figuras de formatos crescentes na parede seriam menos desconcertantes se realmente houvesse luzes através da janela de frente para uma rua deserta para surtirem o efeito. Como não aconteceria tão cedo, nem mesmo a lua se aproximando para espiar o cenário, talvez então o expectador estivesse um pouquinho fora de si.

O quarto estava vazio. As garrafas e papeis picotados desapareceram. Os brancos e frios tornozelos postos contra o chão eram a única fonte de luz do lugar, dado que as lâmpadas queimaram. Com as mãos em punhos, unhas frágeis adentrando a pele, lábios apertados e olhos que não queriam ver fechados, isso tudo formou a corpo de um antigo homem forte. Agora ele não sabia mais quando poderia ser reestruturado.

De início, ele achou que a dor angustiante seria eventualmente trocada pela tristeza esmagadora. Sem saber, na realidade, de algum jeito todos seus sentimentos se entrelaçaram e borraram todos os pensamentos claros, deixando espaço apenas para o desespero. Quanto mais ele tentava raciocinar, mais terrível se sentia. Todas as tentativas de escape e a maioria das situações que ele criava em sua mente encontraram seu inescapável fim. Ele não podia correr: os caminhos se fecharam.

Porque ele perdeu seu irmão do jeito mais incompreensível. Não havia como o pai do seu amigo mais querido tê-lo matado.

Nada fazia mais sentido. O assassinato; a falta eterna do seu irmão; seus sentimentos, ele agora. Ele tornou-se o fantasma de si mesmo. Não conseguia nem encontrar algo que o fizesse querer encontrar a verdade, o estado real de como as coisas aconteceram.

Talvez sendo um fantasma vivo o fizesse ver coisas sobrenaturais, porque aquelas sombras na parede não eram nem um pouco naturais. Pensar isso foi de certa forma reconfortante, pois viu que o senso de humor não havia o abandonado completamente.

Então, causado pelo seu próprio estado mental – obviamente ele sabia que não estava perto de estar bem – o homem não notou seu amigo agora parado defronte a ele como algo realmente acontecendo.

“Kei, você está...” Arata Shindo torceu suas sobrancelhas em confusão “Acabado.”

Kei Ignatov riu. O som ecoou feio e fora de ocasião.

“Então é realmente você” Kei olhou para seus próprios pés, o olhar penetrante de Arata sendo difícil de manter “Esses vinhos velhos não funcionam do jeito que faziam antes” então mudou sua atenção para as garrafas vazias do outro lado do ambiente.

Arata permaneceu em silêncio por longos segundos, até ser insuficiente para controlar seus pensamentos.

“O álcool neles deve ter sumido há décadas. Você precisa comprar os mais novos, cara” e tentou sustentar um tom risonho, esperando que pudesse enganar.

O pequeno sorriso de Kei foi agridoce. Não importava quando, onde e por que, mas Arata sempre conseguia fazê-lo sentir menos quebrado em tão poucas ações. Amizade em si necessita de companheirismo e entendimento para manter-se, mas o homem duvidava que seus outros amigos poderiam ajudá-lo tão rápido e eficaz que nem Arata tão facilmente fazia.

Sem outras palavras, Arata esticou a mão para Kei a pegar. A promessa dentro dela estava límpida como o ar lá fora, assim também como a nitidez nos olhos do homem de pé. Sem pensar duas vezes, Kei a pegou, botando-se ereto.

Ele não estava e nem nunca estaria sozinho. Independente do que o destino reservava, ele sabia que Arata estaria próximo a si, o apoiando e escutando. Não estar desacompanhado era mais um passo para perto da verdade que ambos desejavam, como que a pureza de mente que Kei precisava naquele difícil e longo caminho.

Subitamente e por último, Kei notou que aquelas estranhas sombras haviam sumido. O que aconteceu quase o fez rir de novo. Agora a parede apenas mostrava a silhueta dos dois.

Notas finais
é isso. Agradeço por ler!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!