Estava furioso! Estava irado! Tudo saíra oposto ao planejado! Seria demais pedir que ao menos uma vez na vida algo desse certo naquele lugar?! A culpa era de seu esquadrão! Como poderia existir tanta gente ruim num mesmo lugar?! Seria pedir demais que fossem mais organizados e menos desajeitados?! E tudo era culpa do Universo! Da forma como ele fora criado! Se os Deuses não o tivessem feito da forma como é, nada disso seria assim! Tudo seria apenas paz! Tudo estaria em paz! E seria bem mais fácil ser o Deus da Raiva.

O grande guerreiro andava em passos firmes e pesados por entre os corredores da imensa mansão. Ignorava todas as portas por onde passava. Apenas com um único objetivo em mente. Conseguia ouvir os ruídos que emitiam. Conseguia ouvir suas risadas no andar debaixo. E isso só o deixava mais furioso.

Desdeu as escadas sentindo cada degrau ser esmagado embaixo de seus pesados pés. A sandália vermelha praticamente rachando tamanho peso que exercia sobre ela. Sua garganta começou a coçar; tudo que estava preso dentro de si passou a querer sair de uma só vez. E um rosnado começou a crescer, cada vez mais alto. Vinha de dentro de suas entranhas trazendo toda a energia carregada de indignação.

Quando finalmente alcançou o cômodo tão desejado, o grande guerreiro soltou tudo o que tinha dentro de si e um grito de fúria ecoou por todos os cômodos da casa:

- Arrrrrrrghg!!!!!!!

Todos que estavam presentes na abafada sala calaram-se e encararam o grande sujeito a sua frente, parado na porta, a boca espumando e a saliva pingando no carpete vermelho.

- SEUS IMBECIS!!! DESGRAÇADOS!!! FILHOS DE UMA CADELA!!! COMO PUDERAM FAZER ISSO COMIGO?!!!

Todos se entreolharam sem entender o que o homem dizia. Procuravam nos olhos um do outro uma explicação qualquer para o estado do gigante.

- Ah... Tauros... – um rapaz de cabelos claros começou a falar e todos temeram por ele. Ninguém tinha coragem de abrir a boca – Desculpa cara... Mas ninguém aqui sabe... porque você está assim...

- COMO NÃO?!!! ENTÃO EU TEREI QUE LHES LEMBRAR DE QUE HAVÍAMOS MARCADO DE JOGAR GOLFE NO GRAMADO E NIIIIINGUEEM APARECEU!!!!!!

- Ah... – o mesmo rapaz sorriu amarelo e olhou para os demais – É mesmo... O golfe...

- AGORA, SEUS INFELIZES!!! MINHA TERAPIA JÁ ERAAA!!! COMO INFERNOS EU VOU ENCARAR MINHA PSCICÓLOGA?!!!

O grande homem agarrou uma almofada vermelha e começou a rasga-la com os dentes. Todos os demais se aproximaram e começaram a dar tapinhas em suas costas para acalma-lo. Era apenas mais um dia na mansão Olimpo.

E era assim. Todos os dias. Rotina. Diariamente.

A mansão Olimpo era o lar de diversos rapazes que viviam juntos para tentar conviver naturalmente com os mortais. Eram mandados ao mundo dos mortais assim que completavam 18 anos e lá permaneciam ao lado dos humanos até o dia em que se tornavam capazes de lidar com seus poderes naturalmente.

A atual geração de jovens deuses já estava encarnada havia cerca de cinco anos. Tempo recorde para um guerreiro celestial evoluir, o que normalmente acontecia em menos de um ano. A ideia de serem descartados já estava começando a ser considerada no Conselho Celestial dos Deuses, mas ainda não havia sido decidida. E enquanto nenhuma medida era tomada, os quase-mortais continuavam a conviver em quase-harmonia no mundo dos humanos, tentando ao máximo parecerem quase-normais.

- Sente-se melhor? – o rapaz de cabelos claros perguntou ao grandão. Este fez que sim com a cabeça, respirando fundo, lutando para conseguir controlar seus nervos. Deram-lhe um copo com água e açúcar. Um dos rapazes começou a guardar as bolas de bilhar que ainda estavam sobre a mesa. A sala de jogos estava uma verdadeira bagunça, e o fato dos garotos estarem bebendo logo pela manhã completava o cenário de pura indiferença masculina.

- Você precisa se controlar mais, Touro... – um deles disse. Tinha cabelos loiros quase brancos e olhos grandes e azuis que pareciam os de uma coruja espiando a noite – Não faz bem ao corpo essa raiva toda.

- Cale a boca, seu invejoso! – ralhou o grandalhão.

- Qual é?! Só porque sou o Deus da Inveja não significa que eu seja invejoso... – ele ergueu as mãos, indignado.

- Sim, você tem razão, Ícaro – disse um rapaz de cabelos castanhos e compridos até o ombro. O jovem loiro ameaçou soca-lo com o punho erguido. Aquele era Meyer, o Deus da Mentira, que para dizer a verdade, precisava dizer sempre o contrário.

- Calma, calma, calma... – pedia o garoto de cabelos claros – Não entremos em pânico!

- É, você entende muito bem de pânico, não é Deus do Desastre? – zombou o invejoso.

- Oras, isso não é verdade! – exclamou o garoto ofendido e no mesmo instante, o lustre da sala caiu na cabeça de Touro. O gigante soltou um novo grito de fúria e levantou tombando a mesa de bilhar. Ícaro entregou um soco a Meyer que segurou seu punho e devolveu-lhe um golpe no estômago. O rapaz desastrado correu para desviar de um golpe de Touro, mas acabou tropeçando e batendo contra o pequeno bar, quebrando inúmeras garrafas de bebida.

Era mais um dia de conversa animada entre os quase-amigos.

- Mas o que está acontecendo aqui? – uma voz fria emanou na sala fazendo todos pararem de se mexer no mesmo instante. A figura de um homem de cabelos negros até as costas, rosto pálido como o de um cadáver e seco como o de uma caveira estava parada na porta. Suas vestes negras e compridas cobriam seu corpo anoréxico.

- L-Lúcius... – Ícaro gemeu apavorado. Lá estava o Deus da Escuridão, recém-acordado. O rapaz vivia acordado pela noite e só dormia quando o sol surgia no céu. Fora titulado o líder do grupo, o chefe, o mandachuva, tudo que ele quisesse ser, desde que deixasse todos vivos. O grupo inteiro o temia, mas mais do que isso, o grupo inteiro o respeitava.

- N-nós já estamos indo embora – Touro falou, sua voz grossa saindo inocente – Vamos deixa-lo em paz.

O moreno suspirou resignado:

- Hunf... É melhor irem... – sua voz era grave e fria, parecia um lamento da morte – Depois quero que arrumem tudo isso aqui...

Um por um foram saindo, exceto o menino desastrado, que estava entalado na estante de bebidas e com vários cortes pelo corpo. Lúcius andou até ele e o ajudou a se levantar:

- Tome um banho antes de sair, Caos – o moreno falou com o princípio de um sorriso no rosto. O rapaz consentiu. Caos era o mais jovem do grupo e mais recém-chegado, apesar de já estar lá há dois anos. Era quem Lúcius tinha mais afeição; ou pelo menos o único que aturava, mesmo que um pouco.

XxxxXxxxX

- Viu Touro? A culpa é toda sua! Se não tivesse chegado daquele jeito nada disso teria acontecido! – o Deus da Inveja falava revoltado com o companheiro.

- Ora! É melhor você calar essa sua boca branquela antes que eu parta sua cara ao meio! – o gigante rosnava.

- Todo mundo vai partir alguma coisa aqui! Então é melhor não se calarem ou não vou fazer nada com vocês! – Meyer ralhou com ambos. Touro ainda lançou um olhar de ameaça a Ícaro que lhe mostrou o dedo do meio.

- Merda... Pra onde vamos agora?! – revoltou-se o loiro – Eu não vou ficar aqui aguentando a T.P.M do Lúcius!

- Não deixe ele te ouvir falando isso e você não estará morto – Meyer alertou o rapaz – Não vamos pra cidade. Não deve ter nada lá.

Enquanto isso Caos tentava tomar banho enquanto os cortes lhe ardiam, as coisas caíam e o chuveiro tentava entrar em curto-circuito. Odiava ser o Deus do Desastre. Preferia ser o Deus da Gayzisse! Tá, isso também não. Mas qualquer coisa depois disso seria melhor do que viver com as coisas se destruindo ao seu redor e passando vergonha enquanto tropeça por onde passa. Como iria conseguir uma garota desse jeito? Tudo bem que só iria ficar mais alguns meses no planeta; pelo menos era o que esperava. Mas queria se envolver com alguma humana. Zeus fizera isso a vida inteira, então não seria nada demais. O problema era o fato de isso ser impossível: a última garota mortal que tentara beijar perdeu todo o cabelo por uma queda repentina.

Enquanto terminava de apertar o cinto da jeans, ele encarou o próprio reflexo no espelho. Não estava nada legal. Suspirou resignado e vestiu uma camiseta preta qualquer.

- Touro, dá pra você ir sentado na frente! O carro não tá quase tomando pro seu lado! – Meyer tentava explicar ao gigante enquanto ligava o carro.

- Tô nem aí! Te vira! Eu vou aqui, daqui não saio daqui ninguém me tira!

- E ninguém iria conseguir – Ícaro resmungou impaciente – Só mesmo um guindaste! Você não quer sair porque está entalado aí!

- Ora seu... – Touro começou a tentar atingir o invejoso o que fazia o carro balançar freneticamente e Meyer se desesperar tentando liga-lo.

- Ei gente! Esperem por mim! – todos olharam em direção a entrada da mansão, de onde vinha um garoto correndo para alcança-los.

- Vai dar sim pra você vir com a gente, Caos... Queremos ir empurrando o carro até a cidade. Não fique aí e não procure outro jeito de ir.

O rapaz entristeceu-se e ficou vendo o carro andar torto e desaparecer pela pista. Enfiou a mão nos bolsos, descobrindo que estavam furados, e saiu andando pela estrada.

- Como eu sou sortudo... – ironizou.

Notas finais
xx
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.