Deuses choram — e ninguém vê

1 Capítulo Único — escute os conselhos


Costumavam lhe dizer que as pessoas eram abomináveis e reclusas, seres detestáveis que mereciam distância (não se aproxime) e ela, tola do jeito que toda criança é, acreditou. Não era mentira, mas tampouco era verdade, por isso, quando o sol descia nas montanhas e as pessoas — os humanos — saíam de suas cavernas para fazer a fogueira, ela observava (não faça isso) com curiosidade aquelas criaturas que misteriosamente andavam lá embaixo. Eram pontos com cabeças de ouro, fogo ou terra, tão pequenos e lentos, tão mortais. Não demorava muito para o passatempo acabar — apenas sessenta, no máximo setenta anos de diversão. Mas o que era setenta anos na vida de um ser imortal?

“Estou tão solitária”

“Mas és um lírio do vale, nunca estarás só”

Mas ela estava e sabia disso. Não era mais uma criança tola — embora fosse tola em proporções grandes o suficiente para ainda ser criança — e já havia visto muito. Foram-se milênios e milênios, guerras e mais guerras, muitos amores e muito sangue, muitas perdas e ganhos. Os humanos eram seres detestáveis, de fato eram — suas honras e juramentos de fidelidade que sempre cravavam-se em sua carne pela espada do inimigo e seu sangue sempre se derramava no mármore em nome de suas palavras —, mas conseguiam ser tão surpreendentes e emocionantes que no fim todo abominável parecia incrível.

“Quando essa fita parará de rolar?”

Não iria parar. Mais humanos viriam, mais humanos iriam, e no fim ela teria contado nos dedos todos os humanos que lhe chamara a atenção — e todos aqueles por quem se apaixonara no breve período que a mortalidade deles permitia —, e então, com o tempo não haveria mais dedos para contar e tudo já não seria o mesmo. Restar-lhe-ia a dor do breve apego que se fora, pois humanos tinham essa maldição de sempre se enroscarem em algo afim de deixar sua marca, para depois serem lembrados —, mas seria melhor não serem, o melhor seria serem engolidos pelo esquecimento, sem deixar na terra sua dor.

E então ela se lembra dos conselhos (deveria tê-los escutado) e se pergunta como seria se nunca houvesse se deixado levar pela curiosidade (não deverias ter se aproximado), se nunca houvesse se entrosado tanto no mundo que era aqueles seres tão minúsculos e finitos, aquela praga amaldiçoada que tanto parecia lhe chamar a atenção.

Tentava imaginar como seria, mas no fim, não conseguia.

Porque deuses também choram — e ninguém estaria ali para ver.

Notas finais
Primeira one-shot que posto nesse perfil e o resultado não me agradou muito. Quando se fica ansioso demais para postar algo em um perfil, acontece isso. Espero que esteja lível.Obrigado por ler
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!