Deus dos Erros
15 Os Filhos da Água
Notas iniciais
Sessenta e sete anos antes…
Dentro da água. Não há companhia na morte, tudo que vive morre sozinho. Fora da água. Marcus tentou chamar alguém, gritou os nomes de seus amigos. Dentro da água. Imaginou onde os outros meninos estavam, será que ninguém havia o visto ser levado pela correnteza? Fora da água. Ele berrou, extinguindo o pouco fôlego que tinha. Dentro da água. Não conseguiria emergia outra vez. Não haveria mais chamados berrados para serem ouvidos ou ignorados. Era o prefácio de seu fim.
Nenhuma luta teria efeito contra o destino. O menino se agitou de baixo da água, balançou seus braços e pernas, usando toda sua força contra a correnteza, mas não adiantava. Sua vida escapava rapidamente no formato de bolhas cujas quantidades se tornavam cada vez mais escassas. Marcus tentou prender o fôlego, mas não havia mais ar para ser contido. Então o desespero começou.
O vazio em seus pulmões queria ser preenchido. Como portas em contradição que querem ao mesmo tempo se abrir e se manter fechadas, uma pressão atacou as vias respiratórias do menino. Algo tão poderoso que não podia mais ser contido, o que resultou em uma inundação interna. A água do rio criara mais um afluente em seus pulmões, tomando todo o espaço de sua curta vida. Mas não era o fim.
O corpo do menino mulato fora abandonado como um peso morto, o que de fato era. Uma leveza de alívio se fez presente. O menino vira sua carne ser carregada pelas águas enquanto seu espírito ficava parado no fundo, ignorando as leis da física. Não queria se mover. Continuou parado olhando para o alto, sendo banhado pelas linhas de luz que vinham do horizonte, até perceber que não estava sozinho.
Diante de si vira olhos magentas, estrelas de um céu de pele negra e cabelos longos. Uma menina pequena, provavelmente mais nova que Marcus, olhava para ele com um sorriso doce.
— Você também morreu? – perguntou Marcus à garota.
A menina fez que não com a cabeça.
— Eu acho que eu sim. – disse Marcus voltando a olhar ao redor, então sentiu algo.
— Não se preocupe. Você não está sozinho. – disse a menina segurando sua mão. – Eu posso te proteger, se você quiser.
— Me proteger? Do quê? Eu já estou morto. – resmungou Marcus largando a mão da menina.
— Você é tão inocente. Quantos anos você tem?
— Onze. – disse entredentes.
— Onze! Só isso? Bem, vou te contar um segredo, quer ouvir? – a menina se aproximou para sussurrar ao seu ouvido. – Você vai viver durante muitos mais anos agora. Sua verdadeira vida apenas começou.
— Isso é besteira! – retrucou Marcus. – Estou morto. Minha vida acabou.
— É? Então por que você ainda está aqui? – questionou a garota.
O garoto arregalou os olhos e virou o rosto, sem conseguir achar uma resposta.
— Nosso tempo está acabando. – prosseguiu a garota. – Logo, alguém vai aparecer para falar com você. Essa pessoa vai te dizer que está aqui para te ensinar a viver depois da morte, mas é uma mentira. Ela só estará querendo te usar. Não confie nela.
— Parece você. – Marcus deu as costas à menina.
— Tudo bem, isso é tudo muito novo para você, eu entenderei se não confiar em mim ainda. – a menina lhe tocou o ombro. – Mas sabe de uma coisa? Gosto de você. Se um dia você precisar de ajuda, ou melhor, quando você precisar, procure a água e diga o meu nome e a ajuda virá.
Marcus ficou em silêncio durante alguns segundos, mas quando sentiu a garota se afastar, virou-se e perguntou:
— Qual é o seu nome?
A menina que já caminhava para longe, olhou para ele e disse:
— Vivian Obá. – então desapareceu nas águas.
Marcus mal teve tempo de processar o que acabara de acontecer quando outra presença se fez. Ele sentiu alguém andando atrás dele, então se virou e a viu. Uma mulher loira com um vestido branco cheio de flores que por onde passava fazia com o que o chão ao seu redor ficasse vermelho como sangue.
— Olá, Marcus. – disse a mulher com um sorriso tenro. – Meu nome é Ardina.
Os próximos meses da vida póstuma de Marcus se passaram como um período de convalescência lento e doloroso. Durante os dias ele ficava na água, observando a vida ribeirinha que havia em seu interior. Durante as noites ele emergia e fazia o caminho de volta para os barracões. Sempre visitava um barracão diferente, mas nunca o que um dia fora o seu. Ardina o alertara que a felicidade dos vivos poderia machucá-lo, e o menino sabia que com sua morte, seu barracão seria o mais feliz de todos, afinal, ninguém ali jamais o quis com vida.
Não demorou muito para ele tivesse que ir embora. Olhar os amigos dormirem durante a noite, entrando em seus sonhos uma vez ou outra só estava lhe fazendo mal. Marcus queria puni-los por terem deixado que ele se afogasse, por não terem o visto sendo levado ou o ouvido chamando por ajuda. Então, fazia com que sonhassem que eles estavam se afogando, passando cada sensação agonizante dessa experiência para eles. Em pouco tempo toda a comunidade suspeitava de sua presença, suspeitavam de um fantasma. Foi então que eles vieram.
Assim que Marcus viu as asas de fogo branco, ele soube que estavam ali para destruí-lo. Anjos guardam apenas os vivos, eles não se importam com os mortos. Marcus se escondeu nas águas, mas sabia que não ira demorar muito para que o achassem. Ele pensou em chamar Ardina. A mulher fora doce e gentil com ele desde o aparecera, aturara seu mau humor sem reclamar e ficar ao seu lado sempre que pedira, e até mesmo quando não pedira. Entretanto, ao ver a luz do fogo branco entrar nas águas do rio, o menino se encolheu no chão e desesperado pronunciou duas palavras:
— Vivian Obá…
A ameaça foi exterminada com brutalidade. A menininha negra de olhos magentas apareceu ao seu lado, então as águas vibraram. Havia uma corrente de madeira em seu pescoço com um pingente em forma de um bebê cujos olhos estavam abertos e cheios de luz rubra. A garota estendeu a mão para o alto e imediatamente os anjos pararam de se mover. Torrentes de sangue jorraram de suas axilas, coxas e pescoços, então seus braços, pernas e cabeças foram separados de seus corpos. O fogo de suas asas se apagou e seus pedaços remanescentes caíram no fundo do rio.
— Fez bem em me chamar, mas não pode mais ficar aqui. – disse Vivian ao menino. – Outros virão.
— Mas… para onde eu vou? – perguntou Marcus chorando.
— Venha comigo. – a menina esticou a mão para ele. – Há outros como você, todos nascidos na água. E eu os protejo. Venha comigo e nunca terá que ter medo de novo.
Marcus não hesitou. Pegou sua mão e aceitou o convite.
A legião de fantasmas de Vivian Obá era acolhedora e divertida. Eles moravam em vários lares diferentes, mas todos próximos de rios ou do mar. Marcus conhecera várias crianças que morreram como ele, afogadas e esquecidas. Eram todos irmãos de certa forma, filhos da pequena bruxa. Os dias se passavam como uma festa atrás da outra.
— Você está feliz. – disse Horácio, o mais alto dos filhos da água, olhando para Marcus.
Os dois meninos estavam sentados em um tronco de um jequitibá rosa. Era um dos lugares preferidos de Marcus. A árvore era extremamente grossa e tinha mais de trinta metros de altura, porém, seus galhos só começavam a se dividir e formar a copa a dez metros do topo, o que tornaria impossível uma escalada para alguns vivos, se não possuíssem equipamentos. Mas nada era impossível para os póstumos.
— Talvez esteja. – disse Marcus balançando as pernas no ar e aumentando seu sorriso.
Abaixo deles, alguns espíritos faziam um banquete com a comida que coletaram pela manhã, desperdiçada pelos vivos. Sempre se questionara se o céu era real, mas quando estava ali, sabia que era. Contudo, nem tudo era paz, família e festa. Não o tempo todo.
— Tem certeza disso, Marcus? Você não precisa fazer isso se não quiser. Não faz nem dez anos que você está conosco. – disse Vivian Obá, com a mesma aparência de pueril imutável.
Marcus estava em um espaço morto, um necrotério. Uma imensa estátua de Vivian Obá se erguia a sua frente, e diante dela três colunas onde normalmente ficavam as gatas juízas. Vivian estava em uma lagoa redonda ao lado de uma consumida e de outro fantasma. A consumida era uma mulher vestida com uma burca cinza que segurava um violino branco e ocultava seu rosto com uma máscara de porcelana. Córade, uma das consumidas da legião, líder do exército de mascarados. E o outro fantasma era uma mulher muito velha e muda que servia como profetisa da legião.
— Eu também quero ajudar. – disse Marcus ajoelhado perante ambas. – Não vou ficar só desfrutando da paz que vocês me dão. Quero ajudar a mantê-la.
— Ótimo. – disse Vivian sorrindo orgulhosamente para Marcus. – Deixo você com Córade então.
A consumida começou a tocar uma melodia com seu violino, então Marcus sentiu seus ossos serem impulsionados para fora de seu rosto e formarem uma máscara de crânio. Através de seus vermelhos olhos de cristal, o menino olhou ao redor enquanto a multidão mascarada o aplaudia. Ele nunca sentira tanto orgulho de si mesmo.
A guerra também era algo prazeroso. Juntamente com Córade, Horácio e os outros mascarados, Marcus lutou contra grandes ameaças, e logo foi se dando conta de sua própria força.
— Daqui você não passa. – disse Marcus com os braços abertos e estendidos, bloqueando o inimigo.
O monstro era um bestiador, um demônio que se alimentava do ódio e sofrimento causado ao inocentes. Ele era alto, com quase três metros de altura, tinha pele preta e suja de sangue. Garras longas e pontiagudas no lugar de unhas. Músculos torácicos fortes e protuberantes, com a barriga côncava e magra. Suas pernas tinham ângulos abertos para frente, como a de um quadrúpede, e sua cabeça era similar a de um chacal, e fumaça vermelha saía de suas cavidades oculares. Sua postura resoluta fazia com que Marcus tremesse com medo. O bestiador mantinha-se ereto e imóvel. Não precisava se mexer para atacar, seus espectros caninos fariam o trabalho sujo.
Seu alvo era Aman Jaques, um dos feiticeiros de Vivian Obá que tivera sua alma presa ao corpo de um gato negro de olhos violetas. Normalmente o bruxo sabia se defender sozinho, era naturalmente mais poderoso do que um fantasma, mas seus poderes haviam sido bloqueados pelo veneno do bestiador, que conseguira deferir um golpe em suas costas. Apenas Marcus impedia que os cinco enormes rasgos na carne do gato aumentassem sua quantidade.
O menino havia destruído os vários necranis que o bestiador enviara contra ele, mas não era o suficiente. Córade havia lhe ensinado a usar magia de empatia, que o permitia fazer com que outros experimentassem sua morte, fazendo com que outros mortos se afogassem. E mesmo que seu inimigo não estivesse morto, pois nunca havia estado vivo, a empatia não era a única magia que Córade havia lhe ensinado. Com rapidez, o menino avançou antes que o bestiador invocasse mais espectros e fincou seus dedos no rosto do monstro. Quando os puxou para fora, trouxe consigo seu crânio negro de chacal, e o arrancou de sua face.
A fera ganiu como um cão ferido e então se desfez em fumaça rubra. Porcelana negra brotou sobre os ossos negros que deixara para trás, formando uma máscara de chacal na mão de Marcus. O fantasma olhou para trás e viu Aman fitando-o com um olhar sério, porém agradecido.
— Obrigado, rapaz… — disse Aman com esforço. – Estarei sempre em dívida com você.
— Não se preocupe com isso. – disse Marcus. – Somos uma família, certo?
— Certo… — concordou o gato com certa descrença. – Ainda assim, irei saldar esse débito… quando surgir a necessidade. E acredite… ela sempre surge.
A ascensão de Marcus continuou por anos, e logo sua mentalidade de criança se tornou o casulo para um jovem homem que teria que como tal que tomar decisões difíceis e complexas. Anjos, demônios, outros espíritos, feiticeiros… Em todas as batalhas os filhos da água se saíram vitoriosos de tal forma que muitos de seus inimigos resolveram se tornar seus aliados. Mas ainda havia a pior ameaça de todas: tutores.
— O Imperador dos Póstumos também tem um lar, menininho. Maior do que o de Vivian Obá. – explicou Ardina com um sorriso. – Você poderia ir para lá.
Os dois espíritos estavam na comunidade na qual Marcus nascera. Anos haviam se passado e o local agora estava destruído. Os barracões haviam sido queimados e derrubados. Havia buracos de bala e sangue seco por toda parte. Uma chacina acontecera ali. Um combate entre duas facções de traficantes. Porém, aquilo era um problema dos vivos. Não importava mais a Marcus.
— Já ouvi falar do Vale Nirvana. Sei qual é o preço de ficar lá. – disse Marcus de braços cruzados. – Não vou abandonar a legião. Sou leal a Vivian Obá. – ele ficou cabisbaixo. – Eu sinto muito, Ardina.
— Pelo o que, menininho? – perguntou Ardina com um ar pesado de quem já sabia a resposta.
— Os tutores estão tentando roubar os espíritos de volta, você sabe disso. Vivian não vai deixar que isso continue. – Marcus fechou os olhos e respirou fundo. – Esta noite, os feiticeiros irão se unir e conjurar uma maldição. Nenhum escravo do Imperador será capaz de pisar em qualquer lugar que esteja sob o domínio dos Filhos da Água.
Houve silêncio entre os dois, pois nenhum deles queria continuar a conversa. Sabiam quais seriam as próximas palavras a serem ditas.
— Contar isso a você é um ato de traição, espero que entenda isso. – disse Marcus olhando para o lado.
— Não contar isso ao Imperador também é. – Ardina sorriu com pesar. – Mas, contar seria um ato de traição a nós, menininho. Ao que sentimos.
Marcus não conseguiu conter o choro. Ele abraçou Ardina e silenciosamente disseram: Adeus.
— Trinta e quatro. – disse Marcus sentado na areia. – Se não estivesse morto, essa seria minha idade.
— Você não tem nem um pouco da aparência de alguém de trinta e quatro. – comentou Nailleus.
Marcus olhou para o lado e encontrou o olhar ingênuo de seu amigo. Nailleus possuía olhos platinados como uma lua cheia, emoldurados por ébano. Seus cabelos eram de um cinza tão escuro que quase passava por preto, o posto de sua pele. Esta era pálida e com um brilho gelado, como uma estrela distante. Ele usava brincos de prata e ocultava todo o resto de seu corpo com uma enorme capa negra. Marcus não fazia ideia do que o menino era, mas ele não era um fantasma, ou sequer estava morto. Nailleus era um dos mistérios da legião que apenas as cortes conheciam. Ainda assim, era a pessoa mais próxima de Marcus.
— Eu morri com onze anos. É essa a aparência que eu tinha, a que eu tenho, e a que eu vou ter.
— Isso não te incomoda? A imutabilidade? – questionou Nailleus curioso.
— Você está aqui há muito mais tempo do que eu e nunca mudou. Você não se incomoda?
Nailleus olhou para o mar que estava diante dos dois.
— Eu mudo, mas não como você, Marcus. Cresço em cem o que você cresce em um. É assim que sou.
— E eu não faço a mínima ideia do que você é. – retrucou Marcus.
— Assim é melhor. A bruxa não quer que ninguém saiba. – explicou Nailleus.
— Há quanto tempo você está com ela? – perguntou Marcus.
— Há mais de duzentos anos, eu acho.
— Ela me surpreende ainda mais que você. É humana, está viva, mas não envelheceu um único dia desde que era criança. Como ela faz isso?
Nailleus desviou o olhar esperando fazer o mesmo com a pergunta, porém, Marcus era insistente.
— Ela já foi uma mulher. – começou. – Nasceu escrava no sul do Brasil, foi torturada e abusada desde que era pequena. Um dia, a dona dela ficou com inveja da beleza jovem dela e tentou afogá-la em um rio. Ela fingiu que tinha morrido até que a mulher a soltou e foi embora. Passou anos escondida na floresta aprendendo magia com fantasmas de feiticeiros que vieram para o país com os portugueses. Então, ela voltou à casa grande e se vingou de todos os seus antigos mestres. Porém, mesmo Vivian Obá não poderia escapar da opressão branca. Eles conseguiram feri-la mortalmente, mas antes que morresse, ela fez um acordo com os espíritos feiticeiros. Eles lhe deram o Amuleto de Moloque, e em troca ela os colocou em corpos vivos de gatos, dando-lhes uma segunda vida.
— Então é o amuleto que a mantém viva? – a curiosidade de Marcus explodia.
— Não mais. Ela já se curou do ferimento. Mas acho que ele a mantem jovem.
Marcus ficou em silêncio por vários minutos enquanto tentava compreender aquela história.
— Uma magia assim… não viria sem um preço, e um bem alto. – comentou o menino.
— Melhor você esquecer isso. – disse Nailleus se levantando. – Esteja grato por ela estar viva e ponto.
— Será que é isso que ela faz na ilha? – indagou Marcus apontando para um pequeno conjunto de rochas que podia ser visto bem ao longe. – Será que…
O fantasma já ouvira as lendas da Ilha Duadijebori. Sabia que era lá o local onde Vivian Obá realmente estava, que era de lá que ela vinha todas as vezes que era invocada. Um lugar proibido para todos, inclusive para os feiticeiros.
— Não. – disse Nailleus como se lesse os pensamentos de Marcus. – Você não irá lá.
— Por que não? Vamos só espiar e voltar. Ninguém vai saber que fomos.
— A profetisa talvez veja, ela sempre tem visões com ameaças. – discordou Nailleus pondo-se de pé.
— Eu não sou uma ameaça. – resmungou Marcus. – Não se preocupe comigo, vou voltar antes que alguém perceba.
Ao raiar do dia, quando os vivos começavam a aparecer nas praias, Marcus mergulhou na água do mar e andou por seu fundo até chegar ao litoral rochoso e íngreme da ilhota. Arrependeu-se assim que emergiu. O lugar era feito de rochas com apenas algumas partes terrosas. Em seu centro havia uma árvore pequena, e sob sua sombra estava Vivian. A bruxa não tinha mais a aparência de uma criança, mas possuía traços e curvas de uma jovem adulta. Formas macabras e mortas faziam um círculo ao se redor, mas Marcus não conseguia enxerga-las direito. O menino se aproximou, escondendo-se atrás de pedras maiores para que não fosse visto.
As formas eram algo que Marcus gostaria de esquecer, e que o assombrariam para o resto de sua morte. Treze corpos de mulheres, todos enegrecidos como carvão e deitados de braços abertos. As mulheres estavam nuas e possuíam barrigas de gestantes mutiladas, com suas partes superiores decepadas como se fossem cocos abertos. Seus olhos e bocas estavam abertos em semblantes aterrorizados, mas não havia nada em suas cavidades além de massas de carne incineradas. Mas esta não era a pior parte. O verdadeiro horror estava dentro de suas barrigas. Onde deveriam estar seus úteros, havia bebês assombrosamente peculiares. Eles tinham olhos brancos e pele vermelha. Olhavam para o alto e viam pingentes de cristal pendurados nos galhos, visões que pareciam acalmá-los e fazê-los sorrirem, e a pequena bruxa sorria de volta com um ar maternal. Uma doce ilusão.
— Está na hora, crianças. – disse a mulher. – Mamãe precisa de vocês.
A magia de Vivian encontrou-se com o diabo naquela manhã. A mulher fechou os olhos e começou a entoar um encantamento.
— Onskuldige pyn… genoem moordenaar… gee my krag…
Os sorrisos dos bebês derreteram em desespero. Chamas brotaram nos interiores dos corpos que usavam de berços, imergindo os bebês em torrentes de fogo que abriam e queimavam sua pele e carne. O choro das crianças não era comum, não era como o de um recém-nascido assustado e faminto. Era agudo, sôfrego, incessante e com desespero gradativo. Carregava tanto sofrimento que não parecia ser humano.
— GEE MY KRAG! – vociferava Vivian Obá com dezenas de vozes diferentes e sons de tambores saindo de sua garganta. – GEE MY KRAG! GEE MY KRAG!
O pingente de sua corrente de madeira começou a se mover. Os olhos e a boca do bebê do amuleto se abriram. Conforme o sofrimento das crianças se prolongava, chamas se alimentavam dentro do amuleto, comendo a dor de inocentes e a transformando em poder. Logo, Vivian começava a perder suas curvas adultas e recuperar sua silhueta infantil.
Embora Marcus não pudesse mais assistir, não teria conseguido parar sem ajuda. Alguém tocou seu ombro, despertando-o do transi. O menino olhou para o lado e viu Nailleus cujo capuz da capa estava levantado. Marcus nem sequer ouviu o que o amigo estava sussurrando, ele voltou a mergulhar no mar e correu o mais rápido que pode para longe da ilha, mas ainda assim não conseguira evitar ouvir os gritos. Não apenas os dos bebês, mas também os seus próprios.
A perspectiva do pequeno fantasma mulato sobre sua nova família fora destruída como um espelho rachado. A legião de fantasmas de Vivian Obá era intimidante e assustadora, pois eram ignorantes e jamais acreditariam em Marcus. E mesmo que eles acreditassem nada garantia que fossem se importar com a verdade sobre ela. Cada lugar que dominavam residia perto das águas para que nunca estivessem longe do alcance de sua dona. Cada criança que, assim como Marcus, morrera afogada havia sido iludida. Eram todos colegas de cela, escravos da pequena bruxa. Todos vivendo um dia após o outro, pulando de uma ilusão para a outra.
— Você está tramando alguma coisa. – sussurrou Nailleus ao ouvido de Marcus.
Os dois estavam parados em um descampado, não muito longe do jequitibá rosa favorito da legião. O lugar havia sido transformado em um parque estadual paulista chamado Vassununga. Marcus observava a legião realizar seu habitual banquete, felizes dentro de sua ignorância. Era um dia especial. A Velha profetizara que uma horda de espectros atacaria a Corte das Viúvas, liderados por um chacal. Contudo, todos estavam confiantes de que ninguém entraria no lugar, nem mesmo bestiadores. A entrada para o lugar estava fortemente guardada pelos soldados de Córade, assim como por Marcus.
— Talvez esteja. – respondeu Marcus seriamente.
Vivian e seus gatos feiticeiros estavam entre a legião naquela noite. Todos olhavam para a bruxa enquanto ela passava, todos menos Marcus e Aman que olhavam um pra o outro. Havia uma tensão entre os líderes da legião, eles esperavam que a profecia se cumprisse naquela noite, mas eles não entendiam o objetivo do ataque. Imaginaram antes de tudo que a vida de sua mestra era alvejada, mas estavam enganados quanto a quase tudo em suas teorias. Quase tudo.
Marcus esperara tudo cair no esquecimento, mas isso jamais aconteceria. Mais um ano se passara, e ainda assim a guarda designada para a Corte das Viúvas não cedera. Todas as profecias que a Velha fazia se realizavam, a legião esperaria o ataque até que ele acontecesse. Porém, não estavam preparados para ele. Não de verdade.
Ao nascer do sol, Marcus mergulhou mais uma vez no mar e foi até a Ilha Duadijebori. A bruxa não estava morta como seus amados filhos, então, concluía-se que tinha necessidades que eles não tinham. Como dormir. Marcus esperou até que Vivian se deitasse em uma pequena praia, a única margem não rochosa da ilha. Então ele agiu. Sorrateiramente subiu na ilha e caminhou até a menina que dormia na praia. Esticou sua mão com destreza e cautela e arrancou o amuleto de seu pescoço.
Mesmo com o objeto, a fonte crucial de poder para que a bruxa realizasse os sacrifícios que a mantinham jovem, ainda não era o suficiente para detê-la. Marcus tinha que concluir seu plano, e rápido, antes que a menina acordasse. Ele deixou a ilha e foi para uma ponte de concreto. Dezenas de mascarados estavam paradas ou andando em ambos os lados da construção, todos em seus postos para vigiar sua extensão. O fantasma mulato colocou a mão no rosto e puxou sua máscara de crânio para fora, cobrindo sua face. Ele começou a caminhar pela ponte sem temer. Ninguém o impediria, afinal, era um dos soldados mais leais e parte da vigília. Então seguiu o caminho até chegar à fenda no chão que havia do outro lado. Assim que pisou nela adentrou na Corte das Viúvas.
Havia doze soldados de Córade ao redor da lagoa. A profetisa estava na água em seu centro. Assim que Marcus se aproximara, ela o vira e sorria. Era a única que sabia o que realmente estava para acontecer e parecia estar satisfeita com isso. Os colegas do menino mulato já o esperavam. Volta e meia, algum soldado entrava na corte para trocar de posto com outro. Marcus aproveitou de sua confiança e atacou. Pegou uma máscara de Chacal negro que carregava dentro de suas roupas. Um espólio que ganhara ao defender Aman. O garoto recolheu sua máscara de crânio e vestiu a de chacal no seu lugar. Ergueu suas mãos e invocou dezenas de necranis.
Marcus achou que seria fácil ver seus antigos amigos lutarem, e estava certo. Os espectros dos cães atacaram os filhos da água sem piedade, alguns foram atingidos pela magia dos fantasmas, e sentiram a morte que os espíritos sofreram infiltrar seus pulmões e afogá-los. Contudo, havia necranis demais, e um a um os soldados mascarados estavam sendo dizimados. Marcus não se apiedou deles, sabia que por mais errado que aquela traição parecesse, era necessária.
A fuga deveria acontecer imediatamente. Enquanto a batalha se desenrolava, ele correu até a lagoa e esticou a mão para a velha profetisa. A água da lagoa começara tomar tons de magenta, Vivian Obá estava despertando, mas era tarde demais. A Velha segurou a mão de Marcus e juntos eles saíram da água e deixaram a Corte das Viúvas. Assim que Marcus voltara à ponte, Marcus tirara a máscara de chacal e recolocara a de osso.
— A Corte está sendo atacada!! Os espectros chegaram! – berrou para os outros soldados. – Reforços!
— Marcus, o que está acontecendo? – perguntou Horácio, o mais alto dos soldados de máscaras, capitão daquela facção. – Por que a profetisa está do lado de fora?
— Os espectros queriam destruí-la, eles são muitos para nós, tive que tirá-la de lá antes que o pior acontecesse.
A confiança de Horário em Marcus era como uma espada cega, ela não faria um corte limpo e fácil ao seu coração, e sim um doloroso e arrastado rasgo.
— Certo. – disse Horácio sem hesitar. – Vou levar reforços. Leve a profetisa para algum lugar seguro.
— Pode deixar comigo. – assegurou Marcus com um peso no coração. Preferia ver Horácio ser destruído pelos necranis do que mentir para ele, mas não tinha outra escolha. – Nos encontramos depois.
Então ele e a Velha entraram na névoa e desapareceram, abandonando a legião de Vivian Obá.
— É o único refúgio para você, menininho. Por favor, pense bem. – pediu Ardina a Marcus.
Marcus tentara ficar o mais longe possível do alcance de Vivian Obá. Não queria encontrar Ardina em lugares expostos enquanto ainda estivesse sendo caçado. Mesmo que ela fosse uma consumida, não era forte o suficiente para enfrentar toda a legião. Os dois estavam aos pés do Cristo Redentor, em cima de sua larga e alta base que ficava no centro do mirante no Corcovado. O mirante estava repleto de vivos, a maioria feliz com suas atividades, um sentimento coletivo que fazia com que Marcus sentisse que estavam queimando sua pele. Sua forma astral não resistiria por muito mais tempo ali, mas até mesmo isso era premeditado.
— Eu não vou trocar uma escravidão por outra. – disse Marcus tento que parar por alguns segundos por causa da dor constante. – O Imperador é ainda pior que ela.
— Nunca estará a salvo enquanto tiver esse amuleto. – Ardina apontou para o colar de madeira na mão de Marcus. – Ela sempre irá caçá-lo. E mesmo que você consiga se esconder. Não terá mais ninguém para protegê-lo dos Lordes da Morte. Menininho, eu te imploro…
— Não, Ardina. Agradeço a sua preocupação, mas eu não quero que ninguém me proteja. – Marcus assumiu uma postura decidida. – Não sei o porquê de existirmos, o porquê disso ser o que há depois da morte. Mas me recuso a achar que esses são os únicos jeitos de se continuar “vivendo”. Existe outro caminho e eu vou encontrá-lo.
— E se não existir outro?
— Então… — a dor tornou-se lancinante e insuportável, fumaça saía de seu corpo. –… eu irei criar um.
Ardina não reagiu como Marcus esperava. Ao invés de insistir, ela abriu um sorriso orgulhoso.
— Então vá, meu menininho. – encorajou Ardina. – Liberte-se!
Marcus empurrou sua dor com um sorriso agradecido e então se desfez em fumaça. Quando voltou a se refazer, estava dentro de seu próprio necrotério. O templo de seu corpo. Ele caminhou até a cama de barro sob a qual seu corpo estava deitado. Não era um corpo real é claro, era apenas a representação que o templo criara. O menino colocou sua máscara de chacal ao lado da cama, e pensou em colocar o amuleto sobre seu corpo falso, mas temeu que o esconderijo fosse óbvio demais. Marcus sabia que um dia alguém iria até aquele lugar, buscando o amuleto. Precisava escondê-lo de uma forma melhor.
Durante mais de vinte anos, ele aprendera sobre o mundo dos mortos e sobre como ele havia sido criado pelos Lordes da Morte. Havia apenas um lugar onde nenhum membro da legião ousaria ir para recuperar o amuleto, nem mesmo Vivian Obá. Marcus guardou o objeto no bolso e rolou o corpo falso para o lado, revelando um alçapão com a exata silhueta de seu corpo esculpida na cama de barro. Um portal para um dos primeiros lugares a existir, onde nem mesmo os mortos poderiam ir.
— É o único jeito. – disse Marcus colocando a mão na alça do alçapão. – Ninguém deve jamais encontrar esse amuleto. Jamais.
Então ele o abriu.
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