Deus dos Erros

20 A Última Bênção


Notas iniciais
Hello People! Aqui está mais uma parte da história! ;)

O encontro de olhares disse muito em pouco tempo. Os olhos do menino, antes verdes, agora eram azuis leitosos com pequenos nacos faltando. Havia uma maldade atípica de Marcus naquele olhar, uma intenção obstinada à violência. Nepecrapto nem sequer o viu piscar antes que o menino desaparecesse, o que deu ao consumido algum tempo para olhar ao redor. Toda a construção havia sido inundada por águas escuras. Mesmo que o espaço não fosse fechado, a água não saía pela entrada da construção, como se uma parede invisível houvesse sido erguida ali.

Marcus estava bêbado de poder e não daria mais tempo a Nepecrapto para que ele pensasse. O menino criara uma corrente e enfiara-se nela, viajando em alta velocidade pela água. Sem que Nepecrapto pudesse vê-lo, Marcus deu uma imensa volta e então disparou na direção do consumido. Ao perceber a investida do garoto, Nepecrapto girou o corpo para se esquivar, mas dentro da água ele era lento e desajeitado, incapaz de se defender apropriadamente.

Assim que o menino o alcançou, Nepecrapto ergueu os braços cruzados em xis, protegendo seu rosto do ataque. Marcus então acertou os pulsos do consumido, segurando-os por apenas alguns instantes antes de criar uma nova corrente e fugir por ela. O terno de Nepecrapto se encheu de buracos no local onde fora atingido. Marcas de dedos necrosaram seus pulsos, apodrecendo sua pele e a abrindo. O consumido finalmente havia sido ferido.

Ele sentiu as águas se agitarem e vibrarem. Por todos os lados, linhas de bolhas marcavam as diversas correntes que eram criadas pelo menino. Antes que Nepecrapto pudesse descobrir por qual delas ele estava viajando, o menino investiu contra ele novamente, desta vez atingindo-o nas costas. O mesmo que acontecera a seus pulsos ocorreu com o novo local atingido. O tecido do terno tornou-se carcomido e sua carne e pele necrosadas.

As investidas de Marcus então se tornaram cada vez mais intensas e frequentes. Ele atacava com tanta velocidade que parecia a Nepecrapto que estava lutando com pelo menos dez pessoas ao mesmo tempo. O consumido movia-se para um lado e para o outro, esquivava de um ou outro ataque, mas estava sendo repetidamente atingido. Marcas de necrose abriam-se em seus braços, pernas, barriga e costas. Contudo, era sua cabeça que Marcus queria, e Nepecrapto sabia disso. Se a situação continuasse daquele modo, o menino a conseguiria. Algo precisava ser feito.

Foi então que Nepecrapto percebeu que algo estava mudando no cenário. Cada vez que o menino tomava velocidade para atacar ou fugir, o nível da água perdia alguns centímetros de altura. Mesmo que em forma líquida, tudo aquilo ainda era feito de spectrum, a energia que formava os espíritos, e ela estava sendo gasta conforme Marcus atacava.

Assim que tomou consciência disso, o consumido começou a nadar com veemência para cima. Marcus entrou em desespero. Ele sabia que o consumido só estava em desvantagem enquanto estivesse dentro da água, e que assim que ele saísse…

— Não! – vociferou Marcus com uma voz gutural. – Você é meu!

Com uma velocidade quilométrica Marcus avançou do fundo do lago de lágrimas, alcançando Nepecrapto antes que ele conseguisse emergir. O menino apertou com força as pernas do consumido, puxando-o para baixo com tanta intensidade que seus calcanhares apodreceram e se descolaram de suas pernas.

Vendo-se livre mais uma vez, Nepecrapto voltou a movimentar seus braços em um nado urgente. O nível da água havia perdido um metro com o último esforço de Marcus, e já começava a perder mais altura conforme o menino voltava a atacar. Mais uma vez, Marcus o puxou pelas pernas, e mais uma vez parte delas foi apodrecida a ponto de se soltar do restante. Mesmo que ele não conseguisse segurar o consumido por muito tempo, e que estivesse diminuindo o nível da água a cada ataque, sempre que o puxava para baixo, criava uma grande distância entre Nepecrapto e o topo do lago. Ele não conseguiria escapar.

Chegando a mesma conclusão de Marcus, Nepecrapto iniciou uma contramedida. Com um movimento de mão ele ordenou que sua bengala viesse ao seu encontro. Mesmo dentro do lago, o objeto ainda estava envolto por uma bolha de água. Ele flutuou com rapidez, parando abaixo de Nepecrapto no momento exato em que Marcus o alcançara. Sem poder parar a si mesmo, o menino atingiu a bolha com suas mãos, e não o consumido, estourando-a assim e libertando a bengala de Nepecrapto.

Enquanto o consumido voltava a nadar, Marcus entrara em uma nova corrente e começara a fugir da bengala que agora o perseguia com a mesma velocidade absurda. A corrida fazia com que o nível da água diminuísse mais ainda, fazendo com que Nepecrapto estivesse cada vez mais perto de emergir. O menino então manipulou as correntes e as uniu em uma só, criando uma poderosa correnteza que levava ao consumido.

Ele entrou na correnteza e disparou em direção a Nepecrapto, porém, sua façanha havia custado mais dois metros de altura ao lago. Nepecrapto conseguira emergir. Ele esticou os braços para fora da água e abriu a bocarra para respirar. Normalmente os fantasmas não precisavam respirar, mesmo debaixo da água, porém, aquelas não eram águas comuns, eram feitas de pura energia e podiam afogar qualquer espírito.

Retomando o fôlego, o consumido assoprou e fez com que toda a superfície do lago de lágrimas começasse a congelar. Ele usou o gelo que se formava ao seu redor para se apoiar e se arrastar. Fumaça negra saía de suas pernas e lhe devolvia suas formas completas. Nepecrapto então conseguiu erguer uma perna, apoiando-se com um joelho no chão. Assim que o fez, houve uma pequena eclosão na água ainda não congelada atrás dele. Marcus emergira em um pulo e atingira o rosto e o pescoço do consumido. Metade da face de Nepecrapto se desfez como um papel rasgado, deixando seus ossos e sangue apenas, e seu pescoço foi tão deteriorado que se destruiu por completo.

A cabeça decapitada de Nepecrapto rolou para longe de seu corpo que agora começava a se desfazer em fumaça negra. Marcus caiu de joelho no gelo, ofegando com o esforço, porém, assim que o fez, a bengala de Nepecrapto emergiu das águas. O menino temeu que ela tentasse perfurá-lo, contudo, sua conexão com seu dono parecia ter sido quebrada, e ao invés de perseguir o menino, ela continuou seu curso para cima até se fincar no teto.

Longe da água, Marcus mal tinha forças para andar. Toda sua energia estava concentrada no lago que criara. Embora ele precisasse voltar para água, o menino começou a andar até a cabeça de Nepecrapto, que fora jogada a metros de seu corpo. Havia apenas uma maneira de se derrotar completamente um fantasma. Como já estavam mortos, não podiam morrer de novo, portanto quase nenhum dano era permanente. Todavia, nenhum fantasma podia suportar a mesma morte duas vezes. Ou seja, quando sofriam o mesmo dano que os levara a morrer, os espíritos eram obliterados, deixando de existir e sendo apagado das lembranças de todos. Marcus não sabia como Nepecrapto havia morrido, então precisava se certificar de que o consumido perdesse completamente sua forma. Ele não teria o obliterado, mas ainda assim teria vencido o desafio, e o consumido seria obrigado a cortar seus laços com Otávia e Charles.

— Acabou… seu desgraçado… — vangloriou-se Marcus enquanto cambaleava.

Ele deu poucos passos quando algo agarrou sua perna. Marcus olhou para trás e viu uma criança segurando seu calcanhar. Ela estava deitada no chão, possuía uma pele tão pálida como leite, era careca e vestia camisola hospitalar com desenhos lúdicos. A criança tentou se levantar apoiando-se em Marcus, quando olhou para cima e revelou seu rosto ao menino, ela começou a chorar.

— Está doendo… — gemeu a criança. – Por favor… faz parar… dói!

Marcus arregalou os olhos, espantado enquanto a criança tentava escalá-lo. Então, outras vozes começaram a gemer, outras súplicas por ajuda. O fantasma olhou ao redor e se viu cercado por centenas de crianças doentes. Todas elas tinham a mesma aparência característica, carecas, pálidas e em roupas hospitalares. Elas caminhavam lenta e sofregamente na direção de Marcus. O garoto queria perguntar quem elas eram e de onde vieram, mas algo dentro de si o calava e gritava de horror. Ele não sabia quem elas eram, mas temia saber de onde vieram. Então uma risada se fez entre as súplicas.

— Não… — murmurou Marcus voltando seu olhar para o lado.

Não muito longe dali, o corpo de Nepecrapto havia se recomposto o suficiente para rastejar até chegar a sua cabeça decapitada. Suas mãos ergueram-na e a colocaram de volta ao pescoço. Nepecrapto começou a gargalhar entredentes. Metade de sua face tinha os ossos ensanguentados à mostra, e a outra soltava filetes de fumaça negra. Ele definitivamente havia sido debilitado, mas ainda assim se levantava como se nada tivesse acontecido.

— Como…? – perguntou-se Marcus aterrorizado.

— Estou impressionado. – disse Nepecrapto entre uma risada e outra. – Eu não esperava esse tipo de magia vindo de um menininho como você. Não é assim que Ardina o chama, menininho?

Nepecrapto voltou a gargalhar. Marcus olhou ao redor, tentando achar uma saída. Ele precisava voltar para água. Havia apenas uma parte da superfície do lago que não estava congelada, porém numerosas crianças doentes estavam entre o menino e a abertura no gelo. Marcus podia facilmente se livrar delas, mesmo estando sem forças, as crianças estavam em um estado ainda mais patético que o seu. Mas o terror e o horror consumiam qualquer ação que tentasse se formar dentro de si.

— Monstro… — murmurou Marcus dando um passo para trás e tropeçando em outras crianças. – Seu monstro!!

— Monstro? Eu? Ora, o que eu fiz para ser chamado assim? – debochou o consumido.

Marcus já havia ouvido histórias sobre Nepecrapto, sobre o que ele fizera para se tornar um consumido.

— Você… você as matou! Matou as crianças! Foi assim, não foi? Foi assim que você se tornou um consumido. Você matava crianças com câncer, fazia com que elas piorassem até morrerem.

— Ah… é disso que você está falando? Nesse caso, tudo bem, pode me chamar de monstro. Eu até que gosto. – ele voltou a gargalhar. – Mas não se preocupe com as crianças, elas estão bem agora. Eu cuido. Muito. Bem. Delas. Eu as mantenho sempre comigo

Nepecrapto pegou sua cartola do chão e virou sua abertura para cima. Uma a uma, as crianças com câncer começaram a serem arrastadas pelo gelo até retornarem à cartola de seu assassino. Marcus tremeu enquanto as via gritando e implorando por ajuda. Como se não bastasse ter assassinado centenas de crianças, o consumido ainda aprisionava suas almas dentro de si, fazendo-as sofrer em vida e em morte. Como enfrentar algo tão monstruoso e macabro? Como ele poderia continuar? Que chances ele teria?

— Como foi que você disse mesmo? – perguntou Nepecrapto recolocando sua cartola uma vez que as crianças já haviam voltado para ela. – “Acabou… seu desgraçado”. Bem, parece que sim, menininho.

Marcus franziu o cenho e cerrou os pulsos com ódio. Ele pensou em Ardina, na Velha, em Otávia, em Leonardo e em Charles. Não podia deixar que sua família continuasse sofrendo pelas ambições de Nepecrapto. Quando decidira enfrentá-lo, havia aceitado que perder não era uma opção, o que não havia mudado.

Ele estava muito longe da abertura no gelo, portanto não poderia voltar à água, mas havia uma última carta para ser jogada. Marcus fechou os olhos e deixou-se lembrar de tudo de ruim que já havia acontecido às pessoas que ele amava. Todo o medo e toda a preocupação de seu coração tornaram-se mestres de sua alma, enchendo-o com sombras e trevas. Algo queimou em sua fronte, seu esquizograma se revelara entre seus olhos, que ao se abrirem demostraram um brilho jade tão forte quanto o de sua marca.

Marcus sabia que a marca dos divididos afetava os espíritos de maneira negativa, alterava seus comportamentos e os consumia, tornando-os seres tão macabros quanto Nepecrapto. Contudo, o menino só seria realmente consumido pela marca se a usasse para causar a morte de um humano, o que ele certamente não faria. Então decidiu usá-la contra outro alvo.

— Não acabou. – contrariou Marcus. – Ainda não.

Sua aparência perdeu seu aspecto apodrecido, voltando à sua forma original para então mudar mais uma vez. A marca de Marcus começou a se ramificar, esticando suas extremidades e gerando outras marcas semelhantes a ela por todo o corpo do menino. Quando ele estava completamente coberto, vários símbolos iguais aos de seu esquizograma flutuaram no ar, acesos com seu brilho jade.

Marcus sabia que cada marca dos divididos podia ser guiada por um dos signos mortos. A sua era guiada pelo Corpo Furado, referente ao Signo de Touro. Seu atributo principal era a capacidade de fazer com que outros perdessem suas energias vitais ou espectrais, como se houvesse um furo em suas almas. Usando este conceito, ele preparou uma maldição e a lançou sobre o gelo, assim entoando:

— Aperire!

Um enorme símbolo como o de seu esquizograma se acendeu no centro da planície de gelo, e então se transformou em largas rachaduras que despedaçaram todo o chão congelado. Nepecrapto tentou se equilibrar em um pedaço do gelo que boiava na água, enquanto Marcus aproveitara para mergulhar nela. As marcas em seu corpo começaram a infectar o lago de lágrimas com suas trevas. Suas águas tornaram-se esverdeadas e ácidas, fazendo com que o gelo remanescente começasse a se desfazer pouco a pouco.

A mente de Marcus começou a ser dominada pelo esquizograma, e sua forma astral começou a se modificar. Seu corpo esticara para o tamanho de um adulto. Sua pele e carne tornaram-se água negra e seus ossos gelo verde. As diversas correntes do lago assumiram a forma de serpentes de água. Elas começaram a rodopiar, fazendo com que o lago se transformasse em um grande redemoinho.

Marcus, agora completamente tomado pela escuridão da marca dos divididos, esticou a mão para cima e enviou suas serpentes na direção de Nepecrapto. As criaturas eram grossas como torres de água, elas se lançaram uma após a outra sobre o consumido, queimando-o sempre ao tocá-lo. Nepecrapto fez com que sua cartola flutuasse, prendendo-se e subindo juntamente a ela. Todas as serpentes se espiralaram no ar, prontas para dar o bote final que destruiria completamente seu oponente. Nepecrapto esticou a mão para cima e fez com que sua bengala se desprendesse do teto e retornasse para ele, então as serpentes avançaram, abocanhando-o e o engolindo.

O consumido imergiu no lago de ácido, que agora possuía metade de seu volume inicial. O corpo de Nepecrapto começou a se rasgar e se desfazer, mas ainda assim, ele mantinha um sorriso no rosto, gargalhando de sua maneira vil. Quando finalmente parou de sorrir, ele largou sua bengala e deixou que ela afundasse no ácido. Assim que tocou o chão, a bengala começou a se dissolver e a transmutar o liquido ao seu redor. Aos poucos, o ácido tornou-se água, e a água tornou-se sangue. Logo, o lago antes sob o domínio de Marcus agora era um rio de sangue sob o domínio de Nepecrapto.

O menino foi jogado pelo sangue contra uma das pilastras da construção. O impacto fora tão grande que sua forma obscura se desequilibrou, fazendo com que Marcus retomasse a aparência de uma criança mulata, baixinha e gorducha de onze anos. O líquido escuro e rubro começou a se reduzir, tornando-se mais baixo e mais escuro, diminuindo seu nível até que ambos os fantasmas não estivessem mais submersos.

— Eu disse que havia acabado, não disse? – falou Nepecrapto, dando passos lentos em direção ao garoto. – Menininho… Marcus. Diga-me, o que doeu mais quando você morreu? – o sangue que restara começara a subir pelas pernas de Marcus, deslizando lentamente até cobrir seu corpo como tinta vermelha. – A agonia da água em seus pulmões? – então o sangue começou a entrar por sua boca e nariz. – Ou o sentimento amargo de estar sozinho?

O menino caiu de joelhos no chão, segurando sua garganta como se pudesse desobstruí-la.

— Ah, mas não se preocupe. – Nepecrapto ficou a poucos metros de Marcus. – Prometo que dessa vez, você pelo menos não estará sozinho.

Marcus começou a se debater no chão conforme o sangue inundava seus pulmões. Em alguns segundos, ele via seus amigos ao seu redor, até mesmo Renato, o namorado de Otávia, e as gêmeas, Ava e Ana. Em outros, ele via sua mãe e seus amigos de infância. Porém, o único que realmente estava ali era Nepecrapto. Agachado ao seu lado, com o rosto próximo ao seu, sorrindo como um velho amigo saudoso.

— Você realmente é um menino muito, muito esperto. – disse Nepecrapto. – Eu realmente fiz quase tudo que você falou. Eu realmente tenho planos para Charles. Contudo, só existem duas pessoas no meu caminho, impedindo-me de conseguir o que eu quero. Você. Nunca. Foi. Uma. Delas. Não… — ele se aproximou de seu ouvido para sussurrar. – Alguém realmente contou à bruxa onde você estava. Mas, esse alguém não sou eu. Esse é um jogo de dois jogadores, menininho. Consegue imaginar quem é outro?

Marcus piscou mais uma vez, vendo novamente todos os seus amigos. Ele não tinha mais forças nem mesmo para sentir dor. Sua alma estava recebendo uma segunda morte e logo desapareceria, mas não antes de deixar a resposta em sua mente e coração. Ele arregalou os olhos e tentou negar, sem aceitar o nome que lhe vinha à cabeça, mas não conseguia mais falar. Seu último fôlego já havia se extinguido. Sua imagem desaparecera. Sua alma fora obliterada e logo seria esquecida.

Notas finais
Tomara que estejam gostando da história, se sim, por favor me deixe saber :D Até o próximo capítulo (21- Um Sorriso Afiado)