Deus do Mar
1 Prólogo
Não era a primeira vez que esses sonhos me perseguiam.
E também não era a primeira vez que eu ficava agitada antes, durante e depois deles.
Só que dessa vez, não foi como as outras. Dessa vez foi mais forte.
As tábuas úmidas e frias do píer rangiam sob meus pés descalços. No horizonte, nuvens densas e escuras lançavam seus relâmpagos silenciosos no mar conforme a ventania agitava meus cabelos castanhos.
Era como se uma força invisível guiasse meus passos e, quanto mais perto eu chegava, mais sorria.
Eu lembrava vagamente de abrir a porta da casa da piscina da casa de verão de Veronica, minha colega de trabalho, cruzar silenciosamente o jardim, descer o terreno inclinado e depois sorrindo ao pisar na primeira tábua do píer.
Porque ele estava me esperando.
No final do píer, encarando a tempestade, suas costas despidas eram meu chamariz, a corrente prateada de um colar reluzindo em sua nuca.
Quando finalmente o alcancei, meu coração batia agitado como as asas de um pássaro. Era agora que eu acordava, sempre fora assim.
Entretanto, o despertador irritante não berrou na cabeceira. Nenhum som soou senão o do vento frio e úmido.
Foi então que ele começou a se virar lentamente.
— Você está atrasada — ele disse.
Tenho que admitir que não me decepcionei. Quero dizer, seu rosto não era visivel, mas os lábios e o queixo... quadrado e coberto por uma barba curta bem cuidada. Caramba, como minha mente podia gerar uma ilusão tão nítida e perfeita? Eu devia tentar a carreira de escritora.
— Quanto tempo? — perguntei absorta por seus lábios quanto ele abriu um sorriso que me fez piscar uma vez para me certificar que ele não sumiria.
— Uma eternidade.
Sua mão aspera e calejada tocou a minha. Não era a mão de alguém que tinha a vida facil. Levou minha mão aos seus lábios e beijou o dorso, a barba fazendo cócegas na minha pele.
Os olhos cor de mar se concentraram nos meus lábios, então ficaram determinados. Me peguei apertando os dedos dos pés em expectativa quando ele segurou meu rosto entre as mãos e aproximou nossos lábios, seu halito quente soprando... fechei os olhos e entrebi os lábios quando os dele roçaram os meus...
Em um beijo que nunca veio.
— Venha comigo, minha amada. — minha amada? Se eu estivesse acordada teria gargalhado desse tratamento cafona. Mas no sonho eu fiquei maravilhada, porque era ele quem estava dizendo.
— Para onde? — abri os olhos somente para encontrar seus olhos apaixonados.
— Para nossa casa...
Quando ele começou a descer as escadas que iniciavam onde o píer terminava, me encontrei segurando a sua mão e acompanhando seus passos, perdida na imensidão azul profunda e escura de seus olhos.
Uma voz ecoou, vindo de tão longe...
— Lavínia! — não era a dele.
Então mãos brutas agarraram minha cintura por trás, puxando-me com uma força que me tirou o fôlego. O homem dos meus sonhos segurou fortemente meu pulso, mas isso não impediu a força bruta dos braços. Caí para trás, sentindo as tábuas no chão, de repente sendo rodeada por um frio intenso enquanto encarava o céu escuro e tentava recuperar o folego. Porque eu estava gritando.
Meus gritos continuaram, agora raivosos por eu ter sido arrancada dos braços dele.
— Lavínia, acorda!
— Ela está histérica.
Mãos enluvadas seguraram meu rosto. Minha visão clareou de repente e me vi encarando o rosto bronzeado de um homem familiar, que eu não conseguia lembrar agora. Atrás dele, estavam as barras horizontais da amurada.
Navio.
Eu estava em um navio. Não no píer ou na casa de férias da minha amiga. Tentei relembrar do que fazia ali: estava em um cruzeiro pelas ilhas gregas, um prêmio que ganhei por ser a melhor funcionária do ano no escritório.
Meu grito se calou, braços cálidos me envolveram. — não os do homem, eu lembrava quem era ele agora. Um dos membros da tripulação. Ele se afastou um pouco para permitir que uma Veronica chorosa me abraçasse.
Pisquei várias vezes para recobrar a razão. Um sonho. Tudo foi um sonho.
— Por que estou no deque do navio? — perguntei, franzindo o cenho para as tábuas abaixo de mim. A expressão mudou para mortificada assim que notei o short curto preto e a camiseta larga que vestia. Meu pijama.
— Você saiu do seu quarto e... e ... — Verônica fungou, então apertou meus ombros severamente — Subiu na amurada. Queria o que? Pular na água?!
Estremeci. Com o ardor do sonho se apagando, tudo o que eu sentia agora era frio. Mas a mão, onde ele tocara, estava formigando.
Lancei um olhar às barras. Além delas, muito distante para que pudéssemos ouvir, relâmpagos eram lançados impetuosamente na água. No meu peito vibrava o anseio de ir até ele, de encontra-lo, de...
— Ei! — ela segurou meu queixo, me obrigando a encara-la.
Pisquei novamente, agora com força enquanto levantava vagarosamente do chão. Era um sonho, apenas um sonho ruim que eu tinha desde que completei dezesseis anos. Agora, com vinte e dois, eu ainda os tinha? Lamentável, Lavínia, lamentável.
O membro da tripulação retirou a jaqueta branca grossa que vestia e colocou sobre os meus ombros respeitosamente, evitando olhar para baixo.
— Aqui, senhorita.
— Obrigada, hã... — tentei lembrar o nome dele.
— Duarte.
— Obrigada Duarte.
Não foi uma surpresa ele nos acompanhar de volta à cabine. Duarte estava sendo muito gentil.
Quando chegamos na porta, ele educadamente pediu permissão para entrar — o que Veronica, já caidinha, respondeu prontamente que sim — ele entrou no quarto, retirou uma braçadeira branca do bolso e prendeu firmemente no passador das portas duplas de acesso a minha pequena varanda, lacrando a porta — e me envergonhando!
— Só para garantir, senhorita Lavínia. — ele garantiu ao perceber meu desconforto.
— Tudo bem, está fazendo o seu trabalho.
Nem eu confiava em mim mesma sozinha. Veronica com certeza foi atrás de mim só por já saber o quanto eu ficava agitada durante o sono.
Duarte saiu após alguns instantes. Uma vez a sós, ela sentou na cama e me entregou um café fumegante que Duarte mandou por um outro funcionário.
Eu podia ver em sua cara que queria fazer perguntas, mas ela não as fez. Apenas sentou-se e esperou pacientemente que eu falasse — uma surpresa, se for considerar o quanto ela falava normalmente —, o que fiz apenas depois de sentar na cama e beber dois goles demorados de café.
— Eu tenho sonhos estranhos.
— Tipo como? Você é sonambula? Por que nunca me disse?
— Porque não sou... pelo menos, não era — soltei um suspiro, murmurando reflexivamente para mim — Eu pensei os sonhos tinham parado.
— Que sonhos? — oh, não. Falei alto demais.
Eu não era de sair por ai falando meus segredos, mas estava tão vulnerável que não controlei o impulso. Eu queria tanto falar disso com alguém!
— Eu sempre tenho sonhos com um homem que nunca vi. Todas as noites — baixei um pouco o olhar, a voz quase um sussurro — Ele sempre volta, sempre fala comigo como se... eu fosse dele.
Ergui o olhar. Eu já esperava pelas mil perguntas da tagarela, mas, para minha surpresa, os olhos castanhos mostravam curiosidade e ela nunca me interrompeu.
— Esses sonhos continuamente me fizeram falar dormindo, me debater..... mas hoje... — maneei a cabeça.
Ouvi o farfalhar dois lençóis quando ela levantou e sentou ao meu lado.
— Tudo bem, pode falar.
Respirei fundo, reunindo coragem.
— Hoje foi longe demais — dei um sorriso triste.
De repente Veronica deu um de seus típicos sorrisos animados demais.
— Amiga, já sei! Amanhã vamos em uma cartomante!
— Argh! Onde vamos encontrar uma cartomante no meio do mar?! E eu não vou nisso — fingi um estremecimento. Honestamente, para mim, cartomantes eram um baita trambique.
— Vamos parar em uma ilha amanhã! Pense! — ela cutucou minha testa com o indicador — Ela pode esclarecer esses sonhos!
— Não.
— Por quê?
— Sem chance — subi mais na cama, puxando o cobertor até a cintura — Não vou ouvir balelas de uma estranha.
Veronica murmurou um “chata” baixinho e voltou para a própria cama.
— Eu não desisti — insistiu.
Virei para o outro lado, revirando os olhos.
— Claro que não — resmunguei.
Ela não demorou nem dois segundos para esquecer completamente do assunto. Pegou meu café e começou a bebericar, cantarolando baixinho uma canção sobre mares revoltos.
Suspirei, encarando a porta da varanda. Então meu olhar recaiu para a mão que repousava perto do rosto.
Me apoiei no cotovelo subitamente, encarando o pulso.
Estava marcado perfeitamente com as impressões de dedos arroxeadas deixadas por um aperto muito severo.
Toda a cor fugiu do meu rosto ao me dar conta.
O aperto da mão dele.
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