Deus Salve a Rainha
14 E é todo meu coração, queimado mas não enterrado dessa vez.
O vento acariciou suavemente as pernas da garota, deitada ali entre os dois corpos masculinos quentes que a prendem no colchão fino de sua cama. O Sol entrando pela janela como se fosse apenas mais um convidado para a grande festa de divindades que acontece ali naquele recinto, afastado de todas as maldades que estão rodeando o castelo e povo. Selena acha que se naquele momento o seu coração parasse de pulsar e sua alma fosse de encontra com as almas de todas as outras bruxas, ela morreria feliz.
As plumas de seus travesseiros, roubados por Saulo de dentro de castelo para ela, estão rodeando o corpo deles, a magia da garota não mais sendo enclausurada dentro das grades feitas de ossos que o corpo pequeno é.
“Porque tenho uma pluma em meu cabelo?” A voz mansa de Tiago faz com que os olhos sonolentos de Selena e de Saulo se abram quase que em sincronia. Ela lambe os lábios machucados, marcados por mordidas e por beijos quase tão ferozes que deveriam ser considerados armas, e táticas de guerra, dados na noite de ontem.
“Me desculpe.” Selena levanta os braços, estendendo eles para capturar algumas plumas que continuam levitando ao redor deles, sendo reluzidas apenas pela luz do Sol fraca daquela manhã que se inicia. “Minha magia as vezes se esquece de quem somos e onde estamos.”
Tiago fecha o olho novamente, apenas sussurrando algumas palavras incoerentes para ela. Na noite passada, antes deles beijarem a sua carna, ela acendeu as velas apenas com magia, e Tiago e Saulo foram rápidos em dizer que estariam do lado dela, não importava o quanto de divindade ela carregava em seu sangue, em seus ossos.
Dentro de seu ser ela sabe que eles estão mentindo. A guerra está cavalgando em seus pastos agora, e ela sabe que eles falariam de tudo para ganhar um pouco de apresso e conforto entre as coxas leitosas dela. Mas Selena, uma mulher de força, mas também uma mulher doce, não se importa. Ela deixa-se acreditar por aquela noite que eles estariam ao lado dela, não importando quando chamas e bastões enfurecidos seriam apontados para a magia que está em seu corpo.
“Temos que nos levantar. Não podemos demorar muito, temos que nos preparar.” A voz dela corta todo o ambiente, e como em um bater de cílios, as plumas caem de seu voo leve todas juntas, quase como se fossem um corpo caindo morto e em direção ao penhasco. “As pessoas podem perceber se nenhum de vocês estiver em suas camas.”
O braço de Saulo a circula, e ele beija a sua clavícula nua, acendendo o fogo que permanecia lento e brando dentro do corpo da garota.
“Estamos com uma guerra batendo em nossas portas, Sel, as pessoas não se importam onde eu e Tiago passamos a noite.” Sua voz faz com que os cabelos dela se arrepiem. Tiago passa os braços pelo outro lado dela, empurrando suas mãos calejadas até a carne no meio de suas coxas, apertando a palma quente ali. Ela se sente derreter com o toque.
“Ninguém se importa com mais nada, Sel. Só se teremos comida e cama quente para o restante do mês.” Um beijo leve é depositado em seu seio, e a janela bate por conta da força da reação de Selena. Ela precisa que eles se levantem e vão para os campos, preparar tudo. Ela precisa que suas mãos sedentes deixem o corpo dela livre para se levantar e se vestir. Mas os beijos que eles depositam em sua pele estão fazendo com que a sua magia se desprenda e role abertamente por toda a sala.
“Deixem-me ir. Por favor.” Ela quer se contorcer e se livrar dos braços deles, mas tudo se transforma em negro na sua frente. Seus olhos não estão mais focados nas luzes que entram do Sol, mas sim em uma escuridão gelada. Os cabelos de Amália e de Catarina surgem em sua vista, enrolados em um ninho como se elas fossem uma só. Um cavalgar de cavalos quase a leva a loucura quando domina toda a cabeça dela.
“Selena?” Saulo diz preocupado. O tronco da garota está levantando, todos os objetos da sala estão levitando, menos a sua cama pequena com as três pessoas. O espelho o qual ela se olha sempre está rachado em diversas partes, mostrando a todas as pessoas reflexos quebrados deles.
“Selena, você está bem?” A voz de Tiago segue a de Saulo, mas os tons são esquecidos por Selena que move a cabeça para o espelho, enxergando um rio de sangue se aproximar dos campos com flores negras. Uma romã aparece, sendo esmagada por dedos com anéis de prata. A respiração dela engata em sua garganta quando ela se vira para Tiago, os olhos em um branco leitoso por inteiro, como se estivessem caçando algo no fundo de sua mente. O homem também engole em seco, como se tivesse fazendo todo o esforço do mundo para não se levantar assustado e com medo do que está vendo.
“Sua irmã, precisamos achar sua irmã.” Selena sabe o que precisa fazer. Ela precisa encontrar Amália, lhe contar sobre os seus dons, lhe contar sobre a visão que tem de sua carne e da carne de Catarina se tornando uma.
Os olhos dela voltam ao normal, focalizando novamente em um Tiago que está assustado. Seu cabelo realmente tem uma pluma perdida no emaranhado negro.
“Tudo bem, vamos nos aprontar e ir atrás dela.” Saulo coloca as mãos nas costas de Selena, saindo da cama e a ajudando a ficar de pé depois da sua visão. Este não era a primeira vez que ele tinha visto a mulher ficar com os olhos brancos como o leite, mas essa havia sido a primeira vez que ele tinha visto o corpo dela tremer tão violentamente e os objetos levitarem. “Sel, você precisa se controlar e colocar as coisas no chão. Vamos lá, querida, é só respirar fundo.” Uma a uma as coisas foram cedendo e os baques foram captados pelos ouvidos de Selena. Ela sentia as mãos dos dois homens em suas costas a mantendo de pé enquanto todo o seu corpo tremia.
“Porque temos que encontrar a Amália, Sel?” O rosto de Tiago era uma expressão em branco diante dele, apenas com os olhos concentrados e enrugados aos lados a olhando como se tentasse desvendar o que estava na mente dela.
“Tiago, isso não é hora.” Saulo quase rugiu para cima do homem, que continuou olhando Selena, tentando entender o que tinha em sua mente.
“Eu estou aqui por você, Sel. Eu morrerei por você, mas apenas me diga, por que devemos encontrar Amália?”
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