Deus Salve A Todos
12 Uma Nova Aliança
Notas iniciais

Cássio escuta as palavras que saem da boca de Afonso e permanece paralisado por alguns segundos, o casamento entre a princesa de Artena e o príncipe de Montemor era um acordo fechado há décadas entre o rei Augusto e a rainha Crisélia, e romper um compromisso dessa magnitude podia trazer sérias consequências para ambos os reinos. Despertando de seus pensamentos, ainda incrédulo, Cássio pergunta:
— Me perdoe Alteza, acho que não escutei direito, vossa Alteza disse que não haverá mais casamento?
— Sim, foi exatamente isso que eu disse. – A voz de Afonso soa calma e ponderada. Ele parece estar convicto de sua decisão.
— E por qual motivo? – Cássio jamais poderia imaginar que a atitude de romper o compromisso partiria do príncipe.
— Cássio, eu estive em Artena todo esse tempo que estive desaparecido, aconteceram muitas coisas que eu não contei a ninguém. – Diz ele ao se aproximar do amigo.
Afonso já não aguentava guardar tudo aquilo, precisava desabafar com alguém. Desde que voltou a Montemor, não houve um dia se quer que ele não tenha pensado em toda desgraça que viu em Artena ou nas palavras de Amália e de Crisélia. Contar tudo para Cássio era um alívio, mesmo sabendo que o chefe do exército podia não compreender sua decisão, ele estava decidido e nada o faria voltar atrás.
Afonso contou sobre tudo o que viu e escutou de Amália, omitiu apenas suas desconfianças e seus sentimentos pela plebeia, pois isso era algo que nem mesmo ele podia compreender. Cássio escutou tudo muito horrorizado, ninguém jamais associaria a imagem do rei de Artena com aquela que Afonso descrevia.
— É inacreditável que um homem como o rei Augusto, que é respeitado por toda a Cália trate seu próprio povo dessa maneira.
— Sim, se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos, eu jamais acreditaria. – Afirma Afonso ao caminhar até o trono no meio do salão. Ele admira a cadeira, o seu formato, os detalhes feitos com tanto cuidado, sabia o peso que aquilo representava, gerações e gerações de Monferrato já havia se sentado ali, e agora cabia a ele essa responsabilidade.
— Eu entendo vossas razões alteza, mas desfazer um acordo com Artena pode desencadear uma guerra entre os dois reinos. – Alerta Cássio preocupado.
— Eu conheço os riscos e por isso iremos antes a Lastrilha. Pretendo fazer um acordo com o rei Otávio.
Cássio apenas consenti, não poderia jamais duvidar da capacidade do futuro rei em lidar com essa situação. Mas no fundo, ele fica apreensivo, pois todas as certezas sobre o futuro de Montemor estavam prestes a serem jogadas fora, e de agora em diante trilhariam por um caminho incerto.
Afonso podia achar que conhecia os riscos, mas não fazia ideia do que estava prestes a começar, Artena e Lastrilha não eram reinos aliados, era do conhecimento de todos as diferenças entre os dois reis. E se o rei Augusto era capaz de sacrificar seu próprio povo em nome do poder, quem poderia saber o que ele seria capaz de fazer a Montemor?
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Em Artena fazia muito frio, como há tempos não se via. No castelo começavam os preparativos para o enforcamento do jardineiro Cristóvão, no povoado todos só falavam nisso, as pessoas estavam assustadas com o que estava prestes a acontecer.
Distante do povoado, Amália e Thiago participavam de uma reunião com os rebeldes, no coração da floresta.
— Nós não podemos permitir que Cristóvão seja morto por algo que ele não fez. – Thiago está exaltado, sua voz rouca faz com que as palavras saíssem quase como um grito.
Um dos rebeldes responde:
— Aquela praça estará lotada de guardas esperando por nós, isso é uma armadilha e você sabe disso. – Apontando para Thiago.
Os outros rebeldes comentam entre si, todos parecem muito exaltados, as coisas se tornavam cada vez mais complicadas para eles, desde o último ataque ao castelo de Artena, o rei Augusto havia intensificado as investigações, era questão de tempo até que algum capitão do exército achasse uma linha solta que os levassem até o grupo. Isso tornava a situação um tanto tensa entre eles, haviam aqueles que queriam abandonar a causa, outros querendo ir embora de vez de Artena, parecia que a chama que os fazia lutar estava se apagando, tanto que eles estavam prestes a deixar que um senhor morresse enforcado, para não correr o risco de serem pegos. Amália assistindo o grupo se dispersar resolve tentar pela última vez.
— Sim, é uma armadilha e por isso deixaremos que um inocente morra para nos salvar? – Questiona Amália. — Eu pergunto aos senhores, por que estamos aqui? Qual o motivo que nos leva a arriscar nossas vidas nessa luta? Se esquecermos o real motivo pelo qual levantamos nossas espadas, não demorará muito e seremos iguais ou até piores que o Rei Augusto. O rei matará mais um homem inocente, só que dessa vez não será só as mãos dele que estarão manchadas com o sangue daquele senhor, como também a de todos nós.
Os homens se entre olham, Amália não era a única mulher no movimento, mas com certeza era a mais atrevida. Alguns homens abaixaram a cabeça, de tanta vergonha que ficaram ao ouvir tais palavras, outros se sentiram provocados — Quem aquela jovenzinha pensava que era para falar em tal tom com eles? — Apenas algumas mulheres e poucos homens concordaram, a verdade é que quase todos estavam cansados de toda aquela situação.
— Se nos arriscarmos para salvarmos Cristóvão e amanhã for outro o acusado de traição? Não podemos salvar a todos.... Você está certa, não podemos esquecer o que fazemos e para o que fazemos, alguns sacrifícios terão que ser feitos pelo caminho para que possamos atingir nosso objetivo e assim podermos salvar toda Artena... – Diz um dos homens.
O restante do grupo concorda com ele. As pessoas começam a ir embora, Amália e Thiago ficam desapontados, eles sabiam que a causa era maior, mas não conseguiam conviver com a ideia de que teriam que carregar o sangue daquele homem inocente em suas mãos.
— É, minha irmã, nunca pensei que eu diria isso, mas Virgílio faz falta. – Thiago respira fundo e solta todo o ar acumulado em seus pulmões de uma única vez.
— Se eles não farão nada, nós iremos. – Diz Amália ao puxar o irmão para irem embora daquele lugar.
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Em Lastrilha.
Afonso chega com seus homens ao reino da Lastrilha. O príncipe fica encantado com o povoado, de fato Lastrilha era o reino mais poderoso de toda Cália.
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No castelo, o rei Otávio está conversando com o chefe do exército, a princesa Eleanor acompanha a conversa de perto. Um dos soldados entra anunciando a chegada do futuro Rei de Montemor.
— O príncipe Afonso, aqui? – Diz Otávio surpreso, fazia muito tempo que ele não recebia visitas de Montemor, para ser mais exato a última visita tinha sido após a morte de Cecília, quando Crisélia apareceu para anunciar que havia feito um acordo com o rei Augusto (o casamento entre Afonso e Catarina).
— O que será que ele veio fazer em Lastrilha. – Diz Eleanor um tanto curiosa.
— É isso que saberemos agora, deixe o entrar. – Otávio estava animado para ver o homem que Afonso havia se tornado.
Afonso e Cássio entram, Eleanor não deixa de reparar na beleza do futuro rei.
— Majestade!! – Diz Afonso.
— Alteza! Ou deveria te chamar de Majestade também? – Pergunta Otávio.
— Eu ainda não fui coroado. – Responde Afonso um pouco constrangido.
— Mas será em breve. – Otávio se aproxima e estende a mão a Afonso. – Deixe me ver o homem que você se tornou.... Igualzinho ao seu pai, parece que estou o vendo através de você. – Afonso sorri e olha para Eleanor. – Deixe me apresentar a minha irmã, a princesa Eleanor.
— Encantado, Alteza. – Afonso faz a reverência, Eleanor o olha da cabeça aos pés. Afonso era um homem muito charmoso e mesmo que sem intenção, despertava facilmente o interesse de qualquer mulher. – Esse é Cássio, chefe do exército de Montemor e também, meu conselheiro particular.
Eleanor sorri.
— Alteza, sejam bem-vindos a Lastrilha. Nós ficamos sabendo da morte de sua avó, a rainha Crisélia, sentimos muito. – Ela não consegue disfarçar seu olhar exclusivo para Afonso.
— Sim, Crisélia foi uma grande rainha. – Diz Otávio um tanto distante, parecendo lembrar de uma época em que a dor ainda não havia entrado em seu caminho. — Mas o que te traz aqui Alteza? – Diz ele ao voltar a ser o que era agora, um homem frio e objetivo.
Afonso abriu a boca afim de explicar seus motivos, mas foi interrompido por Eleanor antes que qualquer palavra pudesse se formar.
— Meu irmão, Montemor é um reino muito distante, o príncipe e seus homens devem estar cansados, por que não deixa que eles descansem primeiro para, então, depois falarem de negócios? Porque imagino que só há um motivo para uma viagem tão longa e repentina... Negócios, não? – Ela ergue uma de suas sobrancelhas.
Afonso sorri, poucos minutos naquele castelo tinha sido o suficiente para entender porque Lastrilha era um reino tão poderoso. Otávio tanto quanto Eleanor eram objetivos e a palavra "negócios" fazia os olhos de ambos brilharem.
— Vejo que vossa Alteza é uma mulher muito perspicaz. – Observa Afonso ao sorri para ela que retribui, mas logo abaixa a cabeça.
— Você tem toda razão minha irmã. Cuide para que todos sejam atendidos da melhor forma possível, e mais tarde falaremos Alteza. – Otávio sorri, ele está de fato animado em descobrir que tipos de negócios traz Afonso a Lastrilha, visto que em breve Artena e Montemor serão um só reino.
— Por favor Alteza, me acompanhe.
Eleanor sai acompanhada de Afonso e Cássio.
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Catarina anda acompanhada de Delano pelo campo de treinamento na academia militar. Os jovens soldados que ali treinavam em apenas mais um dia de atividades, pararam quando a viram chegar, Catarina era o tipo de mulher que nunca passaria despercebida, jovem, linda, vestida em um lindo vestido de cor prata, seu andado em linha reta, queixo erguido e olhar fulminante, faziam com que até o aluno mais aplicado perdesse seu foco. Todos reverenciaram imediatamente a futura rainha.
Catarina sorriu levemente sem mostrar os dentes.
— Por favor, não parem vossos treinamentos devido a minha presença.
O instrutor da academia olhou para seus alunos que rapidamente voltaram as atividades mesmo contra suas vontades.
— O exército de Artena me parece cada dia mais preparado. – Comenta ela, feliz, ao admirar tudo o que vê.
— Sim alteza, vosso pai tem investido muito em nosso exército. – Diz Delano seriamente.
— Mas ainda não é o suficiente, Lastrilha continua tendo o maior exército de toda Cália. – Todo o brilho que tinham em seus olhos desaparece.
— Mas em breve, devido ao vosso casamento com o rei de Montemor, nosso exército será igual ou até maior que o do rei Otávio, alteza.
Catarina sente um arrepio correr por todo seu corpo, a ideia de ter o maior exército de toda Cália a agradava, não só pela segurança que isso garantiria, mas também pelas oportunidades que se abririam a Artena.
— Vamos Delano, quero dar uma volta pelo povoado antes de voltarmos ao castelo.
— Alteza, talvez, essa não seja uma boa ideia.
— E por que não?
— As pessoas na cidade não estão muito contentes com a decisão do rei em enforcar o velho Cristóvão, podem ser hostis com vossa presença.
Catarina franzi a testa, decepcionada, seu pai não havia desistido daquela loucura.
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Após a refeição e um breve descanso, Afonso saiu com o rei Otávio até área de treinamento do exército da Lastrilha. Era incrível o poder de armamento e o nível de capacidade dos homens do exército. Afonso fica impressionado.
— Realmente, Lastrilha tem um exército muito poderoso. – Diz Afonso ao avaliar as armas do reino.
— Sim, mas nem sempre foi assim. – Diz o rei Otávio ao pegar um arco e flecha e entregar a Afonso. – Antes de toda desgraça chegar até Lastrilha, eu era o tipo de rei que acreditava que fortalecer o exército era um erro, pois a mesma arma que defende é a que ataca. Eu costumava achar que ter um exército poderoso despertaria a incerteza nos outros reinos, provocando desentendimentos e guerras.
— Vossa majestade não pensa mais assim? – Afonso coloca a flecha no arco.
— Hoje eu tenho certeza disso, entendi que não existe meio termo, espere sempre pela paz, mas esteja sempre preparado para uma guerra. – Otávio solta uma flecha que acerta bem próximo ao alvo.
Afonso fica pensativo com as palavras de Otávio. Ele ergue seu arco, se concentra no alvo e solta a flecha, que quase atinge o centro, ele sorri satisfeito. Uma nova flecha atinge em cheio o alvo no saco. Afonso olha para trás onde está Henry parado com o arco nas mãos.

— Alteza, este é o meu sobrinho e futuro rei de Lastrilha, Henry!
Henry, se tornou um homem muito bonito, forte, alto, ele se aproxima e estende a mão Afonso.
— Príncipe Afonso. Espero não ter atrapalhado vossa conversa com meu tio.
Afonso segura em sua mão e sorri por educação.
— Queira se juntar a nós Henry. – Diz Otávio animado. – O futuro rei de Montemor e o futuro rei da Lastrilha podiam disputar uma luta de espadas.
— Meu tio, o rei Afonso está aqui de visita. – Apesar de suas palavras parecerem querer evitar o confronto, a postura de Henry perante a Afonso e o fato dele ter atirado sua flecha no mesmo alvo do príncipe de Montemor, soavam como uma provocação.
— Não, tudo bem, eu aceito. – Afonso era um Monferrato, jamais deixaria que algum monarca o desafiasse daquela forma.
Afonso e Henry, duelavam com suas espadas. Apesar de ser muito treinado e um excelente guerreiro, Afonso fica surpreso com a habilidade de Henry, que consegue o desarmar. O príncipe da Lastrilha aponta a espada para Afonso, eles ficam por alguns segundos na mesma posição, a tensão cresce entre os dois, se aquilo não fosse uma simples demonstração, Henry não pensaria duas vezes em matar o futuro rei de Montemor. Porém ele se recompõe e estende a mão cumprimentando Afonso pela luta.
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Catarina está em seu quarto lendo quando Lucíola entra.
— Alteza, o marquês...
— Não me diga que esse homem está de volta ao castelo. – Ela fecha o livro e revira os olhos, a presença de Istvan definitivamente não era bem-vinda.
— Não só está de volta como já perguntou pela senhorita. Disse que quer acompanha-la na cerimônia de enforcamento de Cristóvão. – É possível notar um certo pesar em sua voz ao lembrar que o amigo iria para forca.
— Como se não bastasse esse espetáculo desnecessário de meu pai, ainda tenho que aguentar o marquês. – Catarina se levanta e vai até a cômoda onde Lucíola começa a pentear vosso cabelo.
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Em uma grande piscina de água, está Otávio, Afonso e Henry, ambos bebem vinho, enquanto, conversam. Algumas criadas os acompanham, lindas mulheres que estão ali para servir o rei, o príncipe Henry e o convidado.
— Então, é chegado o momento de falarmos sobre negócios, o que te traz até Lastrilha, alteza? – Pergunta Otávio após sentir as mãos leves e macias de uma das criadas encostarem em seus ombros, lhe fazendo massagem.
— Eu vim lhe propor um acordo. – Diz Afonso, um pouco incomodado com aquela situação.
— Continue. – Otávio está de olhos fechados, a expressão em seu rosto é de muito prazer.
— Um grupo de expedição de Montemor constatou que há água no monte de Óbidos, região próxima da Lastrilha. – Uma criada se aproxima de Afonso para lhe fazer massagem, mas ele recusa com as mãos. — Como vossa majestade sabe, há anos Montemor sofre com a falta de água e por esse motivo pretendo construir um aqueduto que leve água de Óbidos até Montemor.
Henry observa o comportamento de Afonso, era a primeira vez que ele via um monarca se negar a receber uma massagem de uma bela mulher.
— Eu não compreendo (Otávio abre os olhos e encara Afonso), para que um aqueduto se Montemor já recebe toda água que precisa de Artena?
— Em breve os dois reinos serão um só. – Diz Henry ao se intrometer na conversa. — Não me diga que o Rei Augusto negaria água para seu genro?
— Não haverá mais casamento. Portanto, não pretendendo depender a vida toda de Artena em uma questão de tão urgência como esta.
A notícia surpreende Henry e Otávio.
— Não sabia que o casamento havia sido desfeito. – Comenta Henry enquanto a criada beija seu pescoço.
— Ainda não foi, assim que eu for embora da Lastrilha, pretendo me dirigir a Artena para cancelar o casamento, tudo depende da resposta de vossa majestade a minha proposta. – Afonso encara o rei Otávio.
— Suponho que sua proposta seja a ajuda da Lastrilha na construção do aqueduto? – Sugere o rei.
— Sim, majestade. – Afonso bebe um pouco de vinho.
— Essa é uma obra muito cara e demorada. O que Lastrilha ganharia com isso? – Henry definitivamente conseguia ser desagradável. Era compreensível que como futuro rei da Lastrilha ele participasse daquela conversa, mas suas intromissões incomodavam Afonso.
— Um quarto de todo minério produzido pela mina de Montemor. – Afonso responde se dirigindo apenas ao rei Otávio.
— Com todo respeito alteza, por que pretende desfazer a aliança com Artena? – Henry faz um sinal para que a criada para de o beijar. Otávio apenas observa a conversa do sobrinho com Afonso.
— Eu não pretendo desfazer a aliança com Artena, apenas o casamento, afinal ainda precisaremos de água até que o aqueduto fique pronto, e Artena é o único reino com água suficiente e relativamente próximo a Montemor onde esse transporte de água é possível.
— E você realmente acredita que Augusto manterá o acordo da água após o casamento ser cancelado? – Otávio gargalha após dizer isso, pois sabia que qualquer rei se sentiria completamente ofendido com a atitude de Afonso.
— O acordo é bom para ambos os reinos, o Rei Augusto tem muito interesse em armar seu exército e todo o minério que é recebido de Montemor, é utilizado para esse fim, acredito que ele não esteja interessado em perder isso.
— Vejo que vossa alteza não conhece Augusto, e não entende ainda muito sobre relações entre reinos, romper um acordo feito a anos, pode ser considerado uma grande ofensa, ainda mais se tratando da mão de uma princesa. Já presenciei guerras começarem por muito menos que isso. – O tom de Otávio é quase o mesmo de uma bronca, Afonso nesse momento lhe parece um menino irresponsável brincando de reinar, prestes a começar a uma guerra.
Afonso percebendo que o rei Otávio está o desmerecendo, resolve demonstrar que também sabe jogar.
— Não, se Montemor e Lastrilha estiverem juntos, o rei Augusto jamais seria capaz de declarar uma guerra que definitivamente ele perderia.
— Por que percorrer o caminho mais difícil? O mais plausível seria se casar e se tornar junto com Artena um dos reinos mais poderosos de toda Cália... – Henry continua a provocar Afonso.
— É do conhecimento de todos, que o rei Augusto é um homem ambicioso e sem escrúpulos, e como futuro rei de Montemor não quero meu reino envolvido com alguém como ele. – Afonso responde pela primeira vez olhando nos olhos de Henry, que sorri, satisfeito em ter conseguido a atenção do príncipe.
— Eu preciso pensar sobre isso, irei falar com meus conselheiros, amanhã terei uma resposta. – Otávio se levanta e uma criada rapidamente aparece com uma toalha para cobri-lo. Ele se retira.
— Com vossa licença, eu também irei me retirar. – Diz Afonso ao se levantar.
Henry olha para o corpo de Afonso completamente nu, até que uma das criadas lhe entrega uma toalha. Ele disfarça o olhar e assim que Afonso se retira, ele se afasta da criada que estavam o beijando.
— Vamos saia de perto de mim...
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Tudo está pronto para o enforcamento de Cristóvão. Catarina acompanhada de Istvan assisti a cerimônia do alto de uma das torres do castelo. Augusto acompanhado de Demétrio e do chefe do exército, dá a ordem para que tragam o prisioneiro.
A multidão se agita ao ver o velho e frágil jardineiro ser trazido algemado feito um criminoso. Amália, Thiago e alguns rebeldes estão espalhados entre a multidão, enquanto outro rebelde está em um dos telhados esperando a ordem para atirar nos soldados.
Cristóvão está com a corda em seu pescoço, o guarda espera apenas a ordem do chefe do exército que olha para o rei Augusto. Catarina apesar de não concordar com a decisão do pai, não vira seu rosto em nenhum momento, ela quer ver como tudo acontece, ao contrário de Istvan que só falta esconder a cabeça atrás da barra de seu vestido.
Amália está prestes a fazer o sinal para o rebelde no telhado, quando Thiago segura em sua mão.
— Veja minha irmã. – Ele aponta para o rei Augusto.
O rei ordena que os guardas parem. Ele caminha até Cristóvão para falar com o povo.
— Querido povo de Artena, como todos sabem, os rebeldes roubaram nosso ouro, e digo nosso, porque esse ouro não era somente meu, e sim de Artena, logo de todos vós. Depois eles atentaram contra a minha vida, invadindo o castelo, ameaçando a vida de outros nobres, colocando novamente Artena em risco. E eis aqui o rosto da covardia dos rebeldes. – Ele aponta para Cristóvão. – Esse homem foi deixado para trás para morrer, e vos lhes pergunto, onde estão os rebeldes agora? Já que eles dizem lutar por todos, não seria Cristóvão um de vos? – Ele retira a corda do pescoço do senhor que já não tem mais forças para se manter de pé. – Eu o perdoo, com o poder garantido a mim, eu o liberto.
Cristóvão se ajoelha no chão, não era possível saber se aquele movimento havia sido voluntário ou devido à falta de força em suas pernas. A multidão grita euforicamente o nome do rei que continua seu discurso.
— E a partir de hoje, irei diminuir parte dos impostos cobrados pela corte. Garanto a vós que tudo o que faço é para o bem de Artena, para que um dia nosso reino se torne tudo aquilo que está predestinado a ser.
A multidão grita "Deus salve o rei, Deus salve o rei". Amália e Thiago olham e volta e não acreditam no que estão escutando.
Catarina sorri, seu pai era como um lobo velho, sabia exatamente o que dizer e o que fazer para manipular a todos.
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Otávio está na sala de reuniões com Eleanor e seu conselheiro real,
— Majestade, firmar um acordo com Montemor nessas condições é quase como declarar guerra a Artena. Não sabemos como ficará a situação entre os reinos após esse rompimento. – Alerta o conselheiro.
— Sim, eu já pensei nisso. Mas se eu não aceitar a proposta de Afonso, ele terá que se casar com a princesa Catarina, e em breve Artena terá muito mais poder e irá dispor de um exército igual ou até maior que o nosso. Quem garante que Augusto não declarará guerra após isso?
— A decisão do príncipe Afonso colocará toda Cália sobre tensão. – O conselheiro era um homem prudente e sua longa experiência lidando com questões do reino, sabia que momentos muito difíceis estavam se aproximando.
— A ideia do príncipe não é tão ruim. – Diz Eleanor, com sua voz suave, mas de grande efeito sobre o rei. — Augusto é inimigo quase declarado de Lastrilha, e poder tirar dele essa vantagem, seria uma jogada muito inteligente meu irmão. Ele não declarará guerra a Montemor, se achar que compraremos essa briga, Lastrilha e Montemor juntos disseminariam Artena do mapa da Cália num piscar de olhos. E nós podemos ter muita vantagem nesse acordo.
Otávio fica pensativo.
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No dia seguinte, Otávio está sozinho na sala de reuniões, olhando para a vista de Lastrilha pela janela. Alguém bate à porta.
— Quem é? – Pergunta o rei sem tirar os olhos da paisagem.
— Sou eu, majestade, o príncipe Afonso.
— Entre.
Afonso entra, Otávio vai até ele.
— Mandou me chamar Majestade, suponho que já tenha uma resposta. – Afonso está muito apreensivo.
— Sim. Eu aceito o acordo, mas quero um terço de todo minério produzido na mina Montemor.
Afonso fica surpreso, não passou por sua cabeça que Otávio faria uma contraproposta.
— Com todo respeito majestade, mas a proposta que eu lhe fiz, é justa e qualquer outro valor foge das possibilidades de Montemor.
— Esse é o meu preço. Você aceita ou não? – Otávio estende a mão para Afonso.
A quantidade de minério que Otávio estava pedindo era maior que a quantidade fornecida a Artena pela troca de água, porém o rei parecia irredutível em sua decisão. Ou Afonso aceitava aquele acordo ou teria que ficar para sempre nas mãos do rei Augusto.
— Eu aceito. – Ele aperta a mão do rei, selando assim o acordo.
— Você parece ser tão corajoso como vosso pai, eu só ainda não sei se essa coragem é uma grande qualidade ou um verdadeiro suicídio. Pensar que você seria o homem que casaria com a minha doce Aurora se a vida não tivesse a tirado de mim. – Otávio abraça Afonso que fica pensativo, teria ele feito a melhor escolha? Isso somente o tempo poderia responder.
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Alguns dias depois.
Catarina está em seu quarto, Lucíola está terminando de arruma-la. Ela se dirige até a janela.
— Onde está meu pai, Lucíola?
— O rei saiu com o marquês para cassar.
— Somente meu pai para aturar o marquês... – Ela vê uma pequena tropa chegar ao castelo, mas um homem lhe chama a atenção. – Quem é aquele homem?
Lucíola olha pela janela.
— Eu irei descobrir imediatamente, alteza.
A criada abre as portas do quarto e dá de cara com um soldado.
— Avise a princesa que o príncipe e futuro rei de Montemor acaba de chegar ao castelo.
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