Deus Salve A Todos
3 O Renascimento de Amália
Notas iniciais
Amanheceu e está cada vez mais frio. Ernesto está prestes a colocar a cesta com Aurora na correnteza do rio, quando escuta a voz de uma mulher ao longe chorando.
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Não muito distante, um jovem casal de camponeses conversava perto de uma cova recém cavada. A mulher é alta, magra e possui cabelos vermelhos, ela chora sentada no chão. O homem, um pouco mais baixo e forte, tenta acalmar a mulher.
— Constância, meu amor. Eu sei que é difícil para você... Mas acredito que Deus tenha outros planos para nossa Amália... E nós ainda podemos ter outros filhos.
A mulher continua irredutível:
— Eu não quero outros filhos... Eu quero a minha menina. Será que você não entende Martinho? Ela estava bem, maldita hora que decidimos fazer tal viagem, se tivéssemos em Artena nada disso teria acontecido.
Ernesto ouve tudo ao longe e decide deixar Aurora ali mesmo, entregando assim Aurora e a si mesmo nas mãos do destino.
Constância tinha acabado de perder sua filha Amália devido a uma enfermidade que a menina contraiu durante a viagem que eles fizeram até o Reino de Nápoles, para comprar sementes e ervas. Devido a época, o tempo se encontrava muito instável, ventava muito naqueles dias.
— A culpa é minha, eu não devia ter trazido você e a nossa filha junto comigo. Me perdoe meu amor... Deus me castigou da pior forma possível.
— Para castigar você? Deus tirou a minha filha? Por favor Martinho, não culpe a Deus pelas nossas escolhas. Noss-
Antes que ela pudesse continuar, eles ouviram um choro de criança ao longe.
Constância fazendo sinal para que o marido fizesse silêncio disse:
— Martinho, você está escutando isso?
O homem meio confuso e incrédulo respondeu:
— Parece choro de criança nova. _ Constância se levanta e caminha em direção ao som de choro. _ Constância, volte aqui, deve ser algum filhote de bicho no meio da mata...
Martinho seguiu a esposa e os dois não acreditaram no que viram, a pequena Aurora chorando dentro do cesto. Constância pegou a menina no colo.
— Por Deus!!! É uma criança... Quem pode ter a deixado aqui, sozinha em um lugar como esse...
— É uma menininha. _ Disse Martinho sorrindo e segurando uma das pequeninas mãos de Aurora.
Constância coloca a mão na cabeça de Aurora e percebe que a menina está ardendo em febre.
— Martinho, essa menina está ardendo em febre, precisamos levá-la para Artena agora.
— Mas Constância, nem sabemos quem ela é, onde estão seus pais... Não podemos levá-la assim.
— Não tem ninguém aqui além de nós. Essa criança foi abandonada, se não fizermos algo imediatamente, serão duas covas ali, no lugar de uma. _ Ela aponta para a cova de sua filha Amália ao longe.
— Tem razão. Vamos voltar para Artena, lá veremos o que fazer. _ Ele pega a cesta do chão e antes que possam ir embora na carroça. Constância vai até a cova de sua filha, por uma última vez e respira fundo enquanto lágrimas escorrem por seu rosto.
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Otávio chega em Lastrilha e é recebido por Eleanor na porta do castelo.
— Minha irmã. _ Ele a beija na bochecha. _ Encontraram Aurora?
Eleanor abaixa a cabeça fazendo um sinal negativo. Pedro o comandante do exército se aproxima.
— Majestade! _ Faz a reverência. _ Meus homens já procuraram por todo o castelo, povoado, redondezas, e até na floresta. Nem sinal da Princesa.
Otávio parece desnorteado.
— Mas o que foi que aconteceu aqui? Como que alguém entra e sai desse castelo sem ser notado?
— Estamos investigando Majestade. _ Diz Pedro.
Otávio olha para Marcos e faz um sinal com a cabeça para que ele acompanhe e ajude Pedro. Ambos saem, então, Otávio se dirige a Eleanor.
— E Cecília? Como está a minha esposa?
Eleanor, segura no braço do irmão e caminha com ele para dentro do Castelo.
— Ela está péssima, como esperado para uma mãe em uma situação dessas. Eu mandei que fizessem um chá para ela, agora acredito que esteja dormindo em vossos aposentos.
Otávio segura na mão da irmã:
— Obrigada!!!
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Cecília está dormindo, Otávio se senta na cadeira ao lado da cama e acaricia o rosto de sua amada. Eleanor está parada em frente a porta.
— O que você pretende fazer agora meu irmão?
— Ainda não sei... Preciso averiguar o que foi descoberto até agora, não é possível que não haja nenhuma pista do paradeiro de Aurora ou de quem fez isso...
— Você acha possível isso ser um plano de algum outro Rei? — Ela vai até a janela e abre uma brecha na cortina e olha lá fora. Eleanor começa a se preocupar com a demora de Ernesto.
— Acredito que não, raptar uma princesa provocaria uma guerra entre os reinos, não acredito que algum rei se arriscaria tanto.
Eleanor continua olhando pela janela.
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Em Artena.
Artena é um reino próspero que pertence ao Rei Augusto, um homem misterioso e muito ambicioso, disposto a qualquer coisa para tornar Artena o maior reino de toda Cália.
Constância e Martinho chegam em Artena e vão direto para casa, uma cabana simples e pequena.
— Rápido homem, coloca água para ferver, a febre dessa menina precisa baixar...
Martinho faz o que a mulher pediu. Constância segura Aurora em seus braços e preocupa o marido, perder a filha poderia fazer com que ela depositasse naquele bebê todo o amor que tinha guardado.
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Otávio estava sentado no trono na sala principal do castelo, o comandante do exército Pedro e o conselheiro real Marcos estavam com ele.
— Onde está Ernesto? Quero que ele pare imediatamente o que estiver fazendo e venha até aqui, ele é um dos homens mais inteligentes do reino, precisamos dele aqui. _ Diz Otávio
O comandante do exército com um olhar incerto comunica o rei:
— Vossa Majestade... Eu não sei onde está Ernesto, para falar a verdade não o vejo desde que tudo aconteceu...
Otávio se espanta e Marcos especula:
— Pedro, você acha que Ernesto possa estar envolvido no que aconteceu??
Antes que Pedro pudesse responder, Eleanor entra na sala.
— Me perdoem por me intrometer...
Pedro e Marcos fazem a referencia a princesa e dizem ao mesmo tempo:
— Vossa Alteza!!!
— Ernesto não está em Lastrilha... Porque eu o mandei em uma missão especial.
— Que tipo de missão é essa Eleanor? _ Diz Otávio em tom ríspido.
— Calma meu irmão. Você irá entender quando eu te mostrar uma coisa, me acompanhe.
Todos seguem Eleanor até a ala dos quartos dos serviçais.
— Eleanor não estou entendendo... O que estamos fazendo aqui?? _ Pergunta Otávio já sem paciência.
Eleanor abre a porta e diz:
— Veja você mesmo com seus próprios olhos meu irmão.
Otávio olha para a serviçal que costumava cuidar de Aurora, deitada dormindo em uma das camas.
— Ela está assim desde ontem a noite... Ou temos aqui um exemplo dos contos de fadas infantis ou estamos lidando com um feitiço.
Otávio com olhar furioso diz em volta alta:
— Jardes!!!
— Sim, por isso mandei Ernesto até a região do Pantano, para vigiar de perto a casa de Jardes.
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Todos voltam para o salão principal do castelo, e se deparam com Ernesto parado lá, esperando por eles.
— Ernesto!!! _ Diz Eleanor surpresa, apesar de ter passado o plano com Ernesto muitas vezes, ainda assim tinha medo de que ele colocasse tudo a perder.
— Vossa Alteza!! Vossa Majestade!!!
— Quais novidades você me trás? _ Pergunta Otávio
Ernesto olha para Eleanor e depois para Otávio.
— Jardes fugiu... Deixando tudo para trás. Eu entrei na casa e só tinha um monte de poções e ervas, nada que levasse ao paradeiro da Princesa. Sinto muito Majestade!!!
Eleanor deu um pequeno sorriso de satisfação. Tudo caminhava conforme o plano.
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Cecília estava na varanda do quarto de Aurora, sentada em uma cadeira de balanço. Ela segurava nas mãos uma manta. Estava uma tarde impecável... O por do sol alaranjado dando um tom amarelado as árvores e flores. Otávio se aproxima da esposa, coloca uma de suas mãos sobre o ombro dela e diz:
— Eu vou trazê-la de volta, nem que seja a última coisa que eu faça. E eu te prometo que o responsável por essa dor irá pagar da pior forma possível...
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Otávio enviou um pedido de ajuda ao conselho da Cália para que todos os reinos soubessem do Sequestro da Princesa Aurora de Lastrilha de Lancret e que todos tomassem providências em seus reinos, procurando em cada povoado, em cada casa, por bebês que nem Aurora, que ele enviaria soldados para averiguar as crianças que pudessem ser sua filha.
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Dois dias depois... A mensagem do conselho da Cália chega para todos os reinos. Todos se mostraram solidários nas buscas, exceto o Rei Augusto de Artena.
Sentado em seu trono Rei Augusto estava pensativo. Até que Demétrio interrompeu seus pensamentos.
— Com licença Vossa Majestade, já separei um grupo de homens para as buscas da Princesa Aurora no povoado.
— Demétrio não há necessidade de colocar tantos homens nessa busca. Não se preocupe tanto, isso não é um problema nosso...
— Todos os reinos da Cália estão empenhados nessa tarefa, não acha que deveríamos fazer o mesmo?
— Não, não acho. _ Respondeu sem hesitar. _ Por que essa menina estaria aqui? E além do mais acabei de perder minha esposa ao dar a luz a minha filha Catarina, também é um momento difícil para Artena. Faça o possível, mas não perca muito dias nessa tarefa, temos outras prioridade...
— Compreendo perfeitamente! Eu mandarei os homens começarem agora mesmo.
Demétrio já estava saindo do salão, quando lembrou de algo e voltou.
— Há algo pelo qual os soldados devam procurar? Alguma marca, característica que seja possível reconhecer a Princesa Aurora?
— Na mensagem enviada por Otávio diz apenas que ela é ruiva e têm três meses... _ Ele pensa mais um pouco. _ Ah sim, há uma pulseira no pulso da criança com o nome da mãe, talvez, sirva de algo.
Demétrio assentiu com a cabeça e saiu.
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Na casa de Constância e Martinho, Aurora já está melhor. Constância está cantando para fazer a menina dormir, Martinho está consertando uma cadeira e percebe o quando sua esposa se apegou a criança.
— Agora que ela já está bem, está na hora de irmos até o castelo e dizer que a achamos na floresta a caminho daqui... Os pais dela podem estar preocupados. _ Diz ele observando a reação da esposa.
Constância coloca Aurora no berço que era de Amália e fingi não escutar o marido.
— Constância estou falando com você. Quanto mais cedo fizermos isso melhor para nós.
Constância irritada vira para Martinho e diz:
— Melhor para nós? Ou melhor para você?? Quem está querendo se livrar da menina é você, não eu.
Ele se levanta e vai até ela.
— Não é isso... Mas os pais dela podem estar preocupados...
— Faz me rir Martinho... (ela se afasta) _ Se os pais dessa menina estivessem preocupados com ela, não teriam deixado ela sozinha naquele lugar suscetível a qualquer tipo de maldade. _Ela pega o cesto que Aurora estava dentro e tira os panos para fora e o sacode. _ Vê? Não tem nada, nenhum bilhete, nada que possa identificar essa criança.
A pulseira que Brice escondeu na fresta do cesto caiu no chão, mas Constância pisou em cima para que Martinho não visse.
— Nós não sabemos, talvez, os pais dela tenham sido assaltados, talvez, estejam machucados ou até mortos... _ Ele fala baixo. _ Talvez, ela tenha até sido sequestrada... Imagina o problema que isso nos traria? Você viu as roupas que essa menina estava usando, eram roupas finas... Dignas de alguém da realeza. Por isso eu digo que o melhor é entregá-la ao Rei Augusto antes que acabe sobrando para nós...
— Chega desse assunto... Eu não quero mais falar sobre isso. _ Ela derruba um pano no chão de propósito e ao agachar para cata-lo, aproveita e pega a pulseira que estava no chão.
Martinho segura no braço de Constância e diz:
— Ela não é a Amália...
Os olhos de Constância se enchem de lágrimas.
— Eu sei disso, não preciso que você me lembre que nossa filha está morta... Mas essa menina por algum motivo cruzou nosso caminho.
Martinho solta o braço de sua mulher e sai de casa.
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Martinho anda pelas ruas de Artena, olha as crianças brincando pelo povoado, pensa na filha e na mulher. Ele decide ir até as proximidades do castelo afim de tomar coragem de ir falar sobre a menina perdida, mas antes que ele o fizesse, uma cena lhe chamou a atenção. Guardas do Exército real estava entrando nas casas das pessoas. Ele se aproximou do grupo que assistia a cena e perguntou o que acontecei ali, uma das mulheres lhe respondeu:
— Sequestraram a Princesa Aurora do reino de Lastrilha... O Rei Augusto em solidariedade mandou os guardas revistarem as casas do povoado. Eles estão procurando por meninas ruivas que possam ser a princesa.
Martinho atordoado nem esperou a mulher terminar de falar, saiu apressadamente.
Ao chegar em casa, com os olhos esbugalhados e ainda ofegante disse para Constância.
— Eu sei quem é essa menina...
Constância virou para o marido segurando na mão a pulseira e disse:
— Princesa Aurora, herdeira do trono de Lastrilha.
Constância se sentou e Martinho veio ao seu encontro.
— Como vc sabe?
— Encontrei essa pulseira que tem o nome da rainha, mãe desse bebê. _ Ela estende a pulseira ao marido que a pega.
— Os guardas estão batendo de casa em casa atrás dessa criança. Nós estamos perdidos... Ninguém vai acreditar que não temos nada a ver com isso...
Martinho anda de um lado para o outro desesperado. Constância se levanta e parece estar certa do que é o melhor a se fazer.
— Eles não vão achar nada aqui... A única criança nessa casa é Amália, nossa filha.
— Você está louca mulher? _ Questiona Martinho.
— Não... Raciocina comigo, ninguém sabe que Amália morreu... E ela e essa menina devem ter quase o mesmo tempo de vida.
— Mesmo assim... Eles reconheceriam ela.
— Os guardas nunca viram esse bebê e criança se parece bastante. E te digo que eles estão procurando pela Princesa de Lastrilha, vestida com essas roupas que ela está agora, qualquer um diria que ela é um de nós.
— Se por acaso isso der certo, o que faremos depois, não podemos criar essa menina, ela precisa voltar para o seu reino.
— Depois quando a poeira baixar, nós vamos até o reino de Lastrilha e deixamos ela em algum lugar no qual possa ser achada. _ Constância olhava para o marido com um olhar de súplica.
Por mais maluco que fosse o plano de Constância, Martinho sabia que cedo ou mais tarde os guardas estariam batendo naquela porta e ele não teria outra opção a não ser concordar com o plano. Dito e feito, eles não tiveram muito tempo para pensar, as batidas na porta vieram, Martinho abriu a porta, tentando disfarçar o nervosismo. Os guardas entraram e olharam a menina, Constância a cobriu de forma que mal dava para ver sua cabeça, e assim como ela disse que seria, os guardas não fizeram muita questão de olhar com cuidado, pois estavam buscando uma Princesa e não um bebê enrolado em um monte de trapo. O preconceito e inadimplência dos guardas, acabou salvando Constância e Martinho da forca. Depois que os guardas saíram, mais aliviada Constância pegou Aurora nos braços e com um sorriso disse:
— Bem vinda Amália!!!
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