Deus Deve Odiar-me! - 1 Temporada
9 Os fura encontros
Notas iniciais
Depois de ter dado algumas voltas pela cidade, para espairecer a cabeça, voltei para a faculdade. Sentei-me num dos bancos do jardim da mesma e olhei o relógio, que marcava 15.50h. Ainda é cedo para o Dean chegar. A indignação ainda não me passou. Continuo a perguntar-me o quê que o David pretende, com aquelas atitudes. Se pensar bem, até sei a resposta. Quer acrescentar mais uma conquista à sua lista, que não deve ser tão pequena quanto isso. Mas está tão enganado. Pode continuar a tentar impedir que me dê com o Dean ou com quem quer que seja, que não vai conseguir aquilo que quer. Nunca vou cair na lábia dele.
A esta hora devem estar a ensaiar. Espero que sim, pois têm de ser perfeitos, para quando passarem à final do concurso e para actuar no festival. Sim, eu tenho fé de que eles conseguirão. Já os imagino no palco, a serem aplaudidos.
Dou um saltinho, quando sinto alguém tocar-me no ombro. Viro-me e é o Dean, com um enorme sorriso, que me deixa um pouco tímida.
- Já estás aqui há muito tempo?
- Não. Cheguei há pouco. – Respondi, levantando-me
- Bem, vamos?
- Vamos!
Caminhamos para o carro dele, que estava estacionado mais à frente. Havia estudantes espalhados por todo o lado, deitados nos relvados bem tratados da faculdade. Entrámos no carro e suavemente o Dean arrancou. Era um SUV vermelho, com estofos em pele. A brisa que se fazia sentir com o andamento do veículo fazia o meu cabelo esvoaçar. Fechei os olhos para a sentir, por breves momentos.
Não houve muito tempo para conversar, pois quando dei por mim, o Dean já tinha estacionado o carro e tínhamos chegado.
- É ali. – Informou ele, apontando para uma grande gelataria. Um sonho para os amantes de gelados. – Vamos?
Acenei com a cabeça e sorri. Ele colocou o seu braço pelos meus ombros e olhou para um e para outro lado da rua antes de atravessarmos, certificando-se que não vinham carros. Não que eu tenha gostado muito desse à vontade, mas não me mostrei incomodada. Atravessamos a rua e entramos na gelataria, procurando por um lugar para nos sentarmos. Não estava muita gente, por isso, facilmente arranjámos uma mesa espaçosa. Sentei-me e ele sentou-se à minha frente.
- O que vais querer? – Perguntou o Dean.
- Gelado de baulate! – Disse eu. Era o que eu e o David costumávamos chamar ao gelado de baunilha e chocolate. David, outra vez.
- Baulate? – Perguntou, confuso.
- Baunilha e chocolate. – Respondi, sorrindo.
- Ah! – Soou ele, rindo. – Bem pensado! Eu vou querer menta e limão.
- Nada má escolha!
Também é um dos meus preferidos. Logo depois o empregado aproximou-se e anotou os pedidos, voltando para os ir buscar. Rapidamente voltou com os pedidos. Os gelados tinham um excelente aspecto, até dava pena comer.
- Olha… – Disse o Dean, brincando com a colher no gelado e depois erguendo o olhar, encarando-me. – Eu não sei se já ouviste falar de mim…
- Falar de ti?
- Sim. Na faculdade há pessoas que não vão lá muito com a minha cara. Na verdade, odeiam-me.
- Porquê? – Questionei. Eu sei, o David é um deles.
- Não sei! Fartam-se de inventar coisas para que se afastem de mim! – Desabafou, enquanto comia o gelado. – Vê lá, até me põe com fama de engatatão!
- E não és? – Pergunto eu, saboreando o meu gelado.
- Não. O maior engatatão da faculdade é o David. – Disse. – Ele é teu amigo, eu sei… Mas ele não é santinho.
- Ele fez-te alguma coisa? – Perguntei. Parece-me que aqui há gato. Noto um certo ódio no tom do Dean. – Podes contar-me.
- Bem… Ele roubou-me a namorada. – Respondeu, deixando-me espantada. Eu sabia. O David é um engatatão mas nunca pensei que chegasse ao ponto de roubar as namoradas aos outros! – A Nicole era minha namorada… Mas trocou-me por ele.
- Eles namoram? – Perguntei, aumentando o meu grau de espanto.
- Sim. E ele faz questão de se andar sempre a pavonear com ela à minha frente. – Revelou ele, continuando a comer o gelado. – Depois o engatatão sou eu…
- Nunca pensei…
- Pois, acho que não são coisas que ele desabafasse contigo. – Disse. – Talvez com os amigos dele, que também não me acham muita piada. Principalmente o Lefebvre.
- Conheces o Seb? – Perguntei, admirada olhando-o enquanto comia o meu gelado.
- Conheço. Eu tinha umas disciplinas com ele, o ano passado… – Declarou, encolhendo os ombros. – Mas ele também não gosta muito de mim.
- Porquê? Não me digas que também te roubou a namorada!
- Não. Não sei o porquê… Devem ser influências do David.
Isto é muita informação para a minha cabeça. Muita desilusão. Como é que alguém consegue desiludir-me tanto? Eu nunca deixei que nada nem ninguém me magoasse, que me fizesse sofrer mas ele consegue. Porquê que ele é assim? Ele mentiu-me. Disse-me que não tinha namorada e afinal, namora com a árvore de natal. Pior, porquê que eu me importo? Porquê que eu fico magoada? Não entendo, mas também não quero saber.
- Mas vamos mudar de assunto! – Sugeriu o Dean. Acho que deixei transparecer que a conversa me afectou.
- Sim, é melhor.
- Queres provar? – Perguntou ele, apontando para o seu gelado.
Acenei afirmativamente e inclinei-me para a frente, enquanto ele me apontava a colher. O sabor de menta misturado com o do limão é realmente uma delícia. Enquanto saboreava o gelado, olhei instintivamente para a rua e vi um grupo de cinco rapazes a atravessar a mesma em direcção à gelataria. Arregalei os olhos e engoli em seco. O quê que eles estão aqui a fazer? Decerto que não ia demorar muito a saber, pois eles entraram e sentaram-se na nossa mesa, como penetras e com o maior à vontade. O David e o Seb sentaram-se ao meu lado, um de cada lado e o Jeff e o Chuck do lado do Dean, que os olhou com ar espantado. O meu irmão puxou uma cadeira e sentou-se nela ao contrário na cabeceira da mesa, apoiando os braços nas costas da cadeira.
- Que romântico! – Soou o Pierre, em tom irónico e fazendo-me um sorriso de orelha a orelha quando reparou no meu olhar reprovador.
- Também acho. – Concordou o Chuck, olhando o Dean de cima a baixo.
- O quê que vocês estão aqui a fazer? – Perguntei rudemente, cruzando os braços e encostando-me para trás.
- Viemos comer um gelado. – Respondeu o Jeff, olhando também para o Dean com ar sério, dirigindo depois o seu olhar para mim.
- Ai sim? Mas tu és intolerante à lactose, Jeff! – Resmunguei, descruzando os braços.
- E que tem? – Perguntou, encolhendo os ombros. – Como na mesma gelados!
- Então, Dean, o geladinho, está a saber-te bem? – Perguntou o David, que estava sentado ao meu lado direito e com o seu braço esquerdo por trás das minhas costas, apoiado no banco.
- Por acaso estava, mas antes de teres aparecido. – Respondeu o Dean, de sobrancelha erguida e ar sério encarando o David.
- Au… Essa doeu! – Gozou David, pondo as mãos à frente do coração e fingindo-se ofendido.
- A sério, eu não vou ficar aqui a ouvir isto! – Barafustei e virei-me para o lado do David. – Deixa-me sair!
- Onde vais? – Perguntou ele.
- Sai! – Gritei, empurrando-o. Ele levantou-se e ficou a olhar para mim. Afastei-me, com intenções de me ir embora, mas o David agarrou-me o braço. – Larga-me!
- Não enquanto não me disseres onde vais!
- Não tens nada a ver com isso! – Respondi, puxando o braço.
Saí da gelataria e caminhei pelo passeio fora, rezando para que passasse um táxi rapidamente. Abano a cabeça, ainda sem entender bem o que acabou de se passar. Senti novamente alguém a agarra-me o braço. David, de novo.
- O quê que tu queres? – Perguntei, virando-me para ele com ar sério.
- O quê que se passa contigo?
- O quê que se passa comigo?! – Gritei. – O quê que se passa contigo! Não sei mais quem tu és! Pensei que fosses uma pessoa e tu és outra! Desiludiste-me!
- O quê que estás a dizer…?
- Mentiste-me! Disseste que não tinhas namorada e tens! – Exaltei-me. Passei as mãos pela cara e virei-me de costas. Sinto os olhos a arder. Não quero chorar. Não posso.
- O quê?! Mas eu não ten…
- Não mintas mais, David! – Interrompi, virando-me para ele. – Eu sei da Nicole! Eu sei que a roubaste do Dean! Como é que foste capaz?!
- O quê que estás para aí a dizer?! – Questionou ele, um pouco exaltado.
- O que ouviste! – Respondi no mesmo tom. – Eu tinha razão ao dizer que és um playboy! E agora tenho a certeza! Volta lá para a tua namoradinha e deixa-me em paz!
- Eu não sei o quê que ele te andou a contar, mas isso é mentira!
- David, pára! Pára!
- E porquê que estás assim? – Perguntou ele, baixando o tom de voz.
- Porque… Eu.. Ahm… – Gaguejei. Como é que posso responder, se nem eu própria sei a resposta? Não sei porque estou a dizer isto, não sei porque estou incomodada, não sei porque sinto este aperto no coração nem esta imensa vontade de lhe bater. Abano a cabeça e viro-lhe costas simplesmente e caminho. Mas ele agarra-me o braço novamente.
- Espera… – Pediu, calmamente, aproximando-me dele e olhando-me nos olhos. – Responde-me.
- Não tenho nada para te dizer. – Respondi, quase sem fôlego. Não me lembro da última discussão assim que tive com alguém. Não gosto de discutir. – Larga-me, por favor…
- Larga-a, não ouviste?
Espreitei para trás do David e era o Dean. Estava sério e olhava David com cara de poucos amigos. O David largou-me o braço e virou-se para o Dean, aproximando-se dele. Ficaram a olhar-se e por momentos passou-me pela cabeça que se fossem pegar à porrada. É óbvio que não se suportam e até entendo porquê. O que o David fez, não se faz. Mas não quero que andem à batatada. Meti-me entre eles e afastei-os com os braços, antes que o meu receio se concretizasse. O Dean deu uns passos atrás e colocou-me o braço pelos ombros.
- Anda, eu levo-te a casa. – Disse o Dean, sem deixar de olhar para o David. O David olhou-me nos olhos e franziu o sobrolho. Desviei o olhar e virei costas, acompanhada do Dean, que mantinha o seu braço pelos meus ombros, enquanto caminhávamos na direcção do carro.
Fale com o autor