Deus Deve Odiar-me! - 1 Temporada
3 Oh não! Outra vez tu?!
Notas iniciais
O repetido e irritante tocar do despertador. Viro-me para o lado e estico o braço, desligando-o. Como odeio ter de acordar cedo. Levanto a cabeça e ainda com um olho aberto e outro fechado, olho para as horas. 7 horas. Devia ser crime obrigar as pessoas a levantarem-se tão cedo! Afastei os cobertores para trás, espreguicei-me, tentando ganhar coragem para sair da cama. É algo complicado. É uma luta que tenho de travar. Não me lembro de ter adormecido. Estava tão nervosa que pensei que não conseguiria pregar olho. A muito custo, lá me levanto e vou até à janela, para ver como está o tempo. Felizmente não está a chover, mas há vestígios de que choveu e bem, durante a noite. Parece que vou conseguir chegar à praça de táxis seca. Espero eu. Vou até à minha casa de banho e tomo um duche quente. Quem me dera poder ficar aqui. Mas não posso e tenho de me despachar! Rapidamente escolho uma roupa apropriada para o primeiro dia. Tive sorte, a minha transferência coincidiu com o início das aulas e assim não tive de perder nenhuma. Umas calças pretas justas, as minhas habituais botas para a chuva, uma camisola quentinha e um casaco. Apesar de chuvoso, o tempo nem está muito frio. Faço a cama e arrumo o pijama. Faço a também habitual maquilhagem. Um pouco de sombra, eyeliner e rímel. Perfume e umas gotas de creme para as mãos. Estou pronta. Passo pelo quarto do Pierre e espreito pela porta entreaberta. Ainda está a dormir. Dá mesmo vontade de saltar para a cama e acordá-lo! Mas depois tinha de sofrer as consequências. Ele passa-se quando faço isso. Mas hoje escapa, vou deixá-lo dormir. Tem de reunir energias para o que se avizinha. Se quer formar uma banda com os amigos, terão de se esforçar.
Finalmente vou conhecer pessoalmente os amigos dele. Chuck, que será o baterista, Jeff, que será um dos guitarristas, David, o baixista e Sebastien o outro guitarrista. Já falei com eles muitas vezes. Mas uma coisa é ao telefone ou pela internet, outra é pessoalmente. Eles são simpáticos e divertidos. Aliás, coincidência ou não, são quase tão malucos como o meu irmão. Será que se apega? Estou nervosa para isso também. Sempre me dei bastante bem com o Sebastien. Não sei porquê, sempre senti uma proximidade maior com ele. Ele consegue ser tão querido e tão meigo. Atencioso e preocupado. Tenho um carinho especial por ele desde sempre. Ele é apenas uns meses mais velho. Seis, penso eu. Como tinha excelentes notas, avançou um ano.
Passo pela cozinha para pegar uma maça. Não estou com fome, devido ao nervosismo. Não sei como são as pessoas daqui. Na faculdade onde eu estava, em São Francisco, havia vários tipos. Os chamados betinhos, que geralmente andavam sempre isolados e agarrados aos livros; os nerds, que passavam os intervalos e aposto que todos os tempos livres agarrados ao computador em jogos online; os populares, que se julgavam mais do que toda a gente e tentavam sempre humilhar os outros e os terroristas. Eram assim chamados porque só faziam asneiras. Passavam a maior parte do tempo a planear como haviam de sabotar as aulas e fazer a vida negra aos professores. Eu talvez me encaixasse um pouco aqui. Mas quem o dissesse, eu diria que é mentira! Pois, talvez daí o meu irmão me ter dito para me manter afastada de problemas. Bem, não irei fazer nada… Pelo menos, hoje.
Caminhei pela longa rua de minha casa, que vai dar à grande avenida. O céu está nublado e ameaça chover, de novo. É melhor caminhar rápido e apanhar o táxi ou para além de encharcada, vou chegar atrasada. E odeio atrasos.
Como eu previa, não demorou muito a cair os primeiros pingos. Comecei a correr e rapidamente começou a chover fortemente. Não trouxe guarda-chuva. Não me lembrei e também não é objecto com que eu goste de andar. Irrita-me. Corri para o meio da rua, quando avistei um táxi livre e fiz-lhe sinal para que parasse. Entrei e fechei a porta. Estou toda encharcada. Dos pés à cabeça. Quando olhei para o lado, assustei-me. Um rapaz loiro, giro, por sinal, estava ao meu lado. Tinha acabado de fechar a porta dele e olhava-me com ar espantado. Estava igualmente encharcado. Pelos vistos, não sou a única que anda sem guarda-chuva. O seu cabelo molhado colava-se ao seu rosto, tal como o meu. Afastei o meu cabelo e fiquei furiosa.
- Este táxi é meu! – Disse eu.
- Compraste-o? – Perguntou-me ele, rindo.
- Não! Mas eu entrei primeiro.
- Desculpa? E eu vi-o primeiro! E preciso mesmo do táxi, estou atrasado.
Não acredito que isto me está a acontecer. Só me faltava agora um loiro, armado em engraçadinho, roubar-me o táxi! Não estou com paciência. Já estou encharcada e já, posso perfeitamente procurar outro táxi. Convém que não demore muito ou ainda chego atrasada. Olho para o relógio que marca 7.45 horas. Tenho um mini ataque de coração. Tenho apenas quinze minutos para estar na faculdade ou vou começar mesmo mal o último bimestre.
- Tudo bem. Fica com ele!
Saí do táxi e corri para o passeio, tentando abrigar-me dos solitários pingos de chuva que ainda persistiam em cair. Aquela chuvada deve ter sido de uma nuvem que ia a passar, pois já só caem umas inocentes pingas. Tenho as calças ainda mais coladas às pernas do que é suposto. O meu cabelo pinga. Que bela maneira de começar o dia! Será que pode piorar? Dei uns passos e senti uma mão pousar-me no ombro esquerdo. Virei-me e era o loiro.
- O quê que queres? Já não tens o táxi? Vai, antes que ele se vá embora! – Gritei. Não entendo o quê que ele está aqui a fazer. Já tem o táxi, porque não vai à vida dele?
- Queria pedir desculpa. Fui estupido. Podes ficar com o táxi, eu apanho outro.
O quê? Depois de eu ter saído? Não quero, obrigado. Como assim, já estou gelada e é certo que vou ficar constipada, não vou ceder. O rapaz continua a insistir para que eu fique com o táxi. Olhei-o com ar sério. Acho que o assustei, porque a sua expressão mudou. É bom que tenha assustado, para saber que não se deve meter comigo e para aprender a não me roubar o táxi. Não que eu espere que isto volte a acontecer! Nem pensar.
Os seus olhos são meigos e o seu sorriso causa-me um certo arrepio. Tenho a sensação que o conheço mas não me lembro de onde. Se calhar é so impressão minha. Finalmente fiz-me entender. Percebeu que podia ficar com o táxi. Virei costas e continuei a andar. Com esta confusão, é certo que vou chegar atrasada. Mas devo ter um anjo da guarda muito generoso, pois nem cinco minutos tinham passado, quando avistei outro táxi. Fiz sinal e este aproximou-se do passeio. Entrei e olhei imediatamente para o outro lado, para me certificar que não tinha entrado mais ninguém.
- Para a Universidade McGill, por favor.
Estou morta que os nossos pais nos enviem os nossos carros. Poderíamos ter vindo de carro, mas é algo impensável. De avião é muito mais comodo e além disso, não podia perder tanto tempo numa viagem. Tenho um curso para terminar! Mas os carros davam jeito. Não sei se aguento muito tempo andar a correr atrás de táxis! Muito menos se tiver alguém a roubarmos!
Gosto de Montreal. Tem ruas movimentadas, montes de lojas de tudo e mais alguma coisa e os restaurantes parecem ser bastante bons. Tenho de vir com o Pierre a um destes! Quando o táxi pára, tenho diante de mim um edifício enorme com relvados bem tratados e algumas árvores em frente. Uma edificação antiga, mas em perfeitas condições. Dirigi-me para a entrada, pelo trilho construído entre relvados. Quem vê a universidade de fora, não diz como ela é por dentro. Toda modernizada. Um longo e limpo corredor com algumas portas. Tenho de encontrar o gabinete do conselho, para que me dêem as minhas chaves do cacifo e para me apresentar. Reprografia, papelaria, secretaria, enfermaria… Onde raio fica o conselho directivo? Isto está demasiado silencioso. Não há ninguém. Já devem estar todos nas aulas e eu aqui, perdida nesta enorme universidade. Sorte a minha! Dou uns passos e há um corredor perpendicular. E agora? Para que lado? Bem, direita. Dirijo-me para o lado direito mas continuei a olhar para uma das portas do lado oposto. Olho para a frente quando percebo que fui literalmente contra alguém.
- Peço desculpa! – Disse eu. Sou um desastre, já sei. Já sinto as minhas bochechas a rosarem. Levanto o rosto e para meu espanto, lá está ele outra vez no meu caminho. – Tu?!
- Eu. – Disse ele, a rir. – Estás perdida?
- Estou perdida e atrasada, graças a um idiota que me roubou o táxi.
- Eu não te roubei nada! Eu disse-te que podias ficar com ele! – Respondeu ele. Pareceu-me chateado. Está bem, até posso ter sido mazinha agora, mas não quero saber. Só quero encontrar o conselho e saber a minha turma e o meu horário! Quando o Pierre tratou da minha transferência so disseram que hoje entrava às 8 horas e para ir até ao conselho.
- Está bem, como queiras! – Despachei eu, desviando-me dele.
- Precisas de ajuda?
- Da tua, não.
- Deixa-me adivinhar: é o teu primeiro dia e andas à procura da sala do conselho para te darem o horário e saberes qual é a tua turma. Acertei?
- Sim. E agora, queres um prémio? – Perguntei em tom irónico. Irrita-me quando rapazes giros têm razão em algo sobre mim. Não sei porquê, mas dá-me vontade de lhes bater. Ainda mais a este, que tem a mania.
- Quero. Se eu te levar ao gabinete, almoças comigo? – Perguntou ele, aproximando-se de mim e sorrindo. Fiquei estática. Aquele sorriso fez o meu coração bater descompassadamente. Está maluco, só pode. Mas ele pensa que vou almoçar com ele? Está enganado. Mas a verdade é que eu preciso mesmo de encontrar o gabinete.
- Não tens aulas?
- Graças à brincadeira dos táxis cheguei atrasado. Mas também não tenho grande vontade de ir para a aula! História da Música e aquela professora é uma seca… – Desabafou ele. Boa, um baldas. Já que está com tanta vontade de ir para a aula, vou aproveitar para que me leve ao gabinete, mas que esqueça lá o almoço!
- Diz-me lá onde é o gabinete!
Não imagino o que lhe tenha passado pela cabeça naquele momento, mas um sorriso enorme estampou-se no rosto do loiro. Se as pessoas aqui forem todas como ele, eu vou dar em doida na primeira semana! Não disse nada, agarrou-me a mão e guiou-me para o lado contrário. Eu sabia que devia ter ido para a esquerda! Ao fundo, viramos à direita e um novo corredor surgiu. Mais portas. Demos uns passos e numa porta à direita tinha uma placa a dizer “Gabinete Executivo”. Puxei a mão e fiquei por momentos hipnotizada olhando-o. Continuo com a sensação de que o conheço. E aqueles olhos cor-de-mel incomodam-me. Não é muito mais alto do que eu e apesar de magro, tem o corpo bem definido. Tem umas mãos macias.
- Obrigado. Ah, e esquece o almoço. – Disse eu, sorrindo. Não lhe dei tempo para proferir uma única palavra, rodei a maçaneta da porta e espreitei. Um senhor de fato cinzento e gravata preta fez-me sinal para entrar e para me sentar.
- Magda Bouvier, estava à tua espera.
- Peço desculpa pelo atraso mas tiv…
- Não tem qualquer problema. Vais ter tempo para te habituar a tudo. – Interrompeu ele, sorrindo e esticando-me uma folha de papel e uma chave. – Tens aí o teu horário. Sempre que precisares de alguma coisa, não hesites em falar comigo.
Agradeci e saí do gabinete. Pelo menos ainda me lembro do caminho por onde o… Nem o nome dele sei! Não importa. Pelo menos sei voltar onde ele me encontrou. Lembro-me de ter visto uma escadaria no corredor principal. As salas devem ser no piso de cima. Subi a escadaria infindável e observei o horário. Sala 12 – História da Musica. Boa, segundo o ladrão de táxis, esta disciplina é uma seca. Seca ou não, vou ter de a fazer! Caminhei pelo corredor até encontrar a sala 12. Parei em frente à porta e respirei fundo. Sinto o corpo a tremer e as mãos a suar. Limpo as mãos às calças, que já estão praticamente secas. Não ouço barulho, apenas a voz de uma mulher a explicar qualquer coisa. Tem uma voz fina e agoniante. Parece que me fura os tímpanos. Ganho coragem e bato finalmente à porta. A mesma voz diz para eu entrar. Abri a porta e entrei. Deparando-me com uma mulher magra e alta. Loira, com o cabelo enrolado num puxo, óculos na ponta do nariz e um livro na mão.
- És a nova aluna, não é? Apresenta-te à turma e escolhe um lugar para te sentares. Temos muita matéria para dar! – Disse ela, rapidamente. – Como te chamas, de onde vens e porquê que vieste para aqui?
Credo. Não é só a voz dela que é irritante! Toda ela é. Gosto pouco que me falem no tom que ela usou, mas vou ter de aguentar. É uma professora e não convém começar já a fazer inimizades. Virei-me para a turma e tentei lembrar-me do que ela tinha pedido para eu dizer.
- O meu nome é Magda Bouvier. Sou de Montreal mas vivia em São Francisco. Como me mudei de novo para cá, tive de pedir transferência para aqui, porque é a única universidade que tem o meu curso.
A loira oxigenada acenou com a cabeça. Não tenho mais nada a acrescentar. Não sou de falar da minha vida com pessoas que acabei de conhecer. Como esperava, fez-me sinal para que me sentasse. Olhei a turma, procurando um lugar. Não percebo a parte do “escolhe um lugar” se só há um. Encaminho-me para a carteira, observando discretamente a turma. Há pessoas de todo o tipo. Nerds, betinhos, populares e terroristas. Sento-me. À minha frente está um rapaz que tem aspecto de ser “fresco”. Quando olho para o lado, tenho de novo uma surpresa. Ele. Outra vez.
- Olá outra vez. – Disse-me ele, sorrindo.
Olhei-o com ar sério. Não acredito que estamos na mesma turma. Como é possível? Isto é perseguição! Tentei ignorá-lo. Abri a carteira e tirei o caderno e o estojo. Não sei lá o que a coisa irritante está a dizer, mas é melhor apontar. Não me parece que seja daquelas professoras que falam de coisas que não têm nada a ver com a matéria a dar. Pelo contrário, parece ser daquelas que vive para o trabalho e não dá abébias aos alunos. Estou tramada. Tento concentrar-me no que ela está a dizer mas não consigo. É como se estivesse ali apenas em corpo e a minha mente vagueasse por aí. Sinto um arrepio. Sinto-me observada. Olho pelo canto do olho para o meu lado esquerdo e percebo que ele está a olhar. Foco o meu olhar no caderno. Continuo com a estranha impressão de que o conheço. Sou um desastre com caras, não tenho culpa.
Apoiei o queixo na mão. Estou quase a dormir. Não vou aguentar muitas aulas como esta. Olho para o relógio de cinco em cinco minutos. O tempo parece não passar. Estou cansada de ouvir aquela vozinha fininha e irritante. Olho discretamente para o lado. A mesa dele fica mesmo ao lado da janela. Está tão quieto… O quê?! Ele está a dormir?! Tem a cabeça apoiada na mão e o ombro encostado à parede. É mesmo um baldas! De repente assusto-me com um berro da loira oxigenada.
- David! Já não chega chegares tarde, ainda te pões a dormir?!
Ele deu um salto na cadeira. Estava mesmo a dormir. Então chama-se David. Bonito nome. Adoro. Mas um ladrão de táxis não devia ter um nome tao bonito! Ladrão de táxis! Agora é que estou a perceber o porquê de ele ter dito que precisava mesmo do táxi. Coitado. Chegou atrasado por causa da nossa confusão… Que pena! Eu também! Não quero saber. Não tenho pena! Quando voltei à terra, reparei que dois enormes olhos verdes por detrás de uns óculos na ponta do nariz me observavam de perto. Assustei-me novamente. Não tinha ouvido que ela tinha falado para mim.
- Ainda agora chegaste e já estás na lua?! – Ralhou-me ela, com aquela vozinha… Ai, se eu pudesse, tirava-lhe o pio! – Pois bem, vocês os dois estão de castigo. Amanhã ficarão cá depois das aulas a fazer resumos da matéria que dei hoje!
Boa! Começo muito bem. Mas porquê que eu me ponho a pensar nele? Porquê que me preocupo? Até a pensar me causa problemas! Agora para além de levar com um castigo, ainda o vou ter de cumprir com ele.
O resto da manhã passou mais rápido. Eram disciplinas práticas, as minhas preferidas. Adoro tocar instrumentos. Adoro especialmente o baixo. E, para mal dos meus pecados, é o que melhor o David toca. Deu para perceber que esta é mesmo a praia dele. Ele toca um pouco de tudo. Bateria, guitarra, piano. Mas foi no baixo que lhe notei um brilho no olhar e um sorriso enorme nos lábios. Era como se ele e o baixo fossem um só. Ele é bom. Muito bom. Mas não me sinto intimidada. Eu toco muito melhor! Baixista ladrão de táxis…
Tirei o telemóvel do bolso. O meu irmão estava a ligar-me. Queria saber como estava a correr o meu primeiro dia na faculdade. Perfeitamente bem. Não podia estar a correr melhor. Não é necessário dizer que é so mais um motivo para o Pierre pegar comigo. Perguntou-me se eu ia almoçar a casa, pois os amigos iam lá almoçar, mas infelizmente tenho uma aula após o almoço e só depois irei para casa.
- Não, só depois da aula. Também te amo. – Respondi, desligando a chamada depois.
- Namorado controlador? – Perguntou David, encostando-se aos cacifos ao lado do meu. Fechei o meu cacifo e encarei-o.
- Não é da tua conta! – Respondi. Que lata. O quê que ele tem a ver com isso? Afastei-me, dando passos curtos na direcção oposta. Percebi que ele me seguia.
- Deixa estar. Contas-me ao almoço.
Ao almoço? Mas eu não tenciono almoçar com ele! Teimoso! Tão depressa se aproximou como se afastou. Não sei o porquê de tanta insistência mas conheço bem o tipo dele. É um convencido que pensa que todas as raparigas lhe caem aos pés com um piscar de olhos. Admito, ele é giro. Muito. E tem algo… Não consigo explicar. Mas não vou cair na rede dele. Não serei mais uma. Além disso, ele irrita-me. Bastante.
Na hora do almoço, saí da universidade e fui almoçar a um café perto. Não queria correr o risco de me cruzar com o David no refeitório. Não pretendo fazer já inimigos nem que as pessoas me achem estranha, mas é ainda tudo novo para mim. Primeiro preciso de me ambientar. Os meus colegas de turma parecem ser de outro planeta. Até um gótico. A sério? Mais nada? Não sou preconceituosa, mas tenho preferência pelos emos. Como o David, amigo do meu irmão. É querido, é fofinho. Tem um ar doce. David? Coitado, tem o mesmo nome que o ladrão de táxis! Mas agora que penso nisso, como estará a correr o almoço do meu irmão e dos amigos? Bem, espero. Estou ansiosa por chegar a casa. Quero conhecê-los. Na verdade, quero conhecer especialmente um. Sebastien.
Acabo de almoçar e volto para a universidade. Faltam cinco minutos para a aula começar. Francês. Apesar de toda a minha vida ter falado inglês, o francês é a minha língua materna. Os meus pais nunca nos deixaram esquecer isso. Em casa, por vezes falávamos mais na língua materna. Não é por ser canadiana, mas adoro a língua francesa. É tão romântica. Começam a chegar os meus colegas de turma e o professor também não demora a entrar na sala. Observo a cadeira do lado vazia. Onde estará ele?
- Estou a ver que falta o David. Para variar deve estar atrasado. – Rezingou o professor e depois apontou para mim. – Tu aí, como te chamas?
Levantei-me. Sempre me ensinaram isso. Apesar de já estar farta de o repetir e de os meus colegas estarem fartos de o ouvir, digo o meu nome. O homem ficou um tanto estranho. Para dizer a verdade, fico assustada quando as pessoas me olham daquela maneira. Fico sempre com a sensação de que disse algo de errado. Mas eu não disse nada de mal, apenas disse que o meu nome é Magda Bouvier. Há mal?
- És filha do Réal Bouvier?
- Sou, sim…
Desenhou-se um pequeno sorriso no rosto do homem, já um pouco careca, mas bem-parecido. Ainda mais apatetada fiquei. Não entendo e sinceramente, nem sei se quero perceber. Talvez seja uma das muitas pessoas a quem o meu pai ajudou a construir a empresa ou a comprar a casa ou… qualquer coisa. Não houve muito tempo para que ele pudesse dar-me qualquer explicação, pois o David entrou na sala. Estava com ar divertido e a sorrir. Realmente, o seu sorriso é algo lindo.
- Se continuas a chegar atrasado, não vais chegar ao fim do curso! – Ralhou o professor.
O rapaz continuou a sorrir e encolheu os ombros, sentando-se no seu lugar. Não me pareceu muito preocupado com o aviso do professor. O meu olhar fixou-se nele. Encostou-se na cadeira, como se estivesse numa esplanada. Sim, concordo com o professor e só o conheço há umas horas. Não sei que notas tem, mas não devem ser grande coisa.
Após toda a gente ter abandonado a sala depois do toque, apenas eu e o David ficamos lá. Eu tentava arrumar as coisas para dentro da carteira, mas parecia que tudo me caía. Olhei para o lado e lá estavam de novo aqueles olhos lindos a olhar para mim. Estava com o meu estojo na mão.
- Ah, obrigado. – Respondi, pegando no estojo e metendo-o na bolsa.
- E o almoço?
- Ainda não esqueceste?
- Nem vou esquecer. – Respondeu ele, piscando o olho.
Bufei. Ele irrita-me tanto. É assim que conquista as raparigas? Pisca-lhes o olho e elas caem-lhe aos pés? Desta vez corre-lhe mal.
Pego na carteira e encaminho-me para o corredor, mas ele vem atrás de mim, resmungando qualquer coisa que eu não percebo e, sinceramente, não quero perceber. Apenas quero ir para casa. Estou com aquela sensação de “dia que nunca mais acaba”. Sinto agarrar-me o braço, páro e olho-o.
- Que queres? – Pergunto rudemente.
- Estás a ignorar-me?
- Sim, ainda não percebeste? – Questionei, puxando o braço e dando um passo com o embalo. Ouvi um barulho de algo a cair e o som de água. Quando olhei para o chão, vi-o inundado e cheio de espuma. Sorte a minha, entornei o balde das limpezas. – Bonito!
- Eu sei, obrigado. – Respondeu com ar importante.
- Não és tu! – Respondo, afastando-me do rio de água. – É culpa tua!
- Minha? Não fui eu quem entornou o balde.
- Mas foi por culpa tua!
- Não, não é! Se não fugisses de mim, isto já não acontecia. – Respondeu, voltando a aproximar-se de mim.
- Se não fosses tão convencido e tão irritante, isto não acontecia! – Respondi, afastando-me novamente. Continuamos a discutir, ali no meio do corredor até que se aproximou um homem com uma esfregona na mão, que suponho eu, seja o funcionário das limpezas. Quando viu o balde entornado, olhou-nos com cara de poucos amigos e perguntou-nos quem tinha feito asneira. – Foi ele! Bem, eu tenho de ir…! Até amanhã!
- Mas… – Começou David, com os olhos esbugalhados e com uma expressão um pouco estranha, não sei se chateado por eu o ter incriminado.
Finalmente, as aulas acabaram. Pelo menos, por hoje. Nunca tive um primeiro dia de aulas como este. Saí da faculdade e subi a rua, à procura de um táxi. Não demorou muito e passou um. Rapidamente cheguei a casa. Como não levei chave, tive de bater à porta e quando esta se abriu o meu coração parou repentinamente.
- Olá. – Disse me ele, com um sorriso encantador.
- O-ola. – Gaguejei. Bonita maneira de começar, mas perante aqueles olhos azuis, não consigo raciocinar. Entrei e ele fechou a porta, aproximando-se de mim, sorrindo.
- É o David? – Perguntou o Pierre, vindo da cozinha.
- Não. – Respondeu o Sebastien. – Melhor.
- A minha maninha já chegou! – Disse ele, abraçando-me. – Vou apresentar-vos como se não se conhecessem.
Cumprimentei todos e achei-os super simpáticos, como sempre achei. Um pouco mais atrevidos do que o que eu pensava, mas creio que nos vamos todos dar bem. Passaram-se alguns tempos desde as últimas fotos que vi deles, por isso noto um pouco de diferença. Não sei porquê, mas o último foi o Sebastien. Senti as minhas bochechas a ferver, o meu coração a acelerar e a minha voz a tremer. A pele do seu rosto é macia.
- És mais bonita do que o que eu pensava. – Disse ele, quase sussurrando-me.
- Tu também. – Respondi, sorrindo. Sim, aqueles olhos azuis e aquele sorriso deixam-me completamente desarmada. – Mas não eram quatro? – Perguntei.
- Sim, mas para variar a zebra está atrasada. – Respondeu o Pierre, rindo-se e sentando-se no sofá, junto ao Jeff e ao Chuck.
- Deve estar a chegar. Ele mandou-me SMS a dizer que teve um problema e que já vinha. – Informou o Chuck.
O tempo passou rápido. Pusemos a conversa em dia e ainda houve tempo para umas picardias de Pierre e Jeff, comigo e com Seb. O meu irmão sempre soube que eu era mais próxima do Seb e parece que o Jeff é da mesma opinião, para mal dos meus pecados e das minhas bochechas. Pelo comentário do Chuck, o Seb também estava a ficar vermelho e tímido com a situação. Estava prestes a matar o meu irmão quando soou a campainha e ele se levantou.
- É bom que seja o Dave! – Refilou, indo abrir a porta. – Aleluia! Estava a ver que não era hoje.
- Desculpa! Mas nem sabes o que me aconteceu!
Olhei em direcção à porta. Aquela voz não me era estranha, mas não podia ser. Quando uma silhueta bem definida e um cabelo loiro surgiram na porta da sala, ao lado do Pierre, o meu queixo caiu. Não acreditava no que os meus olhos estavam a ver. Pestanejei bem e quando percebi levantei-me.
- Tu outra vez?! – Dissemos ao mesmo tempo, ficando todos a olhar-nos com ar confuso.
- Ahn? Já se encontraram? – Perguntou o Pierre.
- Ele roubou-me o táxi.
- Ela roubou-me o táxi.
Falamos novamente ao mesmo tempo. O meu dia não podia terminar melhor. Como se já não bastasse ter-me roubado o táxi, ter chegado atrasada por causa disso, ter de levar com ele a manha toda a fazer-se a mim, ficar de castigo por estar a pensar nele, ainda tenho de o aturar em casa? Como é que eu não percebi que este David, era “o” David? Pois, está loiro, cabelo mais curto, mais alto, mais encorpado e tirou os piercings.
- Não se reconheceram? – Perguntou o Jeff, a rir.
- Não. Ele está loiro!
- Ao início não. Mas comecei a achar que a conhecia e percebi quando ela disse o nome dela, ao apresentar-se à turma. – Respondeu David. Olhei-o com ar de quem tinha vontade de o estrangular e ele sorriu.
- À turma? Vocês são da mesma turma? – Perguntou o Seb.
- Infelizmente! – Respondi, chateada e sentando-me no sofá, arrancando risos de Pierre, Seb, Jeff e Chuck.
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