Notas iniciais
talvez fiquem surpreendidos, talvez fiquem tristes, talvez fiquem felizes... não sei... Mas se não gostarem, não me batam, porque ainda há muitaaaa história x) boa leitura!

Enrosco-me no sofá e aconchego a manta sob as minhas pernas. Pego no comando e procuro alguma série de jeito nos 125 canais que temos. O céu está enevoado e está um dia triste. Os rapazes estão lá em baixo no estúdio a ensaiar. Desde o que aconteceu ontem, não dirigi a palavra a nenhum deles, nem mesmo ao meu irmão, que já tentou falar comigo várias vezes, mas que ignorei simplesmente.

Finalmente encontro uma série que me chama a atenção. Debruço-me para chegar ao pacote de bolachas que está na mesinha de centro. Estou entretida a comer e a ver TV quando olho para a porta e vejo o Seb a sair da cozinha e entrar na sala, vindo na minha direcção. Continuei a roer as bolachas e foquei a minha atenção na série.

- Não queres vir ver o ensaio? – Perguntou, agachando-se ao lado do sofá.

- Não. Estou bem aqui. – Respondi, continuando a olhar para a televisão.

- Anda lá… Eu queria que fosses…

- Porquê? – Perguntei, olhando-o finalmente.

Quando ele ia a responder, assustamo-nos com o toque estridente do meu telemóvel. Ele pegou nele, que estava na mesinha e chegou-mo. Atendi. Era a Vanessa. Está em Montreal e quer que eu vá ter com ela, diz ter novidades. Tento saber o que é, mas ela fecha-se em copas. Não faz mal, também já estou com saudades. Aponto a morada que me disse e desligo a chamada e afasto a manta, levantando-me.

- Posso perguntar quem era? – Perguntou o Seb, levantando-se também.

- Sim. Era a Vanessa. Quer que eu vá ter com ela a esta morada. – Informei, olhando a morada. Não faço a mais pequena ideia onde isto fica. Ainda conheço mal a cidade.

- Queres que te leve lá? – Perguntou. Ele sabe que não sei onde fica, óbvio.

- Não é preciso, eu apanho um táxi.

- Mas não precisas. Eu posso ir contigo… – Sugeriu, com voz e olhar meigos.

- Está bem. – Respondi. Como resistir àqueles olhos azuis e àquele jeito querido? Não consigo.

Ele foi avisar os rapazes, enquanto eu fui ao quarto calçar as sapatilhas. Saímos de casa e entramos no carro dele. Dei-lhe o papel onde tinha apontado a morada para ele ver.

- Isto é um hotel. Eu conheço-o.

- É capaz, ela chegou há pouco da Califórnia.

Era perto, por isso, chegámos rapidamente. É um dos melhores hotéis da cidade, classificado com 5 estrelas. A entrada é enorme, toda em tons de bege e com sofás vermelhos. Na recepção estão três senhoras, com uniforme e à porta, um segurança, que nos cumprimenta com ar simpático. Dirigimo-nos para o elevador e subimos até ao 6º andar. Procuramos a suite 623 e batemos à porta. Logo depois a porta se abriu e surgiu Vanessa, que nos fez sinal para entrarmos, com um sorriso. É uma rapariga com um tom de pele moreno, tem o cabelo preto e liso, não muito comprido e tem uma boa disposição contagiante. Pessoalmente acho que ela é completamente doida. Mas no bom sentido. É divertida, desinibida e não se importa com o que os outros pensam dela. Somos parecidas.

Não tive tempo para dizer nada, pois ela abraçou-me como se já não me visse há anos, quando eu ainda nem há um mês deixei a Califórnia.

- Vais sufocar-me! – Disse eu, em tom abafado.

- Desculpa! São as saudades! – Respondeu, largando-me e sorrindo.

- Sempre exagerada! – Brinquei. – Bem, este é o Seb, um dos guitarristas da futura mais famosa banda!

- Sempre tiveste bom gosto para escolher os amigos. – Disse ela, rindo e piscando o olho, deixando o Seb atrapalhado. – Sou a Vanessa.

- Sim, sim… Claro! – Ri-me. – Diz lá o que querias contar! Só sabes fazer suspense…

- Tem de ser. – Disse ela, indicando-nos os sofás. – Mas sentem-se.

O quarto era realmente deslumbrante. Em tons de azul e bem decorado. Uma cama moderna e enorme. E ainda, numa parte do quarto, três sofás dispostos à volta de uma pequena mesinha, como se fosse uma sala. Sentámo-nos confortavelmente.

- Então é assim, tenho duas notícias para vos dar. – Informou ela. – Qual querem saber primeiro: a excelente ou a excelente?

- A excelente. – Dissemos eu e o Seb em coro, rindo.

- Boa escolha! – Respondeu, apontando-nos o dedo indicador e rindo. – Os Simple Plan passaram à fase seguinte!

- Oh my God! – Soou Seb, incrédulo. – A sério?!

- Sim! Os resultados só serão divulgados amanhã… Mas ser amiga da organizadora tem as suas vantagens, não é meninos? – Perguntou a Vanessa.

- E eu gosto da ideia. – Disse o Seb, sorrindo.

- E qual é a outra notícia? – Perguntei.

- O vencedor do concurso vai ter a oportunidade de gravar um CD com a maior Editora do Canadá…

- A Lava Records?! – Interrompeu Seb, escandalizado.

- Exactamente!

- Isso era um sonho… – Confessou Seb, com um brilho no olhar.

- Um sonho que se vai realizar! – Disse eu. – Vocês vão ganhar. Mas há dúvidas?

- Claro que não! – Concordou a Vanessa.

- Eu não me quero iludir e depois apanhar uma desilusão!

Está tudo em aberto. Passaram à fase seguinte, mas ainda nada está ganho. A primeira fase consistia em os produtores escolherem as bandas que achavam melhores, através das músicas e vídeos enviados. Na próxima fase, apenas serão escolhidas duas bandas, que irão à final. Serão escolhidas por votação do público. No festival, onde se realizará a final, será o júri lá presente a dar pontuação às duas bandas restantes. Não tenho qualquer dúvida que eles passarão.

Continuamos a conversar. Fiz questão que o Seb conhecesse melhor a Vanessa. Ela não tem problemas em se dar com os meus amigos pois, como ela diz “os teus amigos, meus amigos são”. E, além disso, era ela quem me ouvia sempre a falar dele e dos amigos do meu irmão. Sim, eu costumava falar muito deles. Se bem, que eu falava mais do Seb e do David.

- Já tinha saudades disto! – Disse Vanessa.

- Eu também! – Respondi, sorrindo. Já sentia falta da boa disposição dela. Ela tem o dom de conseguir fazer-me rir nos meus piores dias. – Mas nós temos de ir andando. Temos duas notícias para dar!

Despedimo-nos e a Vanessa disse que ia ficar uns tempos em Montreal, o que é bom. Quero apresentá-la aos rapazes. Tenho um pressentimento que se vão dar lindamente.

Após as despedidas, eu e o Seb caminhamos pelo corredor, em direcção ao elevador. Entrámos e ele começou a descer. Encostei-me à parede e notei que o Seb estava a olhar. Está com aquele ar de quem quer perguntar algo mas que tem receio. Aquele olhar tímido. Não digo nada. Ele se tem algo para dizer, que diga. Não sou o “bicho-papão” nem lhe vou tirar nenhum bocado. Suspirei.

- Olha… – Soou ele.

Mas quando ele se estava a aproximar-se de mim, sentimos o chão a tremer e as luzes a piscar. Tentámos agarrar-nos onde podíamos. Depois do tremor, o silêncio. O elevador parou de repente, com um solavanco. As luzes desligaram-se, mas havia um fiozinho de luz que nos permitia ver. Senti o coração quase a saltar-me do peito. A minha respiração estava acelerada. O pânico devia estar estampado no meu rosto, pois o Seb abraçou-me como se me estivesse a proteger. Sou claustrofóbica, não posso ficar presa num elevador! Ele sabe disso. Todos sabem.

- Calma. Alguém nos há-de tirar daqui. – Disse o Seb, tentando acalmar-me. Levantou-se e carregou nos botões de emergência, mas nada parecia funcionar.

- Só cá faltava esta… – Resmunguei, escorregando pela parede do elevador e sentando-me no chão num dos cantos, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele sentou-se ao meu lado, colocou o seu braço pelos meus ombros e encostei a minha cabeça no seu peito. Pelo menos, não estou sozinha. Estou com ele… O Seb. Sinto-me protegida, nos seus braços. Respiro fundo e lembro-me de que ele não chegou a falar.

- O que ias a dizer? – Perguntei, levantando a cabeça e olhando-o, tentando também distrair-me.

- Ia perguntar se… – Pausou ele, olhando para a parede em frente, olhando depois para mim. – Se ainda estás chateada comigo, por causa de ontem.

- Devia. – Refilei. Mas na verdade, não estou. Não com ele. – Mas não estou.

- A sério? – Perguntou, sorrindo. – A sério que não estás?

- Sim. – Respondi, sorrindo e tocando com o dedo indicador no seu nariz. Os únicos com quem estou realmente chateada são o Pierre e o David.

- Ainda bem. Nem sabes o quão feliz fico! – Disse animado, abraçando-me.

Afastamo-nos lentamente. Os seus olhos brilhavam, fixando-se nos meus. Agora, não foi só o elevador que parou, o tempo também. Fico hipnotizada a fitá-lo nos seus meigos olhos azuis, como se o mundo tivesse morrido. Não há ninguém para interromper, desta vez. Nada para nos impedir. Ele aproximou o seu rosto do meu lentamente, como se pedisse permissão. À medida que o fazia, fechei os olhos, sentindo-o cada vez mais perto. A sua respiração quente, a sua mão macia no meu rosto, os seus lábios suaves nos meus. Inevitável. Era o que queria, há muito tempo, embora o negasse.

Apenas nos separámos quando sentimos o elevador a mexer. Olhámos o tecto. As luzes piscaram umas vezes, até que fixaram, acesas novamente. Entreolhamo-nos e sorrimos, acabando por nos levantarmos. Finalmente, alguém tinha posto a geringonça a funcionar.

Saímos do hotel e quando já nos encontrávamos à beira do carro, respirei fundo. É tão bom sentir o ar fresco! O Seb riu-se. Não sei onde está a piada. Ele não sabe o que é sentir-se enclausurada, sem ar, sem espaço. É como se me deitassem as mãos ao pescoço e não me deixassem respirar. Mas, na verdade, eu esqueci-me que estava presa num elevador.

Durante a viagem até casa perdurou o silêncio. Eu não me atrevi a pronunciar uma única palavra depois do que aconteceu e o Seb parece que também não. Ainda não acredito que aconteceu. É como se ainda sentisse os seus braços a envolver-me e o seu beijo doce.

- Magda!! – Gritou o Pierre, ao meu ouvido, fazendo-me estremecer.

- Estás louco?! – Perguntei, afastando-me e tapando o ouvido. Tenho o grito dele a entoar na minha cabeça.

- Estamos a falar contigo e tu estás na lua! – Refilou o Pierre. – Não me ouves?

- Se continuas a gritar-me assim aos ouvidos, vou deixar de ouvir! – Resmunguei.

- É óbvio que ainda está chateada connosco e nos estava a ignorar. – Disse o David, que estava sentado no sofá da frente, com ar sério, encarando-me.

- Estás? – Perguntou o Chuck, com ar triste. – Não fizemos por mal…

- Não fizeram por mal, claro que não. – Ironizei. – Apontaram-vos uma arma e obrigaram-vos a estragar-me o encontro!

- Quase… – Disse o Jeff, em tom mais baixo e olhando para o David. Eu ouvi, mas penso que não era suposto.

- Eu vou repetir. – Informou o Pierre, bufando. – Queríamos pedir-te desculpa por aquilo de ontem… Não devíamos ter-te seguido e estragado o teu encontro. Desculpa.

- Desculpa. – Soaram Chuck e Jeff, em coro.

- O que vocês fizeram não se faz! – Ralhei. Já os desculpei, mas não lhes mostro isso. Quero que aprendam a lição.

- Nós sabemos. Não vamos repetir. – Prometeu o Chuck.

- Sim, podes estar descansada! – Garantiu o Jeff.

- Mas não te quero ver com esse Dean… – Disse o Pierre, irritando-me.

- Porquê? – Perguntei, admirada. – Nem o conheces!

- Mas eles conhecem. – Disse ele, apontando para o David e para o Seb. – E se eles dizem que ele não é boa rés, eu acredito neles. E como teu irmão mais velho, é meu dever defender-te. Como sempre fiz.

- Mas eu já tenho idade para saber com quem me devo dar, ou não. – Respondi, olhando de lado para o David, que permanecia calado, sentado à chinês no sofá.

- Eu sei. Mas por favor, faz o que te peço. – Pediu o Pierre, com ar sério.

- Acho que não devias dar tanta atenção ao que esse menino aí diz. – Avisei, levantando-me e apontando para o David que ergueu as sobrancelhas e me olhou como se estivesse espantado com o que eu disse.

- Porquê? – Perguntou o Pierre, confuso e alternando o olhar entre mim e o David. – O quê que aconteceu?

- Acontece que a tua irmã prefere acreditar em pessoas que conhece há dias do que nas que conhece há anos. – Respondeu o David, levantando-se. Parece-me chateado mas não quero saber. Ainda se julga com razão? – Aliás, que conhece desde que nasceu.

- Eu acredito naquilo que vejo, David! – Contestei, apontando-lhe o dedo.

- Então andas a ver mal! Porque não viste nada daquilo de que me acusas! – Contradisse o David, aproximando-se de mim, encarando-me e afastando-me a mão que eu lhe tinha apontado.

- Será que já não vi o suficiente?! – Refutei, encarando-o.

- Tu não viste nada! – Refilou.

- Meninos parem com isso! – Resmungou o Chuck, afastando-nos.

- Parecem duas crianças. – Disse o Pierre, rindo-se. – Deus me livre!

- Não sei onde está a piada! – Resmunguei, sentando-me no sofá e cruzando os braços.

- Nisso concordo contigo. – Proferiu o David, ainda emburrado, sentando-se no sofá da frente.

- Isto vai dar em divórcio antes do casamento. – Disse o Pierre, rindo que nem um perdido, acompanhado de Jeff e Chuck. Olhei-os, franzindo os olhos. Desta vez não era só o meu irmão que esticava o pernil, mas também o Chuck e o Jeff.

- Bem, eu acho que era melhor contarmos as novidades, para ver se o ambiente melhora. – Sugeriu o Seb, pigarreando ao início. Acho que ficou incomodado com o comentário engraçadinho do meu irmão. E com isto tudo, já me tinha esquecido. Ao menos, tenho as boas notícias para me animar, já que o David parece ter o dom de me irritar. O Seb sorriu e encarou-me. – Não achas?

- Sim, tens razão! – Concordei, sorrindo. Ainda me consigo espantar com as minhas próprias mudanças de humor extremas.

- Que novidades? – Perguntou o Jeff.

- Fomos ter com a Vanessa e ela deu-nos duas boas notícias. – Começou o Seb, levantando dois dedos. – Passamos à fase seguinte do concurso!

- A sério? – Perguntou o Chuck, entusiasmado.

- Isso é excelente! – Comentou o Jeff, animado.

- Calma, mas há mais! – Declarou o Seb, olhando-me como se me estivesse a passar a palavra.

- A banda vencedora do concurso irá gravar um CD com a editora Lava Records! – Completei, deixando-os de boca aberta.

- Oh meu Deus! – Exclamou o meu irmão, tapando a boca, com o espanto. – A Lava Records é a maior editora do país!

- Pois é! – Concordou o Seb, quase dando pulinhos de alegria.

- Dave, não estás contente? – Perguntou o Jeff.

- Estou! – Respondeu, sorrindo finalmente e levantando-se. – É para vencer, malta!

- Claro que sim! – Concordaram o Chuck e o Pierre.

- E se amanhã à noite fôssemos festejar? – Sugeriu o Jeff. – Eu conheço o gerente de um bar aqui perto. O ambiente é muito bom!

- Acho uma óptima ideia! – Concordou o meu irmão e todos assentimos.


Notas finais
E então? :b