Deus Deve Odiar-me! - 1 Temporada
5 Há males que vêm por bem
Notas iniciais
Paramos no semáforo do início da nossa rua. De carro, a universidade fica a 10 minutos de casa. Permanecemos um tempo em silêncio. Massajei as minhas mãos, notando que estavam a suar. Mas porque raio estão a suar? Perguntei-me, olhando-as. E o semáforo, porquê que nunca mais fica verde? Encostei a cabeça ao vidro, bufando.
- Olha… – Disse David, quebrando o silêncio. – Também quero que me ajudes em matemática.
Desencostei a cabeça e olhei-o de sobrancelha erguida. Não percebi. Porquê que ele me está a pedir ajuda? E “também”?
- Porquê?
- Tenho dificuldade. – Respondeu ele.
- David, tu tens 20 a matemática!
- Ahm… Ups. – Sorriu, encolhendo os ombros e arrancando, pois finalmente o maldito semáforo decidiu mudar. – Mas podemos estudar juntos para o teste? Ou só ajudas o Dean?
- Isso são ciúmes…? – Questionei-o, rindo.
- Claro que não! – Resmungou ele, focando a atenção na rua.
- Parece… – Respondi. Qualquer coisa dentro de mim ficou desiludida, inexplicavelmente. Não dei importância.
- Mas devias ter cuidado com o Dean. Não lhe dês confiança.
- E porquê?
- Porque ele sim, é playboy. Já se envolveu com metade das raparigas da universidade. – Esclareceu ele, estacionando o carro.
- Hum, interessante. – Provoquei, saindo do carro.
- Interessante? Interessantecomo?! – Perguntou ele, preocupado e seguindo-me até casa.
- E sim, podemos estudar juntos. – Ignorei a pergunta e abri a porta de casa, espreitando, procurando pelos outros.
- Não me respondeste. – Resmungou ele, sério, fechando a porta.
- Interessante, alguém a fazer-te concorrência. Tu ficaste com a outra metade. – Disse eu, atirando as chaves para a tacinha do móvel de entrada. Mas porquê que eu estou a dizer isto? Que me importa que ele ande metido com meia faculdade? Eu não quero saber!
- Mas eu n…
- Já chegaram! – Disse Chuck, abrindo a porta que dá para a cave. – Demoraram! Que andaram a fazer?
- Cumprir o castigo. – Esclareci, encaminhando-me para a cave.
O Pierre foi inteligente. Aliás, ele é inteligente. Montou o estúdio de ensaios na cave. Não só não ocupava a garagem, pois precisaremos dela para os carros, como a cave tem melhor acústica. Saltei-lhe para o colo, agarrando-me ao seu pescoço. Senti os seus braços envolverem-me num abraço forte. Como eu gosto dos abraços dele.
- Então, como correu o castigo? – Perguntou ele, rindo-se, pousando-me no chão e olhando David.
- Lindamente! – Respondeu David, com um sorriso.
Só se for para ele. Odeio fazer resumos daqueles. Mas claro, ele deve estar habituado. Pela maneira que falou dos métodos da professora chanfrada, deve conhecê-los bem. Cumprimentei o Chuck com um “high five” e um abraço apertado e aproximei-me do Sebastien, que me pareceu triste.
- Passa-se alguma coisa?
- Não! Está tudo bem. – Respondeu ele, com um sorriso encantador que me fez arrepiar. Foi impressão minha, ainda bem. Aproximamo-nos para nos cumprimentar. Ia dar-lhe um beijo no rosto mas atrapalhamo-nos e ele virou a cara, ficando nós com os lábios quase colados. Afastei-me imediatamente e senti as minhas bochechas ferver. Olhei-o. Ele permanecia no mesmo sítio, sem se ter movido um centímetro.
- De-desculpa! – Pedi, gaguejando e completamente vermelha. Sinto-o.
- Não faz mal. São coisas que acontecem. – Disse ele, calmamente e sorrindo. Aproximou-se de mim e pegou-me na mão, olhando-a. Levantou o olhar e aproximou o seu rosto do meu, dando-me um beijo demorado na bochecha.
- Quê que estão a fazer? – Perguntou David, olhando-nos com ar sério.
- Estava a cumprimentá-la. – Respondeu Seb, soltando lentamente a minha mão.
- Onde está o Jeff? – Perguntei, olhando à volta.
- Ele foi a casa, mas já vem. – Disse o meu irmão. – Vamos ensaiando?
- Como? Falta um guitarrista. – Disse eu, confusa.
- Nem por isso. – Respondeu Pierre, entregando-me a guitarra.
- Mas…
- Ela toca muito bem guitarra, mas é excelente no baixo. – Admitiu David.
Fiquei admirada por ele o dizer. Não contava com isso. Mas faz-lhe bem admitir. Deram-me cinco minutos, para ver os acordes da música. A minha sorte é que não eram difíceis. Eles já escreveram várias músicas e compuseram-nas, mesmo estando longe. Bem, o Pierre so tem de decorar as letras. Lá atinei com os acordes e levantei-me, para que começássemos. A música chamava-se “Addicted”.
Começámos. Adoro guitarras, mas estou com umas ganas de roubar o baixo ao David…! Ele concentra-se tanto que se esquece que estamos ali. Olhei para o Seb, que andava de um lado para o outro e que cantou o refrão olhando-me. Senti um arrepio e quase me enganei nos acordes.
- How long will I be waiting? – Cantou David, aproximando-se de mim e olhando-me nos olhos. Parece que descolou do baixo. Sorri.
- Mas que é isto? E eu? – Resmungou Jeff, chegando. Paramos de tocar e rimo-nos.
Entreguei a guitarra a Jeff, antes que ele me matasse. Ele riu e deu-me um beijinho no rosto. Sentei-me no sofá de frente para eles. Cruzei as pernas à “chinês” e eles recomeçaram a tocar. Ensaiaram várias músicas e adorei todas. Consegui arranjar um momento para cada uma e identificar-me. Sem dúvida alguma, que a que mais me tocou foi a “Perfect”. O meu irmão escreveu-a inspirando-se nos nossos pais.
Já estavam cansados e já era hora de jantar. Subimos para a sala e encomendamos pizzas que, diga-se de passagem, estavam óptimas.
- Tive uma ideia!
- Oh meu Deus! Fujam, o Pierre teve uma ideia! – Disse Seb, abanando as mãos como se estivesse a ter um ataque de histerismo. Todos nos rimos, menos o meu irmão que ficou sério a olhar para nós.
- Mas eu posso falar ou vão continuar a gozar comigo? – Resmungou ele, acabando por se rir também. Assentimos. – E que tal dormirem cá? Assim amanhã já ensaiávamos mais e depois o Dave e a Maggie já podiam estudar.
- Eu gosto da ideia! – Disse Chuck.
- Eu também. – Disseram David e Seb ao mesmo tempo, encarando-se depois.
- E tu, Jeff? – Perguntei.
- Também, claro!
Acabámos de comer e ainda estivemos um bom tempo a conversar. Relembramos coisas que falamos quando eramos mais novos. Alguns momentos deram mesmo para rir. O Pierre começou a disparatar e a coisa descambou. Acabou em palhaçada, connosco todos a rir. Eu estava sentada entre ele e o David. Comecei a sentir-me cansada e bocejei. Então? Acordo cedo todos os dias, é normal.
- A minha maninha está com soninho… – Disse Pierre, com voz fofinha e apertando-me as bochechas.
— Pierre! – Resmunguei e afastei-lhe as mãos. Ele sabe que eu odeio e adora irritar-me.
- Vamos fazer um sorteio. Há três quartos. Eu posso ficar com ela, vocês amanhem-se. – Riu-se ele.
O Pierre rasgou uns papelinhos e escreveu os nomes. Colocou-os dentro de uma tacinha e retirou dois.
- David e Chuck. Logo, Seb e Jeff. – Concluiu Pierre.
Todos concordaram com a distribuição. Decidi que ia descansar. Eles preferiram ficar mais um pouco, por isso despedi-me e fui para o meu quarto. Só espero que não se lembrem de fazer asneiras. Tomei um duche e vesti o pijama. A minha rica caminha chama-me! Atirei-me para cima da mesma e fiquei de braços abertos encarando o tecto. Fechei os olhos, mas rapidamente os abri. A primeira imagem que vi foi David. Mas o que foi isto? Nem a tentar dormir me deixa? Bufei e virei-me para o lado, agarrando uma almofada.
Estremeci e sentei-me na cama. Olhei para o lado da porta e vi o Pierre, com cara de quem fez asneira.
- Tropecei. Desculpa, não te queria acordar.
- Não faz mal. – Respondi e olhei para o relógio. 2:45 Horas. – Estiveram até esta hora a fazer o quê?
- A pensar num nome para a banda… – Disse desanimado e despindo-se. – Mas não chegamos a conclusão nenhuma.
- Homens… – Ri, levantando os lençóis.
- Ai é? Tens alguma ideia, Einstein? – Perguntou ele, deitando-se ao meu lado.
- Não, mas hei de ter!
- E já agora… – Começou, olhando-me. – Já te decidiste?
- De quê? – Perguntei, confusa. De quê que ele está a falar?
- David… – Disse, levantando uma mão e logo de seguida a outra. – Ou Seb?
- Não sejas parvo, Pierre Bouvier! – Resmunguei eu, atirando-lhe com a almofada. Ele está louco.
- Será que sou? – Perguntou, começando a fazer-me cocegas. Eu não aguento cocegas, desmancho-me toda e ele sabe disso, por isso é que se aproveita.
- Pára! Pára! – Pedi, tentando impedi-lo e sem conseguir parar de rir.
- Ah, desculpem… – Pediu Seb, à entrada da porta, que tinha sido deixada aberta pelo trengo do meu irmão.
- Entra, entra… – Implorei, rindo. – Salva-me!
- Impossível! – Disse Pierre, rindo e largando-me. – Ele tem medo de mim.
- Muito. – Concordou Seb, rindo também. – Preciso de pedir-te uma coisa, Pierre… Podemos falar?
O Pierre assentiu e os dois saíram do quarto. O que será que o Seb queria? Será que se passa alguma coisa? Precisará de ajudar? Estará bem? Decidi voltar a deitar-me e dormir. Amanhã logo saberia. Espero que não seja nada demais.
Abri os olhos e olhei para a janela. Ainda é de noite. Por favor, insónias não. Senti o braço do Pierre por cima de mim, envolvendo-me. Peguei nele e virei-me de frente para o meu irmão mas, para maior dos meus sustos não era o Pierre que ali estava. Dei um salto da cama mas o lençol enrolou-se no meu tornozelo e estatelei-me no chão.
- Ai…! – Queixei-me.
- Desculpa, desculpa!! – Pediu Seb, saltando da cama e aninhando-se ao meu lado, abraçando-me. – Estás bem?
- Estou… – Respondi, erguendo a cabeça.
Tenho a cabeça atordoada, acho que bati com ela no chão, ao cair. Ele está com ar preocupado, olhando-me com os seus olhos azuis meigos. Acho que a dor passou. Fiquei hipnotizada com o seu olhar. Senti a sua mão macia acariciar-me a face e o seu rosto aproximar-se do meu perigosamente. Senti a sua respiração demasiado perto, mas já era tarde para me afastar.
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