Deus Deve Odiar-me! - 1 Temporada

20 De volta ao que foi um paraíso de Verão


Notas iniciais
E agora, onde está Seb? :o
Capítulo bastante importante para o desenrolar da história :)
nota: postei mais cedo porque não sei se amanhã poderia vir ao pc!

Devíamos ter percebido logo. Só podia ter sido o Dean e a Nicole a arquitetar uma coisa destas. Agora as suas ameaças fazem sentido! Mas continuo sem entender como entraram no meu quarto, puseram lá a camara e ainda a foram lá buscar! Devia ter levado mais a sério os seus avisos! Mas não. Foi mais fácil pensar que eles não podiam fazer nada e era apenas bluff. Também não tínhamos como saber que eles iam fazer algo.

A culpa continua a consumir-me e a impedir-me de respirar livremente. Sinto um nó na garganta. Se eu não tivesse bebido, não me tinha envolvido com o David e agora estaria tudo bem. O Seb estaria aqui e não por aí sabe-se lá Deus onde! Eu não devia tê-lo deixado ir embora assim, sair daquela maneira. Não sei o que pode acontecer, ele não estava bem! Estou sentada no sofá, observando-os. Devido à demora do Seb a voltar para o estúdio, vieram ver onde ele estava e vimo-nos obrigados a contar o que se passou. Não adiantava esconder mais. O mal já estava feito e quem não podia saber, já sabia.

O Chuck ficou em choque, mas não nos censurou, ao contrário do que pensava e a Vanessa apenas me acenou a cabeça, dando-me um sorriso de apoio. O Pierre e o Jeff não se mostraram muito admirados, pelo contrário, comentaram que demoramos mais do que o que tinham pensado. Mas será que andavam a fazer apostas de quanto tempo demoraríamos a envolver-nos?! Nem forças tenho para me chatear.

O tempo está parado para mim. Em momentos que eu e o Seb vivemos. Eu tenho de falar com ele. Explicar-lhe que sim, foi um erro e que sim, quero que possamos tentar ultrapassar isto. Esquecer que alguma vez aconteceu. Manter este sentimento de culpa e remorso cá dentro está a matar-me. Porque tudo o que eu quero, tudo o que penso, neste momento, vai dar a ele. Eu desejo que eu pudesse encontrar as palavras certas para lhe dizer que estou arrependida. Passam-se horas e ele não aparece. Estou no limite, perto do colapso. Mas eu não posso cair, eu não posso esperar mais.

– Eu vou procurá-lo! – Informei, levantando-me do sofá.

– E vais onde? – Perguntou o Pierre, parando de caminhar pela sala.

– Não sei… a qualquer sítio… Eu tenho de o encontrar!

– Então nós também vamos! – Disse o David, levantando-se e virando-se para eles. O Chuck estava sentado no sofá, ao lado da Vanessa. O Jeff e o meu irmão pareciam baratas tontas a caminhar pela sala. – Pode ter acontecido alguma coisa e aqui parados não resolvemos nada!

– Tens razão! – Concordou o Pierre. – Vamos no meu carro, ver se o encontrámos.

O Chuck e a Vanessa ficaram em casa, para o caso de o Seb aparecer e eu, o David, o meu irmão e o Jeff fomos dar voltas pela cidade a ver se o encontrávamos. Ele tinha de estar em algum lado.

Galgámos as ruas todas, possíveis e imaginárias. Corremos todos os sítios onde ele pudesse estar, mas nada. Não encontrámos o Seb em nenhum lugar. Era como se tivesse desaparecido do mapa. Comecei a entrar em pânico, imaginando os piores cenários para o que poderia ter acontecido.

– Tem calma! – Pediu o Pierre, virando à esquerda num cruzamento.

– Como queres que tenha calma?! – Perguntei.

Não havia como. Só conseguiria acalmar-me quando visse o Seb são e salvo. O Pierre seguiu por uma longa e estranha estrada, ladeada por campos com animais. A estrada começou a ficar mais estreita e entramos numa parte em que o solo era terra batida.

– Mas onde raio viemos dar? – Perguntou o Pierre, parando o carro.

– Ao meio do nada! – Respondeu o David, espreitando pelos vidros.

– Jeff, para onde nos trouxeste? – Perguntou o meu irmão, virando-se para o Jeff que estava ao seu lado.

– Eu…? – Perguntou, resmungando. – Eu disse-te para virares no cruzamento à direita, não à esquerda!

– Eu virei à direita…

– Não! Tu viraste à esquerda! – Refilou o Jeff.

– Pronto, pronto! Não me batas! – Disse o Pierre, levantando as mãos. – Eu dou a volta.

Arrancou e procurou um largo onde pudesse dar a volta, mas antes que chegássemos lá, o carro começou a soluçar, abrandando e indo abaixo. O meu irmão tentou voltar a ligá-lo mas o veículo teimou em não funcionar.

– Ahm… Pierre… – Soou o David, metendo a cabeça entre os bancos da frente e apontando para o painel de velocidades do carro. – Diz-me que não ficamos sem gasolina…

– Sem gasol… – Atrapalhou-se o Pierre e olhou para o indicador. – Bem, talvez me tenha esquecido de abastecer…

– O quê?! – Dissemos eu e o Jeff ao mesmo tempo.

– Desculpem! Esqueci-me! – Pediu o Pierre. – Com isto tudo… passou-me!

– Boa! – Resmunguei, cruzando os braços. – Estamos sem gasolina e no meio do nada!

– Calma… Deve haver por aqui algures…

– O quê? – Interrompi-o. – Uma bomba de gasolina?! Estás à espera de encontrar uma bomba de gasolina no meio do campo?!

– Não! – Respondeu. – Uma casa ou qualquer coisa! E não grites!

– Estarem aí a discutir não nos vai ajudar. – Disse o Jeff, olhando à volta. – Aquilo ali ao fundo não é uma casa?

– É! – Respondeu o David, espreitando. – Vamos lá pedir ajuda.

Saímos do carro e andamos pelo caminho de terra batida. O Pierre e o Jeff iam à frente e eu e o David caminhávamos atrás. Isto parecia uma cena de um filme, daqueles em que um grupo de jovens se perde, acontece-lhes mil e uma coisas macabras e no final acabam todos mortos! O David olhou para mim e fez um ar cómico. Provavelmente devo estar com cara de assustada e ele está pronto para gozar comigo. Mas eu não quero saber, só quero sair daqui e encontrar o Seb! Ainda me pergunto como é que uma bebedeira pode causar tanta coisa. Se não tivesse bebido, não me tinha envolvido com o David, logo não tinham filmado, logo o Seb não tinha desaparecido e não estaríamos perdidos aqui, no meio do nada!

Seguimos o carreiro que foi dar à grande casa, rodeada de árvores de fruto e relva bem tratada. Não parecia uma casa de campo. Era rústica, chique e requintada, mas ao mesmo tempo, tinha um toque de simplicidade. Subimos os quatro degraus do varandim e aproximamo-nos da porta. O meu irmão levantou o braço para bater à porta mas eu agarrei-o.

– E se for a casa de algum maluco que nos vai raptar, torturar e matar-nos para alimentar os cães esfomeados que tem na cave?! – Perguntei, só depois me apercebendo que falei tudo seguido e que estava sem fôlego.

– Mas o quê que tu andas a ver…? – Perguntou o Jeff, piscando os olhos sucessivas vezes e fazendo o David rir.

– Muitos filmes de terror! – Respondeu o Pierre, rindo-se, pondo o seu braço pelos meus ombros e batendo à porta.

Enquanto esperamos que alguém respondesse ou abrisse a porta, eu rezava para que não fosse a casa de nenhum louco fugido à polícia. Apareceu uma senhora, que parecia normal e abriu a porta, com um sorriso.

– Boa tarde… Pode ajudar-nos, por favor? – Perguntou o Pierre. – O nosso carro ficou sem gasolina e precisávamos de voltar para casa antes que anoitecesse…

– Os senhores não estão em casa e eu não sei como vos ajudar, mas entrem e esperem. Eles não devem demorar! – Disse a senhora, deixando-nos entrar.

Entramos e seguimo-la até uma grande sala, em tons castanhos e decorada maioritariamente com coisas sobre o campo.

– Sentem-se! Estejam à vontade! – Disse a senhora. – Querem tomar alguma coisa?

Dissemos que não e agradecemos. A senhora é simpática, mas é apenas a empregada. E os donos? Os tais “senhores”, como serão? Com a casa que têm, não são pobres de certeza. Nota-se que são gente com posses, o que me acalma e me faz afastar a teoria do louco à solta. Os rapazes sentaram-se descontraidamente no sofá de pele castanho, mas eu permaneço de pé, observando tudo à minha volta. Sou desconfiada com o que não conheço, não posso evitar.

– Já estás mais calma? Ou ainda pensas que vamos ser raptados e torturados… E sei lá mais o quê! – Questionou o Jeff, rindo.

– Isto dá-me arrepios… Só isso! – Queixei-me.

Aproximei-me de uma mesinha que se encontrava por debaixo de um espelho enorme. Tinha muitas molduras com fotografias e estranhamente uma chamou-me à atenção. Peguei na moldura e observei-a melhor. Eram duas crianças. Um rapaz e uma rapariga. O rapaz estava com a menina, que se notava perfeitamente que era mais nova, às cavalitas e pareciam felizes. Fiquei paralisada.

– Pi… Pierre! – Gaguejei e mostrei a fotografia. – Estes não somos nós?

– Somos… – Disse ele, vendo a imagem. – Mas o quê que faz uma foto nossa aqui?

– Se calhar é o psicopata, que já vos tem na mira há muito tempo… – Disse o David, fazendo uma voz sinistra.

– David, está calado! – Refilou o Jeff dando-lhe uma cotovelada.

Agarrei-me ao braço do meu irmão, quando ouvimos a porta da rua a abrir e, até o David, que estava a brincar, ficou sério e se assustou. Entrou um casal, que devem ter pouco mais do que 60 anos. O senhor tinha cabelo curto, grisalho e vestia um fato cinzento, com uma gravata às riscas. A senhora era loira, levemente maquilhada e usava um vestido azul-marinho. Fecharam a porta e olharam-nos sorrindo. O meu irmão puxou-me para ele e pôs o seu braço por cima dos meus ombros, encostando-me a ele.

– Pierre! Magda! – Chamou o senhor. – Não acredito! São vocês?

Levantei a cabeça e o Pierre estava com o olhar fixo no casal. Estava com ar pensativo e o sobrolho carregado. Mas de repente, mudou completamente a expressão, tornando-a mais suave e eu podia jurar, que algo nostálgica.

– Avós? – Perguntou.

– Meus netinhos! – Disse a senhora, caminhando até nós e abraçando-nos.

– Não nos estavas a reconhecer, pois não, Pierre? – Perguntou o senhor, abraçando-nos também.

– Não! Já passaram tantos anos…

– Pois, os vossos pais levaram-vos, vocês ainda era pequenos… – Comentou ele. – Então aqui a Magda é que não se deve lembrar mesmo!

– São os avós Franchesco e Claire? – Perguntei.

Eu não me lembrava do rosto deles, mas sabia os nomes. Segundo o meu irmão, que me falava muito neles, antes de nos mudarmos para a Califórnia, os nossos avós iam lá a casa algumas vezes, levavam-nos a passear e passávamos férias com eles. Íamos viajar por vários países e eles eram super carinhosos connosco. Desde que saímos do Canadá, nunca mais os vimos. Eu sempre me perguntei o porquê de nunca ter visto nenhuma foto deles lá em casa, mas os nossos pais sempre nos disseram que esses álbuns ficaram cá, em Montreal e sempre evitaram que entrássemos em contacto com os nossos avós, tendo sempre uma desculpa.

– Sim. – Respondeu-me o Pierre, agarrando-se ao avô, com lágrimas nos olhos. Não me lembro de alguma vez ter visto o meu irmão a chorar. – Há tanto tempo!

– A quem o dizes, meu filho! – Disse o meu avô, fazendo-lhe festas no cabelo. – E vejam só quem são eles! O Jeff e o David!

– Eu lembro-me vagamente dos senhores Louvet! – Disse o Jeff, sorrindo. Claro, o Jeff é da idade do meu irmão, é normal que se lembre.

– Rapaz, o que te aconteceu? – Perguntou o Franchesco, passando a mão pela cabeça do Jeff. – Foi promessa?

– É para poupar em champô! – Respondeu o David, fazendo os meus avôs rirem.

– Não! – Disse o Jeff, olhando de lado para o David. – Gosto mais assim!

– E tu, David, continuas endiabrado? – Perguntou a minha avó, rindo. – Tu e a Magda eram o terror!

– Eu… Eu sou um santo… – Disse o David, corando. O Jeff e o Pierre puseram a mão à frente da boca e pigarrearam. E porquê que eu e o David somos sempre falados?

– O que foi? – Perguntou o David, de sobrancelha levantada e amuando. – É verdade!

– E continua a amuar. – Comentou a minha avó, sorrindo e fazendo-lhe uma festa na cabeça.

– Meninos, sentem-se! – Pediu o meu avô e nós acedemos. – Mas contem-me lá, o que estão aqui a fazer, em Montreal? Os vossos pais voltaram?

– Não. Nós viemos sozinhos. Decidimos voltar para Montreal!

Contamos a história das nossas vidas. As ausências dos nossos pais, a sua obsessão pelo trabalho e como era o Pierre que desde novo tinha de tomar conta de nós dois. A insistência para que nos afastássemos das nossas origens, as discussões que tivemos por termos escolhido o curso de Música e a relutância deles ao nosso regresso ao Canadá. Para meu grande espanto, nem o meu avô, nem a minha avó se mostraram surpreendidos com tudo o que contamos.

– Parece que só pioraram… – Comentou o Franchesco, abanando negativamente a cabeça. – E tenho pena, porque quem acabou por pagar pelo erro deles, foram vocês, que não têm culpa nenhuma.

– Eles tinham a vida perfeita aqui. – Disse a minha avó, soando inconformada. – A Louise engravidou do Pierre, ainda eles andavam na faculdade. Nós apoiamo-la sempre. Nunca deixámos que faltasse nada à nossa filha nem ao Réal. Com a nossa ajuda, eles conseguiram terminar o curso e singrar. Tornaram-se o casal perfeito e invejado lá da zona, sabiam?

– Até o vosso pai meter a pata na poça! – Resmungou o meu avô, parecendo irritado.

– Tem calma, homem. – Pediu a minha avó. – Não podes continuar com esse rancor, depois destes anos todos.

– Mas o quê que o nosso pai fez? – Perguntou o Pierre.

– Asneiras! – Respondeu o Franchesco. – Mas esqueçam isso. Vocês não precisam de saber as vergonhas em que o vosso pai nos meteu.

– Temos o direito de saber! – Disse eu. – O quê que o nosso pai fez? Essas asneiras… Foi isso que os levou a mudarem-se?

Os meus avós entreolharam-se. Notava-se que o Franchesco era revoltado com o que tinha acontecido e eu quero saber o quê que aconteceu. O André disse que o meu pai andava estranho. O Joseph insinuou que ele teve problemas com a minha mãe. Mas o quê que se passou? E porquê que nos esconderam? Porquê que não nos contam nada? Acho que merecemos saber e que já temos idade suficiente para lidar com o que quer que tenha acontecido.

– Contem-nos! – Explodi. – Nós temos o direito de saber! Estou cansada de ouvir que os meus pais se mudaram de repente, que o meu pai andava estranho… Deixaram amigos, deixaram a casa, deixaram a família… Para ir viver na Califórnia, que fica a mais de 4 mil quilómetros!

– Calma, maninha! – Pediu o meu irmão, passando-me a mão pela cabeça. – Mas ela tem razão. Porquê que não nos contam? Foi aquela discussão, não foi? Aquela antes de eles decidirem mudar-se…?

– Sim. – Confirmou o meu avô. – O vosso pai fez uma grande asneira e a vossa mãe descobriu. Tiveram uma discussão feia e ele chegou a sair de casa. Pensei que se iam divorciar. Era isso que a Louise devia ter feito! Mas não, perdoou-lhe!

– Mas o quê que ele fez? – Perguntei, já sem paciência.

– O Réal traiu a vossa mãe. – Revelou a Claire.

– O quê?! – Exclamamos eu e o Pierre ao mesmo tempo, de olhos arregalados e incrédulos com o que tínhamos ouvido.

– Não devias ter dito! – Resmungou o meu avô. – Eles não merecem, mas não quero que sejam odiados pelos filhos!

– Eles são grandinhos para compreender, Franchesco!

– Como é que isso aconteceu? – Perguntou o Pierre.

– Não sabemos bem. – Revelou o Franchesco. – Num dos dias que fomos lá a casa para vos ir buscar, eles estavam a discutir e a vossa mãe estava a pôr as malas do Réal à porta. Foi aí que ele esteve uns dias fora de casa… Mas depois voltou. Subitamente ficou tudo bem e anunciaram que iam viver para São Francisco.

– O que nos revoltou. – Continuou a Claire. – Porque a vossa mãe ficou muito mal. Apesar de a traição não ter sido recente. Tinha sido, ainda nem a Magda tinha nascido.

– E com quem foi? – Questionei.

– Não sei, minha filha. – Respondeu o meu avô. – Eles nunca mais falaram nisso. Nós também ficamos tão revoltados com o facto de a tua mãe lhe ter perdoado que não quisemos saber mais nada. Depois de eles irem embora, nós mudamo-nos para esta casa…

– Eles nunca mais ligaram nem disseram nada. Afastaram-se completamente e o pior disso tudo, foi que vos afastaram de nós. – Queixou-se a minha avó, com voz triste. – Vocês eram apenas duas crianças inocentes e passaram por tanto…

– Nós habituamo-nos e desenvencilhamo-nos bem. Era como se não tivéssemos pais.

– Não digas isso, Magda. – Ralhou-me o Pierre. – Apesar de tudo, são nossos pais.

– Pai é quem cria! É quem dá carinho! – Respondi, revoltada. – Eles apenas nos trouxeram à vida! Tu és mais meu pai do que ele! Do que eles alguma vez foram!

O meu irmão baixou a cabeça. Ele sabe que eu tenho razão. Ele sabe as dificuldades que teve para cuidar de mim. Quando eu chorava, quando eu caía e me magoava, quando eu ficava doente. Era ele quem tinha de me abraçar e acalmar. Era ele quem tinha de encontrar os medicamentos para eu tomar. Era ele quem estava sempre lá para me dizer que estava tudo bem e que eu não estava sozinha.

Os nossos avós pareceram ficar mais revoltados ainda ao saber o que nós passamos. E para mim, muita coisa fazia sentido. Agora sabia porquê que eles tinham discutido. O meu pai traiu a minha mãe e ela descobriu e pô-lo fora de casa. Mas depois perdoou-lhe. Porquê? E porquê ir para a Califórnia? E não compreendo como é que o meu pai pôde fazer o que fez, se tinha a vida perfeita… Mas quem sou eu para o criticar, quando também traí o meu namorado. Mas ele não estava bêbedo, com certeza. Lembrei-me do Seb e de que íamos à procura dele.

– O Seb! – Exclamei, levantando-me e batendo com a mão na testa.

– Do que falas? – Perguntou a minha avó, olhando-me.

Explicamos aos nossos avós, que estávamos à procura de um amigo, quando ficamos sem gasolina. Eles também conhecem o Seb e o Chuck, pois eles e o meu irmão já eram amigos, antes de nos mudarmos.

– Pierre, devias saber que para os carros andarem, é preciso meter-lhes combustível! – Brincou o nosso avô, fazendo-o emburrar e desanuviando o ambiente. – Venham lá. Eu tenho alguma gasolina na garagem.

Pegamos em dois bidões para levar para abastecer o carro. Despedimo-nos dos nossos avós, que nos fizeram prometer que, agora que estamos em Montreal, temos que os ir visitar regularmente, pois querem recuperar o tempo perdido. Concordamos.

– Já está. – Disse o Pierre, fechando a tampa da entrada da gasolina e batendo as mãos. – Vamos para casa, vai anoitecer…

– Mas temos de encontrar o Seb. – Relembrei.

– Pode ser que ele já esteja em casa! – Disse o Jeff.

– Se assim fosse, o Chuck ou a Vanessa tinham ligado!

– Magda, tem calma… – Disse o Jeff. – Podem ter-se esquecido ou qualquer coisa… Vamos ver!

– E o Seb é crescidinho, sabe cuidar dele. – Relembrou o meu irmão.

Encostei a cabeça ao vidro e observei as ruas. Teimava em descobrir onde o Seb estava. Fechei os olhos e pensei em todos os locais. Mas já tínhamos corrido tudo. Assustei-me, quando ouvi bater no vidro, onde tinha a cabeça encostada. Levantei-a e vi que era o Pierre a chamar. Já tínhamos chegado a casa e nem me tinha apercebido. Saí do carro. Estava a anoitecer e o céu estava a ficar pintado de laranja, com o sol a querer dar lugar à lua. Laranja como naquele dia na praia, onde tudo começou. Onde o Seb se declarou e tudo pareceu um paraíso de verão. Olhei o céu fixamente e fez-se luz na minha cabeça.

– Já sei! – Gritei assustando-os.

– Ai, credo! – Disse o Jeff com a mão sobre o peito. – Isso dá-te muitas vezes?

– Nem imaginas tu quantas… – Riu-se o Pierre, tirando as chaves de casa do bolso.

– Já sabes o quê? – Perguntou o David.

– Já sei onde o Seb está! – Sorri. – Pierre, empresta-me o carro!

Ficaram com ar apalermado a olhar para mim, mas o meu irmão lá me atirou as chaves e me gritou ao longe, para ter cuidado. Corri para o carro e arranquei. Foi o único lugar onde não procuramos e alguma coisa me diz que ele está lá. Tem de estar. Eu não consigo suportar a dor que me pesa no peito, a culpa que me consome. Eu preciso que ele saiba que foi um erro e que quero ficar com ele. Tenho esperança que tal como a minha mãe perdoou o meu pai, que o Seb me perdoe.

Será fácil encontrar a praia. Não há muitas nesta zona e se me guiar pelos pontos de referência, tal como o penhasco que lá havia, vou encontrar o sítio certo. Parei o carro e corri pelo extenso areal. O penhasco é realmente assustador. É tão alto que só de imaginar, causa-me vertigens. Continuo a correr até que ao fundo, na praia deserta, vejo alguém sentado na areia, fitando o sol, escondendo-se por detrás daquela imensidão de água, dando-lhe tons avermelhados. Aproximo-me e sorrio, ao perceber que é realmente ele.

– Encontraste-me. – Disse ele, tranquilo e sem tirar os olhos do mar.

– Algo me disse que estavas aqui. – Respondi, ajoelhando-me ao seu lado e olhando-o. – Seb, eu…

– Quando, neste mesmo local, te olhei nos olhos e disse que te amava, não menti. Senti que eras tu quem eu queria, de quem eu precisava há muito tempo. Quem ia estar lá, para os bons e os maus momentos. Acreditei numa vida a dois. Tu e eu, juntos e com o sol como testemunha. Criei tantos planos na minha cabeça e todos eles, apenas contigo. Porque tu fazes o meu coração disparar. Fazes-me sentir fraco, derretendo como se fosse um gelado ao sol. O teu olhar causa-me arrepios na espinha. O teu sorriso faz-me ter esperança. – Interrompeu-me ele, deixando-me sem qualquer reacção. – Mas eu sonhei demais e percebi que estava a criar um conto de fadas na minha cabeça. Sonhei demais, iludi-me demais, magoei-me demais. Eu não parei para pensar no que realmente estava a acontecer. Preferi ignorar os sinais…

– Seb, por favor… Ouve-me!

– O que há para ouvir? – Perguntou, olhando-me. – O típico “não é o que estás a pensar?”? Eu não preciso de ouvir isso. Eu não quero ouvir as tuas desculpas.

– Mas tu não sabes o q…

– Tu é que não sabes! – Interrompeu-me novamente. – Tu não sabes o que eu sinto! Tu não sabes o que senti ao ver aquele vídeo! Uma dor tão aguda que parecia que me trespassava como uma espada, e me cortava aos pedaços. Tive vontade de gritar até que a voz me faltasse, de chorar até não ter lágrimas, de adormecer e não acordar mais. Mas o amor é uma força inestimável e o meu por ti é tão forte, que tentei esquecer. Tentei apagar a dor com a esperança que tudo tivesse sido um erro e que voltasses e me dissesses isso mesmo.

– E foi! Foi um erro do qual eu me arrependi logo que percebi o que tinha acontecido! Nunca teria acontecido se eu tivesse consciência do que estava a fazer! Nós bebemos demais, Seb…

– Nunca tinha acontecido se não tivesses ido, como te pedi.

– Não achas isso egoísmo?

– Tu trais-me e eu é que sou egoísta?! – Perguntou, exaltando-se e levantando-se.

– Perdoa-me… – Pedi, ainda sobre os meus joelhos. As lágrimas formaram-se nos meus olhos e não as consegui conter. – Eu não suporto a ideia de te perder! Aquilo foi um erro! E como tu disseste… Eu quero que ultrapassemos isto juntos! Podemos começar de novo. Eu quero tentar!

– Isso era se me tivesses contado logo e não continuares a trair-me e debaixo do meu nariz! – Respondeu, virando-me as costas e olhando o mar.

– Mas eu tive medo de te contar… – Disse eu, soluçando. – Eu tive medo que acabasses com a banda e que o vosso sonho terminasse antes de começar…

– Eu nunca acabaria com a banda. É o meu sonho. É o sonho deles! – Respondeu, virando-se para mim.

– Mas eu pensei que sim… – Respondi, levantando-me e aproximando-me dele. – Eu pensei que podia esquecer, fingir que nunca aconteceu… Ninguém tinha de saber duma coisa que não teve importância nenhuma. Porque o que eu quero é estar contigo e só contigo!

O seu olhar estava fixo no meu. Ele não imagina como eu desejava que aquele vídeo nunca tivesse aparecido. Se ao menos ele conseguisse ver no meu olhar o quão eu quero esquecer isto e ficar novamente bem, ao lado dele, perdoar-me-ia.

Devido à areia, estamos quase da mesma altura e não preciso de me por em bicos dos pés. Agarro-lhe calmamente a camisola e aproximo o meu rosto do dele para o beijar, mas quando estamos prestes a fazê-lo, ele vira a cara e sinto as mãos dele agarrem as minhas para que o largasse. Afastou-se de mim e deu uns passos, na direcção da estrada.

– Seb…! – Chamei. – Perdoa-me!

– Não te esqueças que amanhã partimos para o Brasil, para a final do concurso. – Disse ele, virando-se para mim, mas voltando depois a caminhar na direcção oposta à minha.

– Seb, por favor!

Ele continuou a caminhar. Caí de joelhos na areia, jorrando lágrimas de tristeza, dor, arrependimento, remorso, culpa. Uma dor inexplicável atravessa-me o peito e faz-me respirar com dificuldade. Sento-me e observo o mar. O sol já desapareceu e deu lugar à noite escura. É assim que o meu coração está neste momento. Numa noite tão escura, que não se iluminaria nem com o maior holofote do mundo. Já não tenho mais lágrimas. Levanto-me e caminho para o carro, no qual me sento e encosto a cabeça no assento, desejando estar a ter um pesadelo.


Notas finais
Será que haverá perdão? pelos vistos, parece que não :( Achas que deveria perdoar?