Deus Deve Odiar-me! - 1 Temporada
19 Como é beijá-lo sabendo que eu confio em ti?
Notas iniciais
- Obrigado! – Disse a senhora, dando-me a saca do pão.
Peguei na mesma e dirigi-me para a porta de saída da confeitaria. Ainda bem que não está muita gente, não tenho paciência para esperar. Puxei a porta e dei de caras com o meu professor de francês, que ia a entrar.
- Por aqui, menina Bouvier? – Disse, sorrindo.
- Sim, professor, vim buscar o pão. – Respondi, levantando a saca.
- Trata-me por Joseph! Já não sou teu professor. – Pediu. – Anda, toma um café comigo!
Aceitei. Fomos para a mesa vazia, perto da porta. Felizmente o curso já acabou, ou se alguém nos visse, diria que eu estava a dar graxa. Sim, como se eu precisasse de dar graxa! Pedimos os dois cafés e rapidamente fomos servidos. Aquela era uma confeitaria muito movimentada e era famosa pelos seus fantásticos bolos e doçarias, mas também pelo seu excelente atendimento.
- Profe… Quer dizer, Joseph! – Corrigi. – Posso perguntar-lhe uma coisa?
- Claro! Chuta! – Disse ele, num tom descontraído.
- Porque que na primeira aula me perguntou se eu era filha do Réal?
- Pelo teu apelido, supus que fosses filha dele. – Revelou ele. – Não há muitos Bouvier aqui.
- Isso quer dizer que conhece o meu pai, certo?
- Certo. – Confirmou. – Muito bem até. Eu e o teu pai fomos sócios numa das empresas dele. Eramos bastante amigos e os negócios corriam-nos bem. Mas não sei o que se passou… Ele começou a ficar estranho, até que mudou-se de repente para a Califórnia e eu tive de voltar a exercer a profissão de professor de francês, ao invés de Gestor.
- A sério? – Perguntei, incrédula. – Mas ele teve de se mudar, porque tinha de gerir as empresas e daqui não podia.
- Foi isso que ele te disse? – Perguntou. – Ele pode gerir as empresas em qualquer parte do mundo. O teu pai é um dos maiores empresários de todos os tempos e tem a maior cadeia de empresas! Ele pode gabar-se de poder qualquer coisa…
- Mas então não entendo… – Comentei, confusa. – Os meus pais sempre me disseram que mudamos para a Califórnia por causa das empresas que não podiam ser geridas daqui.
- Mas com certeza não foi esse o motivo. Como te disse, ele podia perfeitamente geri-las aqui, no Canadá.
- Não entendo…
- Ele na altura andava estranho… Acho que estava com problemas com a Louise. – Revelou. – E depois mudou-se…
- Com a minha mãe? Mas que tipo de problemas? – Perguntei, espantada. Os meus pais sempre me pareceram o casal perfeito. Daqueles que nunca discutem.
- Não sei. Nunca falámos disso. Ele fugia sempre ao assunto, quando eu lhe perguntava se estava tudo bem. – Disse ele, encolhendo os ombros. – Mas eles estão bem, não estão?
- Sim, estão…
Aquela conversa não estava a fazer sentido na minha cabeça. Porquê que os meus pais não haveriam de estar bem? Eles são o casal perfeito. Bem, perfeito tirando a negligência com os filhos. Sim, porque nisso, de perfeitos não têm nada! Mas pergunto-me o que terá acontecido… Se a gestão das empresas não foi o motivo porque nos mudamos… Então o que foi? E porquê que nos mentiram? Tenho de falar com o Pierre.
Despedi-me do Joseph e dirigi-me para o carro do meu irmão e voltei para casa. Não sei o quê que se passa com o Pierre, não é normal ele deixar-me conduzir o carro dele. Normalmente tenho de implorar e mesmo assim, há vezes que não adianta. Posso até chorar e espernear, que ele não deixa. Às vezes penso que gosta mais do carro do que de mim!
Entrei em casa e fui até à cozinha pousar o pão. Estava lá o meu irmão, que fechava a porta do frigorífico.
- Tanto tempo!
- Encontrei o meu professor de francês e estive a conversar com ele. – Informei, encostando-me ao balcão. – Maninho… Ele falou-me numas coisas estranhas…
- Que coisas? – Perguntou, bebendo um copo de sumo.
Expliquei-lhe a conversa que tive com o Joseph e deixei-o de boca aberta. Ao que parece, o meu irmão também não fazia a mínima ideia que podia haver outro motivo para nos termos mudado.
- E… problemas? – Repetiu ele, fazendo ar pensativo. – Eu lembro-me de uma única discussão que eles tiveram. Foi pouco antes de nos mudarmos. Andaram até uns dias sem se falar e o pai chegou a estar fora de casa uma semana… Mas depois voltou e foi aí que decidiram mudar.
- E discutiram porquê? Porquê que o pai se foi embora?
- Não sei… Eu não me lembro! Eu só me lembro que era eu quem tinha de cuidar de ti. A mãe passava mais horas a trabalhar do que em casa. – Respondeu. – Ele saiu porque estavam chateados… Mas não sei o porquê. Eu só tinha 7 anos!
- A trabalhar… Sempre a trabalhar, aqueles dois! – Resmunguei.
- Eles não eram assim. Eles começaram a só ligar ao trabalho a partir dessa época. Depois dessa discussão… – Relembrou o Pierre, com algum esforço. – Mas eu não sei o motivo… Mas também não importa! Esquece isso, maninha!
- Sim… Não deve ter sido nada de grave… Um arrufo! – Sorri.
- Estamos lá em baixo a ensaiar, queres vir?
- Eu já lá vou ter…
Ele sorriu e fez-me uma festa na cabeça. Fui até à sala e sentei-me no sofá. Olhei para a janela e observei as árvores, por entre as cortinas mal fechadas. Que mania de as deixarem assim! Levantei-me e ajeitei as cortinas. Não consigo deixar de pensar no motivo da discussão. Nunca vi os meus pais a discutir.
Quando me virei, para voltar para o sofá, vi o David. Não me apercebi da sua chegada e assustei-me.
- Calma! – Disse ele. – Sou assim tão feio?
- Não. Mas não contava contigo aí. – Respondi, fitando-o nas suas roupas justas. Feio? Será que ele tem espelhos? De feio não tem nada. Mesmo nada…
- Ei, estás a ouvir? – Perguntou, abanando-me.
- Ahm? – Soei. – Que disseste?
- Perguntei-te se estás bem! – Repetiu. – Estás a dormir ou quê?
- Desculpa… Estava distraída! – Disse eu, voltando à Terra. – Vou sobreviver…
- Mas eu acho que não…
- Porquê? – Perguntei preocupada.
- Por muito estranho que pareça… Só me apetece estar contigo. – Confessou ele, agarrando-se a mim. – Abraçar-te, beijar-te… Repetir a nossa noite, mas desta vez de maneira a que me lembrasse…
- O quê…? – Perguntei, ainda atordoada com as suas palavras.
Era como se elas me fizessem derreter. Entrar noutra dimensão, onde aquilo podia ser real, podia acontecer. Os seus braços estavam à minha volta, fazendo-nos estar colados. Outra vez, os nossos rostos estão perigosamente perto. Uns centímetros, milímetros, até que acabamos com a distância, como se tivéssemos um íman que nos atrai. Apenas paramos o beijo, porque ouvimos um barulho, na entrada.
- O que foi isto? – Perguntei, sobressaltada, mas ainda nos braços dele.
- Hm… Deve ter sido o vento. – Respondeu o David, vendo uma das janelas abertas e voltando a aproximar o seu rosto. – Onde é que nós íamos…?
- Em lado nenhum! – Respondi, indo buscar forças não sei onde, para me conseguir afastar dele. – Estás louco?! O Seb está lá em baixo!
- Exacto e nós estamos cá em cima… – Ironizou ele. – Eu não consigo estar longe de ti! Não sei o quê que se passa comigo…
- Isto não está certo! – Barafustei. – O que aconteceu entre nós foi um erro! Um erro, David! Eu não quero destruir a minha relação com o Seb por tua causa… Eu fui só mais uma para a tua lista infindável de raparigas com quem já dormiste!
- Não! E pára de pensar que eu sou assim! Não sou! – Resmungou, tentando aproximar-se. Uma parte de mim quer ceder e acreditar que é verdade. Que ele não é um engatatão que faz colecção de raparigas. Mas a outra parte, diz-me que não devo ceder. Que está errado e que apenas me devo afastar. – Eu não sou essa pessoa que tu pensas!
– Eu… Eu não sei… Eu… Preciso de… – Gaguejei, sem saber o que dizer, pensar ou fazer. A minha cabeça está uma bagunça. Preciso de ordenar as ideias.
Saí da sala e fui à cozinha, buscar uma caneca de café quente. Subi as escadas e fui para o quarto. Arrepio-me só com a ideia de que o Seb poderia ter visto. Seria o fim! O quê que passou pela cabeça do David? Será que perdeu completamente o juízo? Eu estou a tentar apagar da minha memória o que aconteceu e ele ainda faz isto?
“Eu não consigo estar longe de ti!”. Ouço as suas palavras repetidas vezes na minha cabeça mas não fazem sentido para mim. Neste momento, nada faz sentido.
Sentei-me na beira da cama, com a caneca na mão. Olho o café, como se ele me fosse esclarecer o que está a acontecer comigo. A porta abre-se e é o David.
- Não vamos ficar assim… – Disse ele, entrando e encaminhando-se para a minha beira. – Desculpa, tu tens razão. Não sei o que me deu!
- Mas tu és doido?! – Perguntei e levantei-me. Sem querer, tropecei e entornei o café por cima das calças do David, sujando-lhe ainda a camisola.
- Ai! Está quente! – Queixou-se, dando saltinhos.
- Despe-te, rápido! – Disse eu, preocupada.
- Isso é vingança? – Perguntou, despindo a camisola e depois as calças. – Tu queres que eu perca o abono de família?
- Não! Foi sem querer! – Respondi.
Agarrei numa tolha e encostei-lha ao corpo. Sou um autêntico desastre. Ouvimos a porta a abrir e inclinei a minha cabeça e espreitei para trás do David, que também virou a cabeça para ver o que era. Ou melhor, quem era. Senti o coração gelar ao ver o Seb a fitar-nos, com ar confuso. Não houve tempo para explicações, ele apenas virou costas.
- Seb! – Gritei, saindo atrás dele.
Desci as escadas a correr e apanhei-o no hall de entrada, já a abrir a porta da rua. Agarrei-lhe um braço e impedi-o de sair. Ele não podia sair assim, sem lhe explicar o que tinha visto, até porque, não era o que ele estava a pensar. Não desta vez.
- Espera! – Pedi.
- Deixa-me ir! – Exigiu, puxando bruscamente o braço. – Vai ter com o David!
- Não é o que estás a pensar… – Respondi. – Eu entornei o café quente em cima dele!
- E há bocado? – Perguntou ele, com os olhos a lacrimejar. Qualquer coisa dentro de mim partiu-se. O meu coração parou. – Qual é a justificação para se terem beijado?
- Deixa-me explicar! – Pediu o David, descendo as escadas já vestido.
- Não há nada para explicar! E por favor, não me venham com o clichê do “não é o que estás a pensar” e o “deixa-me explicar!”. Eu ouvi bem o que vocês disseram, eu sei o que vocês fizeram… Pior! Eu vi! – Gritou o Seb, esbracejando furioso. Nunca o tinha visto assim e preferia nunca ter visto.
- Viste? Mas o quê que tu viste? – Perguntei, engolindo em seco.
- Vocês os dois, bêbedos… – Começou. – Vocês sabem muito bem o que fizeram! Querem que vos explique?!
- Como é que tu viste?! – Perguntou o David, aproximando-se, espantado.
- Deviam ter mais cuidado com os sítios onde se envolvem. – Aconselhou, num tom irónico e entregando-nos um CD que estava guardado na mala da sua guitarra. – Mas o idiota sou eu, por ter acreditado que me podias amar, apesar de tudo estar contra! Eu tentei fazer de conta que não via os vossos olhares, que não percebia o que o Pierre me dizia indirectamente… Tentei fingir que não sabia de nada, que não sabia que me traíste… Talvez pudesse esquecer e, quem sabe, tivesse sido só daquela vez e pudéssemos… Esquecer que aconteceu! Quando chegaram, eu esperei que me contasses… Eu tinha perdoado se me tivesses dito que tinha sido um erro e que não se repetiria! Mas não… Tu fizeste de conta que estava tudo bem! E pior, ainda se beijam debaixo do meu nariz! O teu amor é realmente uma mentira!
- Isso não é verdade! Eu…
- Como é? – Perguntou, interrompendo-me.
- O quê?
- Como é beijá-lo sabendo que eu confio em ti? – Questionou, encarando-me e apontando para o David que estava parado, fitando o chão. – Não pensaste em mim, quando se envolveram?!
- Nós estávamos bêbedos… E… Não tínhamos noção do...
- Não digas mais nada. Não vale a pena! Nada do que possas dizer vai mudar aquilo que fizeste. Nenhuma palavra vai parar a dor que sinto aqui… – Disse, apontando para o coração. Dos seus olhos escorriam lágrimas contínuas, que me fizeram sentir ainda mais culpada. Era como se cada lágrima dele fosse uma lâmina que dilacerava o meu coração em pedaços. Abriu a porta e saiu.
- Um CD? – Perguntou o David, olhando para o mesmo com ar apatetado.
Fiquei atónita a olhar para a porta da rua, como se não me conseguisse mover, apenas sentindo os olhos a arder. As palavras do Seb tinham-me afectado mais do que se me tivesse batido. Se o tivesse feito, teria doído menos. O David abanou-me e eu olhei-o. Ele levantou e mostrou o CD. Tínhamos de saber o que ali estava. Não podia ser o que eu estava a pensar. Não podia! Caminhamos para a sala e eu coloquei o CD no leitor de DVD. Para nosso grande espanto, surgiu o meu quarto do hotel onde ficamos em Miami. O relógio marcava 02.25 horas da manhã. Estava tudo calmo até que surgimos nós. Eu a agarrá-lo e dar-lhe o beijo na cara, a tropeçar e a cairmos na cama e tudo o que se seguiu e não nos lembrávamos. Fiquei imóvel ao ver aquelas imagens.
- Oh meu deus! – Comentou o David, de olhos esbugalhados, incrédulo. – Como é que eu posso não me lembrar…?!
- Porque estávamos bêbedos… – Respondi, ainda apatetada com o que via.
Não tinha consciência de quão animados tínhamos ficado depois de todas aquelas bebidas. O Nick tinha razão. Dava para entender porque não nos lembrávamos. As roupas voavam pelo quarto e rebolávamos nos lençóis, alternando entre risos e beijos. Estávamos completamente sem noção do que fazíamos. Mas, no fundo, ao ver aquilo, sentia-me como o David, em relação ao não se lembrar. Embora não devesse, sentia-me com pena e sentia-me culpada por sentir isso. Eu não devia querer lembrar-me. Não devia.
- Agora já percebi como é que os meus calções foram parar acima da comoda! – Comentou o David, com um sorriso malicioso e olhando-me. – Que violência!
Fechei os olhos, enquanto as lágrimas escorregavam teimosamente. Eu devia ter contado ao Seb mal cheguei. Não podia ter escondido o que tinha acontecido, mas o receio de que ele acabasse com a banda foi maior. E agora? Ele odeia-me e com toda a razão. E o que vai ser da banda? Não sei se consigo conviver com a culpa de lhes ter destruído o sonho. Tapo a cara com as mãos e desabo num choro incontrolável. Eu devia ter evitado isto! Mas como é que podia adivinhar que o Seb ia receber isto?
O David tirou o CD e voltou a guardá-lo. Aproximou-se de mim e abraçou-me.
- Não chores. Tudo se vai resolver.
- Ele odeia-me… – Chorei.
- Nós vamos falar com ele e… Ele vai perdoar-nos! – Disse ele. Afastei a cara do seu peito e olhei-o. – Mas agora estou preocupado com uma coisa…
- O quê? – Perguntei, limpando o rosto.
- De onde é que apareceu aquele CD? Quem é que nos filmou e como é que foi parar às mãos do Seb?
- Boa pergunta… – Respondi.
Nem tinha pensado nisso. O David tinha razão. De onde é que tinha aparecido aquilo e porquê? Não precisei de pensar muito mais, pois rapidamente se fez luz na minha cabeça. Eu e o David entreolhamo-nos, como se estivéssemos a pensar a mesma coisa.
- Foram eles! – Dissemos ao mesmo tempo.
Fale com o autor