Deu Match
2 Tinder
Notas iniciais

27 de outubro de 2007
Tinder
— Hei, sua foto escalando é incrível – comento tentando puxar papo com o novo match.
— Hei, você, nem acredito que demos match, você é linda – o cara logo responde
— Ah, valeu – sinto que aquele momento começará, aquele onde os dois não falam mais nada e o momento constrangedor se instala
— Me diz, gosta de musica? – ele tenta dar continuidade
— Amo, não vivo sem música – falo animada e com vários emojis para enfatizar – e você?
Off-line
— Você está me escutando Sam? – Lena consegue minha atenção e bloqueio o celular no mesmo momento – não acredito que falei sozinha por todo esse tempo, Samantha.
— Ok, culpada – peço desculpas com o olhar e Lena revira os olhos – é que...
— Tinder? Desde que teve a revelação de que você e Cassey não dariam certo... – ela completa prevendo o que eu falaria, mas me recuso a concordar, apenas sorrio – carne nova?
— Até tem, mas ainda estou meio encantada pelo cara mais velho – me ajeito no sofá e cruzo as pernas, estando de frente para ela – outro dia eu estava conversando com ele, o papo estava fluindo muito bem e ele me perguntou sobre o que eu fazia, daí respondi e perguntei sobre ele...
— O cara mais velho é o palhacinho? – Minha melhor amiga pergunta e confirmo com a cabeça, sorrindo, lembrando da vergonha que passei
— Ele disse que trabalhava no circo, até aí tudo bem, mas brinquei dizendo “ah, por isso que você é tão palhaço”, mas me referia ao fato de ser engraçado, cheio das piadas – falo sem parar de rir
— Ele é realmente um palhaço? – Lena gargalha quase sem ar
— Ele sem entender disse “mas nem sou palhaço, sou contorcionista” e eu fiquei sem ação – cubro o rosto lembrando da vergonha – eu tentei explicar que achei que era brincadeira dele, não levei a sério e no fim soltei um “mas me fala um pouco mais sobre seu trabalho”, pra tentar amenizar a vergonha
— Meu Deus, amiga, isso não se faz, caçoou do trabalho dele – Lena continua a rir de mim descaradamente – mas e o que rolou depois?
— A conversa simplesmente morreu – dou de ombro, desconfortável com as risadas incessantes – da pra parar? Está rindo da minha desgraça, quase um mês de conversa jogado fora, afinal, ele é lento, mas não burro
— Não entendi – Lena enfim para de rir e presta atenção
— Ele acabou entendendo o que falei sobre ele ser palhacinho, mas não levou na brincadeira, entendeu como crítica ao jeito descontraído dele, enfim... Acabou morgando tudo – passo as mãos no rosto procurado sentido na história que acabei de contar pra minha amiga
— Mas você disse que tinha gente nova, quem é? Já posso apelidar? – ela se refere aos apelidos que colocava em cada caso fracassado do tinder, com a finalidade de saber sempre de quem eu estava falando
— Esse foi um macth de ontem, esperei ele falar algo e nada, então tive a atitude de tomar a frente – falo naturalmente e ela fica boquiaberta – ok, já sei da piadinha, sim, tomei atitude, enfim... Não vai rolar
— Que? Começaram a conversar há quanto tempo? – Lena pergunta assustada com minha certeza de que não iria para frente
— Dois minutos atrás – sorrio e Lena faz o mesmo, mas eu sabia o que ela diria – em minha defesa, não rolou clima, sabe?
— O olhos claros era muito manhoso, o musculoso muito esportista e isso te cansava – ela começa a elencar e sorrio com sua cara de pau em me analisar – o baixinho era irritante, o novinho era muito novo...
— Ok, entendi, pode parar – levanto do sofá e vou até a cozinha
— É serio Sam, para de arrumar pretexto e começa a sair com alguém que te interessar, já parou pra pensar que sua recusa surge logo após um convite pra um encontro? – sorrio incrédula com o comentário – você rir, mas sabe que é verdade, o olhos claros é um exemplo, você dizia que ele era perfeito, ótimo papo, carinhoso e cometeu o erro de te chamar pra sair – coloco café na xícara e continuo olhando para Lena com ironia, tentando fazê-la sentir que estou repreendendo-a pela análise gratuita – do nada ele se tornou manhoso e grudento porque te mandava mensagem querendo saber como estava, um “bom dia”, “boa noite”, “dormiu bem?”, estou errada?
— Muito – sou sínica e tomo meu café tranquilamente – ok, não tão errada
— É medo de se expor? Medo do cara ser horrível? Porque se for... – ela puxa o ar e volta a falar antes mesmo que eu responda. Ok, ela fez uma pergunta retórica – pode marcar em lugares públicos, me manda o lugar, posso te ligar com 1h de encontro e inventar algo pra te salvar caso esteja ruim, até passo pra te buscar caso vá a pé
— Ok – pego o celular e abro o aplicativo tinder, fazendo Lena arregalar os olhos
— Não quis dizer que era pra marcar algo com um cara que mal conhece – acredito que ela pensa que mandarei pra o match de ontem
— Vou mandar mensagem pra os olhos claros – dou de ombros e ela sorrir
— Depois eu sou cara de pau – se aproxima para ver a mensagem
Tinder
— Oi Pedro, tudo bem? Faz tempo, um mês que não nos falamos, acabei me ocupando tanto com o trabalho que não tive tempo para o tinder – envio e Lena me olha como quem diz “sério que vai mentir nesse nível?”
— Oi, linda, senti sua falta!! Tudo bem, foi um mês corrido pra mim também, como está tudo? – ele envia sem demora
— Estou bem e você? – envio e nem espero sua mensagem para enviar algo novamente – e aí, vamos sair qualquer dia desses?
— Também estou bem!!!!!!!!!!! – as várias exclamações me fazem crer que ele está animado – NOSSA... Claro!!!! Siiiim!!! – Reviro os olhos ao ver todas aquelas exclamações e Lena sorrir – podemos nos encontrar no mercado Mendonza’s? Fica perto de onde você mora?
— Até que fica sim, amanhã? – envio pouco entusiasmada e Lena parece está mais animada que eu
— Claro, podemos sim! Ás 15hrs? – ele manda vários emojis com corações nos olhos
— Ok, marcado então, até amanhã – finalizo o papo já cansada de fingir
— Já vai? – agora são vários emojis chorando
— Estão me chamando aqui no trabalho, preciso ir – simplesmente saio do aplicativo e volto a bloquear o celular
Off-line
— Você é horrível sabia? – Lena me olha com olhos cerrados – não tem vergonha de usar o garoto assim? – fala debochada
— Você me mandou marcar um encontro, marquei e vou comparecer – dou de ombros – agora vamos para o trabalho, não acha que já vadiou demais? – levanto rápido do sofá e a puxo – sem manha, já basta o olhos claros
28 de outubro de 2007
Sabe aqueles homens que te enchem os olhos? Alto, cabelo arrumado, barba feita, todo arrumadinho... Pois é, o olhos claros é assim. Daí você pode pensar “Sam, pode ser só por foto e pessoalmente ele pode ser diferente”. Você não está entendendo, estou na frente do mercado esperando, quando avisto aquele monumento de longe. Ele vinha andando com ar de mistério, meio distraído, óculos escuros, engomadinho demais pra meu gosto, mas ninguém é perfeito. Ele enfim se dá conta que estou ali e já se aproxima com um sorriso largo no rosto.
— Samantha? – ele me pergunta ainda sorrindo e tira seus óculos escuros. Nossa, ele consegue ser mais gato sem eles, porque eu não saí com ele antes mesmo? Ah, ele era grudento e manhoso, lembrei, mas olhando direitinho, até que vale a pena aturar essa manha. Que isso, Samantha? Beleza não é tudo, não seja superficial – Samantha? – ele chama e me faz parar de devagar na minha mente
— Sim, eu – sorrio de volta – prazer te conhecer, Pedro – ele se aproxima e me puxa pela cintura para um abraço forte. Caramba, acabamos de nos conhecer e ele... NOSSA! Ele acabou de beijar e mordiscar meu pescoço durante o abraço? Chegou a causar um arrepio gostoso, mas calma aí, amigão – tá tudo muito bom, mas vamos com calma, certo? – o empurro com delicadeza pelos ombros
— Verdade, estamos em local público – ele sorrir sem jeito, ah gente, ele é fofinho sem jeito. Foco, Sam! Não se derrete
— E aí, onde será o encontro? – pergunto curiosa
— Vem cá – ele segura minha mão e me faz entrar junto com ele no mercado. Sim, de mãos dadas.
Andamos por alguns corredores, ele parecia procurar algo, acho que falta alguma coisa para nosso encontro. Será que vamos fazer um piquenique? Como ele não me fala o que procuramos, decido não estragar a surpresa. Continua vagando comigo pelo mercado, ainda de mãos dadas e sendo sincera, até que não me importo com isso, mas a coisa passou a ficar estranha quando ele pega um carrinho grande de mercado. Falta tanta coisa assim pra esse piquenique?
— Ele é lindo, hein? – aponta com a cabeça para um bebê no colo da mãe
— É uma graça mesmo – sorrio involuntariamente. Own, olhos claros ainda é paternal?
— Você quer ser mãe? – ele volta com seu sorriso largo e encantador
— Quero sim, na verdade, quero muito – a conversa pode ter aquecido meu coração
— Nunca falamos sobre isso, mas também quero muito ser pai – ele deposita um beijo no topo da minha cabeça. Ele realmente está me ganhando, devo agradecer a Lena por me obrigar a isso
— Ainda demoramos? – Pergunto e encaro o carrinho que já tem vários produtos alimentícios
— Prometo ser mais rápido – ele sorrir e acho que algo acaba de ficar estranho, porque ele adiciona um pacote de papel higiênico ao seu carrinho e logo depois um pacote de OB. Juro que fico confusa e sou obrigada a falar algo, mas ele é mais rápido – sabe, gosto de fazer compras com minha namorada – ele me interrompe e fico chocada, parando bruscamente no corredor do mercado – o que acha dessa marca de OB? Gosta?
— Oi? Você namora? – fico chocada com a informação e ele simplesmente sorrir
— Você é engraçada, anjo – ele volta a beijar o topo da minha cabeça e recomeça a andar, parando apenas quando percebe que não o acompanho
— Cara, eu vou embora, deveria ter dito que tem alguém – sussurro para que ninguém ali me escute
— Está brincando? Você é minha namorada – ele parecer falar o óbvio e realmente não sei se ele fala a verdade ou está só brincando comigo
— É pior do que eu pensava – penso alto sem nem me dá conta e sinto seus olhos me observarem com calma, como se eu tivesse em algum surto e ele não entendesse o que está acontecendo – eu vou falar com alguém do mercado porque tô muito apertada, vou pedir pra ir ao banheiro de funcionários – falo rapidamente e saio apressada antes mesmo que ele fale algo. Banheiro? Estou é correndo daquele encontro
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