Detrimento

1 Capítulo Único


Lessa Clanton escutou o despertador do celular por dois minutos antes de decidir silenciá-lo. Virou-se para o outro lado, mas já estava presa novamente àquela existência. O sono não iria voltar. Havia ainda a esperança de que aquele estado de hibernação a encontrasse de novo. Era um esforço em vão. A língua de um cão dançava entre seus dedos. O animal a chamava para sua tão esperada corrida matinal aproximando-se de seu rosto, e recebeu seu abraço. Eram 6h45 de um sábado. A neblina de inverno preenchia o céu e as ruas do bairro. Diferente do cachorro, Clanton não sentia-se motivada. O cansaço a cingia mesmo depois de uma noite sem sonhos. A satisfação daquela atividade deixara de existir havia muito tempo. Seus passos eram vazios, tudo funcionava como um relógio, cada dois passos um segundo, dois-um, dois-um. Porém ela não estava lá. O cão sempre estava. Não adiantava fugir de certas obrigações. Até mesmo tarefas mais simples tornavam-se dolorosas. Normalmente ignorá-las era a melhor escolha. E quando tudo dava errado ela fingia não estar vendo.

Mais tarde o ritual era feito sempre no mesmo horário. Um comprimido, dois, três, quatro... A única droga que lhe trouxe algum benefício na vida. Se é que havia de fato vivido. No passado o vício a fez experimentar pelo menos cinco drogas diferentes: Maconha, Cocaína, Êxtase, Anfetamina e LSD. Todas causadoras de efeitos cujo desejo ainda era latente sob a pele. Mas Lessa não tinha apenas aquele cão como companheiro, havia alguns conhecidos, pessoas que passavam pelo mesmo problema que ela, que lutavam todos os dias, incansáveis. O grupo de ajuda era formado por oito membros, sem contar o médico voluntário. Um bom homem, mas indulgente demais diante das derrotas de seus pacientes. A terapia era sempre aos sábados à noite, num espaço cedido pela igreja. A congregação pouco importava. Embora seu corpo estivesse dentro de um templo, sua mente estava distante de Deus. Clanton nunca ligara para Ele, nem Ele para ela, e as coisas poderiam continuar assim.

No salão eram três mulheres e cinco homens sentados em círculo. Cada um com uma frustração em particular, vicio em álcool, drogas, sexo. Às vezes Clanton preferia ficar em casa ao ouvir suas histórias; umas contavam fracassos, outras vitórias, e algumas a enojavam fazendo-a refletir mais tarde sobre os inexistentes limites da irracionalidade humana. E tudo o que ela queria escutar era o ruído da TV quebrada, com o corpo jogado no sofá, sem pensar em nada e em tudo ao mesmo tempo.

Durante a semana, ela cumpriu suas tarefas; trabalhou, acostumou-se a vestir a máscara social, pois é o que as pessoas fazem. E se perguntava “Por que continuar tentando se nada me faz feliz?”, tudo a fazia sentir-se ainda pior, presa num círculo vicioso. De repente vivia em câmera lenta; os dias tornavam-se indistinguíveis. Coisas que deixavam seus colegas de trabalho animados a deixavam indiferente, e ciente do imenso abismo entre eles.

Um dia, o grupo recebeu um novo membro, chamava-se Gabriel. Era gordo como um grande urso, negro, Artesão e estava sempre sorrindo para as pessoas. Poucos perceberam que seu sorriso escondia suas dores, talvez por estarem numa mesma vibração Lessa pôde perceber isso. Como de praxe, o homem foi apresentado ao resto dos membros, e em poucos dias estava integrado. Uma das qualidades da terapia em grupo é que você pode saber da vida de quem o interessa sem fazer qualquer pergunta direta, e Lessa estava curiosa. Gabriel morava sozinho e vivia de vender sua arte. Fez a visita influenciado pelo próprio médico, mas pouco falou sobre si num primeiro momento. Reservado, Lessa diria.

Na saída de um dos expedientes, Lessa dirigiu-se à Drogaria a fim de atualizar seus fármacos. Respondeu à saudação da atendente com um discreto aceno, então pôs a receita sobre o balcão. Habituada a prescrições, a moça leu-o rapidamente e virou-se para buscar as drogas. Os medicamentos poderiam ser adquiridos sem custo numa rede pública, mas estava cansada demais para hospitais. Lessa fitou o recinto, distraída. Apenas duas pessoas avaliando com atenção os medicamentos sobre as gôndolas. Uma música bem baixa soava de algum lugar desconhecido, e ela gostou. Tocava "Glory of Love" de Peter Cetera, um clássico dos anos 1990. Uma época que para ela havia sido o céu e o inferno ao mesmo tempo. Era mais proveitoso lembrar dos bons momentos, dos amigos e daquela sensação de liberdade. Então de súbito, o Artesão atravessou a porta de vidro, meio desajeitado. Lessa puxou sua receita imediatamente e a guardou de volta no bolso. No grupo ela era apenas uma ex-viciada, e só. Ninguém ali precisava saber de sua doença. O grande homem não a viu a princípio. Foi objetivo, pegou algo numa das gôndolas e seguiu para o balcão. A moça voltou com quatro frascos, bipou cada produto e a soma dos valores apareceu na tela do computador.

"Por favor, vocês têm amoxicilina aqui?", Perguntou Gabriel de repente.

"Tínhamos até hoje à tarde, mas acabou. Deve ter no estoque de outra loja. Posso verificar se quiser."

"Por favor, obrigado."

"Claro", e dirigiu-se à Lessa "deu 68,95$." Depois foi até o canto do Balcão onde estava o telefone da loja.

Enquanto esperava, Clanton percebeu que o Artesão observava seus frascos.

Aquele silêncio e tensão no ar a incomodava a cada segundo. Consultou o relógio. A merda da atendente não terminava a ligação. Para se ocupar, Lessa começou a guardar os frascos numa sacola.

O homem ao seu lado continuou sem dizer uma palavra. Tentava disfarçar e a fitava de soslaio. Outra música do passado começou a tocar, "Everybody's Changing" de Keane.

"Não há mais músicas assim hoje em dia", disse.

Lessa percebeu que o comentário se dirigia a ela, e assentiu, ainda reticente.

"Meu pai era baixista de uma banda de Jazz. Costumava tocar clássicos em barzinhos também. Não era muita grana, mas dava pra se virar."

Uma questão agora surgiu na mente de Lessa.

"Seu pai era músico e você virou artesão?"

"Nunca tive muito talento para cordas de aço, sempre gostei mais de trabalhos manuais. Mas não descobri isso facilmente, eu consertava eletrônicos antes."

"Consertava?", a TV surgiu imediatamente em sua mente.

"Sim."

"Não conserta mais?"

"Depende da necessidade", brincou "por quê?"

"Err... Não, por nada. É que minha TV está quebrada há duas semanas e ainda não tive coragem de levá-la ao conserto".

"Hum..."

De repente Clanton sentiu vontade de se enterrar ali mesmo. Sua intenção não era parecer alguém carente de favores, deveria ter ficado calada.

A atendente voltou.

"Temos na outra loja" disse, quando Lessa pôs o dinheiro no balcão, pegou sua sacola e saiu.

"Podemos fazer entrega em domicílio se quiser".

"Ah... sim, sim. Vou querer que entreguem, obrigado."

"Ué...", A atendente contou as cédulas, "ela esqueceu o troco."

Quando o Artesão olhou novamente na direção da saída viu apenas a porta de vidro fechando-se devagar.


Ao som das gotas de chuva na janela, Lessa sonhou com sua mãe. Era como se nada tivesse acontecido, nem brigas ou morte. Numa tarde de sol, ouviu a mãe dizer que havia encontrado Deus e que ele a advertiu dizendo que precisava parar de fumar. Lessa riu quando imaginou a cena e caçoou dela, descrente. Contudo o barulho do alarme a acordou mais uma vez. O cão, a tanto tempo sem nome, aproximou-se e a lambeu no rosto como acostumara fazer.

As pessoas são tão voltadas para dentro de si que muitos detalhes sobre outrem passam despercebidos. Quem se afunda muitas vezes faz isso sem querer, por impulso ou até mesmo sem saber. Um susto subiu por sua espinha quando, voltando do trabalho, viu um homem tentando invadir sua casa; aquilo cortou todo seu fluxo de pensamentos.

“O que está fazendo?”

O homem teve um sobressalto e se virou. Ela reconheceu seu rosto; de barba por fazer, olhos fundos, aspecto doente. Vestia um jeans batido e uma jaqueta horrorosa com frases que ela não se deu ao trabalho de ler.

“Ora, quem apareceu!”

Lessa se aproximou e o empurrou para longe de sua porta.

“Já não disse para você não vir aqui?”, e remexeu na bolsa em busca do molho de chaves.

“Não achou que eu te abandonaria, achou?”

Ela preferiu não responder àquele sorriso sínico, lamentou em silêncio quando achou as chaves. Àquela altura não queria nem saber como o vagabundo havia conseguido entrar no prédio. No entanto, a tarefa não a surpreendia já que a segurança ali era tão decadente quanto o resto do bairro. Por fim enfiou uma das chaves na fechadura e a girou. Um casal de idosos passou por eles e um clima desconfortavelmente silencioso pairou no ar.

“Vem, entra logo.”

A primeira coisa que Sam fez antes de cruzar a porta foi retirar o par de tênis imundo que calçava assim que a irmã o olhou atravessado. De pronto, se jogou de costas sobre o sofá e soprou o ar, cansado.

“Como é bom estar em casa!”

“Pode esquecer. Desde quando te dei liberdade pra tentar invadir meu apartamento?”

“Lessa, pelo amor de Deus... Deixa de ser chata! Só preciso de uns trocados.”

Ela ficou calada reparando o estado moribundo do visitante, e se sentiu culpada por isso.

“Certo, olha...”, sentou-se ao lado dele, “A gente pode tentar de novo.”

“Do que cê ta falando? Da Clinica?”, debochou, “Tá de sacanagem, né?”

“Vai funcionar. Escuta, olha pra mim”, pediu.

Sam a fitou, entediado.

“Eu não vou ficar sustentando vagabundo. E tira os pés da mesa, aqui não é sua casa.”

“Se a mãe te visse agora...”

Com a garganta seca, Lessa foi até a cozinha, abriu a geladeira e encheu um copo com água. No passado, ela foi a referência do irmão mais novo. Vivia com ele, a mãe e o maldito padrasto. Aliás, se tudo dera errado em sua vida boa parte havia sido culpa deste último. Bem como a mãe; uma louca religiosa que vivia uma vida de hipocrisia. Morreu devido um câncer no pulmão esperando um milagre divino que nunca chegou. Lessa e Sam a achavam irônica. Uma fanática esquizofrênica, talvez. Alguém que vivia com um homem depravado a troco de um pouco de atenção.

Segurando o copo pela metade, ela voltou a sala, sentou-se do outro lado do sofá e o encarou.

“Como está a mão?”, a notou enfaixada.

“Foi nada. Ossos do ofício.”

Depois de um gole gelado, Lessa fitou o relógio; tomaria seu remédio em meia hora. Não bastasse suas mazelas, ainda tinha que fazer hora extra como babá. Estava cansada.

“Onde fui amarrar o meu bode...?”

“Você quis dizer ‘burro’.”

“Tanto faz!”, exclamou, impaciente. Então relaxou as costas no encosto, e seus olhos fixaram o teto.

“Não mudou muita coisa aqui desde a última vez”, seus olhos furtivos percorreram toda sala. Escondia suas intenções.

Clanton nem se mexeu. Queria que ele sumisse, no entanto ao mesmo tempo tinha medo de um dia não ter mais notícias dele, de saber que ele foi assassinado ou até mesmo vítima de uma overdose.

“Tudo bem, já entendi. Não vai me ajudar.”

“Não.”

“Posso dormir aqui essa noite, pelo menos?”

Ela pôs o copo sobre a mesa, se levantou, pegou sua bolsa, atravessou a sala e bateu a porta do quarto.

“Vou encarar como um sim”, disse a ela, mas não foi ouvido.

Na manhã seguinte, Sam não estava mais lá. Lessa sentiu um misto de alívio e preocupação; quando o veria novamente? E será que o veria novamente?, se perguntou. Contudo, precisava começar o dia e foi preparar-se para ir ao trabalho.

“Só quando cheguei a estação de metrô, percebi que estava com a carteira vazia”, pontuou para o resto do grupo que a escutava no Salão fechado. Lessa dificilmente participava de forma ativa, o que despertou a genuína curiosidade de todos e a transformou num animal silvestre preso em um Zoológico. E arrependeu-se no mesmo instante.

“Você sabia disso”, afirmou Gabriel mais tarde, num bar.

“No fundo eu sabia, mas não quis acreditar.”

“E ele está bem?”, a pergunta ficou flutuando no burburinho ao som de “Wonderful Life”, ao fundo. Partilhavam água e um suco natural, ambos unidos no exercício da sobriedade. Eram dois loucos genuínos ali.

“Não aparece tem dois meses.”

“Sinceramente, não acho que deve se culpar pelas escolhas dele.”

Lessa passou com os dedos entre os cabelos e soprou o ar num sinal de estresse.

“Você não sabe de nada.”

Ele emudeceu. Mas manteve os olhos nela, então Lessa continuou:

“Desculpa, não quis ser grossa...”, e isso explicava por que durante os anos ela perdeu todos os amigos, “só que... é que... é complicado. Eu fiz muita merda no passado.”

“Não duvido. Todos fizemos.”

“Você?”, por um instante, ela achou graça de imaginar o colega aprontando.

“Sim, já fui até casado”, ela riu pela maneira negativa de sua entonação, “a maior besteira que já fiz na vida. Por pouco não virei pai.”

“Eu não levo jeito pra isso.”

“Não pensa em ter filhos?”

Uma série de problemas de saúde surgiu na mente dela e a deixou pensativa. Se tem uma coisa que ela não faria era trazer uma vida para aquele mundo de merda.

“Definitivamente não”, sentenciou.

“Uma vida gerada pode salvar a nossa.”

“Do que está falando?”

“De um sentido. Às vezes o que nos falta é um coração batendo fora do nosso peito. Já me senti vazio, muitas vezes sem amigos, sem ninguém. Ainda me sinto assim de vez em quando. Num certo momento, a carência é tanta que até um cachorro faz a gente se sentir amado.”

Lessa permaneceu calada. O urso parecia ler sua alma e isso a constrangia.

“Ainda está com a TV quebrada?”, Gabriel tentou livrar-se da desconfortável reticência. Para ele era curiosa a maneira como a jovem se comportava diante de algumas discussões que pareciam acontecer somente dentro da cabeça dela. E a viu terminar de beber o suco, retirar da bolsa um cartão e sinalizar para o atendente.

“Acho que vou me livrar daquele lixo.”

“Posso dar uma olhada nela antes disso?”

“Não, por favor, não precisa. Ela tá uma merda.”

“Relaxa, só estou curioso”, divertiu-se, “tudo nessa vida tem remédio, até sua TV.”

Quando Gabriel disse isso, ambos trocaram um olhar de cumplicidade. Aquele grandalhão ganhava cada vez mais sua confiança. Então foi direta:

“Quer vê-la agora?”

As habilidades manuais do artesão eram evidentes quando em ação diante de peças tão pequenas. Gabriel levava na mochila ferramentas básicas como alicate, pinças, lupa, chaves, multímetro, um kit de ferramentas que fez Lessa se perguntar que tipo de homem iria com isso para uma reunião de grupo. O tipo muito precavido, imaginou.

“Alguma vez precisou disso na rua?”

“Não”, respondeu com sinceridade, estava prostrado sobre a placa mãe; muito concentrado e tranquilo. A cena lembrava um médico legista investigando os sinais de um corpo há pouco assassinado. Lessa observava com a curiosidade de uma criança, sem fazer ideia das funções daquelas conexões. Para ela, deveriam fazer a TV gerar som e imagem e só.

“Como aprendeu a mexer nisso?”

“Graças a um tio muito do preguiçoso.”

“Preguiçoso?”

“É... Quando eu tinha 14 anos, comecei a ajudá-lo. Ele trabalhava numa loja própria de consertos. Se chamava Ricardo, mas todos o chamavam de Rick. Era popular, principalmente com as mulheres. Costumava me deixar com a maioria dos serviços para flertar e passar o tempo em companhia delas. Assim fui ficando com a maioria dos serviços enquanto ele contraía DST’s”.

“Um explorador pervertido.”

“Um Cafetão, como eu costumava dizer. Me sentia uma verdadeira prostituta.”

O comentário, embora descontraído, levou Clanton a momentos do passado que se envergonhava. Gabriel não fazia ideia da quantidade de experiências sexuais que adquiriu por dinheiro, das humilhações a que foi exposta, e agradeceu ao destino por isso.

“Você... lembra quando nos vimos na farmácia?”, ele retirou os óculos de trabalho e a fitou por um instante. Lessa assentiu. “Naquela noite fui pra casa e antes de dormir fiquei deitado me perguntando o que havia feito pra você fugir daquele jeito.”

“Ah...”, um sorriso se soltou, com alívio. Temia outra pergunta. “Não fugi, é que falo muita besteira, só isso.”

“Que besteira?”

“Nada. Sou louca, esquece isso”, quando o Artesão voltou ao trabalho, Lessa sentiu que era injusto não ser honesta com ele. “Eu tive medo.”

O ajuste foi interrompido novamente. Clanton tinha novamente sua atenção.

“Não sou uma pessoa de quem me orgulho. Não costumo me socializar. Na verdade não sei nem como viemos parar aqui. As pessoas lá fora saem com amigos pra se divertir, conhecer gente nova... Mas é complicado quando você não vê graça em nada disso, toma remédios tarja preta e fica pensando em maneiras de desaparecer.”

“E você precisa contar isso?”

“Se quiser ter algo menos superficial que uma simples conversa de bar, sim.”

Agora ele havia entendido direito.

"Bem, se não fosse por esses eles talvez jamais tivéssemos nos conhecido", fez uma pausa. Naquele intervalo percebeu que ela ficou desconfortável. Como da outra vez, mais pensamentos ali dentro. E mudou de assunto. "Se você quiser posso te ensinar alguns truques."

"Disso aí? Nem pensar."

"De artesanato."

"Ah, sim... Ainda não vi seus trabalhos."

"Faltou oportunidade. Você é bem escorregadia", a frase fez ela esboçar um meio-sorriso. "Tenho um sobrinho que é louco por astronomia. Ele tem 12 anos. É capaz de te dizer nome de estrelas, galáxias, até a idade de algumas delas. Um autista muito inteligente."

Lessa estava sentada de pernas cruzadas ao seu lado feito uma menina. Os pensamentos, normalmente agitados, agora em repouso.

"É um garoto muito jovem", prosseguiu, "mas feliz e com muita sede de conhecimento. Ele sempre me faz pensar na nossa insignificância diante do universo e como desperdiçamos nossas vidas com bobagens. A maioria das pessoas acorda cedo pra ganhar dinheiro fazendo algo que detesta e depois gastar esse mesmo dinheiro em coisas que não precisa. Não nos bastamos e precisamos sempre de mais, até nos sentirmos completos. Estou falando demais, né?"

"Não, eu gosto de te ouvir. Queria conhecer seu sobrinho."

"Aprenderia muito com ele, assim como eu."

"Tenho certeza que sim. Ele é feliz."

"É porque ainda é criança, como também deveríamos ser. Vive o hoje. Nós somos o contrário; vivemos muito o ontem e o amanhã. Às vezes o que precisamos é começar a viver o que a gente realmente quer, no agora, quebrar as regras. Da mesma forma que um peixe nada contra a correnteza. Você me parece esse peixe, Clanton."

"Aprisionado num aquário, talvez."

"Todos estamos", sorriu. E com o trabalho finalizado, remontou as peças do aparelho com suas grandes mãos metódicas. "Acontece que podemos pular do aquário em vez de tentar quebrá-lo".

Lessa não precisava perguntar pra saber que ele havia pulado. Tentar quebrar o aquário é o que ela fazia todos os dias ao acordar. De súbito sentiu-se fascinada por suas palavras, que geraram nela conforto. O Urso ligou a TV para testá-la e lá estava a imagem sendo exibida, exatamente como sentia-se por dentro: Limpa. E de repente, sentiu que seu estado de espírito não era mais o mesmo que o anterior, quando lidava com o cão que a visitava, e fez morada por longos meses. No entanto fora embora logo após conhecer Gabriel. Por ironia, o remédio que precisava de fato, nunca tomava, mas agora o tinha; a amizade.

Notas finais
Se leu até o final, fico muito grato. Esse conto foi criado de forma gradativa durante uma semana utilizando de elementos simbólicos para denotar o estado de espírito da protagonista e passar a mensagem aos poucos que culmina no final; o cão e a TV são dois dos elementos utilizados. Tenho um carinho especial por este conto, pois o mesmo contem partes de mim em diversos momentos. Dedico esse texto ao meu pai e a todos que passam pelo mesmo.

??” Hiko
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!