Desventuras de meio-sangues.
7 Um toque de rebeldia.
Notas iniciais
Assim que se aproximou da mesa, Thalia teve vontade de virar um elefante e engolir tudo numa só engolida. Melanie girou nos calcanhares e a encarou de uma maneira esquisita, mais simpática.
–Não é mais aceitável tomar um bom banho antes de comer? A água que está correndo pelos encanamentos nesse momento está quente e agradável.
Luke arregalou os olhos.
– Como diabos você sabe disso? — Ele olhava momentaneamente para as duas garotas, com a expressão assustada. Dando um fraco sorriso pra ele, Thalia apoiou sua jaqueta em uma das cadeiras e encarou com fome os ovos com bacon que estavam sobre a mesa.
Mel relaxou seus ombros pequeninos.
– A sim. Eu poderia te explicar de uma maneira bem específica, mais prefiro resumir em um Não é da sua conta. – Mordeu o lábio e fez sinal que a filha de Zeus o acompanhasse, deixando Luke na famosa expressão Poker Face.
Thalia ergueu a sobrancelha. Antes de sair corredor adentro, olhou discretamente para trás e sorriu.
– Nada de tocar na comida, seu babaca. – Instruiu, levantando o indicador. Luke emburrou, mais o sorriso que brincava nos lábios da garota era tentador de mais para ser ignorado.
– Vai sonhando, fia. Eu estou morrendo de fome. – Disse, pegando um pedaço de bolo de chocolate da mesa e mordendo. Fez o “sinal de’’ jóia” para Thalia.
Ela ofereceu lhe a língua. Um pouco mais a frente, uma garotinha de pouco mais de seis anos, observava, sofrendo em silêncio.
***
Thalia saiu sorrindo do banho. A banheira era extremamente aconchegante. O vapor ainda saía do banheiro da suíte, um pouco isolada do resto da casa. Sentou-se, enrolada na toalha e acariciou suas mechas azuis, enquanto Melanie falava e revirava o guarda roupa.
– Eu tenho certeza que eu deixei aquela porcaria de roupa aqui! Hum essa não. Ah! Não... Essa com certeza não. Aqui! – Ela ergueu uma muda de roupas vitoriosamente no ar.
– Bem – Thalia suspirou – O quê temos a perder? Que venham as patricissies!
As roupas eram simples: Uma saia preta, de cintura alta. Uma regata branca, com algumas inscrições que ela esperava não ser o quê imaginava. Um colete escuro e com babados discretíssimos. Uma meia estilo colegial até os joelhos (Preta, como quase tudo que Thalia usa) e sapatos de fivela muito bem limpos.
Quando se vestiu, Thalia teve que admitir que estivesse muito bonita. Melanie disse que se quisesse se arrumar, tinha um pente na mesa de cabeceira. De começo, a filha de Zeus negou; Mais assim que ela saiu, pôs-se a escovar- os cabelos com uma vaidade que ela considerava pouca, mais que fazia a diferença. Depois de várias tentativas, decidiu que um coque frouxo e ao mesmo tempo firme poderia disfarçar o fato de que ela realmente estava tentando parecer agradável, como uma menina normal.
Menina normal. Disfarçar o fato de estar tentando ser alguém.
Foi exatamente na minha última frase, tecnicamente não com as mesmas palavras que ecoaram na mente de Thalia. Lembrou-se de que ela definitivamente não era uma socialite britânica mirim que janta mensamente com o presidente. Toda a vaidade que estava em seu rosto se despedaçou. Foi quase possível ouvir o Crack!. A rebeldia a dominou como a luz domina a escuridão. Caminhou até o banheiro, e pegou algumas das poucas maquiagens pretas que havia na casa e passou as mais escuras. Manteve o coque; Procurando em uma gaveta, achou uma pequena tesoura, que considerou muito útil.
Sentou-se na cama e pôs seu plano em ação. Fez alguns pequenos rasgos na saia e nas meias. Puxou a alça de sua regata mas para cima, a fim de esconder o máximo possível de seus ombros e costa. Procurou em sua mochila um dos coletes em estilo Dark que havia roubado e dispensou a que Melanie lhe dera. Soltou suas mechas azuis sobre a bochecha pálida deixando as negras presas no coque. Caminhou até um espelho com uma altura maior que a sua própria e mirou-se nele. Pela primeira vez, sentiu –se confiante. Lembrou-se de seu primeiro beijo, com Luke. Ao lembrar-se do filho de Hermes, seus pensamentos ficaram levemente confusos e ela teve que se entregar a um sorriso bobo. O poder que ele exercia sobre ela era tão grande que ela talvez, só talvez, ficaria tentada a ajuda-lo se ele escolhesse dominar o mundo. Prometeu a si mesma, por Luke, que ficaria somente tentada.
•Um fato sobre Thalia Grace•
Ela definitivamente é uma ótima cumpridora de promessas.
***
Quando caminhou até onde havia deixado Luke, ele aparentemente, também havia tomado um belo banho. Vestia uma camiseta azul, com estampa de sapatos alados e uma calça jeans.
– Melanie disse que eu tenho que honrar meu sangue – Disse, referindo-se a própria camiseta – Mais ela passou 47 minutos, 8 segundos e sei lá quantos milésimos explicando que deuses não tem DNA.
– Deuses não tem DNA? – Thalia indagou, um pouco surpresa, enquanto se sentava á mesa.
– Silêncio. Vai que ela ouve?
– Ótima pergunta Thata! – A garota dos cabelos cor de mel e olhos bicolores entrou sorrindo. Sentou-se na cabeceira da longa mesa de pedra e deu um sorriso gigantesco. – Por onde começar...?
– Pelo fim – Luke resmungou. – E só EU posso chamar a Lia de Thata, ouviu sua Wikipédia ambulante?
A filha de Zeus rolou os olhos, um pouco corada.
– Mais que droga, Luke. Cale a boca, sim?
Ele não discutiu. Passou metade do tempo da refeição encarando as vestimentas de Thalia. As roupas haviam sido claramente personalizadas. Não que ele tivesse cérebro suficiente pra deduzir isso de uma hora pra outra (Eu o ofendendo? Magina) . Apenas notou que ela ainda usava sapatos de fivela bem lustrados.
Assim que acabaram de comer, os pratos, tanto vazios quanto os cheios, levitaram sozinhos para a cozinha (“-Macabro” – Luke confidenciou mais tarde).
Os dois semideuses ainda estavam intrigados pelo fato de Melanie não ter comido nenhuma das deliciosas comidas que estavam ali. Somente tirou alguns cubinhos de um saquinho plástico e os comeu. Bebeu apenas uma bebida cor de vinho, que aparentava ter o mesmo gosto. Apesar de desconfiados, não tiveram a coragem de perguntar.
***
Quando Thalia e Luke se jogaram no sofá, a chuva começou. Raios cintilavam pelo horizonte. Os barulhos dos trovões ecoavam por todo lugar. O filho de Hermes tirou seus tênis e se deitou em outro sofá, encarando o teto. Ao contrário dele, Thalia se sentia atraída pelo som que os trovões proporcionavam ao seus ouvidos e pela sensação ácida que davam á ela toda vez que explodiam. Pegou um travesseiro de uma da poltronas e a colocou embaixo da janela, acomodando-se nele em seguida. Abriu o vidro e espiou lá fora. O espetáculo a fez lembrar-se de sua não-tão-querida-mãe. Lembrou-se de como toda noite, ela se levantava da cama, ainda de pijamas, e descia levemente as escadas. Sentava-se no sétimo degrau e espiava. Sua mãe ficava ali, no mesmo local todos os dias: Sentada em uma almofada, na varanda. Os longos e sedosos cabelos negros caiam até a cintura. Havia uma garrafa de bebida em suas pálidas e delicadas mãos; Cerveja, talvez vodca. Nos primeiros dias que flagrou a figura maternal ali, Thalia era muito nova, em seus quatro anos. Mais tinha inteligência o suficiente para saber que no fundo, seu pai fizera a sua mãe tão simpática, tão divertida, sofrer. E havia deixado Thalia como lembrança.
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