Notas iniciais
One-shot escrita para o tópico de desafio no grupo Nyah! Fanfiction proposto por Paulo Roberto Melo, em que o tema é algo do meu cotidiano. *História: baseada em fatos reais. *Título: baseado no meu signo (leão). Os nomes foram devidamente alterados para não expor nenhum dos envolvidos.

Os elevadores não estavam funcionando e Emilly não havia entendido o porquê, afinal, um hospital precisa de tudo em ordem. No entanto, enfrentar seis andares de escadaria lhe parecia, no mínimo, um ato de coragem. Suas pernas doíam só de pensar quando lembrava como não fazia exercício e nem possuía preparo físico algum — mesmo para usar escadas. Olhara para o elevador à sua frente, entre as escadas que subiam e as que desciam, e sua pequena porta branca envelhecida.

“Somente funcionários”.

Aquele aviso era inflexível, o elevador estava terminantemente proibido para uso comum. Olhara em volta e ninguém parecia notá-la, porém usaria somente para subir mais rápido e não danificar seus tendões preguiçosos. Quem poderia julgá-la?

Apertara o botão para chamar o elevador. Observara que um dos grandes à sua esquerda abrira. Sua consciência pesou, mas agora era tarde demais. Iria para o inferno mais cedo ou mais tarde, o que mais importava? Não era o fato de chamar um simples elevador em um ato desesperado de evitar mais sofrimento que a tornava uma pessoa ruim. Já tinha problemas o suficiente para lidar e não deixaria o elevador ser mais um deles.

Quando entrara no elevador que finalmente chegou, percebeu que era instável, antigo e provavelmente não via uma manutenção havia um bom tempo. Lembrara-se dos vídeos de morte em elevador que assistiu no Youtube; mortes reais. Sempre tivera medo de elevadores e saber dessas possibilidades em um daquele tipo era, no mínimo, torturante. Suas mãos suavam frio, mas não demorou tanto para chegar.

Virara à esquerda, buscando o quarto 634; o segundo quarto, também à esquerda.

Quando entrara, cumprimentou uma senhora que fazia companhia ao marido. O quarto era semi-privativo e, além daquele senhor havia um outro, mais jovem, pai de família que estava com algum problema na perna. Ela não entendera bem.

Seu pai, ao canto oposto da janela, encontrava-se muito diferente do homem reclamão, cheio de energia e independente que sempre fora. Nada para se admirar aqui, era apenas seu pai. Mais um pai no mundo.

Ele dormia enquanto a filha do senhor próximo à janela discutia sobre seus remédios. Onde vendia o remédio? Ele possuía cadastro? Precisava de alguma coisa assinada? Ela precisaria ir até o centro procurar?

Tudo isso discutido com animação até o pai irritar-se e mandá-la ir logo comprar os remédios. Enquanto isso, a jovem menina que via aquilo tudo pela nonagésima quinta vez, tentava distrair-se com seu celular. Agradecia a todos os santos que podia por ter se lembrado de colocar créditos para usar a 3G no hospital, é claro. Um hospital não era bem o seu tipo favorito de ambiente para descansar a cabeça.

Seu pai reagira à conversa animada da esposa do velhinho-da-porta, apenas para olhá-la e franzir o cenho em tom de crítica e voltar a fechar os olhos, visivelmente incomodado com toda aquela falação alta. Ouvira a porta se abrir e seu irmão mais novo aproximara-se dela com algumas anotações para a prova da faculdade que teria no dia. Seus pais divorciaram-se havia 6 anos e a mãe trabalhava dia e noite, dessa forma, aquele momento era o mais próximo que já tiveram de uma reunião familiar. Eram apenas os três.

Trocaram algumas palavras, mas seu irmão estava nervoso pela prova, seu pai parecia não querer acordar e estava emburrado, de mal humor e ela muito cansada. Não via real motivo de estar ali. “Porque era seu pai” não sustentava muita coisa. Em muitos momentos seu pai não estivera com ela, “porque era sua filha” não foi o suficiente para mantê-lo por perto. Por que o contrário era, hipocritamente, tão valorizado? Ela não sabia dizer, mas isso a revoltava silenciosamente — e ninguém se importava ou dava-se ao luxo de sequer perceber.

Aos seus 12 anos, lembrava-se bem, daria o rim ao seu pai com câncer, chegando a oferecer veementemente. Sua mãe, ainda casada com ele, afirmara que não gestou uma menina tão perfeita e sem problemas para que ela desse um órgão a um velho autodestrutivo. Sua filha poderia precisar do rim doado quando mais velha; e talvez sua mãe tivesse razão visto que aos 17 ela começara a fumar, como o pai.

Agora, aos 24, contentava-se com a realidade. Seu pai não faria proveito algum de seu rim, mesmo, muito menos fumando mais de uma carteira de cigarro por dia, comendo comida estragada, leite condensado puro e não cuidando de sua saúde — um problema dele que refletia nos filhos toda vez que passava mal.

O que Emilly aprendera com isso foi muita coisa e nem todos compreendiam a proporção que uma vida banhada a egoísmo poderia causar à família. Mas ela, como vítima de uma atitude dessas, sabia muito bem e tentava absorver todos os detalhes daquela situação para nunca repetir os erros de seu pai.

Seu pai e irmão trocavam algumas palavras, enquanto ela focava-se em abstrair a situação toda, até que Jeff oferecera-lhe algum dinheiro — que ficava todo com ele, afinal, ele era o homem da casa agora e a visão de seu pai era de que mulher alguma era boa o suficiente para administrar qualquer coisa; principalmente sua filha, que ainda tinha contato com a mãe e poderia lhe roubar alguns trocados para seu benefício próprio como cigarro, doces ou sobrevivência, vai saber? — para comprar algo na lanchonete. Emilly sentira seus olhinhos brilharem e de repente o dia valeu à pena. Pegou o dinheiro e fora em busca do seu tão favorito cappuccino com chantilly e cacau. Chegando ao quarto, sentara-se. O café estava quente e cheio até a borda, fazendo com que ela derrubasse em sua bolsa e perna. Limpara-se torcendo para que ninguém tenha visto como ela era boba e desajeitada. Morria de vergonha de seus erros, mesmo que fosse algo simples como derrubar um pouco de café em si mesma.

Jeff fora até a lanchonete também, pegar um pastel de Belém. O gosto para comida de Jeff era totalmente oposto ao de Emilly. Ela gostava de temaki filadélfia, ele de macarrão com frango. Ela amava comer pastel, ele preferia um cupcake ressecado. Ela salivava só de pensar em um mochaccino, ele nem sabia o que era isso.

Seu pai, porém, era o melhor degustador da casa: não tinha paladar algum e qualquer coisa era ótima. Menos, é claro, a comida do hospital.

— Quando sair daqui e estiver fazendo hemodiálise, vou me atracar em um cachorro quente desses bem chulos de rua. Depois a hemodiálise limpa tudo, mesmo! Mas assim, quero aqueles morte lenta de esquina.

— Pai! Tu acha mesmo que as toxinas da comida vão esperar pacientemente enquanto tomam um chá até a hemodiálise? Tu vai dar a primeira mordida e vai cair durinho no chão, morto! Para com isso, parece criança! — exaltara-se a filha, cansada de brincar de iô-iô no hospital. Para um homem de 67 anos, seu pai era bem teimoso; e burro.

— Mas eu sou criança… — murmurara o idoso, fazendo bico, birrento.

Não demorou para o enfermeiro chegar e buscá-lo para o exame das 15h com uma hora e meia de atraso. Jeff despedira-se do pai e da irmã para prestar a prova, afinal, era por isso que Emilly estava ali; seu pai não a queria por perto e tampouco gostava de sua presença. De acordo com palavras dele em um discurso pragmático sobre sua relação com ela, estava com aversão a Emilly, mas não poderia odiá-la nunca, afinal, ela é sua filha. Agora, “somente ser sua filha” era motivo o suficiente, mas não impedia de tratá-la com desgosto e ela estava exausta dessa hipocrisia.

Emilly não poderia acompanhar o exame, na verdade, sentiu-se até burra. Se soubesse que era uma punção, saberia que não haveria necessidade de ficar ali sozinha naquele corredor frio ao lado de uma senhora que brigava para ver seu familiar. Sentia-se estúpida e miseravelmente sozinha.

Quando seu pai terminara de extrair o cisto que prensava o catéter duplo J que havia em seu rim, Emilly fora orientada pela médica a levar o tal cisto ao laboratório — que fechava às 18hs.

— Tudo bem — dissera a médica, otimista e paciente. —, se estiver fechado, converse com as meninas do andar para ficarem. Já informei o Dr. Gustavo.

Mas nada, nem ninguém, poderia prepará-la para as próximas duas horas com aquele cisto.

Emilly foi, eficiente e bem-mandada, até o segundo andar entregar a coleta. O laboratório realmente havia fechado. “Tudo bem”, pensara, “vou falar com as meninas e dizer que foi pedido da doutora.”. Afinal, a médica possuía doutorado?

A primeira resposta foi “não temos nada a ver com isso”. A segunda foi “somos apenas a parte que marca consultas e cuida de fichas, minha filha.”. Decepcionada, voltara ao térreo, no balcão de informações.

— Realmente, o laboratório já fechou a essa hora e eu não tenho telefone da médica aqui. Vai ter que levar para casa.

Emilly respirou fundo. Levar um cisto em um potinho para casa passar o final de semana todo na geladeira parecia coisa de doido.

Fora até o sétimo andar — desta vez, pelas escadas — e encontrara uma moça de uniforme azul que, descobriria depois, era uma das enfermeiras-chefes.

Conversara sobre o que poderia fazer com aquele potinho com um pedaço do rim que restara a seu pai e a menina, apesar de tentar ligar para a ala de Cardiologia, onde havia sido feito o exame, o que era bem estranho à Emilly já que rim e coração são coisas bem distintas, mas ninguém atendeu. Às 19hs todos já haviam fechado seus plantões para novos plantonistas chegarem, as salas de exames e andares de atendimento estavam de trabalhos encerrados.

— É, acho que tu vai ter que levar pra casa, mesmo. — dissera a enfermeira-chefe, com cara de pena. A vontade de Emilly era de chorar, pois teria que voltar ao quarto de seu pai e ficar com ele até a meia-noite.

— Tudo bem, fazer o quê? Obrigada, moça. Boa noite.

— Boa noite e boa sorte com isso aí!

Em desespero, ela ligara para seu namorado que a parabenizara.

— É um cisto! — dissera, entre risos.

— Obrigada, vou chamar de Josefino!

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