Desvendando o Amor
14 Só mais uma chance
Notas iniciais
Vaguei um pouco pela cidade depois do expediente antes de voltar para o apartamento. Realmente, o apartamento de Cam ficava bem no centro e era bem maior do que os da maioria da região. Talvez fosse proveitoso morar lá. Talvez eu conseguisse morar lá. Abri a porta e fiquei estarrecida com o que vi.
Talvez não conseguisse morar lá, afinal.
Cam estava transando, no sofá, com outra pessoa.
Fingindo que isso era uma coisa completamente normal e cotidiana e que meu peito não havia doído com a cena, entrei no apartamento, dizendo apenas:
—Desculpa, não sabia que…-Eu não conseguia terminar.
—Ta tudo bem, Encosto, já acabou o clima.
Aquele apelido. Eu não suportaria mais, já era uma adulta e não era obrigada a aguentar as oscilações de humor entre o cara que eu conheci como namorado e o babaca que eu vivia em pé de guerra.
Corri para o quarto e bati a porta, começando a organizar as minhas coisas para ir embora. Eu não era obrigada a nada disso, não era. Cam bateu na porta, segundos depois, mas ignorei, continuando a arrumar as minhas coisas. Ele abriu mesmo assim. Senti seu olhar sobre mim, mas aquilo não diminuiu a minha raiva.:
—O que você está fazendo?
—Indo embora, Cameron. — Me permiti olhar para ele para concluir a resposta.- Como eu deveria ter ido quando te vi no aeroporto. — Morar com ele nunca seria uma boa ideia.
—Me desculpa, Sam. Eu não tive a intenção de te deixar tão magoada. — Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto tão conhecido por mim, já que ele fazia isso toda vez que estava cansado ou arrependido. — Eu sei o quanto esse apelido te machuca e mesmo assim usei. Fica, por favor. — Abaixei a guarda com essa última frase. A voz de Cam me pedindo pra ficar realmente me dava vontade de obedecer.
—Doí demais, Cameron. — Senti meu olho encher de lágrimas logo antes de sentir os braços de Cam a minha volta. Aquele corpo quente, tão conhecido, que me dava a sensação de estar em casa.
—Eu sou um bobo, Sam.- Ele deu uma respirada longa. — Sempre fui. Não sei como agir perto de você.- Isso me quebrou, pois eu sabia exatamente como ele se sentia.
—Eu fico, Cam.- Disse sem pensar muito. — Mas, pelo bem da minha sanidade mental, sem sexo na sala. -Ele se afastou e sorriu.
—Você quer dizer que não gosta de me ver assim, Sammy? — Ele disse, apontando para seu próprio corpo.
Ele estava apenas de cueca boxer preta e seu corpo estava ainda melhor, se é que isso era possível. Meu deus, como eu queria ele. Ruborizei com o pensamento. Ele mordeu o lábio o que só deixou meu pensamento mais forte. Se eu ainda fosse uma adolescente, pularia nos braços dele naquele instante, sem pensar em qualquer consequência. Pena que não podia mais confiar nele:
—Não é isso, Cameron. — Revirei os olhos, tentando negar.- Não quero encontrar sua namorada nua pela casa.- Além do fato de partir o meu coração te imaginar com outra pessoa, quem dirá ver.
—Eu não namoro, Sammy.- Cam me fez olhar para ele. — Não mais. Aquilo foi só uma ligação desesperada. — Quem será que havia começado?
—Sua ou dela? — Perguntei num impulso.
—E isso importa? -Sim, mas não deveria.
—Não, na verdade.
—Então por que perguntou? — Porque se ela tiver ligado, meu coração vai ficar levemente mais em paz.
—Não sei, Cam. Eu não sei de tudo.
***
Quase duas semanas depois, estava comprando um café, logo depois do almoço, quando ouvi uma voz bem conhecida atrás de mim:
—Samantha Vermond. É você mesmo? — Ai, não.
Me virei lentamente, forjando o meu maior sorriso:
—Nathan Loss.
Saí em direção a porta, decidida a buscar outra cafeteria daquele dia em diante, quando senti alguém segurar a minha mão:
—Sam, eu sei que você provavelmente não quer me ver nem pintado de ouro, mas não podia deixar passar a oportunidade de te pedir perdão. — Aquela última palavra prendeu a minha atenção e eu o olhei.- Eu era um adolescente idiota e aprendi a minha lição.- Respirei fundo. Remoer a mágoa de tantos anos atrás não me faria bem.
—Você realmente era um adolescente idiota. — Ele assentiu, sem tirar os olhos dos meus, o que, de certa forma, me fez acreditar nas suas palavras.- Perdoado, todos merecem uma segunda chance. — E tentei sair mais uma vez, já que a cena como um todo estava ficando estranha.
—Você realmente quer dizer isso? — Fiquei confusa com sua pergunta e ele pareceu perceber.- Porque se sim, e se você estiver disponível, eu adoraria te pagar o café que você claramente iria comprar e colocar o papo em dia. — Poderia ser divertido… E eu ainda tinha meia hora antes de ter que voltar para o escritório, do outro lado da rua. Eu assenti e ele apontou uma mesa vazia no canto do restaurante.
—Nate. O que te trás a Nova York? — Perguntei assim que ele chegou com os copos na mesa.
—Eu aproveitei que quase não gastei dinheiro durante a faculdade por conta da bolsa de estudos, juntei as minhas economias com a poupança que meus pais tinham feito pra mim e abri um negócio na cidade quando eu terminei o curso de administração. Deu certo e eu abri mais um. — Ele tamborilou na mesa e deu de ombros. — Acho que minha cota de coisas erradas na vida já passaram. Mas e você? — Perguntou apontando pra mim com o copo. — Dá última vez que meu irmão falou de você, você estava a caminho de Stanford com bolsa integral. — Soltei o ar com força.
—É…- Ri nasalado sem humor.- Muita coisa aconteceu de lá pra cá. Conheci um cara na faculdade, fiquei noiva, mas não deu certo. Aí decidi recomeçar. Estou trabalhando na editora aqui em frente e cheguei na cidade há duas semanas.
—Sorte a minha te encontrar, então. — Ele sorriu e olhou profundamente nos meus olhos. Eu assenti sorrindo de volta.
—E o Nick? Sinto tanta falta dele. — Ele tombou a cabeça, pegou um guardanapo, tirou uma caneta do bolso do paletó e anotou um numero de telefone. — Você deveria ligar pra ele. — Ele olhou pela janela por um segundo. — Apesar de sermos gêmeos, eu e meu irmão sempre fomos muito diferentes. — Era estranho, mas eu sentia um certo pesar em sua voz.- Eu admito que sempre acabava me destacando por ser mais extrovertido, mas quando ele encontrou vocês, ele realmente se encontrou. A Emma ter terminado com ele foi o maior baque que eu já vi ele levar, não só porque ele sempre foi completamente deslumbrado por ela, mas porque ele sentiu que tinha terminado com vocês também. — Ele empurrou o guardanapo para mim. — Ele se mudou para Miami a trabalho, mas vai ficar muito feliz se você ligar. — Eu assenti e alarguei o sorriso, ao mesmo tempo que senti uma leve culpa.
Eu achava que o Nick tinha se afastado por não querer saber da Emma e não por não se sentir querido. Eu faria questão de ligar. Guardei o papel na carteira e desbloqueei a tela do celular para ver a hora. Precisava voltar ao trabalho:
—Sinto muito, Nate. O dever me chama. — Disse arrumando a saia e me preparando para levantar.
—Sam. — O loiro chamou a minha atenção. — Pode parecer meio loucura da minha parte, mas você aceitaria estender essa segunda chance e me dar a honra de ter um encontro comigo? — Seus olhos oscilavam entre os meus e a mesa. — Você não faz ideia de como te ver mexeu com a minha cabeça.
—Sim, Nate. — Retruquei sorrindo. — Me passa seu número e combinamos.
***
Marcamos o jantar para o dia seguinte. Nate não quis me contar para onde iríamos, então me buscaria no apartamento para o nosso encontro.
Entretanto, fiquei presa até mais tarde no trabalho para entregar um relatório sobre um original que havíamos recebido. Entrei em casa correndo para me arrumar:
—Eu estou atrasada. Bem atrasada. — Disse passando por Cam e entrando em meu quarto.
—Atrasada para quê? Você acabou de chegar. — Ainda com a porta do quarto aberta, abri o chuveiro e coloquei a cabeça para fora para respondê-lo.
—Tenho um encontro. Ele deve estar chegando. — Tirei a roupa rapidamente e entrei no chuveiro. Merda, ele não estava esquentando.- Argh. — Me enrolei na toalha, fechei e o chuveiro e voltei para a sala, sem tempo de colocar uma roupa. Senti o olhar de Cam pesar sobre mim, mas ele logo continuou a cozinhar.
—Cam, -O chamei e ele olhou para mim.- posso tomar banho no seu chuveiro? O meu não está esquentando. — Ele olhou para as mãos e vi que estava sangrando. Me aproximei para ajudá-lo.
—Você precisa tomar mais cuidado na cozinha, ou vai acabar sem os dedos. — Peguei um papel e estanquei o sangue do ferimento. Ele passou a mão por trás da minha cintura e me puxou para si. Fiquei sem ar com o toque e em senti-lo tão perto de mim.
—Tem certeza de quer ir nesse encontro, Sam? — Ele aproximou a boca da minha orelha, me fazendo arrepiar.- Prometo que vou cuidar de você, se ficar. — Meu cérebro entrava em contradição. Por um lado eu queria saber com detalhes a que ele se referia quando dizia “cuidar”, já que ele sempre soube me tirar do sério. Por outro lado, um lado que gritava, eu me perguntava quem era ele para falar algo assim? Ele havia me traído. Mas entraria no seu jogo.
—Parece tentador.- Retruquei a provocação. Não era assim que ele queria brincar? Ele não disse nada, então limpei a garganta e completei.- mas ele deve estar chegando a qualquer minuto. E prometi a ele uma segunda chance. -Ele se afastou o suficiente para prender o seu olhar ao meu.
—Não vai me dizer que é o tal de Alex, vai? — Bela piada, Cameron.
—Não, Cam. Quem me traí não tem direito a segunda chance. Fica a dica. — Sim, joguei a indireta, queria que ele admitisse. Mas a resposta dele foi diferente do que eu esperava.
—Você realmente acha que eu te traí, Sam?- Eu assenti, sem conseguir encará-lo. Ele parecia desapontado comigo.- Eu era maluco por você, passarinha. Ainda sou.- O apelido antigo me fez esfarelar em mil pedaços.
—Podemos falar sobre isso depois, Cameron? — Minha voz mal saía, tamanha tristeza.- Eu realmente estou atrasada.
—Você sabe o caminho até o meu banheiro, Samantha. Pode usar. — Ele estava irritado agora.
—Obrigada.
Durante o banho, me peguei pensando na hipótese de Cam nunca ter me traído. Realmente não fazia sentido, mas eu não poderia gastar muito tempo pensando nisso agora. Quando desliguei o chuveiro, percebi que não tinha levado as minhas coisas até o banheiro, e corri de volta para o meu quarto de toalha. Cam não ousou desviar seu olhar para mim.
Me arrumei rapidamente, com medo de deixar Nate sozinho com Cameron muito tempo, mas quando voltei para a sala, ele ainda não havia chegado.
Cam estava sentado no sofá, olhando para a televisão desligada, com um copo nas mãos. Me sentei ao seu lado e, segundos depois, ele se pronunciou:
—Por que você acha que eu te traí, Sam? — Eu não conseguia encara-lo. Sua voz estava triste novamente.
—Você pareceu bem rápido em assumir um relacionamento depois que terminamos.- Disse e ele passou a mão pelos cabelos bufando antes de responder. Ele estava cansado daquilo.
—Você me conhece melhor do que isso, Samantha.- Ele tinha razão. Eu conhecia ele o suficiente para saber que o Cam que eu conhecia não faria aquilo.- A garota era maluca, tanto que terminou na mesma velocidade que começou. -Eu lembrava desse fato. Antes mesmo de eu firmar algo com Alex, ele já estava namorando.- Mas foi bom que tenha acontecido, pelo menos assim eu desviava um pouco dos pensamentos que tinha sobre você.- Ele pensava tanto assim sobre mim? Olhei para ele, que encarava a TV.
—Eu acredito em você, Cam.- Ele me olhou e minha boca foi mais rápida que a minha mente ao pronunciar as palavras que se seguiram.-Eu acho que só precisava de um motivo para te odiar. Assim conseguiria seguir com a minha vida.
—Sam, eu…- Ele não terminou a frase, apenas se aproximou. Eu imitei seu gesto. Antes que a distância ficasse perigosa demais, a campainha tocou.
—Deve ser ele. -Me levantei, indo em direção ao quarto.- Você abre a porta para mim enquanto eu pego o meu celular no quarto? -Perguntei e ele assentiu.
—O que você está fazendo aqui? — Ouvi a voz de Cam logo antes de entrar na sala.
—Cameron Woods? — Nate me olhou no fundo da sala. — Por acaso isso é algum tipo de vingança, Samantha?
—Eu realmente não sei para qual de nós dois seria. — Respondeu Cam, olhando para mim.
—Eu te disse que era alguém que eu havia prometido uma segunda chance. — Disse olhando para Cam. Me virei para Nathan. — Não, não é nada do que você está pensando. — Passei a bolsa pelo ombro. — Vamos? — Nate assentiu e saímos.
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