Meridius fechou suas asas em suas costas quando pousou na varanda de Ailee. Ele não se importou no que aquilo podia significar caso alguém o visse ali, não quando a vida de Niffie estava em risco e nem ao menos conseguia formular um bom plano para ajudá-la.

Naquele momento ele via tudo em vermelho por causa da raiva que sentia em seu coração. Seus inimigos podiam tirar qualquer coisa dele, até mesmo as suas asas, mas não Niffie. Eles haviam se enganado ao pensarem que poderia derrubá-lo a usando, só que tudo aconteceria ao contrário do que esperavam. Sua fome por vingança se tornaria ainda maior e cada um pagaria por seus pecados.

Ele havia deixado Diane mas mãos de Maximus, pois Niffie precisava da sua ajuda naquela época para que não ganhasse nenhum outro trauma. O arcanjo preferiu ignorar sua vontade de ver o sangue em suas mãos pelo amor que sempre sentiu por sua esposa, mas se a perdesse, não deixaria nada passar sem o seu julgamento.

O anjo tinha que se manter recluso por alguns minutos para pensar coerentemente e ter um bom plano em suas mãos, principalmente quando não fazia ideia de quem era culpado, mesmo Victoria sendo uma suspeita. Mas naquele momento, Meridius precisava ver Niffie antes de qualquer coisa. Ele precisava se certificar que ela estava bem.

Seus olhos se encontraram com os de Lukan, que rapidamente se moveu para adquirir uma posição de soldado e movimentar sua cabeça em reverencia.


— Onde está Niffie?—
— Dentro da casa.— Lukan falou.— Ailee e Alyx sairam não faz muito tempo para irem até a cidade.—
— Vá para longe daqui.— Meridius ordenou.— Eu o chamarei quando acabar.—
— Imperatore.— Ele disse respeitosamente enquanto abria suas asas e se lançava para um vôo que o abraçou facilmente até que já não fosse mais visto em meio das nuvens do céu.

Meridius olhou para a casa de Ailee, pensando que o correto a se fazer era tocar a mente dela com a sua e pedir que a angelical saísse da casa, pois a ideia de invadir o ambiente em que uma imortal vivia sozinha não parecia certo. Ainda mais quando a casa havia sido construída com a mensagem clara de que anjos não eram bem vindo no local.

Obviamente, isso era culpa da mente problemática de Gate e não da doce Ailee que sempre cuidou de crianças imortais como se fosse seus próprios filhos.

Era estranho ver a casa da antiga aliquis tão vazia, tão silenciosa. O arcanjo do paraíso sabia que isso era culpa de Niffie, já que agora estava relacionada a um crime e a vários boatos desagradáveis, só que ele não conseguia ignorar a culpa que crescia dentro dele por todos os acontecimentos.

Afinal, tudo o que estava ocorrendo era culpa dele e por ter se apaixonado um dia. Aparentemente, amar uma mulher era muito mais complicado do que ser um arcanjo.

Meridius caminhou para entrar na casa de Ailee, pois precisava ser cuidadoso agora que o futuro de Niffie era incerto. Quanto menos soubessem da sua aproximidade dela, melhor seria para ambos.

O arcanjo do paraíso entrou na casa da aliquis de forma silenciosa, seus olhos encontraram Niffie no momento em que havia aberto a porta da entrada. Ele teve que esmagar suas asas em seu corpo e esquivar, cuidadosamente, dos móveis e paredes com espaços muito pequenos para um anjo.

Niffie estava sentada e apoiava seu corpo na mesa em sua frente, onde existiam diversos pápeis amassados e outros apenas descartados.

Neleshaviam diversos modelos de vestidos que eram próprios para casamento, mas nenhum deles pareciam corretos para se usar em um dia tão alegre. Quase todos transmitiam a mensagem de tristeza e de uma tormenta indomável.

Meridius desejou sorrir, pois quando ordenou que ela fizesse esses desenhos para Victoria, ele já imaginava que a angelical misturaria seus sentimentos com os desenhos e apenas criaria modelos que a outra imortal odiaria, o que apenas iria resultar em mais tempo para ele e seus irmãos resolveram o problema com os anciões. Além do mais, o anjo precisava manter Niffie por perto para descobrir o que estava acontecendo com a mente dela para saber quando ele estava rondando seu espaço privado, apesar de desconfiar que aquilo tinha ligação com o link do casamento deles.

Niffie estava distraída com o desenho que estava criando naquele instante que nem ao menos notou que não estava mais sozinha, mesmo com Meridius se movimentando sem fazer nenhum som, ele já estava próximo suficiente para ela tê-lo notado.

Um imortal jamais deveria ser tão distraído em relação a isso, principalmente quando se tratava de imperatrizes. Se o arcanjo do paraíso desejasse matá-la naquele momento, já teria o sucesso em suas mãos.

Uma onda de poder atingiu suas barreiras com força o suficiente para torná-las fracas e o resultado disso foi o chão tremer levemente a baixo de seus pés enquanto reforçava suas paredes para que a força extra dos seus poderes não gerasse nenhuma consequência.

A ideia de alguém tentar matá-la estava fazendo com que seu controle fugisse das suas mãos e agora que seus poderes estavam crescendo a cada dia, isso era algo que não devia acontecer.

Meridius considerou ir embora, pois logo precisaria liberar as descargas eletricas que estavam se acomulando em seu corpo e que, infelizmente, não conseguia lidar ainda. O arcanjo não pretendia machucar Niffie, muito menos queimar a casa de Ailee e ter Gate importunando sua mente pelo próximo século.

Mas antes que pudesse se mover, a angelical sentada levantou sua cabeça e se virou no momento em que sentiu o tremor do chão.

— Meridius.— Niffie falou surpresa, levantando desajeitadamente da cadeira.

Ele observou a angelical com cautela, encontrando a sua mente para se certificar que tudo estava bem. Milhares de barreiras haviam se formado em volta dela, mas até onde o arcanjo podia entrar, tudo parecia normal.

Sua esposa ficou em silêncio enquanto ele a encarava, agindo como se ela fosse um pequeno bichinho que havia se esbarrado com um predador que desejava sangue.

E era um fato que Meridius desejava sangue escorrendo em suas mãos, mas jamais faria nada que pudesse assustar Niffie.

— Eu me encontrei com Diane.— Ele disse.
— Isso foi rápido.— Niffie murmuriou com seus olhos examinando o corpo dele. Era provável que ela estivesse procurando qualquer tipo de corte que mostrasse que Diane era incontrolável.— Ela colaborou com algo?—
— Sim. E antes que pergunte, acredito que foi sincera.—

Na verdade, até mesmo Meridius estava surpreso pela sinceridade de Diane em relação ao que estava acontecendo. Imortais que já não tinham mais futuros raramente usavam mentiras, mas sempre faziam algum jogo duro ou pelo menos trocas pela informação.

— Sua alma esta em posse de outra pessoa.— Ele disse quando Niffie ficou em silêncio.— O simbolo é a marca que simboliza voodoo na magia dos demônios.—
— Oh.— A angelical expressou sua surpresa de maneira infeliz.— Então, se alguém enfiar uma agulha em meu boneco eu posso morrer?—
— Algo menos clichê, mas sim.— Meridius se sentiu irritado quando a expressão dela mudou para o medo, mas ele não podia esconder a verdade.— Você sabe o poder que arcanjos possuem com as almas e eu imagino que seja o mesmo no seu caso.—
— Eu...— Niffie vacilou com suas palavras e fechou seus olhos por alguns segundos antes de voltar a encará-lo.— Eu matei aquela imortal?—

Meridius deu de ombros.

— Eu não sei.— Ele sussurrou e se odiando por tais palavras.— O culpado pode ter simplesmente usado sua essência.—
— Ou ter usado meu corpo.—
— Sim, é uma opção que não podemos ignorar.—

Niffie abaixou seus olhos em direção do chão para esconder seus verdadeiros sentimentos em relação ao assunto, mas Meridius não precisava olhar em seu rosto para saber que ela sentia medo. Qualquer pessoa que não tivesse controle por seu próprio corpo e estivesse presa nas mãos do mal se senteria assim, ninguém podia julgá-la por se sentir assim.

Muito menos ele, quando sabia que por trás da enorme força e coragem dela existia todas as suas fragilidades.

— Eu estou com medo.— Ela sussurrou ao mesmo tempo que envolvia seus braços em frente do seu peito.
— Não sinta.— Meridius falou em um tom baixo.— Eu irei protegê-la, Niffie.—

Um risso amargo escapou dos lábios dela e encontrou os olhos do arcanjo.

— Você deveria estar com Victoria nesse momento e preparando o seu casamento, não se ocupando com minha má sorte.—
— Eu quero estar com você.— Meridius se aproximou dela com alguns passos.— Seja em um bom ou em um mau momento, eu quero estar sempre com você.—
— Então por que me fez ir embora?—

Meridius apenas percebeu o erro das suas palavras após a pergunta dela. Pelo olhar que ganhou de Niffie, ficou obvio que agora ela desconfiava que existia muito mais coisas que não sabia sobre a separação deles.

— Fraquezas.— O arcanjo do paraíso falou, já que a angelical esperava por uma resposta.

Niffie movimentou sua boca para, provavelmente, pedir mais palavras que explicassem melhor, mas o anjo não permitiu que ela falasse mais.

Meridius caminhou em direção dela para quebrar o restante do espaço que existia entre os corpos deles e após segurar o rosto de Niffie em suas mãos para levantar a sua cabeça em direção da dele, o arcanjo tocou os lábios dela com os seus.


Isso era um erro e um risco grande que estava correndo por desafiar a vontade dos anciões, mas o imperador já havia cometido um erro por falar demais e não via problemas em fazer isso novamente. Além do mais, Meridius precisava tocá-la, precisava senti-la para ter a certeza de Niffie ainda estava segura.

E seria uma mentira dizer que ele não sentia falta do toque delicado dela.

A angelical afastou sua boca da dele com certa dificuldade já que Meridius segurava seu rosto, mas ele permitiu que ela se afastasse, só não afastou suas mãos dela.

O arcanjo do paraíso escutou o coração de Niffie acelerar em batidas rápidas que mal podiam ser acompanhadas em uma contagem lenta. E esse som não estava relacionado ao medo, estava bem longe de ser algo parecido com esse sentimento.

— Isso é um erro.— Ela disse, apesar do seu corpo responder o contrário.
— Eu sei.—

Meridius manteve o toque ao redor do rosto de Niffie de maneira leve, dando a opção de se afastar se fosse isso que ela desejasse. Mas a angelical não se moveu, seus olhos azuis estavam presos aos dele e brilhavam tão intensamente quanto as estrelas que existiam no céu que pertenciam aos humanos.


O arcanjo fechou seus olhos e inclinou sua cabeça para encostar sua boca na de Niffie novamente, dessa vez, ele agiu de maneira lenta quando seus lábios se tocaram. O anjo roçou seus lábios contra a maciez delicada dos de Niffie até que ela os abrisse ligeiramente, e quando Meridius obteve a abertura que desejava, ele puxou o corpo da angelical em direção do seu para que pudesse mudar a posição dos seus braços, apenas para tê-la o mais próximo que seus corpos permitiam.

O governador do paraíso envolveu seu braço ao redor da cintura dela enquanto sua outra mão segurava sua cabeça por trás para segurá-la enquanto a beijava. Já Niffie, o segurou por seus ombros e se elevou nas pontas dos pés para que suas bocas ficassem mais próximas uma da outra.

Sua língua tocou a dela de maneira lenta e quando Niffie respondeu ao toque, o arcanjo teve que controlar sua fome e a barreira dos seus poderes que estava rompendo. Ela ainda estava sendo cautelosa, como se um passo errado no escuro pudesse estragar tudo e por esse motivo Meridius não podia despojar toda a sua paixão contida nos últimos tempos.

Niffie soltou um pequeno gemido depois que o anjo a apertou ainda mais contra ele, o som de puro prazer que escapou dos lábios da angelical enquanto a beijava fez com que seu corpo estremecesse e em um ato, sem pensar, Meridius abriu suas asas para aliviar a pressão que sentia.

Pelo menos ele tentou abri-las, já que o espaço era algo que não existia naquele ambiente.

No primeiro som de objetos encontrando o chão, Niffie se afastou do arcanjo como se tivesse sido pega no flagra enquanto fazia algo muito errado. Ele fechou suas asas ao mesmo tempo que acompanhava os olhos da angelical em direção dos diversos livros que haviam sido derrubados quando Meridius se esqueceu que aquela casa não foi construida para abrigar anjos.

— Sinto muito.— O anjo disse mesmo quando nada havia sido destruído.— Por ter derrubado os livros.— Meridius preferiu adicionar mais palavras em suas desculpas para que Niffie não o entendesse errado.

Ele lamentava por quase ter destruído a casa de Ailee, mas não por beijá-la.

— É melhor você...— As palavras de Niffie morreram antes que concluísse sua frase depois que virou seu corpo para encontrar os olhos do arcanjo. Por alguns segundos, ela ficou sem expressão antes de se recompor e voltar a falar.— Seus olhos estão brilhando em um tom amarelo, Meridius.— A angelical falou de maneira cautelosa.

O anjo fechou seus olhos imediatamente para que aquele brilho não causasse nenhum tipo de medo nela. Ao mesmo tempo, ele começou a fazer os reparos necessários nas barreiras que continham os seus poderes.

Aquela cor anormal em seus olhos eram seus poderes que estavam tomando conta do seu corpo, aquilo já havia ocorrido uma vez, logo depois que Niffie foi embora do seu castelo, Meridius acabou perdendo o controle dos seus poderes segundos depois e por meio de um espelho pode ver que seus olhos brilhavam como ouro exposto ao sol.

— Meridius.— O arcanjo ouviu a voz de Niffie depois de um tempo em silêncio.
— Sim?— Ele murmuriou.
— É bonito.—

O anjo que governava o paraíso abriu seus olhos para encarar a mulher em sua frente. Meridius não devia estar surpreso por Niffie não temê-lo, mas seus poderes eram desconhecidos e incontroláveis até mesmo para ele, a angelical, pelo menos, não deveria chamar aquela anormalidade de bonito quando gerava tantas perguntas sem respostas.

Além do mais, qualquer pessoa assemelhava seu poder ao perigo, o que naturalmente gerava o medo.

— São seus poderes, não são?— Ela perguntou curiosa.— Eles fazem isso?—
— Sim.—
— Então você perdeu o controle por me beijar.— Niffie deduziu e sorriu por causa disso.— Isso é um elogio muito especial vindo de você, Meridius.—

Meridius observou o rosto da angelical enquanto ela sorria, cada linha e o brilho dos olhos azuis claros eram o mesmo que uma paisagem que merecia ser observada e pintada em um quadro pelo melhor pintor do século.

Niffie era linda, mas era a sua bondade que a tornava tão única. Talvez tivesse sido essa bondade que fez com que ela não o temesse e se apaixonasse por ele, era a sua bondade que a tornava tão corajosa e bela.

— É melhor que eu vá agora.— O arcanjo quebrou o silêncio, pois não podia se deixar cair nos encantos da angelical.

Ela já estava correndo muitos perigos para que a situação se tornasse ainda pior por ambos não cumprirem aquilo que os anciões desejavam.

— Obrigada.— Niffie falou quando Meridius se moveu em direção da porta.— Obrigada por estar ao meu lado, Meridius.—

O arcanjo a olhou em silêncio, mas antes que tivesse a chance de responder, a voz de Dimitrius invadiu sua mente como uma onda de distruição que arrastava toda a calmaria existente.

Irmão, ele disse calmamente, Eu encontrei um corpo mutilado na minha dimensão e a essência de Niffie esta ao redor de cada pedaço.